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Professor Frederico Lourenço, muito obrigado por aceitar o convite do Observador para uma entrevista aqui em Coimbra, na Sala de São Pedro da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Estamos rodeados de livros e é justamente sobre livros que vamos falar. Faz agora 10 anos, sensivelmente, que começou a sair a sua célebre tradução da Bíblia, da Bíblia grega. O primeiro volume com os quatro Evangelhos saiu em 2016. Sistematicamente, os vários volumes foram um grande sucesso, chegaram aos tops de vendas das livrarias comerciais, tiveram milhares de leitores. Este projeto valeu-lhe também o Prêmio Pessoa. Ficou surpreendido com o sucesso deste trabalho?
Eu acho que fiquei surpreendido. Não fiquei surpreendido pelo fato de as pessoas se interessarem pela Bíblia, porque eu penso que será o livro pelo qual todas as pessoas se vão interessar sempre, mesmo quando tenham esquecido muitos outros livros, mas a Bíblia vai ser sempre o livro central. Eu ia dizer do mundo ocidental, mas eu acho que no mundo tem um lugar que é diferente dos outros livros. E o que me surpreendeu, sobretudo, foi o fato de uma proposta que era um pouco alternativa, que era a minha, ter encontrado tantos leitores, sendo uma proposta, pelo menos em Portugal, não era uma coisa que as pessoas estariam à espera, uma pessoa que não é professor de teologia, não é padre, está um pouco fora desse âmbito e que alguém como eu, como professor apenas de estudos clássicos, se tenha interessado, em primeiro lugar, por estes temas e por este livro, e depois que tenha proposto esta tradução, que é diferente, de facto, das outras, porque baseou-se na ideia de apresentar ao público lusófono uma Bíblia com uma perspectiva crítico-histórica, e não com uma perspectiva teológica ou confessional. Isso criou, de facto, a diferença, pelo menos inicialmente, na perceção inicial das pessoas. E eu sinto que, curiosamente, o primeiro volume, que foi o volume que encontrou mais leitores, porque foi o mais comprado, digamos assim, foi também aquele que foi mais controverso e que recebeu também críticas mais agressivas e mais entusiasmadas do ponto de vista negativo. E à medida que o projeto foi avançando, fui notando que muitas pessoas que estavam céticas relativamente ao próprio projeto, que depois perceberam o que eu queria fazer e perceberam que a minha ideia não era de detonar ou explodir a Bíblia, mas de dar a conhecer a Bíblia sob outra perspectiva diferente.
Então eu já lá irei a essa questão. Gostava de recuar um pouco e começar a conversa desde o início deste projeto. Quando lançou o primeiro volume, em 2016, já tinha um longo percurso de relação com os textos clássicos, já tinha traduzido a "Odisséia" e a "Ilíada", por exemplo. Suponho também que o seu fascínio com a Bíblia fosse muito anterior.
Sim, muito. Já desde criança.
Já desde criança que lia este livro.
Sim, porque os meus pais ofereceram-me uma Bíblia quando eu era criança, isso muitas crianças recebem, mas tiveram a boa ideia de me oferecer também uma Bíblia um pouco adaptada para crianças, que era mais fácil de ler, e foi isso que começou a incentivar-me. E quando eu tinha mais ou menos 10 anos, eu lembro-me de ter dito ao meu pai que queria estudar teologia. Acabou por não acontecer isso, acabei depois por ir para os estudos clássicos, mas eu acho que são duas áreas de estudos tão complementares e tão próximas, porque os estudos clássicos, baseando-se no estudo do latim e do grego, são competências que são ancilares, digamos assim, pra teologia, porque todos os teólogos têm de aprender latim e grego, são duas competências fundamentais.
Para ir às fontes.
Para ir às fontes, para poderem ler o Novo Testamento na sua língua original, que é o grego, para poderem ler também toda a literatura patrística sobre os textos bíblicos, tanto em grego como em latim. Portanto, eu acho que não há nenhum teólogo que possa afirmar que é inútil aprender grego e latim. E além do hebraico, claro, são três línguas fundamentais na teologia.
Um ano antes da publicação do primeiro volume, tinha publicado "O Livro Aberto: Leituras da Bíblia". Colocava, nessa altura, várias questões sobre a sua leitura pessoal da Bíblia, digamos assim. Obviamente, a partir do conhecimento do grego que tinha, mas já sentenciava, como já disse aqui, que independentemente da fé com que cada um leia o texto, aquele era um dos textos mais fascinantes alguma vez escritos. Nessa altura, qual é que era a sua relação com este texto, com a Bíblia?
Nessa altura, quando eu escrevi esse livro, "O Livro Aberto", isso foi a minha primeira explosão de fascínio pela Bíblia, já na idade adulta. E foi num momento em que, por uma concatenação de circunstâncias, comecei, de facto, a cansar-me um bocadinho dos estudos que eu tinha feito até aí, de literatura grega clássica. Comecei a interessar-me por outros temas, comecei a interessar-me por autores gregos patrísticos. Dei aqui em Coimbra, inclusivamente, algumas aulas de cultura bizantina, em que falei de autores como João Crisóstomo, como os Gregórios, como todos esses. Fui recuando um pouco no tempo, do século IV para o século III, do III para o II e depois para o I, para o século em que Jesus viveu e o século em que se começaram a escrever os textos do Novo Testamento. E comecei a descobrir que isto era um âmbito em que eu tinha um grande interesse, um grande fascínio, e que como era uma coisa um pouco nova em termos de estudo acadêmico, lancei-me um pouco nesse estudo. E esse livro aberto representa a minha descoberta da metodologia crítico-histórica, que me entusiasmou muito nessa altura, há mais de 10 anos. Posso já dar o spoiler de que agora, passados estes 10 anos, a metodologia crítico-histórica parece-me ainda muito importante, mas não me parece hoje tão importante.
Tão decisiva.
Tão decisiva como era nesse tempo. Hoje eu daria igual ou até maior valor à leitura teológica, à leitura que parte do ponto de vista da fé, mas que não prescinde do ponto de vista da história que está na leitura crítico-histórica.
E da literatura.
Sim, o ideal seria conciliar as duas.
Nessa altura, justamente como dizia, o seu interesse na Bíblia, e até esta ideia de se aventurar no projeto da tradução da Bíblia, refletia se calhar um interesse não só literário. Eu lembro-me de ter lido isto numa entrevista que deu na altura. O professor queria encontrar uma maneira de conciliar de forma racional as muitas dúvidas que o texto lhe levantava. E chegava a dizer mais, nessa altura, que eram dúvidas que o impediam de se afirmar 100% como crente. Quer explicar um pouco que ponto de partida foi este, que dúvidas eram essas?
Sim. Eu não tenho muita facilidade em voltar a reconstituir essas dúvidas que entretanto desapareceram e deram lugar a uma certeza, que é a certeza que eu vivo agora, que é muito diferente desse estado de espírito em que eu estava. Eu acho que isso foi um período da minha vida, foram vários anos da minha vida, duas décadas ou mais em que estive afastado da Igreja, por diferentes razões, mas pelo menos uma coisa, isso eu tenho a certeza absoluta, que uma razão que nunca foi, foi desmotivar-me ou desinteressar-me pela figura de Jesus. Isso esteve sempre presente na minha vida e eu não conheço nenhum segundo da minha vida consciente, desde criança, em que Jesus não fosse a referência máxima para mim. Agora, a questão da religião que se criou em nome dele, se é uma religião que podemos considerar o próprio projeto de Jesus ou não, isso talvez me tenha criado dúvidas nessa altura. Também a questão de se a Igreja, com a sua história, também às vezes problemática nalguns séculos, se corresponderia exatamente ao projeto de Jesus. Eu tinha esse tipo de dúvidas. Nunca tive dúvida relativamente à validade da mensagem de Jesus, aliás, isso está no prefácio da primeira edição do primeiro volume da Bíblia de 2016, em que eu digo, e volto sempre a dizer, porque para mim é uma questão fundamental, que de facto se a humanidade pusesse em prática a mensagem de Jesus, o mundo em que todos vivemos seria muito melhor. Eu penso que isso é um facto incontestável, mesmo para pessoas que possam dizer: "Sim, mas eu não acredito em Jesus, não sou cristão". Mas a questão da mensagem, do fazer bem aos outros e tudo isso, é uma questão que de facto resolveria para melhor muitos problemas do mundo.
E é uma questão também, como lembra nessa abertura deste primeiro volume, que até se nota nos próprios textos. Eu creio que a dada altura nesse texto diz que no final do primeiro século, de repente surgem quatro textos em grego que captam a atenção do mundo, mas que não tinham nada a ver com aquilo que se conhecia até então, porque não relatavam feitos de guerreiros, não relatavam as cortes das elites da altura, retratavam um tipo que andava pelo meio dos pobres.
Sim, dos pobres, dos leprosos, de pessoas que eram desconsideradas totalmente na sociedade daquela época. E eu continuo a achar isso, continuo a achar que os quatro Evangelhos, e a Bíblia tem muitos livros, o Novo Testamento tem 27 e a Bíblia no total tem muitos livros, mas esses quatro livros, para mim, continuam a ser os livros fundamentais da minha vida. Já os traduzi, já dei muitas aulas sobre eles aqui em Coimbra, na língua original. Fiz a edição bilingue dos Evangelhos, mas eu sinto todos os dias da minha vida que estou a voltar à estaca zero no conhecimento e no estudo destes quatro textos. É uma coisa de que eu não consigo prescindir, porque são textos tão inesgotáveis na sua riqueza, na sua profundidade, são textos que me preenchem.
E podemos dizer que nessa altura tinha uma certa desconfiança em relação à Igreja na sua dimensão mais humana, mais institucional, até?
Sim. Se nós pensarmos, quando eu nasci, em 1963, foi um ano de grande transformação para a Igreja.
Pelo Concílio.
Sim, claro. E quando entrei na adolescência, foi mais ou menos uma altura em que o Papa deixou de ser o Paulo VI, depois foi o João Paulo II, foi o Papa durante a maior parte da minha vida de jovem e de jovem adulto. É um papa que podemos apreciar de muitas maneiras diferentes, mas não senti propriamente naquela figura alguém que me chamasse muito para a Igreja. E nessa altura em que eu era católico, eu senti muitas vezes que era católico um bocadinho a pesar, com pena de não termos um papa com outro perfil, que finalmente veio com o Papa Francisco, que foi uma pessoa que eu admirei muito. Nunca tive o privilégio de o conhecer pessoalmente, embora o tenha visto de perto em Roma uma vez. Passou de carro, consegui tirar uma fotografia, aliás, à distância em que o João está de mim agora, mas foi o mais perto que eu consegui chegar dele. Mas eu penso que ele foi alguém que mudou muito a Igreja e mudou a percepção da Igreja e foi alguém que chamou pessoas que estavam à margem. Chamou-as a rever as razões de estarem à margem. E a conclusão a que eu cheguei foi que eu não adiantava nada a ninguém, nem a mim próprio, estando fora da Igreja, que era muito melhor, assumindo que não sou a pessoa mais perfeita à face do mundo, como é óbvio, mas que tentar juntar-me às pessoas que estão a tentar fazer o bem dentro da Igreja, que seria melhor.
Mas houve uma altura, a dada altura, e disse que quando era católico, portanto, houve uma altura em que se dizia católico. Houve um momento de ruptura ou foi uma ruptura gradual, que aconteceu com o tempo?
Foi mais ou menos gradual. Eu diria que eu fui católico praticante até aos 35 anos. Acabou por acontecer assim: 1998 foi um ano chave, foi o ano em que eu acabei o doutoramento, foi o ano em que a minha mãe morreu e foi o ano em que eu deixei de ser católico. E não foi uma decisão que eu tenha tomado de forma consciente, mas acabou por acontecer. E eu depois dei-me conta que isso tinha acontecido, porque acabei por deixar de ir à missa, acabei por me afastar da igreja, sem grandes razões. Foi uma coisa que aconteceu, talvez eu precisasse desse distanciamento e precisasse de tempo para repensar a minha relação com o catolicismo, mas não a minha relação com Jesus. Isso que eu quero deixar claro.
Isso é curioso o que diz, porque naquilo que eu li escrito, quando te abre para a entrevista, eu tive o interesse em ler coisas que disse no momento em que começou este projeto. E na altura, uma das críticas que fazia e uma das dúvidas que dizia que estes textos lhe levantavam, tinha a ver com dois aspetos. Primeiro, aquilo a que chamava uma espécie de véu que encontrava entre a realidade dos Evangelhos e o Antigo Testamento, ou melhor, e o texto que nos chegou, que era o Antigo Testamento. Ou seja, aquela ideia de que tudo o que acontece nos Evangelhos tinha de ser lido à luz do Antigo Testamento, de forma a concretizar uma profecia, digamos assim. E, por outro lado, também lamentava muito a abordagem da Igreja Católica à Bíblia, porque dizia que condicionava a discussão crítica do texto e até das possibilidades de tradução, já que obviamente qualquer conclusão sobre o texto tinha de respeitar a doutrina. Esse seu, de certa forma, afastamento da Igreja, essa sua relação com a Igreja na altura, também moldou o modo como olhava para a forma da Igreja conviver com os textos bíblicos.
Sim, mas quando eu penso nisso hoje, quando oiço essa sua citação de citar palavras minhas, aquilo que eu sinto hoje é que isso foi dito por mim num momento de ainda alguma ignorância, no sentido de conhecer só muito parcialmente aquilo que eu pensava ser a atitude católica relativamente aos estudos bíblicos. E eu não tinha tido ainda tempo suficiente para me inteirar de toda a bibliografia e de perceber que, de facto, décadas antes de eu próprio ter nascido, em 1963, já tinha havido teólogos, pensadores e padres católicos que tinham seguido um caminho no estudo da Bíblia que para a sua época era extremamente moderno. E hoje em dia não vejo isso dessa forma, assim tão preto no branco. Hoje em dia eu não diria que há a forma católica e não católica. Eu diria que há a forma fundamentalista de ler a Bíblia, e essa forma fundamentalista já não é a da Igreja Católica, mas há denominações protestantes, e dentro do leque enorme das denominações protestantes, há as mais conservadoras, mais progressistas, mas das denominações mais conservadoras do protestantismo, essa atitude de que a Bíblia contém a palavra infalível de Deus e tudo o que está na Bíblia é absolutamente verdade literal. Portanto, eu penso que essas denominações protestantes mais conservadoras têm essa abordagem, que já não é a abordagem das outras denominações protestantes, nem da própria Igreja Católica. Ou seja, com certeza que se reconhece a verdade da palavra de Deus, mas é preciso também contextualizar aqueles textos e é preciso ver a sua época. E eu dou sempre o exemplo, agora o meu exemplo preferido, que é de falar do capítulo 21 de Deuteronômio, em que Deus alegadamente disse a Moisés: "Se um casal tiver um filho alcoólico e desobediente, deve entregá-lo para ser apedrejado até à morte". Então nós não vamos entender essa frase como algo que nos dias de hoje Tem uma relevância que prende os casais católicos, porque está na Bíblia, entregarem um filho que está com problemas de droga ou de álcool para ser apedrejado à morte. O que é pedido que esse casal faça é que ajude o filho.
É até o oposto.
O oposto, é que tente compreender, tente ajudar, tente encontrar formas que não sejam eutanasiar a criança, coisa que de facto a Igreja Católica condena. Portanto, é preciso ver que a Bíblia, sendo uma coleção de tantos textos diferentes e tantas épocas diferentes, vai refletindo as atitudes próprias das diferentes épocas. E temos sempre de pensar, se nós estamos em 2026, temos de pensar o que é que são os elementos que são relevantes ainda hoje e quais são os que não são. Quando eu olho para os quatro Evangelhos, acho que são todos relevantes ainda hoje. Há 2000 anos eram relevantes e são tão relevantes hoje como eram.
Mas ler a Bíblia obriga-nos a tentar conhecer o lugar onde foi escrito, o tempo em que foi escrito, o contexto.
Exatamente, a cultura. É preciso também, dentro do próprio Antigo Testamento, são épocas muito diferentes em que os diferentes textos foram escritos. Os profetas mais antigos seriam contemporâneos de Homero, até um pouquinho mais anteriores a Homero, e há textos do Antigo Testamento que já são da época helenística, portanto, século III, século II antes de Cristo, portanto é um leque. São mais de 500 anos de escrita e também as circunstâncias em que o povo israelita viveu no século VIII antes de Cristo ou no século III antes de Cristo, eram totalmente diferentes.
A experiência do cativeiro em Babilônia, por exemplo, marca muito os primeiros textos.
Claro. Não, os primeiros textos são anteriores a isso.
Não, mas que marca também o modo como são olhados. A experiência de libertação do Egito, por exemplo, no Êxodo.
Claro.
Não pode ser lida sem se saber a relação.
Sim, claro, porque a redação posterior do texto tem em conta o exílio na Babilónia e há uma projeção disso. Portanto, são tudo questões históricas que é preciso ter em conta e, sobretudo, em tudo o que tenha a ver com como é que deve ser a vida humana, como é que as pessoas se devem comportar umas com as outras, quais são as coisas que são absolutamente proibidas que a pessoa faça e que não são. Por exemplo, no Antigo Testamento há várias passagens em que se diz que o desrespeito do sábado deve ser castigado com pena de morte. No Novo Testamento, vemos Jesus a ser criticado pela sociedade judaica da sua época, porque não está a respeitar o sábado da forma como eles esperariam e como eles achavam que o sábado tinha de ser respeitado. O que está implícito é que ele é uma pessoa que merecia ser condenado à morte. E, grande surpresa, no final da sua história, ele é de facto condenado à morte. Será que essa condenação à morte por desrespeitar o sábado, bem, não é essa a razão de ele ser condenado à morte, mas é uma coisa que ele fez que, de acordo com o código judaico, merecia a pena de morte.
Mas a resposta que ele dá aí quando ele diz: "Não é o homem que é feito para o sábado, é o sábado que é feito para o homem", põe em causa a literalidade do Antigo Testamento.
Exatamente, essa é uma das frases mais explosivas da Bíblia.
Que ele subverte ali a realidade da lei.
É talvez a frase mais explosiva do Novo Testamento, a meu ver. E já tive a ocasião curiosa de estar presente nalgumas missas em que essa passagem, que é uma passagem do final do capítulo 2 de Marcos, que é lida na missa, e tenho observado as artimanhas com que os padres depois tentam fugir às implicações dessa passagem, porque isso abre uma porta que é perigosa. A Igreja entrar nessa porta, porque é a porta da relativização, no fundo, daquilo que está no Antigo Testamento. E depois, como é que vamos relativizar umas coisas sim, umas coisas não, é complicado.
E até relativizar a lei.
Sim, a lei.
Todos os conceitos de lei, até da própria Igreja.
Sim. Aqui estava a falar ou a pensar nas leis do Antigo Testamento.
Do Antigo Testamento, claro.
613.
Exato. Mas ao dizermos que a lei serve para servir a humanidade e não a humanidade para estar sempre escrava da lei, isso também pode ter uma implicação depois até na própria lei da Igreja Católica. Pode também ajudar a relativizar essas leis. Acha que há esse perigo?
Não, por isso é que eu acho que é uma passagem tão incômoda e tão explosiva, e que pode haver algum interesse em tentar suavizá-la um pouquinho ou não falar muito dela para não correr o risco depois de se abrirem, além dessa porta, muitas outras portas que podem ser incômodas ou ingratas do ponto de vista da teologia.
Já agora aproveito essa deixa para falar, no início aflorou um pouco isso, as críticas que recebeu, sobretudo no início deste projeto.
No seu jornal, sim.
A verdade é que realmente além--
Não só no seu jornal, nos outros.
Exato. Bom, de colunistas do jornal. A verdade é que além da grande aclamação que mereceu, foi criticado por alguns justamente pelo incômodo que o texto pode causar. Foi acusado, por exemplo, de pretender fazer uma tradução objetiva ou rigorosa da Bíblia, ou seja, uma versão definitiva na Bíblia, mesmo que em alguns passos fosse, por exemplo, contra o pensamento da Igreja. Lembro-me da discussão muito acalorada sobre a tradução da palavra pecado ou erro. Essa foi uma grande controvérsia. Recebeu críticas diretamente da Igreja, da instituição Igreja? Como é que recorda esse tempo?
Não, diretamente nunca ninguém falou comigo assim diretamente, nem nunca recebi nenhum puxão de orelhas de ninguém. E eu, mesmo nessa altura, não sendo católico praticante, tinha imensos amigos padres e imensos amigos católicos praticantes. Diretamente a mim, nunca ninguém me criticou nem me puxou as orelhas, por assim dizer. Mas eu acho que essas críticas são válidas porque o trabalho, sobretudo se é um trabalho acadêmico, ele tem de estar exposto à crítica, faz parte, e nós na universidade sabemos que as coisas que nós escrevemos são para ser criticadas pelos nossos colegas, isso faz parte da vida universitária e eu acho que é perfeitamente válido haver opiniões positivas e negativas. Não tenho nenhum problema com isso. Sinceramente, não tenho problema com isso.
Mas as críticas, de certa maneira, até validaram aquela sua perspectiva inicial sobre o modo como a Igreja lidava com o texto, dizendo que podemos estudá-lo, podemos traduzi-lo, podemos tratar dele academicamente, desde que no fim, uma eventual análise da Bíblia não contradiga a doutrina da Igreja, sendo que foi esse o teor das críticas.
Sim, mas eu penso que isso tem a sua razão de ser do ponto de vista da Igreja. E eu acho que isso é também uma vantagem para mim, de eu não estar inserido, por exemplo, numa universidade católica, de eu próprio não ser padre, não ser teólogo. Eu tenho, de facto, essa liberdade de olhar para o texto e de o comentar ou propor interpretações, que são aquelas que o meu raciocínio objetivo me sugere. Não estou obrigado a que no final da minha argumentação, eu vá ter àquilo que é a leitura aceita teológica da Igreja Católica. Se eu fizesse uma tese de doutoramento em Teologia numa universidade católica, enfim, não sei até que ponto é que seria constrangido a seguir determinadas linhas, mas como eu tenho essa liberdade de ser meramente professor de uma universidade leiga, como a Universidade de Coimbra, e posso perfeitamente seguir a minha própria linha de pensamento sem qualquer problema. Portanto, eu penso que ambas as coisas têm o seu lugar. Acho que dizer que só uma abordagem é a abordagem certa, acho que é empobrecedor. É importante que haja as duas.
Aliás, na introdução do primeiro volume da Bíblia, com os quatro Evangelhos, diz abertamente que tem como objetivo dar a conhecer o texto num formato que, tanto no que toca à tradução como aos comentários, privilegia, de forma não doutrinária, não confessional e não apologética, a compreensão do texto. Ou seja, de certa maneira, já antevia que pudesse ser alvo de alguns desses comentários.
Sim, pois. Mas o que me ocorre agora quando eu ouço isso é que agora falta-me fazer um trabalho de entrar nestes textos sob a outra perspectiva. Agora que já fiz o trabalho crítico-histórico, agora gostava de explorar mais a riqueza dos textos do ponto de vista da sua profundidade teológica. E também é algo para fazer no futuro.
Mas é um projeto que está a pensar?
Não sei. É um projeto em que eu penso para mim. É uma coisa que eu penso para mim.
Para o seu trabalho futuro.
Agora, se eu vou escrever e divulgar, é diferente. Mas a leitura diária que eu faço hoje em dia dos Evangelhos e o estudo que eu faço, para mim, já não é esse estudo tão crítico-histórico, tão objetivo, já é um estudo muito mais com as cores da fé e da pertença à Igreja e de facto me sentir integrado e inserido na Igreja. E dou por mim já a ler esses textos mais da perspectiva do que eles me trazem a mim e às outras pessoas, no sentido da sua profundidade religiosa e teológica.
Nessa altura, só para fazer uma última questão sobre este assunto. Além das críticas, também foi alvo, assim seja, de elogios. Lembro-me do Cardeal Tolentino, que escreveu como desejava justamente que nos volumes seguintes, portanto, ele estava a ler o primeiro, reforçasse a forte marca autoral da sua tradução. Ou seja, se houve quem tivesse visto problemas na ideia de uma marca autoral na tradução, também houve quem tenha visto vantagens e até uma possibilidade que se abria para a leitura da Bíblia por parte dos leitores comuns. Podemos dizer que pretendia uma tradução de autor? Que a gente daqui a uns anos fale da Bíblia de Frederico Lourenço.
Não, não tanto. Mas eu acho que o Cardeal Tolentino, como é uma pessoa de uma sensibilidade literária fora de série, acho que esses comentários dele estão marcados pela essa sensibilidade poética e é uma pessoa que conhecia já os livros que eu tinha escrito anteriormente. Aliás, ele apresentou vários livros meus, é uma pessoa sempre muito generosa em relação a mim, é uma pessoa, de facto, enfim, uma pessoa extraordinária, como todos sabemos. E é uma pessoa que eu acho que tem essa capacidade de intuir esses detalhes, esses pormenores literários e poéticos. Mas talvez isso esteja presente na minha tradução sem que eu me tenha apercebido disso, e ele tenha intuído isso, mas na minha intenção racional era de tentar apenas dar o texto em português da forma mais próxima possível do texto grego. O meu objetivo era esse, não era de tornar o texto mais bonito. Eu posso dizer que quando fiz a tradução de Homero, era muito a minha intenção tentar tornar o texto em português o mais bonito possível. Na tradução da Bíblia, não me importei com isso. No caso dos evangelhos, não é necessário, porque ele já tem uma beleza própria tão extraordinária que a pessoa só tem de traduzir as palavras e mais nada. E no caso de outros textos que não são assim muito belos, e há vários no Antigo Testamento, que não são assim de uma beleza muito grande, deixei-os como estão. Não fiz nada para os tornar mais bonitos, mais literários.
A ideia é que os portugueses pudessem contactar com a fonte grega.
Sim. Uma das coisas que eu vi que era útil, isso não tanto no Novo Testamento, mas sobretudo quando fiz a tradução do Antigo Testamento, uma das coisas que eu vi que seria útil, e por isso também fazer uma tradução muito objetiva e muito literal, foi de ajudar as pessoas que queiram ler o Antigo Testamento em grego. Eu estava a pensar concretamente em pessoas que estejam a estudar teologia e que precisam de consultar a Septuaginta, que é o Antigo Testamento grego. E sabendo que hoje em dia não há tantos anos de estudo de grego atualmente como havia antes, mesmo no meu tempo e muito antes do meu tempo, talvez seja útil para alguém, por exemplo, um jovem estudante de teologia, que saiba já um bocadinho de grego, ter a edição do texto grego, ter a minha tradução ao lado e consegue comparar as duas coisas e a minha tradução ajuda-o a entender o texto grego. Porque é uma tradução completamente literal, pretende traduzir as frases exatamente como elas são em grego. Portanto, tem essa utilidade.
Sem esconder as incoerências, as contradições.
Sim. E a minha impressão, eu posso estar enganado, ninguém me disse isso explicitamente, mas a minha impressão é que as pessoas que estavam mais céticas em relação à minha tradução do Novo Testamento, quando começaram a sair os volumes da Septuaginta, mesmo essas pessoas, mesmo em âmbito eclesiástico, mesmo em universidades católicas, essas pessoas começaram a perceber melhor qual era o intuito do meu trabalho e ficaram menos incomodadas e perceberam que era uma coisa útil, que pode ser útil para estudantes de teologia.
Gostava de falar um pouco do impacto que o projeto teve em si, na sua vida. Já falou aqui disso abertamente, como esta viagem o transformou também interiormente. Quando partiu para este projeto, já suspeitava que ele o iria transformar interiormente e até que o poderia transformar no sentido de um regresso à religião, um regresso à igreja?
O que eu senti inicialmente foi que haveria dois desfechos possíveis: ou este trabalho fazia de mim um ateu, coisa que eu nunca tinha sido antes e nunca fui até hoje, ou então poderia ser também o caminho de regresso a uma vida religiosa mais empenhada. Sabia que uma das duas coisas iria acontecer.
Que não o ia deixar indiferente.
Não, não me ia deixar indiferente. E o que eu temi, a meio do projeto, foi que, de facto, o pior cenário se pudesse concretizar. Porque eu terminei o trabalho sobre o segundo volume do Novo Testamento, portanto, que contei os livros, não os quatro evangelhos, mas a epístolografia, Atos dos Apóstolos, Apocalipse, tudo isso, num estado um bocadinho desanimado. Ou seja, a minha relação com Paulo e com os seus textos, é um autor a quem eu quero regressar, porque eu sinto que preciso de o entender melhor, mas não foi assim uma relação muito feliz. Depois entrei nos profetas do Antigo Testamento. Foi a parte que eu mais gostei de fazer do Antigo Testamento, dos seis volumes da minha tradução, aqueles que eu gosto mais são o primeiro e o terceiro, que tem os profetas. Fiz de facto isso com muita paixão. Depois, a fase mais desanimada veio, curiosamente, com os livros sapienciais e com os livros históricos, porque nos livros sapienciais tive muita dificuldade com os Salmos em grego, porque eu estava à espera de encontrar nos Salmos gregos a mesma beleza que eu conhecia dos Salmos na tradução da Vulgata Latina de São Jerônimo, e mesmo na tradução anterior de São Jerônimo, da Vetus Latina, que é de facto uma beleza incrível. E fiquei um bocado desiludido de ver que os Salmos em grego não são tão bonitos como são em latim. Fiquei com essa vontade: "Agora eu queria mudar de registro e fazer esta parte, a tradução da Vulgata e não da Septuaginta". E como o livro de Salmos é o maior livro da Bíblia.
Ainda foi ali muito tempo.
Foi ali muito tempo a sentir-me cada vez mais decepcionado Porque a linguagem, os termos, a poesia parece que não está lá em grego.
Por que será isso? Porque a Igreja sentiu a necessidade de aprimorar esses textos para os usar em cânticos, em hinos, nos seus rituais?
Pois, talvez instintivamente tenha havido essa sensação e talvez instintivamente, depois na tradução da Vulgata, tenha havido uma preocupação de recuperar qualquer coisa da poesia do texto hebraico, porque as pessoas, não é o meu caso, mas as pessoas muito entendidas em hebraico e que leem os Salmos em hebraico, confirmam, de facto, que a beleza poética do texto hebraico nos Salmos é extraordinária. Eu não posso dizer que essa beleza poética exista no texto grego, embora o texto grego seja muito bonito noutros livros do Antigo Testamento, mas aí eu senti-me decepcionado e sobretudo comparando com o texto latino, que eu conhecia muito bem e de que gosto muito, e ainda hoje continuo a ler dos Salmos, os meus Salmos preferidos são sempre na versão latina, e foi um bocadinho problemático. Depois aconteceu que na opção de ir para o sexto volume, sem ter acabado o segundo tomo do quinto, isso foi a coisa mais importante de todas que aconteceu em termos da minha mudança de atitude em relação à viagem, em relação ao regresso à Igreja, foi traduzir o Pentateuco, porque o Pentateuco era aquela rocha intransponível, aquela montanha impossível de escalar. É o texto em que também havia aquelas passagens mais violentas e mais controversas, está cheio de condenações à morte por tudo e por nada. Portanto, eu tinha de ler aquilo e tinha de confrontar-me com esse texto. Além, claro, de ter os textos muito bonitos do livro de Gênesis, que é um livro genial, mesmo em termos de literatura, é uma das coisas mais geniais da história da literatura. E eu diria que também os primeiros 20 capítulos do livro de Êxodo também estão ao mesmo nível de genialidade.
Antes de entrarmos no código legislativo.
Mas depois quando entramos no código legislativo, estamos ali a lutar um bocadinho. Estamos a lutar com a relevância daquilo para nós.
Queremos passar à frente, não é?
A maior parte das pessoas salta.
Se bem que voltamos à história.
Pois, mas o meu problema foi que como tradutor eu tinha de ler cada palavra. E então tive que me confrontar com cada palavra. Mas o que aconteceu foi que uma coisa que antes me metia medo, digamos assim, e que de facto funcionava como um papão enorme, que era sobretudo esses livros de Levítico, Números e Deuteronômio, quando me obriguei a estudar cada palavra desses livros, o papão desapareceu. Portanto, acabei por sentir: "Ok, estes são livros que fizeram muito sentido no tempo em que foram escritos, mas a mim, hoje, em 2026, não fazem sentido nenhum e nada me obriga a achar que fazem sentido." O próprio Jesus Cristo, do livro de Levítico, só citou um versículo, que é aquele: "Amarás ao próximo como a ti mesmo." Daquele gigantesco palheiro de coisas que eram relevantes para aquela época, ele encontrou a agulha no meio do palheiro, que é essa frase, que curiosamente não faz parte dos Dez Mandamentos, como muitas pessoas pensam, mas é uma frase que está no livro de Levítico, e Jesus identificou-a. Para mim, ele está a dizer: "Olha, vocês esqueçam esse livro e lembrem-se apenas desta frase que é a mais importante de todas."
Ou a dizer-lhes: "Isto fazia todo o sentido para essa sociedade".
Sim.
Mas não para o momento.
Sim, mas também o livro não tem as proibições alimentares todas que Jesus diz: "Não é o que a pessoa põe na boca, que é o que sai da boca da pessoa". Ou seja, são as palavras que nós dizemos que são más ou são boas, não é se estamos a comer camarão ou coelho, não sei, essas coisas são proibidas. Não é o fim do mundo.
Curiosamente, isso que está a dizer contrasta radicalmente com as perspectivas literalistas, que há pouco estava a dizer que ainda existem algumas correntes, e que até nesses textos encontram uma literalidade que transportam para a vida de hoje. Com as proibições alimentares e com toda essa realidade.
Não sei se há denominações, e não estou informado, não sei se há denominações protestantes, dessas mais conservadoras, que seguem todas as proibições alimentares. Por exemplo, a questão do marisco e disso e daquilo. Mas em Portugal, há a tradição, na Sexta-feira Santa, das pessoas comerem marisco, pelo menos em Sintra, de onde o meu pai era originário. Havia essa tradição das pessoas irem à Praia Grande e à Praia das Maçãs apanhar amêijoas e mexilhões para se comer na Sexta-feira Santa. Mas é uma coisa proibida na Bíblia. Concreta, não se pode comer marisco.
Gostava de voltar um pouco então à sua experiência. Como é que diria que o impactou? Estava a dizer que estava muito desanimado nessa fase dos livros históricos e sapienciais.
Sim, sobretudo os históricos.
E que depois, quando pegou no Pentateuco, houve então um regresso, um maior entusiasmo, talvez.
Mas só para dizer que nos sapienciais há alguns que eu gostei muito. Sobretudo Eclesiastes, acho que é um livro absolutamente, enfim, o Qohélet, é um livro absolutamente genial. Voltarei sempre a esse livro. E claro que os Salmos na tradução latina.
Os Salmos na tradução latina.
Certamente na versão original hebraica, são muito bonitos.
Então, mas e o quê-
O Cântico dos Cânticos.
O Cântico dos Cânticos, claro.
É uma coisa linda.
Poesia.
Isso é uma coisa deslumbrante.
Mas e então o que aconteceu? O que se transformou em si? Consegue identificar?
Eu não consigo identificar muito bem. Acho que foi Foram crescendo várias circunstâncias da minha vida em que eu depois fui juntando as peças ou fui juntando os pontos. Como se diz em inglês, join the dots. E aconteceu muito concretamente, por acaso eu estava a passar o Natal em Roma, no Natal de 2024, e já há mais de 20 anos que eu não ia à missa no Natal e mais uma vez nesse ano não fui, mas nesse dia de Natal, isso nunca mais me esqueço, foi de facto no dia 25 de dezembro de 2024. Eu senti nesse dia um vazio interior tão grande que eu disse a mim próprio: "Este foi o último Natal em que não vou estar à missa. A partir de agora, isto tem de mudar". Depois das férias, fui logo à missa em Roma no dia seguinte ou dois dias depois, dia 27. Quando voltei pra Coimbra, entrei em contato com o padre Nuno Santos, que é o reitor do seminário, e perguntei-lhe se havia missa no dia 1 de janeiro no seminário. Eu quis começar o ano do dia 25, assim dessa forma, e pronto, a partir daí fiquei com a sensação: pronto, Deus andou atrás de mim durante uns anos e agora apanhou-me.
Portanto, desde 1 de janeiro de 2025.
Sim, desde esse dia. Depois levou algum tempo, ainda estivemos com várias conversas durante mais ou menos seis meses, até acontecer a minha readmissão à Eucaristia. Tivemos várias conversas e várias coisas. E também lhe expliquei todas as circunstâncias da minha vida pessoal e expliquei-lhe que eram consentâneas com a readmissão à Eucaristia, não fizemos nada de proibido pela Igreja. E portanto, a partir daí, foi no dia 1 de junho de 2025, domingo da Ascensão. A partir daí, voltei a ser católico praticante e espero assim continuar até ao último segundo da minha vida.
A homossexualidade afastou também da Igreja e viu, por exemplo, no Papa Francisco, uma porta também para um regresso à Igreja?
Sim, é um fator óbvio da minha história pessoal. É um fator óbvio a vários níveis, porque há aí vários níveis de entendimento do efeito que isso possa ter em estar ou não na Igreja. A questão pra mim foi que eu, nesses anos em que estive afastado, achei que não era coerente da minha parte fazer parte de uma igreja que, pelo menos oficialmente, me dizia que eu não podia fazer parte dela, ou então exigia, para que eu fizesse parte dela, condições que eu nessa altura não estava disposto a cumprir, porque me pareciam invasivas, porque me pareciam descabidas, porque achei que eu próprio tinha o direito de decidir sobre a minha vida pessoal e decidir se ela era ou não consentânea com a prática cristã, a partir da minha consciência. Não precisava de ninguém que me viesse dizer.
Uma autoridade moral.
Sim, a autoridade moral, sentia que era eu próprio e continuo a ter essa noção de que a minha consciência é aquilo que dita se eu posso ou não ser católico praticante. Da mesma forma como a minha consciência me ditou durante 27 anos que eu não podia ser católico praticante, justamente por causa desse assunto. Quando as circunstâncias da minha vida mudaram de forma a que, de facto, esse problema já não se colocasse, e debati isso várias vezes com o padre Nuno Santos, a minha consciência interior deu-me luz verde absoluta e sinto que não devo nada a ninguém, nem tenho de sentir que estou a ser alvo de excepcionalidade dentro da Igreja, porque eu sei que a minha vida pessoal é totalmente consentânea com as exigências do catecismo e, portanto, estou perfeitamente à vontade nisso. Seria diferente, e isso eu tenho compreensão por pessoas que estejam numa situação diferente, que sejam homossexuais e que tenham escolhido ou que estejam num estilo de vida que de facto cria esse tipo de problema e que gostariam de conciliar as duas coisas. Eu já estive nesse lugar. A minha opção foi de me afastar. Agora que não estou nesse lugar, a minha opção e a minha consciência permitem-me estar de pleno direito, sem qualquer crítica que eu possa fazer a mim próprio e sem estar sujeito à crítica de qualquer pessoa, seja o Papa, seja um bispo, seja quem for.
Eu lembro que li numa entrevista que deu ao Expresso, que dizia que não sabia e não sabia se alguma vez saberia, se era possível ser as duas coisas: gay e católico. Foi a sua citação. Encontrou a resposta neste anos?
Sim, mas durante 27 anos não sabia isso. E na primeira conversa que eu tive com o padre Nuno Santos, fui justamente a dizer-lhe isso. Eu disse: "Olhe, eu acho que este é um problema em que a solução é aceitar que não existe solução". Foi aí que eu parti e depois comecei a pensar melhor sobre o assunto e comecei, de facto, a fazer o enquadramento mais lúcido das circunstâncias reais da minha vida pessoal com a prática católica e, portanto, aí estou felizmente muito à vontade.
Aprofundar ou mergulhar no texto bíblico, sobretudo Mais ainda na figura de Jesus, teve um papel importante nesse caminho.
Sim, claro. O papel fundamental é o papel dos evangelhos, porque há pessoas que são cristãs e católicas por muitas razões diferentes. É uma coisa que eu sinto muitas vezes quando estou na missa, numa assembleia católica. Às vezes sinto que cada pessoa que aqui está, está aqui por uma razão diferente. Estão aqui 200 pessoas, são 200 razões diferentes que levam a pessoa a ser católica. Mas pra mim, uma das razões fundamentais, além daquela fé interior e irracional que não consigo explicar, e daquele amor intrínseco, que eu acho que nasci com ele por Jesus. Mas a questão fundamental pra mim são os quatro evangelhos, são esses textos. Conheci um católico há muitos anos, uma pessoa muito amiga, que dizia: "Eu não quero saber nem do Pai, nem do Filho, nem do Espírito Santo, eu só quero saber de Nossa Senhora. Aquilo que me leva a ser católico é Maria". Cada pessoa tem a sua razão. Aquilo que me leva a ser cristão são os evangelhos, são as palavras de Jesus naqueles quatro textos e são as ações dele. Isso é que me convence totalmente. Aceito que todas as pessoas que acreditam que Nossa Senhora apareceu em Fátima, eu tenho um respeito enorme, mas aquilo que me convence a mim são as palavras de Jesus, que os evangelistas lhe atribuem, cada um à sua maneira, porque são quatro textos um pouco diferentes uns dos outros, e os seus atos e os seus gestos. Isso é a minha razão de ser crente.
Através da sua experiência, tanto como grande estudioso da Bíblia, como também como católico, como é que sente que é a relação da generalidade dos cristãos com a Bíblia? A maioria dos cristãos lê a Bíblia, conhece os evangelhos ou usa apenas os excertos que são lidos nas missas?
Os protestantes leem a Bíblia.
Com muito fervor.
Sim, muito fervor. "Sola scriptura", essa ideia protestante. Os católicos não têm tanto. Não faz tanto parte da tradição católica as pessoas terem essa leitura tão obsessiva da Bíblia como os protestantes têm. Mas eu tive sorte de ter estudado jovem em Inglaterra e depois de ter crescido em Inglaterra e depois, quando os meus pais vieram pra Portugal, no ano letivo em que calhou o 25 de Abril, puseram a mim e à minha irmã num colégio inglês, que não era católico, mas onde nós tínhamos catequese católica, mas tínhamos aulas de escritura, chamava-se Scripture, e era aulas de escritura em que basicamente estudávamos o Antigo Testamento e grande parte dos meus conhecimentos iniciais veio daí. E vi que, de facto, aquele ambiente anglicano britânico era um ambiente em que as pessoas liam muito a Bíblia. Depois espantou-me, mais tarde, ver que pessoas, amigos, portugueses, católicos, imensas pessoas que nunca leram a Bíblia. É uma coisa que já vem desde a altura da Reforma, como eu digo na introdução do primeiro volume. Na altura, como eu queria marcar pontos, para o meu ponto de vista, tive um gosto enorme em falar do Papa, que no início do século XVIII promulgou um documento em que afirmou como falsa a ideia de que todos os cristãos têm vantagem em ler a Bíblia. Isso era muito uma atitude do século XVIII, no início do século XVIII. Mas claro que no século XX as coisas mudaram totalmente. Já antes mudaram.
Mas mesmo assim, durante muito tempo, eu penso que talvez fosse aí que estava a ir. Durante muito tempo, no contexto da Igreja Católica, era até proibido traduzir. A Bíblia tinha que estar em latim, na versão de São Jerônimo. E, portanto, isso também criou uma cultura nos católicos de não existência de uma relação pessoal com a Bíblia. A relação com a Bíblia na cultura católica durante séculos foi mediada sempre.
Sim, mediada sempre pela Igreja, pelas leituras, na missa. Mas isso mudou muito no século XX. Mudou imenso. Acho que uma das pessoas que mais contribuiu pra isso foi um papa que é tido como conservador, que é o Pio XII, que foi muito firme no incentivo que ele deu a que as pessoas redescobrissem, digamos assim, estes textos nas suas línguas originais. Claro, o latim tem muita importância, mas convidou as pessoas a redescobrirem o texto em hebraico, em grego. Ele deu um grande passo em frente. E depois, a seguir a isso, eu diria que o Papa Bento XVI, que é outro também que é tido como grande conservador, que também no seu incentivo à leitura e ao estudo crítico-histórico da Bíblia, que era uma coisa que de facto tinha sido completamente posta de lado quando isso começou no século XIX, nas universidades protestantes. O Leão XIII, que agora é tido como progressista, mas que promulgou esse documento a proibir basicamente o estudo crítico-histórico da Bíblia em ambiente católico. Mas isso mudou tudo no final do século XX. No século XXI mudou, de facto, radicalmente e eu penso que mudou para melhor. Eu acho que hoje em dia há imensos católicos que se interessam por ler a Bíblia, por conhecer, ler livros sobre a Bíblia, tentar abordar mesmo aqueles livros mais intransigentes do Antigo Testamento, que são difíceis de ler, mas noto que há interesse nisso. E também noto, paralelamente, o interesse Pelos Evangelhos Apócrifos. É uma coisa que me tem espantado.
Também traduziu.
Sim, tem me espantado o quanto as pessoas se têm interessado por esses textos.
Realmente, nesse texto seu que estava a referir, na introdução do primeiro volume, menciona que via com algum espanto até, que as grandes universidades do mundo estavam a incluir a leitura da Bíblia nos seus programas de estudo. Não necessariamente porque fosse para doutrinar ninguém, mas porque era impossível compreender o mundo sem aquele texto fundamental.
Sim, a literatura, a arte, a arquitetura e história da pintura. A Bíblia é fundamental para tudo isso.
E, portanto, há um público para a Bíblia. Como, aliás, o sucesso da sua tradução mostrou. Há um público, mesmo entre os mais jovens, sente isso. É professor numa universidade, não sei o que é que sente relativamente a esta geração que é hoje estudante universitária. Sente um interesse?
Sinto que sim. Eu acho que hoje em dia tudo que incentiva os mais jovens a lerem livros e terem um objeto na mão para o qual não é preciso password, não é preciso Wi-Fi, e o livro não precisa de ser carregado, não tem bateria. Portanto, um livro é um objeto diferente e que eu acho que faz bem também às pessoas que estão a ficar muito angustiadas e estressadas pelos computadores, telemóveis, tablets. Estamos aqui numa biblioteca. Acho que os livros têm um fator muito positivo, mesmo em termos de saúde mental. É uma coisa que toda mundo fala hoje em dia, mas eu acho que ler um livro é uma coisa que nos obriga a abrandar um pouco. Não podemos estar a mil, temos de ler devagar, temos de entender.
É um outro ritmo.
Sim, faz bem.
Estamos mesmo quase a chegar ao fim. Eu tinha algumas perguntas, talvez um pouco mais técnicas, sobre como foi este trabalho.
Faça favor.
Como é que foi o seu trabalho? Quer dizer, para fazer isto, durante estes anos, esteve obviamente a dar aulas aqui na universidade, ocupava as horas da noite.
Só tive um semestre de licença sabática.
Ok, justamente para este projeto.
Não, mas eu não sou de trabalhar à noite, eu sou de trabalhar de madrugada.
Acordava muitos vezes?
Sim, sou mais de me levantar às 5:00. Há pessoas que conseguem trabalhar de noite, mas eu não. Eu chego mais ou menos às 19:00, meu cérebro apagou, precisa de abrandar. Mas sou muito mais matutino e de facto comecei a trabalhar mais novamente, levantava mais 5:00, que me dava tempo. De facto, algum tempo antes de começar o dia universitário, já vinha com algum trabalho feito. Mas arranjei o meu método para lidar com isto. Tinha um computador com um ecrã enorme, onde podia ter os dois documentos em que eu trabalhava ao mesmo tempo e conseguia ter o texto grego e o texto hebraico. Eu não sou especialista de hebraico, mas pelo menos permitia-me dar uma vista de olhos no que é que estava no hebraico. E depois, claro, rodeado de comentários, de edições e de coisas assim, mas acabei por arranjar um sistema. A maior parte da Bíblia foi feita assim. No Pentateuco, acabei por achar que era mais fácil para mim usar um computador portátil mais pequeno e ter os documentos abertos, mas não tinha todos abertos ao mesmo tempo no ecrã gigante, como fiz a maior parte do trabalho, foi feito assim.
Uma pergunta de leigo: esses originais que usou, o texto grego, onde é que isso está?
Comprar na Amazon. Ou seja, há edições, que são as edições standardizadas, que eu próprio comprei. Há uma edição standardizada do Antigo Testamento grego, que é a edição que eu usei. Há a edição também do Novo Testamento, que é também a que eu utilizei. Isso só tem o texto grego. Depois, há imensos comentários, há imensos livros, há imensa bibliografia, há imensa coisa que nós podemos consultar e eu, um bocadinho consoante a paixão que o texto me suscitava, li mais bibliografia ou não. Quando era uma coisa que eu não gostava assim muito, não dei assim tanta importância. Devo dizer que os livros de que eu gosto menos, ou talvez o livro de que eu goste menos da Bíblia inteira, seja o livro de Josué.
Muito violento.
Muito violento. E não consultei assim muita coisa sobre esse livro. Fiquei contente quando cheguei ao fim da tradução e não fiquei com vontade de reler. Acho que é um livro que eu não vou reler.
A propósito do livro de Josué, ocorre-me uma pergunta talvez mais relacionada com os tempos de hoje.
Sim, pois. De forma dilacerante.
Preocupa-o a violência cometida muitas vezes com respaldo ou com justificações que se vão buscar à Bíblia?
Absolutamente. Sim.
Olhamos para o Médio Oriente neste momento.
Sim, isso é uma das grandes questões que a Bíblia levanta. E é uma das grandes questões dessa zona, digamos assim, do Antigo Testamento, em que temos esses livros. Já a partir de Números se nota isso, mas Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, são livros em que Deus autoriza o povo israelita a exterminar os outros povos que estão na terra que o povo israelita recebeu de Deus, e recebeu também a incumbência de Deus de exterminar os povos que já lá estavam. E isso é complicado. São palavras, claro, que são atribuídas a Deus.
Pelo povo.
Pelos autores daqueles livros E são um pouco indiretas, porque Deus diz a Moisés ou diz a Josué, portanto, é filtrado por Moisés, que depois diz ao povo que Deus lhe disse aquilo, ou filtrado por Josué. Mas essas frases são muito perturbadoras. Vem que o Deus do amor, do Novo Testamento, é o Deus que recomenda, exige, autoriza o extermínio de povos inteiros.
Não tem resposta para essa pergunta?
Não, eu não tenho.
Mas e como é que vê, por exemplo, nós vemos na realidade agora no Médio Oriente, sabemos que os grupos mais fundamentalistas, por exemplo, em Israel, recorrem com frequência ao argumentário desses livros da Bíblia para dizer que têm um direito divino àquela terra. Será que faz falta que no olhar que temos sobre estes conflitos atualmente haja mais pessoas como o professor Frederico capazes de olhar para a realidade do texto e perceber o que está lá realmente escrito?
Não, José. Em Israel há muitas pessoas com esse olhar e mesmo nas universidades israelitas, há muitas pessoas com esse olhar. Também é importante para mim dizer que eu tenho um grande afeto pelo povo judaico e pela história do povo judaico e pelo sofrimento do povo judaico, em grande parte por ação dos cristãos, e é uma coisa que nunca devemos esquecer. Ainda há pouco tempo estive aqui em Coimbra, no Museu da Inquisição. Faz-nos impressão ir a esses lugares e percebermos a responsabilidade que os cristãos tiveram historicamente na agressão ao povo judeu. São questões muito complexas, mas o povo judaico deu-nos este livro, ou esta coletânea de livros, de um valor incrível, que é o Antigo Testamento, nós chamamos Antigo Testamento. Sinto uma gratidão muito grande pela nossa herança judaica.
A Bíblia que traduziu, mesmo para terminar, é, como já falámos aqui, a Bíblia grega.
Sim, a tradução para grego, no caso do Antigo Testamento, é a tradução feita para grego por judeus do século III antes de Cristo, da Bíblia hebraica para grego, e que tem a importância de ter sido essa Bíblia grega, o Antigo Testamento grego, ter sido a Bíblia dos primeiros cristãos. Portanto, o cristianismo é filho do Antigo Testamento grego, que é uma coisa que muitas vezes as pessoas não querem ver ou fingem que não é importante dizer isso, mas o cristianismo não é filho da Bíblia hebraica, é filho da Septuaginta, que é o Antigo Testamento grego.
Podemos especular que se Jesus leu alguma Bíblia, foi essa. Bíblia, obviamente, não ainda a Bíblia como a gente conhece hoje, mas terá lido as escrituras em grego.
Sim, os evangelhos, que são em grego, mostram-nos Jesus a ler em voz alta, aquela passagem célebre de Lucas, a ler em voz alta o texto da Septuaginta, portanto, da Bíblia em grego. E eu pessoalmente acho que Jesus era bilingue em grego e em aramaico, e acho que ele conhecia as línguas todas, pelo menos essas três. Quer dizer, o homem histórico, se era filho de Deus, se era Deus, sabia tudo e conhecia tudo. Portanto, isso torna-se artificial debater se ele sabia falar latim ou grego. Eu acho que é óbvio que sabia tudo isso. Mas pronto, se nos ativermos só ao Jesus histórico, eu penso que dada a cultura em que ele viveu e o ambiente geográfico e a implantação da língua grega já desde o século III antes de Cristo, ali naquela zona, que a arqueologia não deixa qualquer dúvida em relação a isso, é óbvio que eles se movimentavam num mundo em que o grego fazia parte do dia a dia. Isso não há dúvida nenhuma.
Sente-se feliz com a tradução que está publicada? O que sente em relação a este conjunto de livros que já está agora?
Eu não sei, porque nunca a leio. Eu leio a Bíblia em grego, ou em latim. Portanto, eu nunca leio a minha própria tradução. Se às vezes tenho de abrir de alguma coisa para consultar qualquer coisa numa citação, numa conferência que eu estou a dizer, às vezes penso: "Mas se fosse hoje, eu teria dado aqui uma outra, teria melhorado esta frase de alguma forma". Talvez em São Paulo, na minha tradução de São Paulo, haja coisas que eu poderia melhorar e talvez ainda melhore um dia, quem sabe.
Mas sente-se satisfeito com o contributo que deu para o livro.
Sim, eu sinto que a ideia é válida. Acho que a ideia é válida, a realidade da sua materialização, isso tem de ser outras pessoas a julgar, não eu. Não posso eu dizer: "Eu considero que fiz um bom trabalho", isso não compete a mim dizer, mas considero que fiz um trabalho que é útil a outras pessoas e sobretudo é um trabalho que é útil, no caso da Bíblia grega, e que outros possam fazer melhor. Já têm um ponto de partida, têm a Septuaginta traduzida por mim e podem agora fazer uma coisa melhor, com mais notas, mais anotações, mais rica, se calhar até uma Septuaginta bilingue grego-português, mas isso terão de ser outros a fazer, porque eu já não vou voltar a esse trabalho do Antigo Testamento. Vou completar o tomo que ainda falta dos livros históricos, mas tirando isso, a minha vida futura está no Novo Testamento e é essa a minha área de estudo, é o Novo Testamento.
Gostava, por exemplo, que o seu pai tivesse visto este trabalho concretizado. Eu sei que já falou muito sobre a relação complexa que teve com ele. Mas também o modo como acabou por ser ele a empurrá-lo, de certa maneira, para as línguas clássicas.
Sim, ele empurrou-me para tudo isto Sim, acho que ele teria gostado, porque uma coisa engraçada é que ele telefonava muitas vezes. O meu pai tinha uma edição bilíngue do Novo Testamento com grego e latim, e ele telefonava muitas vezes para tirar dúvidas de grego. Eu percebi que ele estava a tentar ler o Novo Testamento em grego e às vezes telefonava para tirar dúvidas de grego. Talvez ele tivesse gostado de me ver neste papel. Não sei, isso não posso dizer. Acho que ele teria gostado de saber que eu voltei à igreja, embora eu próprio tenha tido um caminho também muito eclético. Mas no final da vida dele, senti que ele tinha voltado bastante, porque no funeral dele, um colega, que era o padre Cerqueira, padre também católico, disse que o meu pai trocava muitas vezes mensagens com ele por telemóvel sobre temas também de religião. Porque o meu pai, no final da vida, não conseguia falar, porque tinha sido operado a tumores, mas conseguia mandar mensagens por SMS e trocava SMS com o padre Cerqueira sobre esses temas. Eu gostei de saber isso. Foi bonito.
Professor Frederico, muito obrigado pela entrevista.
Muito obrigado pelo convite, pela entrevista.