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Estamos aqui num "Sobre Escuta Especial: Eleições Regionais da Madeira." Temos conosco o candidato do Partido Socialista, que é o maior partido da oposição da Madeira, e também presidente do PS Madeira. Nas propostas, eu estive a olhar para algumas propostas que faz. Tem, por exemplo, baixar o IVA de 22 para 16% e também baixar outros escalões de IVA, redução do IRS com limite máximo, o subsídio de insularidade para os funcionários, o aumento do complemento solidário para idosos, julgo que em € 100. Sabe quanto é que estas medidas custam? Tem essa conta feita?

Muito boa tarde. Nós sabemos exatamente aquilo que a Madeira precisa. É preciso recordarmos que a Madeira é a região do país que tem um dos mais elevados índices de pobreza e exclusão social. Em resultado desta governação de quase 50 anos do PSD, temos graves problemas de acesso à saúde, temos listas de espera que duplicaram desde Miguel Albuquerque, que é presidente do governo, temos uma grande franja da população carenciada em termos de habitação, e aqui não falamos só das pessoas com menos possibilidades, falamos já de jovens também que não conseguem comprar ou arrendar uma casa, falamos da classe média estrangulada com o aumento do custo de vida. E todas estas medidas e aquelas que referi são medidas, quanto a nós, fundamentais para aumentar os rendimentos dos madeirenses, valorizar salários e permitir, acima de tudo, melhorar as condições de vida.

Mas tem ideia de quanto é que isto pode custar?

Em termos concretos, quando nós falamos da redução de IVA, por exemplo, nós estamos a falar de dados que vieram a público, de cerca de 24 milhões de perda de receita por cada ponto percentual. Nós, neste momento, temos uma taxa normal de IVA de 22%, quando poderemos reduzir até os 16%. Seis pontos percentuais daria 150 milhões de euros e o governo regional, ao longo deste ano e desde 2022 até à data, aliás, já arrecadou verbas suficientes para acomodar toda esta redução. O ano passado foram 87 milhões de receita extraordinária de IVA, este ano são quase 40 milhões à data e, portanto, se tivesse sido implementada esta redução de IVA, já haveria margem suficiente, sem qualquer impacto nas contas públicas. E já não lhe falo da importância do IVA. Ao reduzirmos de 22 para 16%, isso significa que ao fim de um ano, ao fim de 12 meses, as pessoas terão um mês de poupança, isto nas idas ao supermercado, na ida à bomba de gasolina, portanto, é muito significativo para as famílias. Além dessa redução ser acomodada pela receita extraordinária de IVA que já houve, temos também o efeito multiplicador que isso tem na economia. Significa mais dinheiro no bolso das pessoas, mais consumo ou mais poupança, e isso tem efeitos também em termos de receita fiscal. Nós temos até um exemplo muito concreto: nos Açores, quando foi aplicado o diferencial máximo de 30% em todos os impostos, as receitas dos vários impostos, não só do IVA, também do IRS, subiram. E, portanto, não é por reduzirmos as taxas que a receita fiscal se reduz. E, portanto, mantemos a sustentabilidade das contas públicas com uma diferença: o dinheiro deixa de estar nos cofres do governo regional, passa a estar nos bolsos das pessoas que tanto precisam para fazer face a este aumento do custo de vida. Outras duas medidas que referi, o caso do subsídio de insularidade é fundamental, é algo que é um direito dos madeirenses. Era uma realidade antes do plano de ajustamento econômico e financeiro, e é preciso recordar que tivemos essa dupla austeridade na região em resultado de uma dívida astronômica de quase 6 mil milhões de euros deixada pelos governos de Alberto João Jardim, que ainda hoje todos pagamos, e pode ser reposto. Um funcionário público que ganhe pouco mais de € 1.000, € 1.300, recebe atualmente um subsídio de insularidade de cerca de € 200, passará a receber o dobro, e essa é uma verba também fundamental para enfrentar este aumento do custo de vida.

Isso não vai aumentar a dívida do governo regional?

São medidas que nós temos quantificadas, tal como o complemento regional de idosos que falou. Portanto, para pensões inferiores a € 300, nós propomos aumentar o complemento regional de idosos também para € 100 mensais. Faz uma grande diferença a quem tem uma pensão de € 300, é um aumento muito significativo. Tudo isto pode ser acomodado não só com o efeito que já referi de aumento de receita fiscal, independentemente de reduzirmos as taxas, mas também é preciso ser complementado com uma mudança de políticas. E há aqui uma diferença grande em relação ao PSD. Nós vemos um PSD que esbanja milhões e milhões de euros, e aqui não falamos de dezenas de milhões de euros, falamos de centenas de milhões de euros em obras desnecessárias, que se prepara para fazer novamente algumas delas, como o prolongamento da Pontinha, que podemos falar um pouco mais à frente.

Sérgio, é isso. Eu ia aproveitar essa deixa, porque já explicou que tem essas medidas quantificadas e que ia abdicar de outras áreas, penso que a nível de obras públicas, de infraestruturas, porque costumo dizer que a Madeira é uma região onde impera o cimento em vez do rendimento. É uma crítica precisamente à política do betão. Que obra é que foi feita pelo governo regional que não teria feito? Que fosse assim significativa ou que obras, se puder dizer mais que uma.

Todos os madeirenses conhecem. Nós sabemos a dívida astronômica e o legado de pobreza que os governos do PSD nos deixaram, mas se perguntar a qualquer madeirense, todos lhe sabem apontar a Marina do Lugar de Baixo, onde foram gastos mais de € 100 milhões, um heliporto no concelho do Porto Moniz que nunca funcionou, uma fábrica de moscas.

Para que é que serviu o heliporto?

O heliporto foi uma obra inferior a € 2 milhões, mas todas elas somadas representam milhões e milhões de euros.

E estava a dizer mais obras.

Uma fábrica de moscas, uma fábrica de algas no Porto Santo, onde foram injetadas várias dezenas de milhões de euros, campos de esportes de praia, muitas obras onde se gastaram milhões e milhões de euros. Em 20 anos, foram quase 900 milhões de euros, o que para ter noção da dimensão, significa que poderíamos ter três hospitais iguais àquele que está a ser construído agora Custa € 350 milhões, com 50% de contribuição nacional do governo da República e portanto, sem qualquer apoio nacional, a Madeira poderia ter três hospitais idênticos àquele que está a ser construído agora.

Uma das críticas é a célebre crítica da Madeira ser um caixa suíço, mas a nível de vias, estradas e túneis, há alguma que foi feita que era desnecessária?

Nós não negamos.

Eu digo isto porque o presidente do governo regional está sempre também a desafiá-lo na assembleia regional para que diga isso e que vá às pessoas dessas localidades dizer: "Esta via rápida não faz falta, este túnel não faz falta."

Nós não negamos que é necessário desenvolver infraestruturas. A grande maioria das infraestruturas que eram necessárias, sobretudo em termos de rede viária, foram feitas, também em termos de portos, em termos de aeroportos. A Madeira hoje está dotada de uma excelente rede viária. A questão é que algumas das obras, e respondendo a essa provocação do ainda presidente do governo regional, quando fala nessas inaugurações, nessas obras, se nós dizemos às pessoas que aquelas obras eram desnecessárias, nós não dizemos isso. Nós dizemos é que perante o esbanjar de € 900 milhões ao longo de 20 anos, nós poderíamos já ter o hospital, poderíamos ter muitas dessas vias que ele está a inaugurar agora.

Esses € 900 milhões não foram gastos a mais em túneis e estradas? Foi nesse tipo de projetos que está a dizer, como o aeroporto?

Sem dúvida. Um exemplo muito concreto: os mais de € 100 milhões que foram gastos na Marina do Lugar de Baixo, que tem quase 20 anos, é uma obra que tem quase 20 anos e que agora está a ser renaturalizada. Fizemos uma obra desnecessária, absolutamente desnecessária, esbanjamos centenas de milhões de euros e agora estamos a gastar novamente para renaturalizar aquilo que nunca deveria ter sido construído. Só essa obra permitiria que há 20 anos tivéssemos algumas dessas estradas, alguns desses túneis que estão a ser inaugurados agora, há 20 anos a servir essas populações. Nós não dizemos às populações que essas obras não eram necessárias, dizemos que já poderiam estar prontas há 20 anos e que a Madeira já deveria ter partido para outro modelo de desenvolvimento, com outras prioridades que não o betão. Só acrescentar uma nota. Nós não temos nada contra o betão, desde que seja para habitação. Neste momento, deve ser a grande prioridade em termos de obras na região, de obras públicas, é dar casas às pessoas, aos mais carenciados, habitações a custos controlados para os jovens e apoiar a classe média também.

Num debate na Assembleia Legislativa, já que também estávamos a falar de um momento desses, o presidente do governo regional e líder do PSD Madeira acusou-o de dramatismo chunga. Consegue explicar-me o que é isto do PS Madeira ser chunga?

Aquilo que nós temos são soluções concretas para os problemas dos madeirenses. Os madeirenses sabem o estilo de governação e o resultado da governação do PSD de Miguel Albuquerque. Uma governação desastrosa, que continua com o legado deixado pelos governos anteriores, de despesismo, de tachos. São €33 milhões por ano gastos em tachos de nomeação para o PSD e para o CDS, e sabem a postura do presidente do governo cada vez que vai à assembleia. Não responde às questões, é incapaz de apresentar soluções para a Madeira e gosta de desrespeitar a autonomia com que estamos, desrespeitar os deputados, desrespeitar o principal órgão de governo próprio, que é a Assembleia Legislativa da Madeira, numa atitude que acaba por ser também desrespeito por todos os madeirenses, por todo o eleitorado.

Ficou ofendido com o termo chunga?

Não é uma questão de ficar ofendido, é uma questão, acima de tudo, de achar que um presidente do governo regional deve ter outra postura, deve responder àquilo que são as questões dos deputados e deve, acima de tudo, respeitar as pessoas.

Tem feito várias críticas e acho que posso confidenciar, até antes de começarmos esta conversa, falava desses tempos. Já Alberto João Jardim foi um mau presidente do governo regional, tendo feito todo o balanço dos anos de governação.

A Madeira desenvolveu-se ao longo das últimas décadas, tal como se desenvolveu todo o país, como se desenvolveu a região autónoma dos Açores, como se desenvolveu a Europa, como se desenvolveu o mundo. A Madeira teve recursos financeiros muito abundantes. Houve, naturalmente, necessidade de se criar alguma economia, de se infraestruturar a região, ampliar o aeroporto, dar melhores condições de acessibilidade também em termos portuários. Isso foi feito, nós nunca questionamos esse desenvolvimento, questionamos aquilo que poderia ter sido feito e não foi feito. Nós não conseguimos criar um modelo de desenvolvimento que fugisse da construção e do turismo, que são os dois grandes setores de atividade na Madeira, marcados por precariedade laboral, por baixos salários, e fomos incapazes de diversificar a nossa economia, apesar dos enormes recursos financeiros que tivemos. E portanto, não é uma questão de avaliar o desempenho de um presidente do governo ou outro, é um modelo, é um regime que foi construído em determinada altura com necessidades específicas. Era necessário termos um aeroporto, ampliar um aeroporto, era necessário termos vias rápidas para melhorar as acessibilidades a todos os pontos da ilha.

No balanço de tudo, é incapaz de dizer que ele foi um bom presidente.

Que não se faz nada estruturante. Um bom presidente teria também de ter criado condições para melhorar a vida dos madeirenses, para dar outras condições. E dou-lhe um exemplo: nos últimos 10 anos, os últimos censos provam isso, saíram 17 mil pessoas da Madeira. As pessoas continuam a sair da Madeira por falta de oportunidades, por baixos rendimentos, que são também os rendimentos médios mais baixos de todas as regiões do país. E essa falta de oportunidades, a dificuldade no acesso a cuidados de saúde, os preços da habitação, fazem com que a Madeira continue a ser uma terra de imigração, como era antes de conquistarmos a autonomia, antes de vivermos em democracia.

Falou da saúde e também referiu essa preocupação do hospital, que já teria sido construído há mais tempo, mas defende que agora, enquanto não há condições, que as pessoas possam ser tratadas no privado, sem um acréscimo. O Estado e o governo regional, até com o apoio do governo da República, não têm condições para ter um sistema de saúde a que os madeirenses possam recorrer? É preciso um socialista pedir para se recorrer ao privado para tratar da saúde dos madeirenses.

A nossa proposta para a saúde é muito concreta, é algo que já é uma realidade a nível nacional, é uma realidade também na Região Autónoma dos Açores. Só não é na Madeira porque o governo regional não quer, apesar de o Partido Socialista ter apresentado propostas para isto.

É demasiado socialista o governo regional e quer que tudo dependa do Estado, é isso?

Nós temos que apresentar uma solução às pessoas e isso passa por definir tempos máximos de resposta garantidos na saúde, para qualquer ato médico, um exame, uma cirurgia, uma simples consulta. Definir um prazo, excedido esse prazo, a pessoa pode recorrer ao privado sem que tenha que o pagar. Aquilo que tem acontecido ao longo dos últimos anos é a duplicação do número de atos médicos em lista de espera. Nós hoje temos mais de 118 mil atos médicos em lista de espera, quando em 2015 tínhamos cerca de 60 mil. Portanto, a situação agravou-se para o dobro desde que Miguel Albuquerque é presidente do governo. E é preciso não nos esquecermos que quando Miguel Albuquerque era candidato, em 2015, prometeu acabar com as listas de espera numa legislatura. Isso não aconteceu e a situação agravou-se para o dobro, fim das duas legislaturas ao fim de oito anos. Da mesma forma que em termos de saúde, nós temos que olhar também, e acaba por estar tudo ligado. Se nós queremos uma Madeira de oportunidades, uma Madeira que permita às pessoas que cá nascem, que vivam, que trabalhem, que tenham condições de vida, assegurando também coesão territorial em toda a ilha, nós temos que criar essas condições para a população se fixar. Isto passa pela educação, passa pela habitação, passa pela saúde. E no caso da saúde, é inadmissível que com os milhões e milhões que gastamos em obras inventadas, com os milhões que são desbaratados em taxas de nomeação para o PSD e para o CDS, não se tenha, por exemplo, cuidados de proximidade nos concelhos do Norte, Santana e Porto Moniz, e tenhamos centros de saúde encerrados no período noturno, com população maioritariamente idosa, que precisa de ter cuidados de saúde em permanência, de proximidade. E também a abertura desses centros de saúde, desses cuidados de saúde 24 horas, permitiria que aquele território fosse mais atrativo para os jovens também se fixarem para poderem viver nesses territórios. Nada disto é feito, as prioridades são as mesmas há quase 50 anos e é por isso que nós dizemos aos madeirenses que é preciso mudar, mas acima de tudo, os madeirenses sabem que é preciso mudar e querem soluções concretas para esses problemas.

Há quatro anos, o candidato do PS dava a entender que a relação com António Costa podia até favorecer e ser uma vantagem para a região. Caso seja eleito presidente, a Madeira vai ser melhor tratada pelo governo da República?

A Madeira tem autonomia. E desde logo, a autonomia não pode continuar a ser uma arma de arremesso político. Os madeirenses já perceberam que têm um governo com quase 50 anos e que tenta passar a mensagem de que tudo o que está mal é responsabilidade de terceiros. Nós temos autonomia a vários níveis, na saúde, na educação, temos recursos financeiros, todos os impostos cobrados na região, grosso modo, são receita da região. Essas verbas são reforçadas com fundos comunitários, são reforçadas com verbas das transferências do Estado e, portanto, é natural que muitas matérias tenham de ser tratadas com o Estado, com o governo da República, independentemente da sua cor política.

Seria melhor ou não?

O que tem de existir, eu diria que são duas coisas. Em primeiro lugar, uma inversão de prioridades, utilizar os recursos que temos para servir a Madeira e todos os madeirenses sem exceção, não apenas alguns. E, por outro lado, passarmos a ter uma maioria de diálogo e uma maioria que possa falar com a República sobre todas as questões que são importantes para a região e não usar apenas argumentos para tentar criar um inimigo externo para desresponsabilizar-se da sua incapacidade. Essa será a grande alteração, seja com um governo liderado por António Costa, seja com um governo liderado por qualquer outro primeiro-ministro, independentemente da sua cor política. E essa deve ser a postura de quem governa a Madeira, defender a Madeira, defender a Madeira em primeiro lugar, mas tentar encontrar soluções. Eu sou um homem de consenso, de procurar soluções e é isso que farei como presidente do governo regional.

Já agora, antes de irmos a essa questão da governabilidade, António Costa vem à campanha em período oficial de campanha? Ou já não vem?

António Costa já esteve duas vezes na Madeira recentemente, a última na semana passada. Naturalmente não é um líder partidário nacional como qualquer outro, é primeiro-ministro de Portugal, tem uma agenda também muito complicada. Deu uma demonstração clara na última vinda cá, que está solidário, que apoia. Nós temos total apoio da estrutura nacional do partido, mas também tenho a certeza que sabe a estrutura regional que o Partido Socialista tem neste momento na Madeira, composta por várias pessoas capazes, competentes de levar este projeto adiante, de formar governo na região, de governar melhor a Madeira. E, portanto, também não sentirá a necessidade que outros partidos têm de ver os líderes nacionais cá, que fazem campanha diária, porque isso também é, de alguma forma, enganar o eleitorado. Não são essas pessoas que se vão candidatar, não são os candidatos a deputados na Assembleia Legislativa da Madeira, não são candidatos a presidente do governo. E os madeirenses sabem que têm duas opções: manter tudo como está, governados por quem nos governa há quase 50 anos e com os resultados que estão à vista, ou uma única alternativa, a única alternativa possível, que é o Partido Socialista.

E nesse aspecto, não acha que com Paulo Cafôfo, António Costa foi mais presente e esteve mais no terreno?

Eu sinto total apoio da estrutura nacional, total apoio de António Costa e, portanto, independentemente da presença mais ou menos assídua na Madeira, nós sentimos isso.

Está em campanha há quatro dias, deixe-me perguntar-lhe isto: oficial começou há quatro dias, talvez há mais do que isso. Há uma semana. Falta mais ou menos uma semana. Já falou, desde o início da campanha oficial, com o primeiro-ministro? Por telefone ou enviou uma mensagem a motivá-lo?

Falamos no dia que ele cá esteve, na Madeira. Conversamos.

Ainda antes do arranque oficial de campanha?

Sim, julgo que foi na véspera, não é por um dia que isso acaba por ser relevante, mas temos contacto próximo.

Desde que foi eleito em maio, era hábito falar com ele ou mais quando vem cá?

Falamos sempre que necessário, com total disponibilidade de parte a parte, seja por mensagens, seja até pessoalmente. Eu também sou membro do Secretariado Nacional do partido e, portanto, reúne frequentemente no Largo do Rato, na sede nacional, com o secretário-geral, neste caso.

Mas espera que ele ainda lhe ligue antes do dia decisivo, no último dia? Tem essa expectativa ou não?

Se houver necessidade disso, naturalmente que sim. Nós fazemos o nosso trabalho. Sabemos que temos o apoio para tudo aquilo que for necessário.

Mas há alguém com quem fala mais? Fala mais, por exemplo, com o presidente Carlos César ou, por exemplo, com o secretário-geral adjunto João Torres ou não?

Eu diria que falo com todos os dirigentes nacionais do partido, são meus colegas de secretariado nacional.

Mas algum com quem fala mais?

Falo com o secretário-geral adjunto João Torres, falo com o presidente do partido Carlos César, quando necessário, e, portanto, não é isso que vai determinar as eleições na Madeira.

Não consegue precisar com qual dos três fala mais, não é?

Se eu tivesse que precisar, eventualmente, o secretário-geral adjunto, mas por questões logísticas, da própria função, é natural que assim aconteça.

Há pouco estávamos a falar de soluções governativas. Teme que o PSD e o CDS venham a depender do Chega para governar?

O meu foco e a minha principal preocupação é apresentar soluções concretas para os problemas dos madeirenses, o que nenhum desses partidos que referiu está neste momento a fazer, nem muitas das outras candidaturas.

Acredita que eles aceitariam o Chega se necessitasse do Chega para formar uma maioria?

Eu diria que todos os cenários estão em aberto. Nós sentimos da parte dos madeirenses muita vontade de mudança. Eu acredito que irão confiar o voto no Partido Socialista, irão optar por uma mudança.

Eu sei que vai dizer que vai ganhar e, portanto, que isso não importa, mas o que eu estou a perguntar, e até pode ser o mais votado, e vencer as eleições no sentido de ficar em primeiro, se o PSD e o CDS precisarem do Chega para formar governo, acredita que eles vão recorrer ao Chega como aconteceu nos Açores ou não, que existe uma linha vermelha, que é sincera à linha vermelha que o presidente do Governo Regional atualmente põe ao Chega?

Há um ziguezague permanente por parte do presidente do Governo Regional, não apenas em relação ao Chega, em relação a quase todas as matérias de governação, em relação àquilo que preocupa os madeirenses. No caso do Chega, é exatamente a mesma situação. Diz que faz coligação, diz que não faz coligação. O Chega diz que faz coligação, diz que não faz coligação, que faz acordos, que não faz acordos. E, portanto, essa não é a minha preocupação, muito honestamente. A minha preocupação é apresentar soluções aos madeirenses e mostrar aos madeirenses que nós temos soluções para a saúde, para a habitação, para os rendimentos, para deixarmos de ser uma terra de imigração e confiar que, com base nesse trabalho sério, com propostas credíveis, seremos merecedores da confiança dos madeirenses.

Posso fazer outra pergunta?

Aquilo que não depende de nós, naturalmente, não é o meu foco e não tem de ser a minha principal preocupação.

Estiveram muito próximos do PS nas últimas eleições, de ser os mais votados. Está disposto, e isso já resultou no Funchal, a fazer uma coligação, neste caso, pós-eleitoral, com o Bloco de Esquerda, CDU, PAN e o Juntos pelo Povo, para afastar o PSD do poder?

Todos os cenários estão em aberto.

Ou seja, nenhum desses partidos o incomoda se tiver que fazer parte de uma futura coligação ou um acordo no Parlamento para tirar de lá o PSD?

Eu não refuto nem rejeito qualquer possibilidade. Tudo dependerá daquilo que for o resultado.

Mas eu vou-lhe já dizer outros que vai rejeitar.

Mas eu já ia antecipar uma pergunta. Há duas linhas vermelhas muito claras e que nós não iremos ultrapassar de forma alguma. Uma em relação ao Chega e outra em relação ao PSD/CDS. Porque naturalmente quem nos governa há quase 50 anos, que foi incapaz de dar as respostas que os madeirenses precisam, nunca será parte da solução. Sobre o Chega, nem é preciso alongar mais, portanto, é claramente uma linha vermelha que nós não iremos ultrapassar de forma alguma. Relativamente a outros partidos, é preciso ver se há representatividade parlamentar, se não há, se poderão ser ou não eleitos.

Só fica a faltar uma força política, que até ficou pelo menos em quarto em dois conselhos nas legislativas, vale o que vale, estas eleições têm uma dinâmica diferente, que é a Iniciativa Liberal. Mesmo que eleja só um deputado ou dois, muitas vezes pode ser fundamental para a formação de uma maioria. Não está naqueles que eu disse inicialmente, que não haveria grande problema do ponto de vista ideológico para o PS juntar-se a estes partidos, mas a Iniciativa Liberal foge um bocadinho. Não é o Chega, não é o PSD, nem o CDS, nem é nenhum dos que eu referi. Seria possível?

Como lhe disse há pouco, todos os cenários estão em aberto. Algo que eu também julgo ser importante deixar muito claro aos madeirenses e a todos os que nos ouvem: qualquer possibilidade, excetuando as duas linhas vermelhas que referi anteriormente, que permita Exercer a função de presidente do governo, implementar as medidas e as soluções concretas que nós temos para os problemas dos madeirenses, será avaliada, será uma possibilidade, não excluindo ninguém. Ao contrário daquilo que diz Miguel Albuquerque, que se não tiver maioria absoluta, se vai embora, eu não vou chantagear os madeirenses, não vou exigir isso dos madeirenses, vou apenas apresentar soluções para os seus problemas, para aquilo que os preocupa e na certeza de que seremos merecedores dessa confiança. Portanto, não rejeito qualquer um dos outros cenários, também não faço futurologia, mas todos esses cenários estão em aberto, sendo que tendo a possibilidade de ser presidente do governo, de governar melhor esta região, não deixarei, nem irei desiludir os madeirenses que confiarem, independentemente de ser com maioria absoluta, maioria relativa, governo minoritário, coligação, todos os cenários estão em aberto. O que eu quero e o que motiva é mudar a Madeira e melhorar a vida dos madeirenses.

Está percebido essa parte. Acusou Miguel Albuquerque de ter enriquecido à custa dos madeirenses. O que eu quero perceber é se esse enriquecimento foi ilícito ou não. Ou seja, se foi de uma forma ilegal que ele enriqueceu à custa dos madeirenses.

Essas questões, nós sabemos que há processos a decorrer no Ministério Público, cabe aos tribunais decidir e julgar o que tiver que ser julgado e tirar essas conclusões.

Mas as suas suspeitas é que não foi uma coisa lícita.

Aquilo que nós sabemos e que é público, é que Miguel Albuquerque tem um patrimônio, hoje declarado, isto decorre das declarações que nós todos estamos obrigados a entregar no Tribunal Constitucional, muito diferente do que tinha em 2015. Há processos a decorrer no Ministério Público. O Ministério Público irá deduzir as acusações que entender, irá tirar as conclusões que tiver. E eu quando fiz referência a isso, e já fui questionado noutros momentos sobre isso, foi limitar-me a fatos. São notícias que foram inclusive publicadas em alguns jornais.

Pode só referir alguns fatos, que mesmo não tendo sido julgados, e obviamente não vai dizer que ele é o culpado. Que fatos é que são suspeitos?

É uma peça jornalística que diz que Miguel Albuquerque é hoje um dos políticos mais ricos do país, quando não era em 2015, quando iniciou funções. Esse é o fato, foi publicado, foi um trabalho jornalístico e, portanto, limitei-me a referir esse fato.

Isso sugere que esse dinheiro foi conseguido de forma ilegal, sendo que há um salário tabelado e o presidente deve exercer a exclusividade dessas funções, é isso?

Eu não tenho que sugerir. Como digo, essas decisões ficam para os tribunais, fica para a Justiça, que fará, naturalmente, o seu trabalho.

Neste caso, é o fato dele ter mais riqueza no final do mandato do que no início, mas não tem conhecimento de fatos, em particular, que tenham levado a esse enriquecimento. Estou a perguntar isto porque é o líder da oposição neste momento, do maior partido da oposição, e portanto poderiam ter chegado alguns fatos que fossem ou não, levassem a uma condenação, ou até fossem não, levassem a um arquivamento, mas que fossem fatos estranhos do ponto de vista político, que pudessem levar a dar força a isso que diz, que ele enriqueceu à custa dos madeirenses.

Eu julgo que qualquer pessoa achará estranho essa variação patrimonial decorrente das declarações. Só Miguel Albuquerque a poderá justificar. Se é de forma lícita ou ilícita, como lhe disse, as instâncias próprias têm que fazer a investigação, têm que pronunciar, deduzir eventuais acusações e tirar naturalmente as conclusões que têm que ser retiradas.

Tem um problema de notoriedade, pelo menos nos outros partidos assim acham, não estou a contar que o PS diga isso. Se fôssemos pra rua agora, as pessoas conheciam-no?

Eu não tenho dúvida que sim.

Tirando os turistas, obviamente.

Nós temos as pessoas cada vez mais próximas ao Partido Socialista, percebem as mensagens que nós temos passado, porque as nossas mensagens...

Olham pra si e dizem: "É o tal do Sérgio Gonçalves," sabe identificá-lo?

Sabem não só quem é o Sérgio Gonçalves, como sabem aquilo que o Sérgio Gonçalves e o Partido Socialista defende. Sabem que se o Sérgio Gonçalves for presidente do governo regional, pagarão menos impostos. Sabem que se o Sérgio Gonçalves for presidente do governo regional, terão tempos máximos de resposta garantidos na saúde. Sabem que se o Sérgio Gonçalves for presidente do governo regional, não vai gastar 150 milhões a prolongar a pontinha e vai construir 800 ou 900 casas.

Arriscaria se nós saíssemos agora do fim desta entrevista, dez minutos, encontrarmos 10 pessoas, saberiam o seu nome. Excluindo turistas, obviamente.

Nós teremos já a seguir uma arruada, está convidado, a partir das 16h30, se nos quiser acompanhar e poderá verificar isso com os seus próprios olhos.

Muito bem. Se não ganhar estas eleições e não conseguir o objetivo, sendo que o ganhar pode ser chegar ao governo regional ficando em segundo. Demite-se de presidente do PS Madeira?

Eu, neste momento, como referi há pouco, quando deixei todos os cenários em aberto, não faço futurologia sobre aquilo que é o resultado eleitoral. Tudo aquilo que decorra da vontade popular será respeitado. Todas essas possibilidades serão avaliadas na devida altura. Aquilo que me preocupa neste momento, que é o meu foco, que é o meu trabalho, sobretudo por estarmos a entrar na última semana de campanha, é continuar a apresentar as soluções aos madeirenses, a dizer que é possível, que é exequível, que tudo aquilo que os preocupa tem uma solução com uma governação do PS. É possível uma mudança, é possível romper com este regime de quase 50 anos, fazer diferente, fazer melhor. E, portanto, neste momento, a última coisa que me preocupa é lideranças do partido, futuras ou não. E, portanto, o foco é as eleições regionais, é contribuir para melhorar a Madeira, para mudar a Madeira.

Não seria normal que, tendo o bom resultado que teve há quatro anos, o PS repetisse o mesmo candidato?

São situações que decorreram de decisões pessoais, também em função de resultados eleitorais, que não escondemos, mas foram as circunstâncias que levaram a esta situação. E neste momento eu sinto-me capaz, tenho uma experiência profissional alargada em vários setores, fiz toda a minha vida no mundo empresarial e, portanto, sinto-me capaz e tenho uma excelente equipa competente nas mais diversas áreas para governar. O Partido Socialista está preparado e não somos um partido de uma única pessoa, de uma única figura, com um único importante, é um grupo alargado de pessoas competentes e preparadas para mudar a Madeira.

Queria perguntar ainda relativamente a Paulo Cafôfo, e a última questão especificamente sobre o anterior presidente, é que ele também foi envolvido por suspeitas de corrupção, um processo que não se sabe o desfecho e como é que foi esse procedimento, e se de alguma maneira retirou autoridade ao PS para denunciar casos mais estranhos do ponto de vista de corrupção do governo regional, o facto de também a ter atingido o PS essas suspeitas.

De forma alguma. Aliás, o que lhe posso dizer sobre todo esse processo, é que não temos conhecimento de quaisquer acusações, de quaisquer arguidos. Nunca houve qualquer informação relativamente a isso, a partir de uma mera denúncia anónima, ao contrário de outros processos que já referimos anteriormente, onde existiram buscas à vice-presidência do Governo, à presidência do Governo. Neste caso, nem sequer foram deduzidas quaisquer acusações, constituídos arguidos e, portanto, é um processo que na nossa perspetiva será arquivado e não tem qualquer fundamento.

Suponho que não me consiga dizer, também não há mal nisso, porque não é fácil ter um conhecimento transversal a tudo, mas não consegue garantir que nas autarquias lideradas pelo PS não houve ajustes diretos ou contratos a empresas com ligações a PS, de militantes do PS. Não consegue dar essa garantia.

Não tenho conhecimento de quaisquer dessas situações. Não estava nem nas autarquias nem na direção do partido à data dos factos, mas aquilo que sei é que não há constituição de arguidos, ninguém foi contactado, ninguém foi ouvido, e portanto penso que é um processo todo ele sem fundamento e que parte de uma denúncia anónima, que acaba por ser muito frequente, não apenas aqui na Região Autónoma da Madeira, mas um pouco por todo o país em altura de eleições autárquicas.

Só teria uma pergunta para fazer a Miguel Albuquerque. Imagino que quando o for entrevistar, que era o Sérgio Gonçalves. Que pergunta é que fazia a Miguel Albuquerque?

Faço a pergunta que fiz no último debate mensal que tivemos, que foi o debate sobre o estado da região antes do fim da legislatura. Que, na eventualidade de continuar como presidente do governo regional, iria usar 150 milhões de euros para aumentar a Pontinha ou ia usar 150 milhões de euros para construir 800 casas para as pessoas que tanto precisam. A resposta na altura de Miguel Albuquerque foi: "Quanto a isso, não vou responder. Se for presidente do governo, logo vemos." E portanto, foi evasivo, mas todos os madeirenses já perceberam quais são as prioridades de Miguel Albuquerque, qual é o legado que Miguel Albuquerque nos deixa e a necessidade de mudarmos esta região.

Vou-lhe só confessar que eu contactei uma pessoa, que não vou identificar, do PSD Madeira a perguntar o que é que lhe perguntaria a si nesta entrevista, e vou ser um bocadinho coloquial, mas foi: "Sérgio, por que te meteste nisto?" E é essa a pergunta que lhe faço.

Muito simples, porque sou madeirense, porque gosto da minha terra, porque acho que temos os recursos necessários para sermos muito melhor, para sermos uma terra de oportunidades. Acho que os jovens da Madeira não têm que ver a imigração como uma fatalidade, e isto afeta quer os qualificados que saem por baixos rendimentos, por falta de emprego qualificado, quer os menos qualificados, que também saem por baixos rendimentos, devido a uma governação que foi incapaz, nos últimos 50 anos, de mudar a Madeira. E portanto, meti-me nisto para mudar a Madeira e isso quero fazer já no dia 24 de setembro.

Eu agora ia terminar a entrevista com umas perguntas que lhe pedia que fosse um bocadinho de resposta mais rápida, que verá que são um bocadinho mais fora da caixa algumas, para também termos uma outra velocidade dentro desta entrevista. Preferia ter Miguel Albuquerque mais quatro anos no governo, eu sei que isto é uma solução codeia, ou quatro anos de Alberto João Jardim?

Nenhuma delas. Preferia ter uma mudança na Madeira liderada pelo Partido Socialista.

A Madeira tinha condições para se tornar num Estado independente de Portugal e a solução era pacífica para todos, para a Madeira, para o Governo da República. Aceitava se pusessem essa questão à frente?

Eu julgo que todos os madeirenses são autonomistas convictos, mas são também portugueses por inteiro, gostam muito de ser portugueses, têm orgulho em ser portugueses. O que acontece é que temos um governo há demasiado tempo a querer desresponsabilizar-se, a usar a figura de um inimigo externo, mas não tenho dúvidas que todos os madeirenses têm muito orgulho em serem portugueses.

Queria abrir um hotel na Madeira, já esteve nos negócios, portanto, fazia parceria com o Bernardo Trindade ou Cristiano Ronaldo.

São dois excelentes parceiros para abrir uma unidade hoteleira. Têm provas dadas nas suas áreas profissionais. Provavelmente convidaria os dois.

Está a escapar-se a responder a estas hipóteses. A União Europeia permitia que a zona franca da Madeira voltasse a ter características que tinha no passado, como quando tinha empresas como, por exemplo, a Sofos, e isso significava mais 10 mil postos de trabalho numa ilha, num arquipélago como a Madeira, ia ter impacto. Defendia esse regresso?

A zona franca industrial, o Centro Internacional de Negócios da Madeira, é um instrumento fundamental de diversificação da economia, tudo aquilo que permita ampliar, captar mais empresas, mais investimentos estrangeiros, naturalmente que sou absolutamente a favor.

A última questão: daqui a quatro anos o PS decidia candidatar Ana Gomes, uma paraquedista, ao Governo Regional da Madeira e do outro lado estava Pedro Calado, que é madeirense. Em quem é que votava?

Os madeirenses votarão sempre num candidato da Madeira. O Partido Socialista candidatará sempre um candidato da Madeira, é um partido autonomista, é um partido que respeita as autonomias e esse cenário nunca se colocaria.

Sérgio Gonçalves, muito obrigado. Faremos também a entrevista a outros candidatos ao longo destas regionais da Madeira.