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Sejam bem-vindos! Começa aqui mais um episódio do podcast Empresas em Transformação. Esta é uma parceria entre o Novo Banco e o Observador. Nesta série falamos do que está a mudar no mundo das empresas, com os novos padrões ambientais e sociais. Hoje vamos falar do setor agroindustrial e da gestão necessária dos recursos naturais. Vamos fazê-lo com o Vasco Martins, é diretor-geral da Nutrifarms, e com o Pedro Barata, diretor agrícola da Sugal. Eu sou o Paulo Ferreira. Começo, antes de mais, por dar as boas-vindas a ambos. É um gosto recebê-los aqui.
Obrigado.
Obrigado. Vasco Martins, começando por si, a Nutrifarms é a empresa que tem a divisão agrícola do Grupo Sovena. É um dos maiores players mundiais do setor do azeite, tem a marca, certamente as pessoas conhecem mais a marca do que a Nutrifarms, a marca Oliveira da Serra. Qual é a vossa prioridade da Nutrifarms quando se trata da gestão de recursos ambientais?
Antes de mais, só agradecer o convite ao Observador e também ao Novo Banco, por estar aqui, que é sempre um prazer poder discutir estas coisas e, sobretudo, mais do que discutir, no fundo, promover e dar conhecimento ao grande público, que muitas vezes está arredado deste conhecimento real, do terreno e do detalhe. E por isso ouvimos muitas vezes coisas que não são verdade ou que não são bem assim, e muitas vezes não temos a oportunidade depois de esclarecer. A agricultura, às vezes, não tem a melhor imagem, mas também confesso, muito por culpa própria, porque como o agricultor anda tão focado nas suas coisas, esquece que a comunicação é um fator determinante para quem não está na agricultura e até para as novas gerações. Regressando à sua questão da gestão dos recursos, para nós, a Nutrifarms, este braço agrícola da Sovena, existe há cerca de oito anos. Hoje exploramos mais de 8 mil hectares de terra, a maioria em Portugal, mas também temos em Espanha e em Marrocos. E desde sempre esta questão dos recursos está no nosso DNA. Porque o foco foi sempre produzir, temos a plena noção que é produzir mais com menos. E menos, obviamente, tem as consequências mais evidentes, que são: se eu uso menos recursos, portanto, sou mais sustentável, mas é que também se eu uso menos recursos, sou também mais competitivo. Porque não se pode dissociar a parte econômica da parte também de sustentabilidade e gestão de recursos. Nós sabendo isso, fomos sempre um pouco obcecados em medir, em saber o que se passa, em saber o que necessitamos, na verdade. Estamos a falar em recursos de agricultura, estamos a falar em água, solo, energia.
Certamente.
Se eu usar só aquilo que efetivamente preciso, estou a ser, primeiro, economicamente mais competitivo, porque também tenho menos custos e também, em paralelo, sustentável.
Está a proteger também o futuro.
Exatamente. E proteger o futuro das explorações, porque estou a preservar os meus recursos. E os recursos, nomeadamente o solo, é a base da minha atividade e eu tenho que ter dupla preocupação na preservação dos solos.
Os solos também se cansam, não é?
Sim, se forem mal utilizados, é um problema. E nós, em Portugal, geralmente, já não temos solos, exceto em certas regiões, como o Ribatejo, as Terras de Lezíria, que têm matérias orgânicas elevadas porque estão em leitos de rio e de cheia. Mas na generalidade são solos pobres e, portanto, tínhamos que ter o dobro do cuidado para preservar. E de facto, hoje, e até agora, tem-se falado mais nestas questões: os solos estão mal, é da nova agricultura. Não, hoje estamos a pagar uma fatura. Os solos hoje não estão em bom estado, na generalidade, porque é uma fatura do passado, de más práticas agrícolas do passado.
Certo.
E que se repercutiram e agora vamos nós ter essa missão de recuperar na medida do possível.
E essa é a vossa prioridade também.
E esta é a nossa prioridade também.
Pedro Barata, só aqui uma pequena introdução sobre a Sugal, um grupo fundado na década de 50, do século XX, e é reconhecido como um dos maiores produtores e transformadores mundiais de concentrado de tomate. A marca Goluse, não é? Deve ser a que as pessoas mais conhecem também. No fundo, fazia-lhe a mesma questão: qual é a prioridade da Sugal quando se trata da gestão de recursos naturais?
Em primeiro lugar, também agradecer o convite do Observador e dar aqui também um abraço ao Vasco, que está aqui conosco. A Sugal, como referiu, já tem uma existência de longa data e tem tido sempre uma preocupação. Ou seja, hoje em dia verificamos que nos media, a opinião pública tem uma grande preocupação ambiental. Essa preocupação ambiental e toda a gestão e a eficiência dos recursos é algo que nos preocupa há muitos anos, antes de toda esta dinâmica que existe agora nos media. Sem dúvida que a água e a energia são pra nós recursos estratégicos e, portanto, é sempre o nosso objetivo tentarmos reduzir o impacto e o custo destes dois recursos e medimos por tonada produzida. E aquilo que nós tentamos é aumentar as eficiências, reduzindo o impacto no consumo destes dois vetores, para tentarmos melhorar significativamente todo o impacto e, como o Vasco dizia, todas as questões, porque o custo da energia e o custo da água, só por si, para além de todas as questões que valorizamos muito ambientais, são demasiado elevados, leva-nos a ter muitas preocupações.
Tem um peso grande na vossa estrutura de custos.
Tem um peso significativo. E a descarbonização dos processos térmicos Todas essas medidas industriais são fatores que nos preocupam e que nos levam, todos os dias, a tentar fazer melhor, a tentar incluir e promover investimentos nessa lógica, para tentarmos, pela via ambiental e pela via da eficiência, tentarmos ser cada vez melhores.
Mais eficientes. Pegando precisamente no tema da água, Vasco, é um recurso cada vez mais escasso, não é? E regulado também. Há cada vez mais regras. Como vocês fazem essa monitorização, também é essencial para vocês, que tecnologias de rega de precisão utilizam para conseguirem ganhos de eficiência sem comprometer, obviamente, a produtividade, que é importante?
Primeiro, para quem nos escuta em casa, é importante as pessoas terem uma noção que 80% da produção nacional dos alimentos, advém de 20% da área que é regada, ou seja, 20% da área é regada, produção agrícola, e que produz 80% dos alimentos. Isso é para termos aqui a importância do que é o regadio.
Vocês estão, sobretudo, no Alqueva, não é?
Nós estamos no Alqueva, sobretudo, também temos em Avis, que é outra zona do Alto Alentejo, que não está ligado ao Alqueva, portanto, há vários perímetros de rega em Portugal. Mas, de facto, aqui há condições, quando chega a água e nós vivemos num clima mediterrânico, há condições para se produzir muito mais quando existe água. Há também responsabilidades que temos que assumir enquanto agricultores. Não é produzir a qualquer custo. Muitas vezes, nem sempre produzir mais, também significa eficiência. Mas, de facto, há aqui uma coisa que nos ajuda imenso, que é a tecnologia que hoje existe na agricultura e que antes não havia. Eu lembro-me que era miúdo e sempre se dizia para a agricultura, ninguém queria aproximar-se muito da agricultura porque era difícil. É uma indústria a céu aberto, sempre exposta a temas climáticos.
Ao calor e ao frio.
Às intempéries, a tudo. Portanto, é muito exposta e normalmente qualquer atividade económica preferia um processo fechado.
E muito esforço físico também, que agora não tem.
Sim, que agora não tem. Mas esta tecnologia, de facto, permitiu. Esta desvantagem, que era produzir a céu aberto, trouxe desafios a outras áreas da ciência. E isso tem sido uma coisa espetacular. Eu trabalho em agricultura há mais de 30 anos e, de facto, a evolução, olho para trás e é uma paixão e cada vez me apaixono mais pela agricultura, porque, de facto, antes ninguém se aproximava da agricultura e hoje vemos áreas da engenharia, da informática, da matemática, com modelos matemáticos, modelos preditivos para determinar colheitas.
E vocês utilizam isso tudo?
Usamos isso tudo. Para ir concreto à pergunta e à questão da monitorização da água, a primeira coisa é medir e saber quanto é que efetivamente a planta detém. Existem modelos, os estudos são conhecidos, aprende-se na universidade há muitos anos, o problema era como medir de forma eficiente. E, portanto, antigamente havia uns dados que era para uma cultura no país inteiro. E hoje, com a tecnologia que existe, nós gerimos a parcela, é a chamada agricultura de precisão. Nós não tomamos a mesma decisão para 300 hectares. Nós temos as herdades divididas em parcelas mais pequenas, porque se eu tenho que atuar num sítio específico, não preciso de atuar de igual forma.
Certo.
E, portanto, aumenta a eficiência quando a minha ação é apenas local, num sítio específico. E nós desenvolvemos, porque não havia, e devido a esta nossa necessidade desde sempre de conhecer, de medir e de fazer melhor, nós desenvolvemos em 2010 uma plataforma, nós não somos da TI, de tecnologias de informática, mas junto com a Portugal Telecom, na altura, uma plataforma de rega, que foi sendo desenvolvida e que nos permite regar, inserindo modelos dentro dessa plataforma, em função das necessidades concretas. Nós temos uma série de sondas no terreno, umas medem a umidade que existe no solo, outras medem a velocidade da planta, que circula a planta e a atividade da planta. Se a planta está em mais atividade, necessita de mais água do que se está em menos atividade. E completamos, também temos com imagens de satélites. Usamos várias coisas, usamos primeiro drones, agora estamos com satélites, porque também de certa forma com fotografias aéreas se consegue medir ou problemas de rega, ou a atividade das plantas. E, portanto, todos esses inputs-
E o sistema está integrado, imagino.
Está tudo integrado.
E a rega depois é puxada automaticamente.
A rega é puxada e isto é um auxílio brutal para o agrônomo, porque nós temos vários agrônomos. A rega deixou de ser o achômetro, que é: "Acho que sim, acho que não, vou dar mais isto, parece-me que sim". E isso acaba. E, portanto, há uma uniformização muito grande. E também nesta plataforma, já agora só para terminar, fomos introduzindo melhorias, como, por exemplo, não se pode regar às 15h, porque além da evaporação ser maior, a energia também é mais cara. Já não são os técnicos que programam a rega, há um departamento específico para programar essas regas. E também a fertilização é introduzida nos sistemas de rega, ou seja, antigamente era mais uma operação à parte. A rega era uma coisa, a adubação era outra e hoje vai integrado, porque a planta bebe e come ao mesmo tempo.
Os fertilizantes são injetados na água.
São injetados na água e, portanto, a planta vai comendo e bebendo ao mesmo tempo, é muito mais eficiente. Nós também em casa não bebemos uma garrafa de litro e meio, se precisarmos por dia, tudo de uma vez. Vamos bebendo ao longo do dia. Aqui, o princípio é o mesmo.
Mais recomendável, claro.
Já agora, gostava também de dar aqui um input e concordando totalmente com aquilo que o Vasco disse, a realidade no olival, são culturas que são perenes, que estão muitos anos no solo. A realidade do tomate é uma cultura anual, que é instalada e que é desinstalada.
Vocês têm que semear todos os anos.
Semeamos em viveiros e depois há o processo de transplantação para o solo e depois, no final da cultura, a planta é retirada e o fruto é retirado do solo.
E acaba aí esse ciclo e depois no ano seguinte, novamente, nova sementeira.
Novo ciclo, claro. Mas isto tudo para dizer que, seja nas culturas plurianuais, seja nas culturas anuais, existe esta vertente toda tecnológica. E aquilo que o Vasco disse de início, que é muito importante, que é: muitas vezes nós no tema agrícola não comunicamos bem. E é muito fácil dizer que a agricultura rega mal, que é quem consome a água toda, e são pessoas que não têm o conhecimento real do que se passa hoje em dia.
Claro.
Hoje, o custo de energia, o custo da água, é de tal forma elevado, que se for mal utilizado, aquilo que acontece é que a cultura pode deixar de ser viável. E, portanto, é uma preocupação. Se não fosse ambiental, que também é, esta é uma preocupação que nós temos.
No limite, seria económico-financeiro então.
Também, exatamente. No passado, e recordando aquilo que o Vasco dizia, há 20 ou há 30 anos, não havia a rega gota a gota, não havia a rega de precisão e havia a necessidade de fazer regas mais abundantes, onde havia mais desperdício d'água e maior consumo d'água. Hoje, aquilo que se faz é tentar dar e disponibilizar à planta a água necessária naquele momento, com as preocupações já referidas da questão do desperdício através da evapotranspiração, através do custo de energia, e também disponibilizar os nutrientes de uma forma diária ou semanal, de acordo com as necessidades que a planta tem nesse momento. E, portanto, como se costuma dizer, e de uma forma mais vulgar, é dar a comida à boca à planta, para ela não ter falta daqueles elementos. Portanto, é fundamental passar essa mensagem, porque é assim que funciona, porque existem estes modelos que foram referidos para as diversas culturas, a preocupação do que é necessário, qual é o estágio de desenvolvimento, qual é que foram as condições climatéricas até à data e quais são as previsões climatéricas, através das sondas, através da condutividade elétrica. Há um sem número de ferramentas, através dos drones ou das imagens de satélite ou das duas em simultâneo. Existem ferramentas que são hoje utilizadas na agricultura e que visam não só tornar mais eficiente, quer economicamente, mas muito ecologicamente, muito ambientalmente. Portanto, aquilo que se consegue é: as duas estão em simultâneo, quando se pensa e quando se afirma que não, as duas estão em simultâneo. E a agricultura tem evoluído muito.
A esse nível, a tecnologia tem dado grandes ajudas.
Deixou de haver regas por calendário. Coisas que eram standard, ou seja, cada propriedade é regada per se, não há um alinhamento global e, portanto, é vista como um indivíduo, como nós, quando vamos ao médico, também cada um tem o seu diagnóstico.
Nós estamos a passar por uma fase de custos muito elevados na energia. Vasco, até que ponto é que vocês estão a ser afetados por isso também, a vossa atividade, e o que é que têm feito, que ganhos de eficiência é que têm feito também na área de energia agora?
Pois, a energia é muito importante e está correlacionado com o que falámos agora anteriormente, até com a rega, porque no fundo, eu para regar preciso de energia para levar a água. Daí que se eu regar só aquilo que é necessário, também já estou a gastar só a energia necessária. Para vermos aqui a integração e depois o respetivo impacto económico. Efetivamente, a energia é um fator bastante crítico, porque somos culturas de regadio, conforme disse aqui. E depois há que outra coisa, que é não esquecer que Portugal, no caso do azeite e no caso do tomate, é um país exportador, com uma balança comercial positiva e, portanto, nós estamos a concorrer lá fora com outros concorrentes, temos que ser também eficientes.
Eficientes a esse nível, tem que ter preço, não é?
Exatamente. O que é que acontece? Nós, há uns anos, ainda antes destas convulsões geopolíticas que agravaram o preço de facto da energia, nós já pensávamos na forma simples de ser mais eficientes e de gastar menos energia. E apesar da agricultura usar energia, por exemplo, renovável, já há uns anos. Mas usava muito em petos pontuais, como bombar de um poço ou de um furo, e não de forma de grandes dimensões. E nós, em 2018, participamos, juntamente com a Universidade Politécnica de Madrid, num projeto muito interessante, que ganhou um Horizonte 2020, por isso foi bastante impulsionador, onde basicamente se criou vários campos demonstradores com uma nova técnica mecânica de estender os painéis fotovoltaicos para uma rega mais duradoura. E portanto, conseguimos transformar o que era antes uns usos pontuais, numa quase massificação ou divulgação da utilização da fotoenergia. Nós tínhamos duas estações-piloto, uma em Marrocos, que tem problemas não só da existência de energia, mas de ser longe das redes existentes, das infraestruturas. E portanto, isto era um fator muito importante e conseguiu-se demonstrar, e depois eram convidados agricultores, empresas de montagem, etc. Foi um projeto bastante interessante para todos participassem e vissem que era possível. E deu uma dinâmica que hoje é comum. Nós hoje temos 12 das nossas explorações já usam energia rega solar, como nós costumamos dizer, e portanto, cada exploração destas, onde se introduz este tipo de energia para autoconsumo, já inclui essa energia, tornou-se padrão e posso dizer que, só para termos uma ideia, poupamos cerca de 60% a 70% da energia necessária, o que é bastante importante e nos torna também mais competitivos, porque no fundo é menos esse custo que temos. E hoje em dia é fundamental. Obviamente, também ajudou muito todo o avanço tecnológico que isto leva, porque em 2018, quando apareceu e quando fizemos este estudo, os custos das instalações eram muito mais elevados do que são hoje, mas depois a massificação da tecnologia, dos painéis fotovoltaicos, hoje custam mais barato, são mais potentes, etc. Também nos empurra para investimento, o custo baixa, o payback é mais rápido e é muito atrativo. Eu diria que hoje é fundamental um agricultor, se está a fazer uma cultura como a nossa, como dissemos aqui, que é permanente e, portanto, é uma cultura para 25 anos, eu acho que isto não tem muito o que pensar. É quase obrigatória do ponto de vista de viabilidade da exploração. Um anual é diferente porque pode no ano a seguir não fazer ou fazer, portanto, é uma opção ano a ano, mas neste caso é fundamental.
Claro. Deixemos agora Pedro falar da questão da integração desses critérios todos, se quisermos, e das exigências na fila em que estão inseridos. No caso da Sugal Vocês trabalham com fornecedores agrícolas seguramente diversos, têm os vossos clientes também, que podem ser consumidor final ou clientes comerciais ou industriais. Qual é o nível de exigência? Isto é, há clientes que vos exigem padrões ambientais determinados e como é que vocês também depois fazem o controle dos fornecedores que têm?
A nível dos clientes, há três, quatro aspectos fundamentais. A pegada hídrica, que é um dos aspectos que é fundamental e que cada vez é mais questionada, a questão da descarbonização e também todas as questões ambientais. São fatores que, sem qualquer tipo de dúvida, são chamados agora à biodiversidade também, é outro dos aspectos que é bastante solicitado e requisitado a nível dos clientes. Falando nos clientes, muitas destas exigências nós já cumpríamos. E cumpríamos por quê? Porque para nós era natural e queríamos e tínhamos já integradas no processo. Portanto, aquilo que temos que fazer é através da demonstração dos dados e através de certificações, que nós temos que demonstrar aos nossos clientes que cumprimos com todos os requisitos que nos solicitam. Da parte dos fornecedores de tomate, dos produtores, aquilo que nós temos e incentivamos as boas práticas agrícolas, que já as praticam, mas alguns deles ainda não tinham o processo de certificação documental e, portanto, aquilo que passamos a ter, nós neste momento, um dos referenciais muito utilizados a nível mundial é o Global GAP, que tem a ver com as práticas agrícolas, com a questão ambiental. E nós, neste momento, já temos mais de 97%. Estamos praticamente na totalidade da produção recebida com esse referencial. Para além deste, existem mais dois referenciais que nós também temos em prática. O modelo do GRASP, que tem a ver com as questões sociais e com todas as preocupações sociais e direitos do trabalhador, das proteções de menores, etc., em que também temos já uma elevada porcentagem. E este ano avançamos também com mais uma certificação, a questão do SPRING, que é o uso sustentável da água, com a medição, com a origem da água, com as quantidades de medição dessa mesma água. Portanto, neste momento, o caminho é avançar com todos esses modelos de certificação, que é uma exigência que acabam por ter. Do ponto de vista também do cliente, do produto final, também procura saber e ter as preocupações nas questões dos processos em termos fabris. E nós temos um grande consumo, temos grandes impactos na questão no processamento do tomate, na evaporação, na esterilização, produção de vapor. E aí a Sugal utiliza e tem investido ao longo dos anos, não é dos últimos anos, tem investido ao longo de todo este caminho, ao longo dos anos que tem da sua existência, tem investido em algumas soluções, por exemplo, posso nomear aqui três ou quatro, que são soluções circulares, por exemplo.
De reutilização.
De reutilização e reintegração da água, 55 a 85% da água tratada é reutilizada e, portanto, tem aqui um forte impacto na redução do consumo da água, assim como nos dois últimos anos, houve o investimento e a instalação de pré-evaporadores, que aquilo que fazem é a recuperação de calor e, portanto, há uma redução muito significativa no consumo de energia, na produção de mais vapor. Portanto, através da instalação desses equipamentos, conseguimos também isso. Para além de caldeira de biomassa, que entretanto também foi instalada, também a questão dos painéis solares para autoconsumo. São várias as medidas que a Sugal tem ao longo dos anos vindo a instalar, sempre na procura de conseguir melhores na questão ambiental e também maior eficiência em termos de processo.
Certo, e de circularidade de produtos e de matérias.
Exatamente. Logicamente, sempre salvaguardando questões que são para nós essenciais, que é a qualidade do produto e a segurança alimentar, que são essenciais e é um padrão da Sugal no mercado.
Obviamente. Vasco, também a mesma questão em relação à cadeia, à fila em que estão inseridos, portanto, exigências dos clientes. Que exigências é que vocês passam para os vossos fornecedores também?
Nós aqui também temos diversas certificações. Às vezes nem sempre são as mesmas. Por exemplo, nós também temos o Global GAP, que aqui foi mencionado, mas mais na área das amêndoas, porque os clientes de amêndoas assim o exigem. Mas, por exemplo, na área do olival, temos o FSA, que é o Farm Sustainability, e que é um referencial mais ou menos unânime entre grandes players do mercado, porque às tantas há tanto referencial e tanta certificação que as pessoas ficam todas um pouquinho perdidas. E há aqui muito de comercial também nisso, não tanto da parte do produtor, mas da parte da própria origem das certificações. Portanto, é uma Também é um negócio. Mas, de facto, nesta linha, temos sido também pioneiros nalgumas coisas que depois a própria Sovena aproveita para os clientes das suas marcas tentar fazer essa extensão e essa divulgação e, no fundo, tentar puxar todos no mesmo sentido. Eu acho que aqui é muito importante. Estas exigências, sinceramente, não me assustam muito, porque são desafios que nos obrigam a evoluir e a desenvolver no bom sentido.
Tornam-nos mais eficientes.
Tornamo-nos mais eficientes. Há um benefício que pode não ser imediato, porque há toda uma adaptação. Há um custo, sem dúvida, em certificações, em investimentos. Quem não tinha caldeira a biomassa, passou a ter uma caldeira a biomassa, a título de exemplo. Mas, de facto, às tantas não é uma questão, e nem sequer nos vão remunerar mais por isso, mas é uma questão de se queremos estar neste mercado, então tem que ser assim.
Tem que cumprir estes padrões.
Temos que cumprir estes padrões. É um comboio em andamento e quem quer montar no comboio tem que fazer e gerir a sua exploração de uma forma mais eficiente. E isso também obriga a desenvolver-nos. No fundo, é uma cenoura que nós pretendemos alcançar. Sinceramente, este tipo de evolução é uma evolução que não me assusta nada. Acho que não é aquela: "Que chatice, temos que fazer mais uma, porque agora obrigam-nos". Não, entendi sempre como uma obrigação.
Deixe-me pegar neste ponto e caminhando também para o fim do nosso episódio, perguntar como é que vocês lidam, começando pelo Vasco, para fecharmos com o Pedro, como é que vocês lidam, de facto, no mercado que é global, com padrões e exigências regulatórias ambientais que não são as mesmas e que eventualmente nós estamos na Europa, no local do mundo, no bloco económico, que é mais exigente a esse nível.
Sim, é verdade. É mais exigente e nem sempre é justo, porque a competição é aberta, o mercado é cada vez mais mundial e global e efetivamente no setor. Há outros setores, o têxtil também é um exemplo, mas aqui no setor agrícola, em particular, que nós competimos com regras que não existem noutros países. Eu tenho profissionalmente viajado por esse mundo fora e vimos coisas que, de facto, é quase de pôr as mãos à cabeça, mas o que é facto é que estamos na Europa, temos que cumprir as regras da Europa. O que nos parece é que se a Europa tem determinadas regras, então deviam ser exigidas também as mesmas regras à entrada dos produtos.
Claro!
O que nem sempre é, porque há outras questões depois econômicas, políticas, que se envolvem e que se imaginam. Mas voltando aqui um bocadinho. Eu acho que este tipo de exigências de qualidade, de certificações, conforme disse, não tenho grande receio. O meu grande receio é quando há grandes clivagens noutros fatores de produção que não controlamos e que impactam no preço de produto e esse, sim, não temos nada a fazer, como, por exemplo, a energia, o gasóleo, os fertilizantes, o custo de fertilizantes.
Não conseguem, de facto, não sei se são os preços dos mercados.
Este ano é um exemplo crítico disso. Nós estamos em plena campanha do olival, a processar desde outubro. Já agora, deixo aqui um convite aos ouvintes d'O Observador, se quiserem visitar o Lagar do Marmelo, o Lagar Oliveira da Serra, em Ferreira do Alentejo, podem fazê-lo e até o fim do ano podem ver a campanha.
É aberto ao público, as pessoas podem visitar.
É aberto ao público, podem ver, provar os seus azeites, provar os azeites que estamos a produzir e durante o ano também, mas agora é a altura da campanha. É um projeto feito a pensar nisso. Mas, de facto, estamos a viver, porque Espanha é o maior produtor mundial, este ano prevê-se uma ótima produção e, portanto, os preços estão a baixar. E estão a baixar num cenário de custos de produção muito mais altos. Quer o gasóleo, quer os fertilizantes, são dois rubros muito importantes e que não são controlados por nós. Podemos ter as certificações que tivermos, que não há nada a fazer nestes dois fatores, para não dizer outros. Estamos com custos muito superiores ao ano passado e com preço de venda de produto muito inferior. E isto para toda a agricultura transversal, não é própria apenas do olival. É um impacto muito grande e negativo, porque no final o agricultor é um price taker, não consegue repercutir os seus custos. Ao diferente de muitas indústrias, sejam automóveis ou outro tipo de indústria, que se os custos de produção aumentam, então o consumidor paga mais. Aqui não podemos, porque se o azeite não vier de Portugal, vem de outro sítio qualquer e o tomate a mesma coisa e a fruta. No fundo, estamos aqui num mundo global, que tem diferentes fatores que influenciam estes preços. Podemos fazer muito bem todo o nosso trabalho e não ser suficiente.
Não conseguimos controlar tudo e ser eficientes. Pedro Barata, e para fechar, a mesma questão, no fundo, como é que se concorre com atores que têm outros níveis regulatórios?
Sim, só deixar aqui uma nota. Nós também temos o FSA e às vezes acontece exatamente isto, que é vários clientes solicitam e exigem certificações diferentes e algumas que são muito próximas e muito similares, e também temos que ter esse referencial. Em relação à questão da concorrência, que sem dúvida é um tema, a nós não nos preocupa, antes pelo contrário, a qualidade, a exigência, o rigor, a segurança alimentar e todas estas necessidades de cumprir que existe na Europa. Aquilo que nos preocupa é exatamente essa diferença. Isto falando com os mercados extra Europa. Porque a azeitona não fala, o tomate também não fala e nós não sabemos qual é a origem deles. E muitas vezes quando vamos inclusivamente à embalagem, no rótulo, não está a sua origem O próprio consumidor não tem o conhecimento, no momento da compra, de qual é a origem desse mesmo produto. E aquilo que nos preocupa é a segurança alimentar. E se tudo estiver dentro das regras e a cumprirem todas as regras, sejam as regras ambientais, sejam as regras relacionadas com o bem-estar das pessoas e todas essas questões, para nós está tudo ok. Agora, existe, sem dúvida nenhuma, nós sabemos que existem produtores mundiais, a China é um dos maiores produtores, era o maior produtor mundial de tomate, às vezes é o primeiro, às vezes o segundo.
Qual é o outro grande?
Estados Unidos.
Os Estados Unidos.
E aquilo que existe é que sabemos quais são as regras que são impostas ou que não são impostas na China e, portanto, existem diferenças na qualidade do produto e fundamentalmente poderão existir ou não. Aquilo que nós queremos é que as regras sejam iguais para todos, para podermos estar em igualdade de circunstâncias. Na Europa, aquilo que acontece é que, por exemplo, nos combustíveis, nós temos preços, comparados com a nossa vizinha Espanha, completamente diferentes. O impacto, depois, são os impactos indiretos, que é a questão, como o Vasco referiu, a parte dos fertilizantes, etc. E portanto, temos aqui condições diferentes para a mesma área de negócio e que criam bastantes dificuldades.
E mais difíceis.
Gostamos da exigência, gostamos do rigor, gostamos da qualidade e da segurança alimentar e é isso que nós defendemos e é essa a nossa, toda a equipa Sugal, a dar resposta a todos os clientes, às necessidades, a criar aquela relação de confiança, quer nas pessoas, quer nas equipas, quer nas empresas e na qualidade do produto, e isso não pode ser negligenciado.
Claro, para essas regras fossem iguais para todos.
Exatamente.
Só uma nota final, Paulo, mesmo breve, para os ouvintes e consumidores que estão lá em casa. Não tenham receio dos produtos portugueses. Os produtos portugueses, de facto, estão sobre esta legislação toda, mas em Portugal produz-se bons produtos e seguros, quer em termos de qualidade, quer em termos de segurança alimentar. E estamos descansados quanto a isso. Muitas vezes a agricultura é vista sempre como aqueles que usam e os produtos, isto e aquilo, mas as pessoas esquecem-se que estão a importar, muitas vezes, cada banana que comem, cada ananás, cada manga, enfim, para não especificar aqui, qualquer fruta, vem de países que às pessoas muitas vezes são longínquos e que não têm qualquer regra. Mas compram e não protestam. Não sei se é por estarmos aqui mais perto. E, portanto, no fundo, para pensarem um bocadinho em consciência e para, sobretudo, estarem descansados que o que comem é bom e é seguro.
Muito bem, ficamos com essa nota final importante também. Vasco Martins, Pedro Barato, obrigado ambos pela presença neste episódio. Mais um episódio do podcast Empresas em Transformação. Esta é uma parceria entre o Observador e o Novo Banco. Nós ficamos aqui neste episódio e voltaremos noutro, com outro setor e outros convidados. Até lá.