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Bem-vindos a mais um Sobre Escuta, desta vez relacionado com as eleições do Sporting. Temos conosco Nuno Sousa, gestor de 45 anos, natural do Porto, candidato pela lista C ao próximo sufrágio do dia 5 de março. Antes de mais, obrigado por ter aceitado o nosso convite. Existe uma gênese desta candidatura que é aquele congresso em Coimbra em 2019, e em maio de 2020 anuncia que vai ser candidato. Pergunto-lhe, se de maio de 2020, que era um contexto onde o país saía do primeiro confinamento e onde existiam manifestações contra esta direção, até agora, alguma vez ponderou não avançar nesta altura às eleições do Sporting?

Nunca. A partir do momento em que nós começamos a fazer o caminho, não era qualquer percalço que aparecesse, fosse da pandemia, fosse de resultados positivos, que há muita gente que pergunta: "Mas os resultados no futebol estão a ser positivos e mesmo assim vocês avançam?" Sim, claro, porque o projeto vai muito para além daquilo que são os resultados e foi bastante ponderado e havia uma massa crítica bastante grande daquilo que é o projeto que nós temos e as pessoas que estão envolvidas. E portanto, como acreditávamos e acreditamos profundamente que o caminho é este que nós preconizamos, em momento algum hesitamos em seguir em frente e cada vez até nos sentimos com mais força e com mais vontade.

E antes, em 2018, e Frederico Varandas, no debate que houve na Sporting TV, já falou nisso, já tinha aparecido numa altura particularmente conturbada em termos institucionais.

Exato.

Pergunto para esclarecer: qual foi naquela altura o papel de Nuno Sousa e o que defendia naquela altura nas visitas que fazia a Alvalade?

O que eu defendia era tão simplesmente que os candidatos que estavam a ser impedidos, assim podemos dizer, os sócios que estavam a ser impedidos de apresentarem uma lista, poderem no fazer. Houve recolhas de assinaturas de diversos associados para pedir à Assembleia Geral para se clarificar quem podia ir e quem não podia. Como nos lembramos, houve suspensões, mas suspensões feitas por um órgão que era transitório, que era o Conselho de Fiscalização, porque estavam vários órgãos demissionários e, portanto, nós achávamos que naquele momento, quem está transitoriamente nos cargos, tomar decisões tão fortes como impedir listas de irem para frente, mereciam outra atenção. E era isso que eu estava envolvido.

Mas em consonância com o Bruno Carvalho e Carlos Vieira, ou num movimento à parte?

Era um movimento de sócios e nunca esse movimento estava preso a qualquer figura. Ou seja, eram sócios que estavam a pedir, porque estatutariamente está previsto com mil votos, pode pedir uma assembleia geral, e aquilo que nós estávamos a fazer era tão simplesmente pedir uma assembleia geral. Depois, com isso também, obviamente, houve um reconhecimento, se assim podemos dizer, por parte da lista que Bruno Carvalho estava a defender naquele momento e eu fui o mandatário, uma vez que estava naquela situação, de ir também entregar a lista a qual o Bruno Carvalho estava a pretender entregar para se candidatar. Tão simples quanto isto. Portanto, o que eu digo é que eu estava, e não me arrependo nada daquilo que fiz, estava, a meu ver, a tentar fazer aquilo que era uma pacificação do Sporting. E acho que foi um erro estratégico quem impediu que aquilo acontecesse, porque se todos pudessem ter ido a eleições, a clarificação seria total ao nível das urnas. E, portanto, muito daquilo que é uma clivagem que ainda hoje existe e um machado de guerra, se calhar, que ainda não está enterrado, melhor dizendo assim, poderia ter ficado muito clarificado com as eleições, se tivessem sido aquilo que nós achamos que era umas eleições livres, com todos a poderem concorrer, todos os sócios que quisessem.

Em 2018, votou na Assembleia Geral Distritiva?

Votei.

E votou a favor ou contra?

Votei contra. A minha posição sempre foi muito clara. E esta é de princípio e nunca ninguém me ouviu dizer, por exemplo, durante este mandato, embora já estivéssemos a lançar uma alternativa, que o mandato não devia ser levado de Frederico Varandas até o fim. Nós somos institucionalistas e, portanto, nós achamos que os mandatos devem ir até o fim. Eu pelo menos achava que não ia ser nada bom haver uma destituição, assim como não sou nada a favor de haver expulsões, porque o Sporting deve ser uma coletividade de sócios e como tal, as coisas devem ser institucionalmente resolvidas.

Já falou nessa questão da expulsão e da suspensão, falou não só de Bruno Carvalho, mas também de Godinho Lopes.

Sim.

Um anterior presidente. Mas tem falado muito, quase como se fosse algo conjuntural da direção de Frederico Varandas, quando, na verdade, por exemplo, Godinho Lopes acaba por ser expulso sócio na vigência de Bruno Carvalho. Pergunto se esse é um problema estrutural do Sporting que quer resolver ou se acha que esta atual conjuntura também propicia que exista mais essa tendência de expulsão e de resolver as coisas com o passado.

Eu acho que é estrutural. Como disse, já vinha de trás, e a história está aí para se ver, e parece que há quase que uma obrigatoriedade, ultimamente, quando um presidente sai, tem que ser pura e simplesmente saneado. Isto não é nada bom para uma coletividade como o Sporting e para a pacificação que se quer, porque estamos sempre a abrir feridas. E quando nós estamos no campo das opiniões, obviamente que uns gostam mais da atuação de uns do que de outros. E depois podermos usar aquilo que é uma opinião para fazer expulsões e tentar dramatizar as questões, a nosso ver, está totalmente errado. E por isso é que a nossa opinião é muito concreta, que é fazer com que o regulamento disciplinar do Sporting só permita expulsões no caso de, e só se, houver uma sentença transitada em julgado em que as pessoas que são alvo do inquérito de expulsão, tenha sido comprovadamente em tribunal que prejudicaram dolosamente ou culposamente o Sporting.

São duas coisas um bocadinho distintas. Ou seja, uma coisa é a justiça cá fora, outra coisa é a justiça no Sporting. Existe, digamos assim, esse tribunal que se chama Conselho Fiscal e Disciplinar.

Sim, mas há diversas penas. A expulsão é como se fosse a pena de morte dentro de um clube. E portanto, muitas das vezes, as pessoas confundem factos com opiniões e aquilo que nós vimos em algumas das notas de culpa, são quase atribuições de crimes. E, portanto, se nós estamos a confundir opiniões com crimes, porque vamos lá ver, passado estes anos todos Nem Godinho Lopes, nem Bruno de Carvalho têm qualquer ação. Não há nada, não estão envolvidos em processo nenhum, seja de gestão danosa, seja porque tenham feito alguma coisa dolosa contra o Sporting. Aquilo que nós temos é opiniões. Podemos achar que Godinho Lopes esteve melhor ou pior e Bruno de Carvalho também naquilo que é a sua atuação, mas dentro daquilo que, a nosso ver, é uma gestão. E portanto, se amanhã andamos a perseguir todos os presidentes, todas e quaisquer ações de gestão podem ser criticáveis, obviamente, mas daí a serem crimes ou factos que levem à expulsão, acho que temos que entrar numa normalização daquilo que é a democracia do Sporting.

E acha que eles foram expulsos pelo que fizeram ou pelo que poderiam fazer, nomeadamente a hipótese de haver recandidaturas?

Pois, eu não consigo estar na cabeça de todos os sócios. Aquilo que me parece é que há um ambiente muito propício a se fazer quase vendetas, e isso é muito mau. Nós temos que aceitar que umas vezes perdemos eleições, outras vezes ganhamos, e quando as ganhamos, temos que saber ganhar também. Assim como quando perdemos, temos que saber perder. E depois fazer quase que vendetas, isso é que me parece completamente errado e uma coisa que deve ser refreada e era muito bom que houvesse no regulamento disciplinar do Sporting, que verdade seja dita, foi Bruno de Carvalho que o alterou, e a meu ver erradamente. Eu não fui à assembleia geral porque estava frontalmente contra aquilo que estava a ser feito. E a verdade é que foi sufragado por 90% dos sócios, se não estou em erro. Mas eu continuo na minha opinião. O Sporting é um clube desportivo e temos discutido mais coisas do âmbito disciplinar e fazer lavagem de roupa suja e políticas de terra queimada e ajustes de contas com o passado, do que propriamente discutirmos o presente e olharmos principalmente para o futuro.

Saltamos daí para a sua candidatura, é uma candidatura de bancada. Pergunto-lhe, se uma candidatura de bancada, o que vê naquela reação que foi muito falada no final do jogo com o City, ou seja, o que aquilo significa? E depois, por outro lado, se considera que a última assembleia geral, até pela participação e pelo contexto que foi criado, não poderá ser um primeiro sinal de um caminho para a total pacificação dentro do clube.

Eu acho que a reação que houve foi uma reação natural e que eu já tinha assistido algumas vezes no Sporting. Ainda ontem, no debate, Frederico Varandas quis puxar um bocadinho a brasa à sua sardinha e dizer que aquela reação era uma reação porque as pessoas estavam agradadas com o seu mandato. Foi um bocadinho isto que ele queria passar. Mas a verdade é que eu lembro-me, e disse esse exemplo, porque me lembrei imediatamente de, por exemplo, dentro do mandato de Godinho Lopes, as pessoas não estavam propriamente satisfeitas, por isso é que o mandato também nem sequer chegou ao meio. E lembro-me de estarmos a jogar contra o Atlético de Bilbao e Alvalade inteiro, durante o intervalo, quando as equipes sobem ao relvado, começarem a uníssono a cantar o "O Mundo Sabe Que". Numa altura em que ainda não havia nada preparado. E depois também me lembrei de, por exemplo, dentro do mandato de Bruno de Carvalho, todos os sócios e adeptos que estavam no estádio num jogo contra o Sporting Clube de Braga ao intervalo. Estávamos a perder 2x0 e quando a equipe sobe ao relvado, todos os adeptos começarem também a uníssono a dizer: "Nós acreditamos em você".

Mas sendo um clube desportivo e sendo claramente uma reação para tudo aquilo que na parte desportiva foi feito, ou seja, jogadores e treinadores, não é normal a direção também viver um bocadinho à luz desses resultados desportivos?

Sim, claro, e é normal. Eu não posso criticar Frederico Varandas, está sempre a puxar por isso. Mas aquilo que nós queremos é que o ser presidente do Sporting, ou ser conselho diretivo, tem que ir muito além disso. Podia não ter ganho o ano passado o campeonato e estar a fazer uma excelente gestão e estar com tudo certo daquilo que é jogar na sustentabilidade de médio e longo prazo.

Normalmente isso no Sporting não resulta. Pelo menos olhando aqui para as últimas duas décadas.

Sim, mas aquilo que nós temos que pensar é que se pode ter excelentes resultados e tudo o resto estar errado, por exemplo. E vice-versa, porque uma coisa muitas das vezes não tem ligação à outra. Podemos ir, por exemplo, ao caso do Barcelona, que conseguiu excelentes resultados desportivos até chegar a um momento em que se viu que a gestão estava completamente podre e portanto, estão agora a sofrer com os atos de gestão que se calhar muitos resultados e bons resultados desportivos encobriram. E portanto, aquilo que nós temos que fazer é pensar que o âmbito de um conselho diretivo vai muito para além daquilo que é o resultado. Muitas vezes o resultado até está muito dependente daquilo que são outras variáveis externas, nomeadamente se os rivais estão em pior posição e outros fatores. Por isso, aquilo que nós temos que olhar é, de facto, para o mandato completo e ver todas as variáveis daquilo que é a gestão interna do Sporting.

Falou também que o Sporting não deve ser aquele clube da política de terra queimada, ou seja, quem entra mandar tudo abaixo.

Certo.

E aqui há várias variáveis, sejam elas desportivas, sejam elas até financeiras, nomeadamente a questão da Apol e o financiamento para a SMOK. Aquilo que eu lhe perguntava é Olhando para o mandato de três anos e meio, o que é que sendo eleito ficaria de bom e o que é que gostaria de potenciar que não foi tão bem feito?

Há uma parte que é evidente. Depois de muitas tentativas, parece que Frederico Varandas acertou naquilo que é o treinador e a condução da equipa principal. Isso tem que ser obviamente para manter, tanto mais que Rúben Amorim tem um contrato ainda por mais duas épocas e meia.

Mas, por exemplo, em março de 2020, como é que viu o Sporting a dar €10 milhões por um treinador? Hoje é um bocadinho jogar na Totobola à segunda-feira, mas naquela altura.

Você é muito direto. Naquele momento, não havia qualquer tipo de racionalidade para pagar aquele valor por um treinador que tinha apenas 13 jogos na liga portuguesa. Isso venha quem vier, ainda para mais depois, como não efetuou o pagamento, ainda ficou por 12 milhões e qualquer coisa, porque foram os juros. Isso aí, a decisão tem que ser olhada no momento e com a informação que se tem. Naquele momento, com aquela informação que se tinha, era impossível dizer que o Sporting ia ser campeão ou que estava ali o futuro treinador campeão.

Acha que foi uma espécie de all-in de Frederico Varandas para se aguentar no mandato?

Deve ter sido um ato de fé e tentar segurar-se, porque ele próprio já tinha apresentado Marcelo Kaiser como sendo o treinador do projeto e nem sequer um ano aguentou. À primeira derrota contra o rival Benfica, de 5x0, em duas semanas despediu, embora no final desse jogo tivesse dito que estava tudo bem e que sabia qual era o projeto. Eu acho que foi uma forma dele próprio se aguentar e não despedir um treinador à primeira derrota, porque iria ser impossível justificar perante aquilo que são os sócios e os adeptos, como é que se faz um investimento daquela forma e depois quando as coisas corressem mal, se despedia. E a verdade é que aguentou, porque esse ano Rúben Amorim pegou na equipa num lugar e levou ao quarto lugar, não conseguiu o objetivo. E depois logo no início da época seguinte também, o Sporting também é eliminado da Liga Europa e Frederico Varandas, se calhar, em outra situação tê-lo-ia despedido, mas como tinha feito uma aposta tão forte, conseguiu se conter e ainda bem que sim. Mas voltando, naquele momento, aquela decisão não tinha qualquer racionalidade de ser a terceira transferência mais cara de sempre em todo o mundo, de um treinador.

E olhando para aquilo também que foi o mandato, as duas primeiras épocas não foram propriamente felizes a nível de política desportiva e entretanto parece que também aí as coisas mudaram. Ou seja, consegue-se perceber que os jogadores ou a maioria dos jogadores contratados, existe uma valorização enquanto ativo, consegue oferecer rendimento em termos desportivos. Pergunto se isto é tudo um efeito Amorim ou se houve uma aprendizagem a nível de política desportiva com o passar dos anos.

Eu sou de gestão. Eu estava muito habituado na minha vida acadêmica, e depois na minha vida profissional, a olhar para modelos. E quando nós estamos a olhar para modelos e vemos que há uma mudança de comportamento, vamos tentar ver qual foi a variável que explica essa mudança de comportamento. E é tão evidente que neste caso, e raramente é assim, atenção que raramente é assim, normalmente os modelos têm diversas variáveis que até muitas vezes com sinais contrários, explicam o modelo. Neste caso, parece tão evidente que houve ali uma mudança muito forte com a entrada deste treinador. E aliás, vê-se que não foi só ao nível daquilo que é a gestão da equipa profissional de futebol masculino. Começou-se a ver Rúben Amorim, até por falta de comparência do resto da estrutura, a assumir se calhar outras tarefas.

É quase um manager.

É quase um manager. Nos sportingistas diz-se um bocadinho na brincadeira que é o diretor de comunicação do Sporting. Aquilo que nós vemos é que houve ali, de facto, uma grande alteração entrando Rúben Amorim. E foi isso que foi o ponto de inflexão, para continuarmos aqui nos modelos.

Mas isso é bom no presente e pode ser nocivo no futuro?

Eu acho que se houver um retraimento tal de uma estrutura e passar Rúben Amorim a ser um bocadinho aquilo que Paulo Bento chegou a assumir na primeira década deste século, em que víamos que havia uma ausência de um diretor desportivo, havia ausência de um diretor para o futebol, um administrador para o futebol e até do presidente, que até se gabava na altura de ir quase tempo nenhum ao Sporting, como se fosse um part time. Vemos que depois há um desgaste muito forte daquilo que é o treinador e nós o que temos que fazer, e depois, claro, obviamente, isto também tem repercussões naquilo que é o seu foco, naquilo que nós pretendemos, que é o jogo e como Rúben Amorim dizia muito bem, de três em três, sempre a somar. Isto só é possível se ele estiver completamente focado nestas questões e não estar focado em questões laterais. Não me parece que seja por vontade de Rúben Amorim, mas sim porque, pura e simplesmente, tudo à volta se retrai e vive um bocadinho à sombra daquilo que é a excelente ação de Rúben Amorim.

É por isso que defende, em termos de modelo para o futebol, a presença de um diretor, mas também de um team manager. Já anunciou Augusto Inácio como o seu conselheiro em termos de política desportiva.

É verdade

Pretende um diretor de futebol, que não sei se será ou não o Hugo Viana, que é nesta altura o diretor desportivo.

É um diretor desportivo. Defendo um diretor desportivo pra ter as relações com o mercado.

Mas defende o Hugo Viana ou defende uma outra figura?

Eu não tenho nada contra o Hugo Viana. Se as coisas estiverem a funcionar bem e depois de entrarmos, falarmos e for isso que as pessoas, todas da estrutura, querem e pra jogarmos a equipe, não há nada contra continuarmos com a figura do Hugo Viana como diretor desportivo.

E esta figura do team manager já tem nomes ou tem um perfil?

O Sporting neste momento já tem um team manager, só que não aparece. E por isso é que eu não queria estar aqui a falar muito daquilo que são as funções dos membros atuais, porque afinal de contas estamos em competição e as pessoas têm as suas funções lá dentro e muitas das vezes nós que estamos fora não nos apercebemos disto. Mas a verdade é que o Sporting tem um team manager, também tem um diretor desportivo. Aquilo que nós advogamos é, além destes, haver um general manager que tomasse conta do futebol e de preferência se sentasse no conselho de administração. E é esta figura que nós pretendemos procurar. Em primeiro lugar, vamos procurar dentro da estrutura daquilo que é o futebol do Sporting. A nossa primazia será sempre ver se pode haver a reorganização de pessoas ou então pode haver um perfil identificado, e isso temos que trabalhar também com aquilo que são os recursos humanos do Sporting.

Não contemplem para já o regresso de mais alguma figura como o Inácio à estrutura do futebol.

Não, nem sequer foi nossa preocupação neste momento. Neste momento, aquilo que nos preocupa, tal e qual como foi com o nosso programa eleitoral e o processo que nós tivemos desde 2019, 2020, foi primeiro construir a base das ideias e só depois irmos às pessoas. Tipicamente, eu sei que as pessoas fazem o contrário, que é: vamos juntar essas pessoas e agora vamos ver como é que vamos arranjar aqui uma estrutura para encaixar estas pessoas. Isso está totalmente errado. Primeiro temos que pensar, e foi isso que pensamos, qual deve ser a estrutura, quais as funções que cada membro dessa estrutura deve ter e depois, sim, vamos à procura desse perfil. E se esse perfil existir dentro do Sporting, a primazia vai para pessoas que estejam já dentro do Sporting. Pode ser realocação de funções, pode ser qualquer situação que, trabalhando com o diretor de recursos humanos, se consiga fazer dentro do Sporting.

Mais duas questões em relação ao futebol. Um, gostava de lhe perguntar o que é que é para fazer diferente na formação. E dois, como é que se consegue inverter esta política atual do Sporting de comprar muitas vezes 50% do passe, percebendo-se que se calhar não é algo que se queira, mas é aquilo que se consegue nesta altura em termos também financeiros.

Essa questão daquilo que está a passar a ser um paradigma daquilo que são as contratações do Sporting, a nosso ver, é algo de errado. Por quê? Porque uma coisa é nós fazermos, de facto, uma contratação pontual nesse paradigma, porque é uma oportunidade de negócio, porque de facto aquele jogador já tem um valor tal que o Sporting não consegue e portanto tem que fazer uma partilha daquilo que é a mais-valia futura.

Como os empréstimos, imagino. Sarabia entra. Ou seja, em condições normais nunca o Sporting poderia ter.

Pedro Porro pode ser um paradigma daquilo que é um bom negócio, e digo aqui com todas as letras que me parece um excelente negócio, que foi o Sporting, um empréstimo de dois anos e com a opção de compra no final desses dois anos.

E relativamente razoável, até.

Razoável, oito milhões. Aquilo que nós estamos a ver, quando comparamos isso com valores de 10 milhões, por exemplo, por Rúben Vinagre, por 50% do passe. Quer dizer, quando pomos este negócio comparado com o do Pedro Porro, parece quase evidente que há aqui uma diferença.

Acha que esse negócio é só feito numa ótica desportiva ou há algo mais por trás desse negócio? A nível de acertos.

A sua pergunta traz que, no seu subconsciente, aquilo que é mais ou menos corrente na mente de muitos sportinguistas. Que provavelmente esse tipo de negócios são acertos de vendas realizadas anteriormente.

Porque se calhar também pode ter havido ajudas para valorizar no menos num negócio que poderá chegar quase aos 50 milhões de euros.

Pois, mas isto fica muito estranho então nós estarmos a anunciar grandes vendas por um lado e depois irmos fazer compras sem racionalidade. Se calhar era muito mais simples então nós falarmos verdade, sermos transparentes e dizermos as coisas claramente, do que estarmos todos a pensar nisso e ninguém falar. Mas a verdade é que não é só o Rúben Vinagre, o Marcus Edwards também foi sete e meio por 50%. Portanto, quando comparamos com aquilo que foi o negócio do Pedro Porro, parece que fica aqui um bocadinho desequilibrado ao nível daquilo que é racional, econômico e decisão de gestão.

E a nível de formação, o que é que pondera mudar, melhorar ou acrescentar?

Sim, a formação é a menina dos olhos dos sportinguistas. Portanto, aquilo que está no nosso programa é que nós vamos financiar a formação como uma prioridade. E o que eu quero dizer com isto? Todos os anos, ao fazer o processo de orçamentação orçamental, com certeza há muitas decisões que são quanto é que eu vou pôr na formação ou quanto é que eu vou pôr naquilo que é o futebol profissional. A nossa opção vai ser sempre: sempre que houver uma disputa, por exemplo, de 1 milhão e nós estivermos a discutir o orçamento do próximo ano e dissermos assim: "Gostávamos de ter, por exemplo, 1 milhão aqui pro recrutamento de novos talentos". E tivermos um pedido, por exemplo, do futebol profissional a dizer: "Eu gostava aqui de 1 milhão para recrutar um jogador", quando nós já temos, por exemplo, 23 na equipe principal, a nossa primazia vai ser para onde? Para pôr esse milhão na formação, investimento para o futuro, apostar na sustentabilidade de médio e longo prazo, e não olhar tanto para o curto prazo, que é o que tipicamente acontece naquilo que é o futebol, porque há muito esta visão resultadista e no curto prazo, e que não há tempo para nada, e os resultados é que mandam. Mas eu acho que as pessoas são inteligentes. Se nós formos a uma assembleia geral e dissermos isto muito claramente aos sócios e pusermos à votação qual é a nossa política desportiva, e nem é preciso ter números em concreto, se nós dissermos: "Para o ano nós achamos que devemos aumentar, por exemplo, 10% aquilo que é o investimento em recrutamento e na rede scouting da formação". Sim, se os sócios disserem que sim, a partir daí também se são bons responsáveis.

Mas não acha que nestes últimos anos já houve isso?

Já.

A nível de infraestruturas, foi se redimensionando a academia, mudando relvados, etc. Mas a nível de scouting e a nível de organização, acha que se deve fazer mais ou ainda não foi feito o que é necessário?

Em termos de organização, isso só lá chegando depois. O que eu sei é que ao longo do tempo houve sempre excelentes profissionais. Isso é comummente conhecido, porque senão o Sporting não tinha produzido os talentos todos que teve ao longo do tempo. E portanto, não foi só o ano passado que o Sporting fez subir muitos e bons talentos para a sua equipe principal. Não nos podemos esquecer nunca que em 2016, cerca de 11 jogadores que estavam presentes na seleção que ganhou o Euro eram formados no Sporting. Infelizmente, o Sporting nem sempre tirou o melhor partido naquilo que é a sua equipe principal, mas isso é outra história. Portanto, houve sempre excelentes técnicos, houve sempre uma excelente estrutura física. Obviamente, todas as estruturas precisam de manutenção e, portanto, isso pareceu-me quase uma guerra que não faz sentido nenhum. Obviamente que uma estrutura feita em 2002, quando chegamos a 2020, é preciso manutenção. Portanto, estarmos a falar disso como se estivéssemos a falar das obras que fazemos lá em casa, porque passado 20 anos, os azulejos da casa de banho já precisam de uma reforma. Nós temos que ir muito além disto. O que eu estava a dizer aqui naquilo que é o investimento, é precisamente nas redes de scouting, porque já o mestre Aurélio Pereira dizia que cada vez mais aquilo que é o recrutamento, que é a fase essencial daquilo que é ter os talentos, cada vez isto acontece mais cedo, e já começa a acontecer até ao nível dos oito anos. E portanto, conforme nós vamos descendo na idade, mais capilaridade é precisa, e muitas das vezes mais investimento, porque a base da pirâmide tem que ser bastante alargada. Portanto, o Sporting tem que ir buscar muitas crianças para depois a pirâmide afunilar. Mas na idade de oito anos, há uma grande incerteza naquilo que é saber se passado 10 anos vão dar jogadores profissionais ou não. Portanto, quanto mais nós nos aproximamos da base, mais investimento tem que ser feito naquilo que é o recrutamento e a seleção. E é precisamente aí que nós dizemos que é preciso investir nas redes, naquilo que são os técnicos qualificados para fazer esta detecção e a seleção. Lá está, vão demorar 10 anos a colher os frutos. Pois vai, mas daqui a 10 anos os frutos serão colhidos e com uma grande vantagem competitiva pro lado do Sporting, porque tem, de facto, um passado naquilo que é a formação de excelência.

Para terminar aqui o capítulo do futebol, o que faria de diferente depois de tudo o que aconteceu no Dragão? Ou seja, na conferência de imprensa, o que faria de diferente? E dois: onde é que acha que o Sporting tem falhado em relação à forma de reagir ao que se tem passado no futebol português, nomeadamente em relação ao Luís Filipe Vieira?

No Dragão, não teria ido àquela conferência de imprensa. A conferência de imprensa que ali se está a realizar é para o treinador. Se eu fosse presidente naquela situação, eu chamava os órgãos de comunicação social ao lado ou após o Rúben Amorim ter falado e dizia aquilo que tinha para dizer. Mas para ir lá para dizer aquilo que tinha para dizer, eu tinha que estar munido de propostas anteriores. E aquilo que me parece é que o Sporting deixou de marcar, pura e simplesmente, a agenda, deixou de ter qualquer interesse naquilo que é a transparência do futebol português. E portanto, é muito fácil a seguir àqueles acontecimentos, ir para a frente dos microfones e falar grosso. Mas aquilo que se pretende de um dirigismo responsável é proativamente e por antecipação, se tivesse feito o trabalho de casa, era dizer assim: "Lembram-se que o ano passado, quando houve aquela reunião da Liga, nós propusemos isto e aquilo?" Nós propusemos e os outros clubes chumbaram. E se tivesse passado essa proposta, nada disto tinha acontecido.

Mas não acha que nesta altura, com o Sporting novamente a ganhar, o papel que o Sporting tinha em termos de futebol português também mudou até aos olhos dos grandes?

Sinceramente, não me parece, porque não me parece que o Sporting sequer com Frederico Varandas esteja a marcar a agenda. Não se conhece uma única proposta daquilo que é a visão sequer de Frederico Varandas e deste conselho diretivo para a estrutura do futebol português. Ninguém sabe. Se formos perguntar às pessoas, ninguém sabe. Não sabemos se ele é a favor dos relatórios dos delegados serem públicos, não sabemos se é a favor das comunicações entre o VAR, a rádio e o árbitro passarem a estar online e públicas. Não sabemos nada disso. Ele até pode dizer que sim, mas onde é que estão as propostas? Isto é que é preciso fazer, é jogar na antecipação, fazer as propostas e depois ter moral para falar das coisas que aconteceram. E aconteceram muitas coisas erradas naquele jogo, sem dúvida.

E em relação a tudo o que se passou no futebol português, nomeadamente a Operação Cartão Vermelho e tudo aquilo que entretanto apareceu. O Sporting falhou por omissão ou por simplesmente opção própria de passar ao lado de tudo o que estava a passar?

Se optou por passar ao lado de tudo o que se está a passar, vai de encontro àquilo que eu disse. Frederico Varandas e este conselho de administração da SAD e este conselho diretivo não marca a agenda e portanto, estão a acontecer uma série de coisas e factos mais perto daquilo que é o mandato de Frederico Varandas, alguns já até a abranger o mandato de Frederico Varandas, outros principalmente a abranger aquilo que foi o mandato de Bruno de Carvalho, onde Frederico Varandas era uma pessoa da equipa médica e portanto era o diretor clínico e chegou a dizer que sabia perfeitamente o que tinha acontecido no campeonato 15/16, dizendo que provavelmente, deixando as entrelinhas, que o Sporting tinha sido o verdadeiro campeão. E disse que ia dizer o que é que tinha acontecido e depois de ser eleito, nunca mais disse nada. E está-nos a passar tanta coisa à frente e não se ouve uma única palavra de Frederico Varandas a referir-se, por exemplo, às coisas, à gestão que foi feita por Luís Filipe Vieira e que prejudicou e muito, por aquilo que nós percebemos, parece ter prejudicado e muito o Sporting, mas constantemente fala de acontecimentos de há 15 anos. Diz que ouviu escutas de há 15 anos no YouTube de Pinto da Costa, mas depois deixa passar em branco coisas que estão a acontecer agora. E já foi dentro do mandato de Frederico Varandas que o Sporting não recorreu, por exemplo, do processo É Toupeira, que implicava diretamente o Sporting, porque É Toupeira era para, entre outras coisas, as tais toupeiras infiltradas no sistema de justiça e nos sítios, era uma coisa gravíssima.

Mas a BFA acabou por ficar depois à margem do processo.

Ficou, mas o Sporting nem sequer recorreu disso. Isso é que é engraçado. Portanto, é que não se ouve uma palavra que seja de Frederico Varandas sobre esse assunto. E isso é estranho quando fala de coisas que aconteceram há 15 anos e não fala das coisas que estão a acontecer e que estão a sair. Parece, com um bocadinho de graça, se quisermos, que tem problemas de visão ao perto, mas vê muito bem ao longe. Portanto, o Futebol Clube do Porto, os problemas que o Futebol Clube do Porto, e é sabido, atravessou há 15 anos com a pista dourada e outros temas, está sempre a chamar à colação isso e temas que até já foram julgados. E depois aqueles que estão a acontecer agora, que estão a prejudicar o Sporting neste momento, há todo um silêncio e isso é estranho, é incoerente.

E enquanto sócio, quando vê o Futebol Clube do Porto, por exemplo, no rescaldo daquilo que aconteceu no Dragão, dizer entre linhas que Frederico Varandas acabou por beneficiar da invasão que houve à academia, enquanto sócio, que comentário é que isso lhe merece? Ou seja, é nessas alturas que os sócios se devem unir ou fica a pensar realmente no que é que está ali escrito?

Eu acho que o Futebol Clube do Porto, quando começa a dizer esse tipo de coisas e começa a falar do Sporting Lisboa, está a entrar por um caminho de conversa de pátio de escola. E de facto não interessa a ninguém esse tipo de conversa. Aquilo que eu gostava de ver do Futebol Clube do Porto era: se o Futebol Clube do Porto tem queixas e acha que tem queixas também sobre aquilo que foi a atitude dos jogadores do Sporting ou dos seus dirigentes ou o que quer que seja, eu digo exatamente aquilo que disse em relação ao Sporting, depois que faça propostas e que deixe este tipo de conversa, porque ninguém ganha com isto. E depois chamar Sporting de Lisboa, mudando o nome do Sporting Clube Portugal, é no mínimo deselegante.

E Vitórias no Lumiar.

E portanto, estar com esse tipo de conversa. Acho que, se quer que lhe diga, eu que até nasci no Porto e sou um sportinguista do Porto e sempre convivi com muitos sportistas, nem é bem este o timbre que estávamos habituados a ouvir daquilo que era o Futebol Clube do Porto. O Futebol Clube do Porto era aguerrido dentro de campo, mas havia sempre um discurso de todos os seus atletas de respeito a quem eram os seus adversários. E isto aqui é um bocadinho juvenil, se assim podemos dizer, este tipo de linguagem que as contas oficiais do Futebol Clube do Porto fazem nas redes sociais. Se querem atingir Frederico Varandas, acabam por atingir a instituição. Isso parece-me completamente errado.

Não se revê naquilo que foi dito, ou seja, o episódio da invasão a Alcochete é um capítulo passado e não vale a pena estar a refletir quem é que beneficiou ou não daquilo.

Toda a gente sabe o que é que aconteceu. Portanto, estarmos a abrir essa ferida, que foi um acontecimento traumático para todos os sportinguistas As coisas já foram a julgamento. Há pessoas que, infelizmente, fizeram o que fizeram, estão presas, de certeza que estão arrependidas por aquilo que fizeram. Se o Futebol Clube do Porto tem alguma prova, que a mostre. É tão simples quanto isto. Assim como eu não gostei das insinuações que recaíram sobre o então presidente Bruno de Carvalho, também não gosto desse tipo de insinuações. Se o Futebol Clube do Porto, de facto, tem alguma prova de algum envolvimento, que mostre. Temos é que abandonar esse tipo de conversa, porque me parece juvenil, sinceramente. Isto tem muita piada quando somos adolescentes ou pré-adolescentes e gozamos uns com os outros, com os nossos amigos benfiquistas e portistas, e dizemos essas piadolas. Adultos estarem nas redes sociais, a acicatarem os ânimos, a tribalizarem as discussões, pelo menos os portistas que eu conheço, que são meus amigos, vejo muita dificuldade em eles reverem-se neste tipo de linguagem e nisto que aconteceu no pós-jogo. É como eu digo, se o Futebol Clube do Porto acham que têm legítimas questões de coisas que se passaram no campo, façam propostas pra que isso não volte a acontecer. Tão simples quanto isto.

Passando agora pra questão mais financeira, pergunto qual é o real risco do Sporting perder a maioria do capital social da SAD, através das VMOC. E perguntava-lhe: a partir do momento em que encontra uma solução para haver essa recompra de VMOC, que significará uma porcentagem de capital social de 90%, o Sporting precisa ou quer ter tanto capital social, ou deve abrir também a outros investidores sem perder a maioria?

Idealmente, eu gostaria que o Sporting tivesse 100% do capital e portanto até chegasse a acordo com aquilo que são os sócios minoritários e o Sporting recomprasse também a sua parte. Este seria o mundo ideal, até porque me parece que as SAD não vieram em nada beneficiar aquilo que nos foi vendido nos anos 90. Também um bocadinho naquilo que era aquele capitalismo popular, de que se todos nós tivéssemos ações das empresas e no meio das privatizações, venderam-nos quase que nós não precisávamos trabalhar. Íamos todos enriquecer. E a verdade foi que batemos contra o muro da realidade logo ali naquela crise de 2003, das dotcom e por aí fora. Portanto, isto era aquilo que idealmente e aquilo que nós devíamos pensar. E durante este próximo mandato, penso que o fundamental é, de facto, recomprar os VMOC e solidificar aquilo que é a estrutura financeira do Sporting.

Mas ainda não tem nenhum parceiro, ou seja, vai à procura do parceiro para comprar, não tem ainda nenhum parceiro garantido para o fazer.

Não. E seria populista fazer de outra forma, porque não há nenhum parceiro que comece a estudar o que quer que seja sem ter a informação de tudo aquilo que são as demonstrações financeiras, até ao balancete mais descrito, até àquele plano de tesouraria mais bem feito daquilo que é o clube.

Dentro desse regresso a uma ideia do ter 100% do capital social da SAD, pergunto: se nesta altura os bancos já colocaram a fasquia nos 40 milhões e não nos 135, que seria de facto um esforço financeiro grande, não seria mais fácil vender um jogador e canalizar automaticamente a verba toda pra aí?

Certo. Aí é que tá a questão, é que não pode ser a SAD a comprar os VMOC, tem que ser o clube ou a SGPS que é participada 100%, por questões fiscais.

Mas já percebemos que quando se quer, o dinheiro pode fluir de um lado pro outro. Aliás, a transferência de Marcos Rojo terá sido o grande empurrão pra haver hoje um Pavilhão João Rocha, e é um pavilhão do clube.

Sim, mas aí havia dívidas entre empresas. Neste momento, quem deve é o clube à SAD. Ou seja, no mandato de Frederico Varandas, foi o clube que passou a dever à SAD. E portanto é muito complicado. É uma situação muito complicada. E voltando à pergunta que o Bruno me fez, se havia um risco. Há, e ainda ontem no debate, eu questionei Frederico Varandas se aquilo que estava inscrito no prospecto do empréstimo obrigacionista era verdade ou não, se ele desmentia. Eu tenho a certeza que é verdade, porque a CVM não deixaria passar uma mentira. E dizia lá que o Sporting estava em incumprimento de 16,7 milhões com aquilo que é a reestruturação financeira assinada em 2014. Portanto, ontem, Frederico Varandas veio dizer que quando chegou ao Sporting, o Sporting estava em incumprimento de não sei quantos milhões, e quando eu lhe pergunto assim: "Mas então no empréstimo obrigacionista não dizia lá isto, no prospecto? Já sanou este incumprimento?" E a resposta foi silêncio. Portanto, podemos intuir do silêncio que o Sporting continua em incumprimento.

Mas dentro da reestruturação financeira, havia uma porcentagem de vendas de jogadores que automaticamente iria pra esse acordo.

E continua a haver.

Portanto, muito provavelmente no final da época, sem o Sporting fazer nada, automaticamente com a venda de jogadores, essa porcentagem poderá cobrir aquilo que está em falta.

O problema é esse automaticamente. É que chegou o dia do automaticamente e não havia dinheiro em caixa. E, portanto, daí o incumprimento. O Bruno perguntou-me se havia o risco real. As notícias ainda ontem foram claras a dizer que o John Textor anda aí com uma mala de dinheiro a ver se compra alguma coisa. Portanto, o John Textor pode, se o Sporting estiver em incumprimento, e se tiver Boas relações com o Millenium bcp e com o Novo Banco e chegar lá e dizer assim: "Vocês têm um acordo assim, eles estão em cumprimento? Sim, estão. Então eu bato aqui e o John Textor pode comprar". Quem diz John Textor, é aqui uma imagem, porque é uma pessoa que está atualmente, mas pode ser outra pessoa qualquer. Mas é para vermos como há investidores pelo mundo fora que andam à procura desse tipo de oportunidades. E nós sabemos que estes investidores fazem muito dinheiro nisto. Por quê? Porque conseguem comprar em baixa para depois vender em alta. E aquilo que nós queremos, e até para ir de encontro à sua pergunta de ter os 100%, e se é preciso ter os 100%. É preciso primeiro conseguir os 90, idealmente os 100, mas equilibrar aquilo que é o Sporting, fazer com que a ação valorize e depois, então sim, em outros mandatos, pensar se faz sentido ou não abrir o capital. Mas aí tem que ser a investidores ou a empresas que queiram entrar. Por exemplo, é sabido que o Bayern de Munique abriu ligeiramente a sua SAD a grandes investidores, mas com pequenas participações, que deixaram de ser patrocinadores e passaram a ser acionistas, comprometendo-se a um nível muito superior. Se fosse nesse modelo, tudo bem, mas nós também sabemos que não somos o Bayern de Munique e também não estamos na Alemanha. E portanto, aquilo que são as empresas prováveis para investir no mercado tão pequeno como o português, se calhar não estamos a falar numa Adidas, nem numa Audi, nem numa Allianz.

No plano teórico, admito que pode ser um bom modelo. Ou seja, o Bayern tem aqui duas diferenças. Um, a questão dos três grandes parceiros, vendeu 8,33% a cada um desses parceiros, mas tem aqui depois também uma outra diferença que tem a ver com o governance da SAD, que é completamente diferente daquele que existe em Portugal. Pergunto-lhe se também será um caminho, em termos de Sporting, ir para esse governance onde, por exemplo, os vice-presidentes não têm obrigatoriamente ser administradores da SAD. Existem pessoas executivas e outras pessoas, digamos assim, mais institucionais.

Exatamente. E eu acho que o caminho é exatamente esse. Vou dar um exemplo. Aquilo que é o conselho diretivo do Sporting atualmente pode ir até 11 pessoas. É um exagero. Poucas administrações de empresas têm 11 pessoas, portanto, não faz sentido. Por exemplo, temos um conselho diretivo que pode ir 5 a 11. A nossa escolha foi apresentar sete, mas as outras listas apresentaram 11. Depois as listas parecem quase listas de convidados para casamentos e, portanto, não faz sentido. Temos que diminuir aquilo que é o conselho diretivo, aquilo que é a MAG e aquilo que é o conselho fiscal, precisamente para cada vez mais nos aproximarmos desse modelo. Aquilo que é o modelo associativo, estas pessoas são as eleitas, são aquelas que são responsáveis pela condução política e garantir que aquilo que os sócios querem, e porque eles também são sócios, os membros dos órgãos sociais conduzem a política, mas depois ter uma estrutura cada vez mais profissional que executa aquilo que emana de cima. E, portanto, eu revejo-me totalmente nisso e eu gostava muito que, e por isso é que eu disse há bocado, que aquele administrador para o futebol, aquele tal general manager, se deveria de sentar, porque tem que se começar a ganhar, vá lá, um bocadinho, o caminho desse modelo, de termos o conselho diretivo quase como um conselho de supervisão, se assim quisermos, das diversas empresas que constituem o grupo Sporting.

Mas dentro dessa viragem em termos de governance da SAD, há aqui também uma outra particularidade que é o presidente do clube não é o mesmo que o presidente da SAD em termos operacionais.

O executivo, certo.

Também consegue ver assim o Sporting? Ou seja, se Nuno Sousa for presidente do clube, haver uma ou outra pessoa que seja presidente da SAD?

No futuro, sem dúvida. Eu acho que têm que começar a ser dados estes passos e o conselho diretivo do Sporting começar a ser como existem em grandes empresas, quase como o Conselho Superior de Supervisão, e depois termos aquilo que é a comissão executiva a trabalhar. E portanto, o presidente continua a ser aquele que é eleito pelos sócios, mas depois, no dia a dia, quem está presente são os administradores que foram escolhidos por este conselho superior, que foi o conselho que foi eleito pelos sócios. E este passo que eu falei aqui de ter este elemento na administração da SAD, que é um administrador ligado ao futebol, está pensado exatamente não ser ninguém do conselho diretivo da lista que eu encabeço.

Ainda aqui nesta parte financeira, tenho visto a colocar muito o ênfase na questão da dívida aos fornecedores, que tem crescido. Pergunto, em termos de soluções práticas, o que tem que super a lógica do vamos tentar reduzir custos, vamos tentar aumentar receitas? O que em termos práticos ainda está por fazer exatamente para poder abater esta dívida a fornecedores que tem crescido?

É que vai ter que ser exatamente por isso que o Bruno acabou de dizer. Vai ter que se cortar custos, principalmente ao nível do investimento, porque não é possível continuar a gerir-

Mas você, por exemplo, detetar anexos que consegue cortar agora, por exemplo, o futebol passou de 75 para 60 milhões.

Certo. Em três anos, foi baixando lentamente.

Mas será menos do que isso, já tendo complexidades desportivas.

Certo, mas eu estou falando na parte de investimento. Se nós queremos fazer realmente uma aposta naquilo que é a formação, nós temos que lançar mais talentos vindos da formação Que substituam aquilo que seriam fazer contratações. Porque aquilo que está na conta de fornecedores são as contratações feitas e os pagamentos das comissões. Não há pagamentos nenhuns, estão lá na conta de fornecedores, estão por pagar aos clubes e aos agentes. É tão simples quanto isto. Basta ir lá ver e está lá o rol. O grave do Sporting não é ter a conta de fornecedores nesses níveis, a chegar quase aos 90 milhões. O grave é que não tem nada em clientes para receber. E portanto, aquilo que é a dívida líquida e o fundo de maneio está completamente negativo, porque se nós tivéssemos 120 milhões para receber, por exemplo, de transferências que já fizemos, o saldo seria 30 milhões positivos. A verdade é que temos cinco milhões para receber, pelo menos no último relatório e contas. Isto é que é o drama. O Sporting tem gerido um bocadinho os seus pagamentos para fazer a gestão da tesouraria e por isso é que é tão importante fazer a reestruturação financeira de uma forma a equilibrar aquilo que é o financiamento.

Mais uma, neste caso.

Sim, mais uma.

O Sporting vive ciclicamente de reestruturações.

E por quê? Porque como tem constantemente uma operação desequilibrada, no ano passado, por exemplo, o Sporting perdeu 33 milhões de euros. Foi campeão, mas perdeu 33 milhões de euros.

Também é típico.

Sim, podia ter ali na bilheteira mais 10 milhões, por exemplo, mas seriam 20 milhões. Mas se nós vamos de 20 em 20 milhões com prejuízos, ao final de 10 anos são 200 milhões. E esta tem sido a história consecutiva do Sporting, exceto num período, que é sabido, que foi o Bruno de Carvalho que conseguiu equilibrar e Filipe Soares Franco, para equilibrar isto, vendeu todo o património. Vendeu os anéis e depois de vender os anéis já não havia mais nada. Mas a verdade é que a operação continuou desequilibrada e não há nenhuma organização que viva constantemente a dar prejuízo na sua atividade, porque senão vamos ciclicamente estar em reestruturações financeiras até ao dia em que não é mais possível fazer nenhuma reestruturação, porque todas as anteriores envolveram patrimônio. Agora, a última envolveu os VMOC. A seguir vai se envolver o quê? O que tem que haver é com uma consciência que se o Sporting fatura naquilo que são os direitos televisivos, a bilhética e a sua linha comercial, por exemplo, 100 milhões, estou a dizer um número para ser mais fácil, não pode estar a gastar 120 todos os anos, porque ao final de cinco anos tem 100 milhões de passivo acumulado. E isto é que tem que ser alterado.

Tenho aqui algumas perguntas soltas agora. A primeira tem ainda a ver com a parte das finanças. Fala muito a parte da digitalização e da importância da digitalização. No seu programa, tem também a possibilidade de estudar uma recompra do Alvalaxia. Pergunto: em termos de digitalização, o que é que tem preparado e quanto é que isso poderá render em termos práticos, em termos de quantos milhões é que o Sporting conseguirá mais, e se a parte do Alvalaxia está ligado também ao fato de, pela primeira vez durante muitos anos, começar a haver o início da construção de casas que poderá ali potenciar toda aquela zona, nomeadamente um centro comercial, que sem casas ali ao pé é diferente.

Óbvio, o Bruno apanhou perfeitamente a questão. Era importantíssimo fazer essa recompra, porque obviamente tudo aquilo que é aquela urbanização ali e ter escritórios, e ter habitação e ter comércio, obviamente vai valorizar o imóvel que é o Alvalaxia. Pode-se estar a perder uma excelente oportunidade de encontrar um parceiro e revitalizar o Alvalaxia e conseguir instalar lá um projeto pensado e estruturado com um parceiro forte. E obviamente que aquilo que é a capacidade econômico-financeira, neste momento, do Sporting, só pode ser com um parceiro, porque o Sporting não tem capacidade para o fazer. Temos que encontrar esse parceiro que esteja habituado a fazer gestão deste tipo de infraestruturas e de alguma forma, o Sporting ser a marca que dá o grande empurrão e claro, depois de forma contratual, tentarmos ver como é que a relação, no longo prazo, tentar voltar a ter dentro do seio do que é o patrimônio do Sporting o Alvalaxia. E a outra questão era as receitas e a digitalização.

Que vem da digitalização, por exemplo. A app Sporting, que nesta altura, em condições normais, não seria um tema propriamente muito falado, mas que nesta campanha tem sido, pergunto, por exemplo, quanto é que custa uma app Sporting no seu projeto e quanto é que poderá depois render para amortizar o investimento e para potenciar receitas?

Fomos nós que começamos a trazer para cima da mesa isto. E por quê? Porque estava numa das promessas, e bem, de Frederico Varandas em 2018. Depois, em 2020, fez um papel que lhe chamou estratégia para o futuro, onde reafirmava que a digitalização e a app, em concreto, era um ponto importante. Agora em janeiro, foi a um canal privado do cabo afirmar que afinal fazer uma app é caro, mas curiosamente, no final de janeiro, já tinha mudado outra vez de opinião e voltou a inscrever no seu programa a dizer que era importante ter uma app. E nós sempre mantivemos a nossa opinião. É superimportante. É que não é importante, é superimportante. Basta ver todos os comparativos, e eu estou a dizer comparativos para não dizer benchmark, porque eu não gosto de usar esse tipo de jargão corporativo, mas vá lá. Todos os benchmarks que nós estudamos, e estudamos vários, e aquilo que é os ecossistemas digitais, porque a app muitas das vezes é só a face visível O interface da app tem que ter o CRM, o programa da bilhética, o sistema de faturação daquilo que é a loja online, a cadeia logística integrada, tem que ter isto tudo. Portanto, aquilo que nós vimos que tipicamente os clubes fazem é investir cerca de 4,5 aquilo que são os seus resultados operacionais de um ano no investimento. O que no Sporting, grosso modo, se quisermos dizer que o Sporting tem mais ou menos 100 milhões, poderia querer dizer que todo este ecossistema, para ficar naquilo que é a tecnologia de ponta, porque é isso que os outros clubes estão a fazer, teríamos que investir 4,5 milhões. E isto pode parecer caro, mas isto é um investimento. Se analisarmos aquilo que é fazer a app, e a app começar aos pouquinhos, porque na metodologia agile atualmente começa-se a fazer as coisas aos pouquinhos, e portanto, não é logo um big bang de fazer ali um grande investimento. Podíamos com uma centena de milhar de euros, duas centenas de milhar de euros, ter uma app extremamente funcional para começarmos a fazer o investimento inicial e começar depois a criar todo o ecossistema à volta.

E dentro desse estudo tem quanto é que potencialmente poderá atingir?

Sim. Aquilo que nos mostra os comparativos internacionais é que as receitas de merchandise começam a aparecer 50% delas via app. Portanto, aquilo que nós esperamos é que estas 50% obviamente vão canibalizar um bocadinho aquilo que é a linha de receitas atual, mas potencializa mais. Se olharmos para aquilo que são os nossos rivais, o Sporting está muito abaixo. Portanto, há aqui um potencial enorme de crescimento na linha de merchandise. Aquilo que nós apontamos é que provavelmente estas 50 vai corresponder, porque não só aquilo que é as lojas físicas vão aumentar, mas também porque em cima disso vamos ter outro tanto daquilo que vem da app. Portanto, nós estamos a imaginar que 50% daquilo que sejam as receitas de merchandise futuro, 50 venha das lojas físicas e 50% da app. E portanto achamos que é fundamental ter isto e o break-even será feito muito rapidamente. Depois, também temos a questão de tudo o que é a sponsorização e a publicidade feita numa app. Ora, vou só dar este exemplo: o Sporting tem 2,5 milhões de followers no Facebook. Esses 2,5 milhões de followers estão a dar exatamente €0 ao Sporting. Quem agradece muito que estejam lá esses é o senhor Zuckerberg, que pelo que sabemos não é sportinguista. E, portanto, aquilo que nós temos que pensar é trazer estas pessoas que estão, por exemplo, nas redes sociais e trazer para a app do Sporting. E a partir daí começamos a conhecê-las e a partir daí podermos fazer diversos programas, desde transformá-los em meros users que estão registados na app para serem, por exemplo, uma categoria que nós queremos lançar, que é de sócio-adepto, que será aquela categoria inicial de entrante que tem o registo e tem uma série de informação que tem que ser dada ao Sporting, e assim sucessivamente, alguns conteúdos até chegar àquilo que é sócio efetivo, onde poderá ter depois acesso a conteúdos premium e por aí fora. E portanto, aquilo que nós temos que fazer é trazer estas pessoas para aqui e depois dizemos aos nossos sponsors, quando conseguimos trazer estes 2,5 que estão no Facebook, por exemplo, para dentro da app, vai haver uma capacidade negocial com aquilo que são os nossos sponsors enorme. E aquilo que nós vemos lá fora, lá fora chamam os subscritores, nós aqui chamamos a figura de sócios. Quando nós tivermos centenas de milhar de pessoas registadas e soubermos quem são, quais são as suas preferências, porque afinal estão num ambiente seguro, sportinguista, e pudermos dizer aos nossos patrocinadores: "Olha, está aqui esta informação", e eles quiserem fazer publicidade, aquilo que nós vemos naquilo que são os comparativos lá fora é que 40% do que são as receitas de publicidade vêm também da app. E portanto, não estamos a explorar aqui uma fonte enorme, nova e que sem dúvida é de futuro.

Queria olhar aqui também para uma outra situação, que também já envolveu um estudo, que tem a ver com o número de votos por anos de filiação, que é algo que de fato é estruturante, ou seja, foi algo que já foi mudado em 2013, salvo erro.

Ou 2012. Foi no mandato de Godinho Lopes.

De Godinho Lopes. Aquilo que eu lhe pergunto é: como é que chega a esta nova reestruturação a nível de número de votos, anos de filiação, e se não o preocupa, e eu vou dar este exemplo prático: um sócio com quatro anos passa a ter 10 votos. Um sócio com quatro anos gastou 624 € em quotas. Alguém que queira muito ficar com o Sporting consegue com 3 milhões de euros ter 5000 sócios a pagar, o que daria 50 mil votos. Acha que esse sistema está todo pensado?

Eu acho que muitas das vezes esses cenários são obviamente cenários. Está pensado, por isso é que nós pusemos a diferença para só poder votar de quatro anos.

Um John Textor.

Pode acontecer.

Se calhar a médio prazo pode pensar num plano assim.

Sim, podia pensar. Mas a verdade é que não é só esses que beneficiam dessa subida de 10. Temos todos os sócios que estão para a frente que também beneficiam da subida de 10.

Mas, por exemplo, quem tem 40 anos de sócio fica com uma margem muito menor em relação a quem só tem quatro anos, por exemplo.

Passará a ter 20. Eu tenho 40 anos de sócio, exatamente, foi um excelente exemplo. Eu tenho 40 anos de sócio e passaria a ter 20 Em comparação, sem dúvida, com aqueles. Mas a nossa análise tem que ser feita desta forma: se nós queremos ir buscar mais sócios, porque isso é uma situação onde temos poucos sócios. Se nós pensarmos em 1 milhão de sócios, de facto, nessa situação, o tal John Textor teria que investir muito mais que 3 milhões. E nós temos que pensar é nesta situação, não é ter sócios votantes que vai provavelmente ser cerca de 50.

Estava a dizer isto porque as últimas eleições tiveram 20 e pico, 20 tal mil sócios votantes. Se alguém partir com 5 mil já do seu lado, já é uma almofada de conforto significativo.

Já. Por isso é que nós temos que jogar. Isto é uma das medidas precisamente para fazer com que a base de sócios cresça, porque o ponto de situação atual e o estudo que nós fizemos é o seguinte: os 11% de sócios mais antigos, no qual eu já me incluo, têm 30% do colégio eleitoral. Portanto, o peso dos 11% mais antigos tem 30% do peso dos votos e os 60% dos sócios mais recentes têm exatamente os mesmos 30%. Portanto, isto é um desequilíbrio tal que faz com que haja uma grande distorção e que fique longe aquilo que é a vontade popular daquilo que é o colégio eleitoral. Aquilo que nós estamos a dizer não é passar imediatamente para a paridade um igual a um.

Acha que isso faz sentido a médio prazo? Num clube como o Sporting, o Porto, por exemplo, tem isso.

Pois, tem isso e até hoje nunca aconteceu nada de hostil a esse nível. Portanto, eu acho que se calhar no longo prazo, daqui a 10 anos, quando estivermos aqui a falar, vai nos parecer uma coisa natural. A sociedade evolui, as mentalidades evoluem e se calhar vamos ver que esses perigos, que são receios, que eu considero que sejam naturais. Eu próprio também fui evoluindo no meu pensamento por ouvir diversas pessoas, diversos sócios, diversos pensamentos, diversas linhas e fomos evoluindo. E aquilo que, por exemplo, na construção deste programa eleitoral, porque nós na nossa equipa e nas pessoas que nós ouvimos, tínhamos aqueles que eram um sócio ou uma sócia, um voto, porque falavam da democracia plena, daquilo que é a aproximação ao que é a sociedade civil, e havia aqueles que estavam no: "Não, isto não tem nada a ver com a sociedade civil, isto é um clube, isto é uma coisa restrita, isto não tem que ter propriamente as leis e as regras da República". E o que nós tentamos fazer foi sentarmos todos à mesa e desenharmos aqui algo que fosse o caminho para uma maior equidade. E acho que nós conseguimos ter aqui o caminho para a equidade, até porque o sistema de voto do Sporting atual não é só por antiguidade, é que tem a ver com antiguidade e dinheiro. Por isso aquilo fica uma coisa meia misturada, porque os sócios A pagam mais, têm mais votos e ganham mais votos mais rapidamente que os sócios B, que têm menos votos e ganham mais lentamente, e ainda mais os C. Portanto, isto deixa de ser aqui um bocadinho de antiguidade e passa a ser uma coisa híbrida entre a antiguidade e aquilo que é o dinheiro que se põe numa quota. E até nisso, aquilo que nós propomos aqui é haver uma simplificação, porque a diferenciação daquilo que é o A e o B, a quota já diz que os A, por exemplo, podem ver e podem aceder a certas partes do estádio que os B não podem, e portanto a diferenciação já se faz aqui. Mas ainda estávamos a fazer aqui uma dupla penalização, para falar um bocadinho aqui em futebolês, estávamos a fazer aqui a dupla penalização, que era dizer: " És B, pagas menos, tens menos, mas ainda vais votar com menos votos". E aquilo que nós propomos é haver apenas uma régua temporal e alinhar os As, os Bs, os Cs no mesmo número de votos.

Em relação aos núcleos, tem inclusivamente aqui uma versão de núcleos 2.0. Perguntava-lhe: o que é necessário fazer em termos de núcleos para potenciar o atual sucesso desportivo, porque se nota que está a atingir, de facto, as gerações mais novas. E depois, uma outra questão também que tem a ver um pouco com a questão também dos votos e que tem a ver com a possibilidade de, através, por exemplo, de uma app, um sócio em casa poder votar não só para quem quer como presidente, mas também relatório, contas e orçamentos. Pergunto-lhe se concorda e se não acha que o facto de as pessoas poderem votar assim vai fazer com que se comece a votar coisas que ninguém sabe o que é que lá está.

Isso de votar coisas que ninguém sabe o que lá está, foi aberto, de facto, por este último mandato, onde Rogério Alves instituiu que quando abre uma assembleia geral, pode-se imediatamente votar os temas que estão em discussão.

Sem ouvir sequer a explicação dos mesmos.

Sem ouvir a explicação. Portanto, isso parece-me completamente errado. Aquilo que nós advogamos é que no futuro, e conforme a tecnologia vai evoluindo e cada vez há uma tecnologia mais poderosa, baseada em blockchain, e nós sabemos que, por exemplo, os bancos estão a fazer grandes investimentos para que as transferências bancárias e assim passem a estar assentes nesta tecnologia e que seja mais robusta e menos suscetível a fraude e por aí fora. Portanto, quando essa tecnologia estiver, e já há várias experiências pelo mundo afora desta tecnologia e em associações, por exemplo, nos Estados Unidos, no Canadá.

Há também países, salvo erro, na Estónia.

Sim, na Estónia até as eleições já o são, mas é um bocadinho também com cartão de cidadão que fazem. Ou seja, nós poderíamos perfeitamente. Eu hoje em dia já assino os contratos que tenho que assinar com a chave móvel digital e, portanto, a tecnologia está cada vez-- aliás, em Portugal as pessoas até já se podem casar Até já se podem casar pela internet. Isto está a evoluir de tal forma que nós vemos que no futuro, sem dúvida, isso pode acontecer. Essa parte daquilo que é a discussão, depois as tecnologias também nos mostraram, e até agora na pandemia, que se consegue, por exemplo, trabalhar perfeitamente à distância. E aquilo que nós vemos é que no futuro, não está aqui, mas o que podemos antecipar, por exemplo, daqui a partir de 2026, é que os sócios em casa podem perfeitamente estar a assistir e a receber informação. Mas isso também parte muito do clube. O clube tem que facilitar a informação e não acontecer como acontece atualmente, que muitos de nós vamos para as assembleias-gerais e até há bem pouco tempo éramos obrigados a ir ao centro de atendimento. Nem podíamos tirar uma foto, tínhamos que tirar apontamentos da documentação, para vermos o tipo de opacidade que é a vida do Sporting. Felizmente, na última assembleia-geral, depois de muitas reclamações nas redes sociais, foi enviada a documentação para os sócios em questão. E portanto, se nós vivermos numa era de transparência, numa era de mais proximidade, daqui a uns anos não vejo problema nenhum de os sócios estarem, por exemplo, em casa e assistir às assembleias-gerais e no final da assembleia-geral poderem votar à distância.

Mas sempre assistindo e sabendo o que é que se está a discutir.

Sempre assistindo e sabendo o que está, obviamente. Depois, aquilo que eu acho que era fundamental, e isso já está previsto naquilo que são os estatutos do Sporting, e estava previsto no programa eleitoral de Frederico Varandas, é que nós neste momento devemos estar a ter a possibilidade de votar nos núcleos e para pegar nos núcleos. Ontem também referi isso. Os núcleos estão um bocadinho ao abandono e fazer novamente a mesma promessa ou ter se esquecido da promessa e agora dizer: "Não, porque afinal eu não quero fazer bem isso, o que eu quero mesmo é ir para aquilo que é a tecnologia e à distância". Mas podia ter feito imediatamente isto, que era, por exemplo, ter um núcleo em cada zona do país.

Descentralizar.

Descentralizar, por exemplo. E nada disso foi feito e era tão simples ter tomado esta medida.

Para terminar, só uma pergunta muito rápida sobre as modalidades. São chamadas modalidades amadoras, mas são cada vez mais profissionais e mais caras, também dispendiosas, o que aparentemente poderá não ser um problema, porque como a receita vem da cotização e o número de sócios pagantes está a aumentar, portanto haverá mais receita para acompanhar essa progressão. Pergunto, olhando para o seu programa, dentro deste contexto, por que entende que deve ser extinto o cargo de diretor-geral das modalidades, tendo em conta o dinheiro que já existe e que, números redondos, já vai para os 10 milhões de euros?

Porque aquilo que passou a acontecer com esse cargo é que começou a haver uma deslocalização daquilo que eram os funcionários do Sporting para esta nova estrutura. E portanto, aquilo que aconteceu foi começar a haver uma segmentação lá dentro da estrutura do Sporting, de pessoas afetas apenas àquilo. Eu sou muito mais por uma estrutura funcional, se assim quisermos, em que o marketing trabalha independentemente se é para as modalidades ou para o futebol, em que a parte comercial trabalha independentemente do que é modalidades ou futebol, em que a logística trabalha independentemente do que é. E aquilo que começou a haver-se foi uma separação completa e eu acho que há muito mais benefício se houver aqui um trabalho conjunto, porque o Sporting é só um, o Sporting é o todo. Não há futebol para um lado, não há modalidades de pavilhão para o outro e depois modalidades individuais e fora de pavilhão e olímpicas, se assim quisermos, para o outro. Isto faz sentido de ser tudo trabalhado de uma forma conjunta e por isso é que nós advogamos a extinção dessa direção-geral das modalidades, que é uma coisa diferente de ter um diretor coordenador das modalidades. Mas não precisa de ir buscar uma pessoa à parte financeira, uma pessoa ao marketing, para criar ali um silo, porque isso é completamente errado nas empresas hoje em dia. E o Sporting, embora seja um clube, nestes temas daquilo que é a gestão, tem que ser visto com as melhores práticas. E portanto, hoje em dia nós temos que trabalhar é com equipas multidisciplinares e não em silos. E aquilo que estava a acontecer era haver um silo separado e parece que não deu grande resultado este modelo de gestão, tanto mais que quando nós estávamos a preparar isto, era o que nós advogávamos, e parece que Frederico Varandas até terá desistido desta medida neste novo programa eleitoral, porque deve ter visto aquilo que nós vimos, é que não era um modelo que fizesse sentido.

Ficamos por aqui em mais um "Sob Escuta", desta vez com Nuno Sousa, candidato da lista C às eleições do Sporting no dia 5 de março.