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Bem-vindos ao Som Ambiente, numa altura em que muitas empresas de aviação se preparam para receber milhões de euros em ajudas estatais, fazemos a pergunta: deve o Estado apoiar empresas ou setores que são, pela sua atividade, particularmente danosos para o ambiente? Já vamos às opiniões de Catarina Grilo, Henrique Pereira dos Santos e Sofia Guedes Vaz, a quem dou desde já as boas-vindas.

Olá, boa tarde.

Olá, boa tarde.

Na segunda parte vamos colocar-nos à sombra, vamos olhar para o montado português. Antes, como é hábito, os sinais. Sofia, o sinal encarnado esta semana é atribuído por ti e vai para o verão no Ártico.

Exato, nós queremos sempre um verão quente, não é? Mas um verão quente no Ártico não é bom. E de facto, este verão tem estado a ser um desastre no Ártico. Logo em maio, o degelo e a má gestão de um tanque de armazenamento de petróleo que derramou mais de 20 mil toneladas por um rio e que já estão a poluir todo o Ártico. Nunca houve um verão tão quente no Ártico como este ano. O Ártico é uma região do nosso mundo que chega a ter temperaturas de -68 °C e agora estamos nos 35 °C no verão. Portanto, o que isso faz é que derrete uma coisa que se chama permafrost, que é a terra eternamente congelada, onde está muito carbono armazenado, e por isso isto é um ciclo vicioso. Quanto mais derrete, mais há emissão de gases de efeito estufa e depois mais derrete porque a temperatura fica mais quente. Portanto, as alterações climáticas continuam a ser um problema gravíssimo e sinal encarnado para o verão quente do Ártico.

Henrique, o amarelo desta semana é teu, é para o PTP, não é um partido político, é o Programa de Transformação da Paisagem, aprovado na semana passada pelo governo. Por que amarelo?

Amarelo porque é bom que exista dinheiro e preocupação com os territórios marginais e se perceba que, de facto, é preciso fazer alterações de paisagem. Isso é bom. Agora, o programa é para determinar a delimitação dos territórios e mais determinar quais são os territórios que são vulneráveis e depois identificar quais são as áreas que são elegíveis para isto e tal. Isto é, como de costume, estamos a centrar os problemas do território no território e no que nós achamos que o território devia ser, em vez de estarmos à procura das pessoas que, de facto, fazem a gestão do território. E esse é que me parece que é o problema central, já o problema nos incêndios, na conservação, estamos sempre à procura de medidas para aquilo que queremos fazer, em vez de andar a procurar as pessoas com as quais podemos fazer coisas úteis. É por isso que ele é amarelo, tem estas duas componentes.

Catarina, o último sinal é o verde e tu queres atribuí-lo ao encerramento da central nuclear mais antiga de França.

Sim, é a central nuclear mais antiga de França desde que encerrou a anterior, mais antiga, em 1991. Esta começou a trabalhar em 1977 e hoje é fechado de vez o seu segundo reator, o primeiro foi encerrado há uns meses, mas é encerrado também três anos depois do fim de vida programado para esta central. O reator ainda vai levar alguns meses a arrefecer para se poder retirar o combustível já usado, mas o processo todo de desmantelamento só estará concluído em 2040. Esta também é uma central que registou diversos problemas, como falhas elétricas, fissuras, poluição da água, contaminação dos trabalhadores. Apesar de tudo, obviamente que o seu encerramento é uma boa notícia, mas é acima de tudo uma notícia positiva pelo seu simbolismo. A França ainda tem quase 60 centrais nucleares. Tivemos há poucos dias também notícias de mais um incidente com a central espanhola de Almaraz e registos de níveis elevados de radioatividade no norte da Europa. Face a este cenário, este encerramento é uma boa notícia e algo que se deve orientar também a política de desmantelamento futuro destas centrais nucleares, e daí o sinal verde.

Como dizia no arranque do programa, várias companhias aéreas europeias e americanas vão começar a receber ajudas dos diversos Estados para fazer face aos prejuízos provocados pela paragem forçada, provocada pela Covid-19. Os valores são na ordem dos muitos milhares de milhões de euros e levanta reservas não só do ponto de vista económico, mas também do ponto de vista ambiental. Catarina, se calhar começava por ti. Ajudas a um setor que é responsável por uma enorme percentagem de gases com efeito estufa. Faz sentido ou faz sentido com letras pequeninas no fim do contrato?

Faz sentido com letras bem grandes, as contrapartidas para este tipo de apoios, e quem diz aviação, diz também outro tipo de indústrias. No entanto, há que distinguir aqui dois

Há basicamente dois grupos de atividades. Aquelas que são muito intensivas em produção de emissões, que são altamente poluentes, e às quais nós podemos pôr esta condicionalidade de dizer: "OK, aqui está o dinheiro, mas têm que ter metas concretas que são de emissões e estas metas têm que estar alinhadas com o Acordo de Paris para evitar que o planeta aqueça um grau e meio acima disso que são as temperaturas históricas." Por outro lado, há o outro grupo de atividades ou de setores de atividade que simplesmente não têm lugar numa economia neutra em carbono. Portugal comprometeu-se com a neutralidade carbônica até 2050, mas aquilo que indica um trabalho da UNEP, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, é que toda a União Europeia vai ter que fazer o seu maior esforço de redução de emissões agora, nesta próxima década. Até 2030, deverá ser feita a maior redução de emissões. E infelizmente, a pandemia veio dar aqui um contexto em que, de facto, vão ser injetadas quantidades astronômicas de dinheiro na economia e isso devia ser aproveitado exatamente para alinhar uma série de setores com a neutralidade carbônica. É óbvio que, deixem-me só dizer isto, ninguém deseja que seja uma pandemia a procurar introduzir alguma desta condicionalidade, era preferível que fosse por intenção e não fruto simplesmente das circunstâncias. Por outro lado, infelizmente, não vemos grande compromisso ou grande vontade, seja dos Estados membros, seja da União Europeia, em impor grandes condicionalidades à aviação e a outros setores também, infelizmente.

Sofia.

Nós estávamos muito esperançosos que a pandemia, apesar de, como a Catarina disse, ser má, para já houve muito menos emissões durante a pandemia, e de facto os valores decresceram imenso, mas o que nós estamos a assistir agora é uma corrida àquilo que éramos antes ou ainda mais. Portanto, vai ser afinal uma desgraça. As estradas já estão cheias de carros, as pessoas já só pensam em viajar. Quer as pessoas e o seu comportamento e a maneira como se relacionam com o consumo, não que estão a dar grandes provas de que a pandemia as tenha feito refletir, como as próprias empresas e a economia está com um grau de inovação, acho eu, muito baixo. Eu acho que tínhamos que ser muito mais criativos, esta coisa da economia, como é que a economia vai recuperar e como e que tipo de economia que nós queremos, nunca conseguimos discutir isto bem, porque aparecem logo as estruturas e as infraestruturas muito rígidas daquilo que acontece quando não há determinado dinheiro produzido de determinada maneira e portanto a discussão é muito difícil. Mas acho que não podemos, de maneira nenhuma, não devíamos estar a dar estes apoios a empresas que continuam a poluir, portanto é um paradoxo. Também não devíamos estar a dar dinheiro a empresas que são controladas a partir de offshores, e nós fazemo-lo ao contrário daquilo que faz a Bélgica, a França, a Dinamarca ou a Polônia ou os outros países, nós não estamos a dar contrapartidas.

Mas deixa-me só tentar perceber o teu raciocínio.

E a mesma coisa com o ambiente.

Deixa-me só tentar perceber o teu raciocínio. Não dar de todo ajudas diretas a empresas que pela sua natureza são altamente poluidoras, como é o setor da aviação, ou dar ajudas indiretas para que o setor possa retomar a sua atividade, porque nós não podemos passar sem aviões, não é?

Podemos passar com muito menos aviões. É mais ou menos isso. Sim, não quero acabar com a aviação totalmente. Mas podemos baixar e muito, e nós já tivemos programas sobre isso, sobre o crescimento desmedido da aviação e que de facto não era necessário. Portanto, eu acho que há aqui, claro, isto está sempre um compromisso. Nunca é fácil saber onde é que está, e não é só a aviação, é também outras empresas. Se nós queremos fazer um esforço de descarbonização, e temos que fazer, temos que ser muito mais exigentes e não estamos a ser exigentes. E nestas épocas de crise, temos primeiro, parece que, oportunidade para pensar, mas depois quando há uma aberta, vamos correr que nem loucos e esquecermo-nos de todas as ideias que tivemos quando tivemos tempo para pensar. Eu acho que estamos já nesta fase, a correr como loucos, para ver se a economia fica exatamente como estava antes e em desgraça relativamente à relação com o ambiente.

Henrique, vamos querer obviamente ouvir-te. Sei que tens uma posição de princípio e de fundo sobre ajudas estatais a empresas.

Pois, digamos que a ideia de que falou a Catarina, de injetar dinheiro na economia ou na formulação da Sofia, dar dinheiro às empresas, é uma ideia que tem um pressuposto errado. O pressuposto de que o Estado injeta dinheiro na economia. Ora, isso não existe. O Estado não cria riqueza. O Estado não tem dinheiro próprio. Não há dinheiro do Estado, há dinheiro dos contribuintes. O Estado, o que faz, é retirar dinheiro da economia e eventualmente usá-lo de outra forma, talvez algum deles voltando a pôr na economia. Portanto, esta é a primeira questão. Atenção que o Estado não dá coisa nenhuma, nem injeta dinheiro na economia, coisa nenhuma. O Estado tira dinheiro da economia

Os impostos chamam-se impostos exatamente porque são impostos, não são voluntários, como é evidente.

Mas o que está previsto são ajudas diretas às empresas da aviação, não só em Portugal, mas também no resto do mundo.

Isso não é o Estado a injetar dinheiro na economia, nem a dar dinheiro a ninguém. Isso é o Estado a tirar dinheiro de um lado para pôr no outro.

A indiferir.

O Estado tira sempre dinheiro. Os impostos existem sempre. E portanto, é como é que ele o gere. Se gere desta maneira ou de outra.

Não, eu primeiro começo por discutir se o Estado precisa tirar tanto dinheiro como tira. Essa é a primeira questão.

Aí é outra questão.

Não é outra, é a mesma. Eu sou, por princípio, contra o apoio do Estado a empresas, todas elas. Quer por razões, como eu estou a dizer, que têm a ver com isto que eu expliquei, quer mesmo por razões ambientais. Essa distinção entre empresas poluidoras e não poluidoras é completamente artificial. O observador é poluidor, tal como a minha empresa.

Não há empresas poluidoras e não poluidoras. Tudo polui.

Exato, a atividade humana por definição polui.

Há o impacto ambiental que nós estamos dispostos a aceitar como parte do desenvolvimento e como parte do bem-estar e da prosperidade. Há outra parte de impacto ambiental que nós não estamos dispostos a aceitar. E é importante definirmos isso. A Comissão Europeia definiu isso como uma taxonomia verde, que supostamente distingue aquilo que são investimentos mais sustentáveis, e podemos depois discutir todos os critérios que são utilizados e as designações, a semântica da coisa. Mas isto está feito e existe, e tem esta finalidade, que é orientar os investimentos públicos para setores, atividades, projetos, que tenham um impacto ambiental menor e que seja mais aceito socialmente, e que faça parte também daquilo que nós achamos que deve ser o impacto ambiental da nossa vivência.

Uma coisa são projetos e atividades. Os projetos e as atividades podem ter impactos. E eu posso não querer apoiar aquela atividade e posso querer apoiar outra atividade. Isso pode ter critérios ambientais, como pode ter critérios, como tem-se obviamente, critérios sociais e por aí fora. Mas isso não é apoiar empresas ou deixar de ser empresas. Isso é apoiar atividades ou deixar de apoiar atividades. Não é injetar dinheiro na economia, volto a dizer, é o Estado tirar de um lado para pôr no outro. É preciso que tenhamos isto muito claro. É sempre tirar de um lado para pôr no outro. O que significa que ao estarmos a discutir as ajudas à aviação nas atuais circunstâncias, nós não devemos esquecer de onde é que veio esse dinheiro, quem são as atividades que estão a ser prejudicadas por essa injeção. Não é linear.

Mas o que vai acontecer é que o nosso déficit vai aumentar, não tenho a certeza que estejamos a tirar de outros setores. Estamos é a aumentar a nossa dívida.

Estamos a tirar de outros setores no futuro. Déficit é dívida futura. Não há outra maneira de resolver o assunto.

Mas termina só o teu raciocínio, Henrique, por favor.

O que eu estou a dizer é que tanto quanto possível, o Estado não deve apoiar empresas e não deve distingui-las sobre se são mais poluentes ou menos poluentes, porque a questão não é essa. Elas podem ter atividades poluentes. Em que é que um banco que financia a aviação é menos poluente que a própria aviação? E os bancos financiam a aviação. Aliás, um dos problemas do setor da aviação, e por isso está a recorrer ao Estado, é que o setor financeiro não está disponível para pôr dinheiro na aviação, porque naturalmente a aviação está com um problema de mercado muito grande e não vai ser fácil aguentar aquilo tudo. E portanto, o que nós estamos aqui a tentar resolver não é a aviação ser poluente ou não. A aviação é tão poluente como qualquer outra atividade e na verdade tem diminuído a sua pegada carbônica e continuará a diminuir. Há mais aviões, pois há, porque as pessoas querem viajar mais. A ideia de que nós definimos o que é que é... eu não tenho nada contra o fato da Sofia não querer andar de avião. O que eu não percebo é por que estamos a discutir no pressuposto de que alguém tem o direito de me dizer a mim se eu ando ou não ando de avião.

Isso é que vai ter que ser uma grande mudança na maneira como nós encaramos a nossa liberdade pessoal. E aquela ideia sempre básica de a minha liberdade acaba onde começa a tua liberdade. E com o ambiente, isto começa a ser mais ou menos real.

Isso dá-te o direito de me dizer a mim o que eu tenho que fazer.

Não, dá o direito a mim, não. Dá o direito ao Estado. Não dá o direito a mim, que eu sou a Sofia.

Qual Estado? Quem é o Estado para me dizer a mim se eu fumo ou se não fumo?

Não sou eu que vou determinar onde é que acaba a liberdade dos outros. Mas de fato, se nós vamos levar isto a sério das alterações climáticas e de outros problemas ambientais, de fato o mercado não pode ser livre e as pessoas não podem ser livres totalmente. Mas isto eu e o Henrique nunca vamos concordar. Quem faz as leis não sou eu, não sou eu que vou obrigar.

Mas reside também aí a beleza deste programa. Temos que fechar a primeira parte.

Deixe-me só fazer uma pergunta muito concreta: mas de quem são as maiores asneiras ambientais do país? Quem é que fez Alqueva? Quem é que está a querer fazer Montijo? Quem é que fez as autoestradas? Não foi o Estado? Por que estamos a partir do princípio que o Estado sabe gerir melhor que eu, do ponto de vista ambiental, eu e a economia, aquilo que se passa. Se forem fazer a lista das maiores barbaridades ambientais no país Têm todas a mão do Estado.

Mas o Estado só faz aquilo que nós queremos também. É o Estado que deve regular, mas nós, como cidadãos, não nos podemos demitir de fazer pressão para que o Estado regule. Mas por isso é que também existem tratados internacionais. Não é o Estado português só que pode fazer tudo. É mais uma discussão.

Tenho mesmo que fechar a primeira parte do programa. Já a seguir a música de elevador. E a música de elevador é escolhida esta semana pela Catarina Grilo, é o que designas de absolutismo sanitário, que para ti, a pretexto da pandemia, Catarina, está a provocar atropelos ambientais. Pedia-te 30 segundos.

Sim, isto é uma constatação destes últimos tempos, destes tempos estranhos que temos estado a viver desde o início da pandemia e quando entrámos todos em confinamento, é que abundam e quase todas as semanas há novos exemplos de como, a pretexto de parar a propagação da pandemia e de garantir que não há mais infectados, que não há mais mortos, que são objetivos nobres, mas que estão a tornar-se um bocado absolutistas. Ouvimos exemplos de pulverização de estradas, desinfeção de estradas e de ares. Agora, há exemplos de ATL que são feitos ao ar livre, querem obrigar as crianças com menos de 10 anos a usar máscaras. Há a utilização de descartáveis sem critério em cabeleireiros, cafés, restaurantes, locais de trabalho, sem haver necessidade sanitária para isso. E asfaltou-se uma duna primária, a pretexto da pandemia, porque a Câmara de Almada tinha que regular o estacionamento, atropelando tudo que é lei, atropelos ao bom senso. E infelizmente, o que isto quer dizer é que com este absolutismo sanitário e esta vontade de parar toda e qualquer propagação, vamos pagar uma cara fratura ambiental dentro de alguns tempos e algumas delas já temos vindo a verificar e temos falado também neste programa.

Muito bem.

Obrigado, Catarina, pela ilustração fantástica do que eu estava a dizer sobre o papel do Estado no ambiente.

Muito bem.

Por acaso em alguns casos é por ausência de Estado.

Estamos de acordo.

Acaba muito mais de acordo.

Não, nós estamos de acordo em algo.

Acaba em concórdia. Fim da primeira parte, regressamos já a seguir a uma curta pausa. Segunda parte do Som Ambiente, recebemos Francisco Almeida Garreto, engenheiro agrônomo, produtor agrícola no Conselho de Avis, premiado por uma prática única, o regadio de sobreiros. Já vamos saber de que se trata e que ganhos se obtém com esta técnica. Francisco Almeida Garreto, muito obrigado por ter vindo ao Som Ambiente desta semana.

Boa tarde, obrigadinho por me contatarem e procurar saber o que se trabalha aqui.

Muito bem. O Francisco é um conhecedor do montado, um ecossistema que domina grande parte da paisagem sul do país. Por que diz que o montado perdeu produtividade? E a que se deve essa perda de produtividade?

O montado perdeu produtividade porque está mais ralo, há menos árvores por hectare e as que há estão velhas. E como estão velhas, também produzem menos e cortiça de menor qualidade. Isso é devido a várias causas, mas fundamentalmente, eu diria que uma parte devido à introdução da mecanização dentro do montado, outra parte devido ao excesso da carga pecuária no próprio montado e também devido a algumas más práticas em que ao se pretender ou julgar-se que ter um montado bem tratado é tê-lo limpo, sem cobertura, seja herbácea, seja de arbustivas, que é um montado bem tratado, quando assim está-se a matar o capital que é as árvores. É fundamentalmente isso.

Francisco, só referiu a cortiça, mas há montado de sobro, há montado de azinho e sempre houve pastoreio associado ao montado. Isso faz sentido?

Faz sentido, desde que as cargas não sejam as que se usam atualmente. Quer dizer, o problema é a quantidade de gado estacionário em áreas pequenas. Dantes havia um pastor que ia atrás do gado e o gado era menos, e o gado dormia fora do montado. Agora fecha-se num parque, fica lá até raparem tudo.

E os outros produtores não têm essa mesma perceção? Além disso, gostava de fazer outra pergunta, se o gado é igual ao que era antigamente.

Não, o gado é diferente. Dantes, aqui no Alentejo, eu lembro-me que disseram, mesmo enquanto era miúdo, o gado bovino era de trabalho, não era de carne, ou não se aproveitava pra carne. E o único gado que andava no montado eram o gado ovino e o gado caprino, mas com menos carga por hectare, quer dizer, eram muito menos animais por hectare. Hoje em dia Isso é muito mais e isso tem efeitos sobretudo na regeneração natural.

Portanto, o que o Francisco Almeida Garrett está a dizer é que em nome da agricultura, de uma agricultura que nós, país, estamos a produzir nesta altura, estamos a correr o risco de destruir um ecossistema, o montado?

Se não houver alguma modificação, ele vai diminuindo. A maior parte está velha e zonas que eram grandes produtoras estão a decair, quer em quantidade, quer em qualidade.

Desculpa, Sofia. É mais visível onde, isso, Francisco?

Eu acho que isso é visível um pouco por toda a parte, um pouco por toda a área do montado, porque se verificarmos que nos anos 40, 50 do século passado, se produzia na mesma área o dobro da cortiça que se produz hoje.

Mas a cortiça não é uma cultura altamente produtiva e os produtores, agora passo o pleonasmo, não têm toda a vantagem de ter cada vez melhores sobreiros e cada vez melhor cortiça? Não é daqueles poucos rendimentos florestais que vale mesmo a pena ter.

É uma poupança forçada, mas o rendimento por hectare é baixíssimo. Se considerarmos o rendimento por hectare, ele é baixo. Isso é uma das razões porque também hoje em dia, através das heranças e da divisão das propriedades, as pessoas não conseguem viver exclusivamente do montado, portanto vão procurar outras atividades fora e perdem a noção desta cultura, que é uma cultura transgeracional e que se aprende de geração para geração. Eu tenho que estar a investir para os meus netos. Tradicionalmente é assim.

Então e quais são as alternativas em termos de rentabilização do montado? O que fazemos então? Se eu for proprietário, o que eu devo fazer?

O que deve fazer? Não deve limpar o mato, que é para ele proteger as jovens plantas e que permite que elas se desenvolvam e também retirar, numa rotação alargada, o efetivo pecuário do montado.

Mas os agricultores não sabem isso? Se o Francisco sabe, por que eles não sabem?

Eu não estou na pele deles pra responder, não sei.

Então deixa eu te fazer uma pergunta mais direta. O Francisco tem montado, tem vinha, tem olival e tem eucalipto. Bem sei que os seus eucaliptos, tanto quanto sei, não estão nas zonas melhores pra eucalipto, mas ganha mais dinheiro com o montado ou com o eucalipto?

No meu caso, ganho mais dinheiro com o montado do que com o eucalipto. Mas acho que é um caso diferente, porque o eucalipto onde eu tenho, são zonas marginais e que os crescimentos são baixos.

Eu tinha lido que o Francisco é pioneiro da rega do sobreiro, como o sobreiro é uma árvore que nunca foi regada, provavelmente em toda a história, isto é uma grande inovação regar sobreiros. Quer falar um pouquinho sobre isso?

Não, com certeza. A grande vantagem de regar os sobreiros é que a gente chega à fase produtiva, que tem valor comercial, em metade do tempo do que se não regasse.

E nos ciclos produtivos também? Deixa de ser de nove em nove anos?

Não, espera-se que não. Isso dependerá, porque para já é impossível devido à legislação existente. E depois, resta saber se as qualidades da cortiça regada assim, são exatamente iguais às dos nove anos. Portanto, há uma ideia que é de, de facto, ao regar, chegarmos rapidamente à cortiça amadia, mas depois entrar no ciclo normal até, às vezes, retirando a rega ou desmamando essa própria rega.

Então nunca regou sobreiros já velhos?

Já reguei sobreiros já velhos, porque na minha experiência também tenho esses sobreiros já velhos.

E o que aconteceu a esses sobreiros mais antigos? Quando regou.

A cortiça cresceu e cresceu o dobro do que cresceria sem rega.

Mas o dobro em espessura ou em tempo?

O dobro em espessura.

Ah, então em tempo.

O dobro em espessura.

E é metade do tempo ou no mesmo tempo?

Consegue-se ter cortiça com calibre suficiente pra fazer rolhas em cinco anos. Isso consegue.

Poderá ser este o futuro do montado português ou de parte do montado português, regá-lo?

Não é todo, porque isso deixa de ser montado. Para regar, nós temos ter uma certa produção por hectare e isso consegue-se com densidades maiores. E aquilo que eu fiz foi em terras adequadas, instalei 18 hectares num compasso de quatro por quatro de sobreiros.

Qual é o compasso habitual? Que as pessoas não sabem.

Não sabem. São 80 árvores por hectare, e aqui estamos a falar 80 a 120 é o normal. E aqui estamos a falar de 625.

Portanto, é um montado intensivo.

É um montado intensivo.

E as copas depois não se juntam?

Eu acho que não deve ser pastoreado. Eu acho que sim, que se deve aproveitar o fruto, mas colhendo, não é bem colhendo, é apanhando. Isso, sim.

Mas depois as copas não se juntam quatro por quatro? Junta, não? Quatro metros.

Não.

Quando diz quatro por quatro, três metros?

Não.

Não fica tudo em sombra por baixo?

Mas isso é o ideal no montado, é ter tudo em sombra.

Tudo em sombra? Ok.

Francisco, e relativamente à questão da utilização da água, como é que vê esta forma de produção, portanto, com o montado irrigado, face aos cenários de alterações climáticas e de maior escassez futura?

Digamos que das culturas de regadio deve ser a que gasta menos água por hectare, porque em média vamos regar 17 semanas, e aquilo que se vai gastar por hectare/ano é menos, de certeza, do que 2500 metros cúbicos por hectare. E se a gente considerar milho ou mesmo luzerna.

Ou amendoeiras.

Se a gente for comparar com amêndoa ou com nozes, é um quinto.

E para além da irrigação da água, tem outros inputs para o montado ou fertilizantes?

Não se fazem omeletes sem ovos.

Há alguma alteração nas quantidades utilizadas face ao uso da água, à necessidade de utilizar água, alguma função entre uma coisa e outra ou não?

A água é dada, e no meu caso, é dada em função de sondas que estão instaladas e que a gente aprende a regar naquele terreno, porque nem todos os terrenos são iguais. Há que aprender a regar em cada terreno, com diferentes dotações e intervalos entre elas. Tudo depende disso. A quantidade é mais ou menos a mesma, mas também há que recorrer à fertirrigação e dar todas as condições e às árvores. Há aí um caminho enorme a percorrer ainda, porque inclusivamente do ponto de vista da qualidade da cortiça, através das práticas culturais, pode-se influir nisso. Antigamente também se dizia que o azeite proveniente dos olivais intensivos e super intensivos não prestava, o vinho de vinhas irrigadas também não prestava e não é verdade. Portanto, aqui também temos que aprender a ver o que é necessário para ter boa cortiça, rolhável, que dê boas rolhas, que é o produto principal, através das práticas culturais.

Com o olival intensivo, não há uma depauperação dos solos e um ciclo de vida das árvores mais curto?

Não. Se a gente trabalhar em produção integrada, está-lhe a dar apenas aquilo que as árvores necessitam. Não se está a extrair nada, está-se a repor as coisas. E se fizermos então com culturas melhoradoras na entrelinha, ainda melhor.

Francisco, já agora, mudando só um bocadinho, porque eu fui uma das propriedades, como sabe, foi com a Montes. E na altura, tenho ideia que o Francisco me tinha dito que tinha trocado, digamos assim, os rendimentos da caça naquela propriedade pelos rendimentos da visitação associada à conservação da natureza. Primeiro, é assim ou não? Segundo, se isso continua a ser interessante para si

Não, a caça continua a ser interessante e foi através da caça e através do turismo, que são ingressos, hoje em dia, muito importantes. Este ano, não.

Calculo que não.

O turismo.

Mas uma parte do seu turismo não é só caça, há uma parte relacionada mais-

Há uma parte só para visitar o montado. Há quase 10 anos que veio crescendo. Um operador americano que este ano tinha 45 grupos, com uma periodicidade, vinham duas vezes por semana, de abril a fins de junho e de princípios de setembro até fins de outubro. Portanto, eram mais de mil pessoas que vinham visitar aqui o montado.

Americanos.

Fundamentalmente americanos, mas vêm de outras nacionalidades.

E os portugueses não se interessam também por fazer esse tipo de visitas? Não costuma ter visitas de portugueses, seja aí da região, seja de outras partes do país?

Tem, de vez em quando, mas muito menos.

Mas essa é a questão.

O português não gosta de pagar.

Essa é a minha questão. Isso, de facto, representa, nas contas da sua exploração, uma fatia?

Isso pagava a minha folha de salários durante esses meses todos. Globais, de todas as atividades. O turismo.

Ou seja, pesa?

Pesa. Agora ando aqui a fazer ginástica com a tesouraria por causa desta brincadeira do Covid.

Francisco, só para perceber também um bocadinho melhor os diferentes pontos de rendimento. Tem o olival, tem o eucalipto, tem o montado, portanto, tem cortiça, tem as visitas, tem a caça.

Falta o vinho, tem um vinho ótimo.

E tem vinho, pronto. Mas isto é uma escala que não é assim tão comum no país, ou é?

Existe mais e nós não somos grandes em nada. E graças a Deus que no vinho somos pequeninos, porque senão estava muito mal hoje, porque as vendas caíram a pique. No turismo, também caíram a pique. Os caçadores, desde abril, agora têm vindo. Todas as semanas tenho tido caçadores.

Caçam o que aí?

Aqui eu só tenho caça maior, portanto, corços e javalis.

Deixe-me fazer uma pergunta sobre essa queda das vendas. No vinho, diz que caiu. Suponho que tenha a ver com o fecho dos restaurantes, suponho eu.

É, fundamentalmente.

E no azeite?

O azeite não caiu porque eu vendi tudo no cedo.

Atrás.

A granel para fora.

Está bem.

Antes.

Exportei.

Antes do Covid.

Em, digamos, a safra do ano passado, portanto.

De dezembro, não é? Final do ano.

De dezembro, não, de outubro a dezembro. Eu vendi em outubro, vendi no cedo toda a produção, a granel. E apenas guardei, eu vendo muito pouco com marca própria, e é mais por carolice.

Ao contrário do vinho, não compensa, é isso?

Não compensa, porque o consumidor não é fiel, no azeite. A dona de casa que vai comprar o azeite, sobretudo na prateleira do supermercado.

Eu confirmo, esta dona de casa confirma. Não sou nada fiel às marcas.

Hã? Diga.

Esta dona de casa confirma que não sou nada fiel às marcas do azeite. É verdade, sou mais fiel ao preço.

São mais fiéis ao preço e depois o azeite tem esta coisa, que há uma pouca cultura do consumo do azeite. O azeite oxida-se muito facilmente e pega todos os cheiros e sabores. Portanto, não é como o vinho, que a gente abre uma garrafa e se não beber, sabe que passado três ou quatro dias tem que deitar fora, não é?

Francisco Almeida Garrett, para concluir, que nós não temos mais tempo.

Está bem. No azeite é diferente. Muitas vezes abre-se o azeite e se for um azeite caro, a gente não usa logo todo. E então depois quando volta a usá-lo, ele já está oxidado ou estragado porque não esteve nas boas condições. E depois as pessoas, às vezes, gostam de ver aquilo que compram e veem, compram o azeite numa garrafa branquinha. E uma garrafa branquinha, à luz, aquilo oxida-se. Eles têm que ser em garrafas muito estreitas e pretas, que não se pode ver o produto. Enfim, isso não está esclarecido.

Todos os negócios têm as suas manhas, digamos assim.

Mas digo-lhes que tenho vários restaurantes que me compram em garrafão o meu azeite e esse também caiu um bocado.

Imagino que sim. Francisco Almeida Garrett, muito obrigado por ter vindo ao Som Ambiente esta semana. Não temos mais tempo, infelizmente.

Grande abraço a todos.

Obrigado.

Obrigado.

Som Ambiente que regressa para a semana. Adeus, Catarina, Sofia e também Henrique.

Adeus.

Até à próxima.

Este programa tem o apoio de Renault Ecoplan.

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