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Quando falo, descubro mais sobre me e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou preste atenção, tenho cada vez mais a certeza que somos todos malucos. Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um episódio de Intermédios. Se estão a ver isto no YouTube, eu estou num quarto de hotel em Évora, porque ontem-- estou a gravar isto no sábado. Ontem, sexta-feira, estive a atuar aqui com o meu querido amigo Vasco Correia e o meu querido amigo Jorge Serafim, um contador de histórias com muita graça e o Vasco, um amigo de longa data, com muita graça também. Vim aqui experimentar umas piadolas. O meu espetáculo Volto Já, já sabem, continua por aí. Estive em Setúbal com uma bela casa e um belo público e reforçar que agora fim de maio, início de junho, vai ser um mês intenso, com muitas datas, com destaque pra data de Lisboa. Por quê? Porque é uma sala muito grande. Eu gostava de encher aquilo, se calhar aqui posso até de gravar aquilo ao vivo. Já esgotou uma vez em Lisboa. Eu gostava que esgotasse esta, passem a mensagem, se querem ser meus amigos. Eu sei que parece que eu estou a pedinchar, e estou a pedinchar. Estou, na realidade, porque a sala é muito grande e era fixe aquilo estar mesmo completo. Dito isto, do que eu gostava de falar hoje? Um tema que me lembrei, que me lembrei no sentido, porque alguém estava a dizer-- já não me lembro quem é que me disse isto. Acho que foi um convidado até do PodCast. Eu acho que foi o José Borralho, na conversa sobre o medo. É um tema que é muito conhecido, que é: nós somos muito o reflexo dos nossos pais. E eu gostava de saber o que vocês foram buscar aos vossos pais. Gostava que pensassem um bocadinho, o que foram buscar aos vossos pais e, sobretudo, o que foram buscar aos vossos pais de mau. Não de bom. Eu de bom não fui buscar nada, eu só fiquei com o mau dos meus pais. Mas eu gostava que pensassem: o que vocês foram buscar de mau aos vossos pais? Havia uma frase que a minha mãe me dizia e que eu odiava, porque sempre que eu fazia alguma porcaria, a minha mãe dizia sempre: "És tal e qual o teu pai". Que era a pior coisa que ela me podia dizer, porque era isso, era só pro mal. Quando eu fazia alguma coisa bem, era meu rico menino. Meu rico menino, mas não fazia referência nem ao pai. Também vou ser justo, também não fazia referência à mãe. Mas isto era a coisa que eu mais odiava, até eu começar a fazer as pazes com esse tema. Porque eu tenho muita coisa, é muito engraçado, eu tenho muita coisa do meu pai. O meu pai era um homem, e se calhar vocês vão se identificar com isto, alguns. Meu pai era um homem supertalentoso na música. Era metalúrgico, trabalhava, fazia coisas incríveis em ferro. O meu pai construiu uma casa sozinho, com os meus primos e o meu irmão e tios, isso tudo. Mas meu pai não é arquiteto, não é engenheiro e projetou uma casa que ainda hoje tá de pé e que nunca teve problemas de maior. O meu pai era um engenhocas, na realidade, mas depois também era narcisista, superautocentrado, sempre a pensar em desgraças. Meu pai era tudo uma desgraça, era tudo uma tragédia na vida dele. Tudo era mau, tudo era terrível, tudo era uma desgraça prestes a acontecer. Era o arauto da desgraça, o meu pai. Sempre a avisar o que podia correr mal. Não era o que podia correr bem, era o que podia correr mal. Igual, naturalmente, acho que fui buscar muita coisa aí. Eu não me lembro do meu pai. Eu já partilhei isto aqui, eu gostava muito de desporto. E pra vocês verem como era o meu pai. O meu pai achava sempre que tinha razão em tudo e que ele é que sabia tudo. E há uma vez, eu era puto, eu queria fazer caratê, e eu lembro de ir ao ginásio de caratê nos Olivais, porque eu queria fazer caratê. Meu pai: "Então vamos lá ver uma aula de caratê". Ele estacionou o carro, parou o carro, eu olho lá pra dentro, ia sair e meu pai: "Não, não saias". E eu olho lá pra dentro e vejo os putos vestidos de branco lá ao fundo, e eu lembro de olhar e ficar com aquela excitação. E meu pai foi lá dentro, passado um bocado volta e diz-me assim: "Aquilo não presta". E fomos embora. Eu nunca sequer cheguei a entrar naquela escola, naquela academia, naquele dojo. Eu nunca entrei naquele dojo, porque o meu pai foi lá, meu pai que nunca fez arte marcial nenhuma, nem desporto. Eu acho que o meu pai nunca fez desporto nenhum. O meu pai achou que era uma porcaria e veio embora. Mas depois achava que era o maior em tudo, que sabia tudo. Eu tinha uma piada que fazia, que era: o meu pai falava muito dos tempos da guerra e quando alguém mais velho falava da guerra, eu tive tios que tiveram em Angola e na Guiné, nos Comandos. E quando eles falavam da guerra, e o meu pai: "Sim, o tempo da guerra, muito complicado o tempo da guerra". O meu pai esteve na guerra, sim, na banda. O meu pai nunca pôs os pés no mato. O meu pai nunca foi pra África sequer, o meu pai tava na banda a tocar clarinete. Mas aquilo pra ele porque os calos que aquilo fazia nos dedos. E o meu pai era esta pessoa. E o que eu herdei do meu pai?Eu acho que herdei a parte genética do meu pai, que era obsessivo-compulsivo. Eu olho para trás e a minha tia, irmã do meu pai, também era obsessiva-compulsiva clássica, com medos de contaminação muito claros, mas ninguém sabia na altura. Portanto, na parte genética, eu herdei esta questão da perturbação obsessiva-compulsiva. Herdei o arauto da desgraça. Eu também estou sempre a pensar em desgraças, sempre a pensar naquilo que vai correr mal e que pode correr mal. Mas eu acho que isto também está relacionado com a perturbação obsessiva-compulsiva. Herdei esta parte. Herdei, se calhar, a questão de refilar com tudo e ser muito bruto. Claro que isto é assim, estamos aqui nas hipóteses. Eu tenho a minha própria personalidade, mas eu acho que isto é quase um exercício que estamos aqui a fazer. Eu acho que posso ter herdado estas questões do meu pai. A minha mãe era uma pessoa superbrincalhona, mas eu vou tentar ir para as partes negativas e depois falo também as positivas de um e de outro. Mas a minha mãe era superbrincalhona, por exemplo. Gostava muito de brincar, era muito trabalhadora, muito disponível e não sabia dizer não. E é isto. Eu acho que da minha mãe é a dificuldade em dizer não e a facilidade em perdoar os outros. Por que eu acho que isto é negativo, o perdoar os outros? Hoje eu já não acho. E também já posso explicar porquê, mas a minha mãe, por exemplo, sempre foi muito dada aos outros e foi muitas vezes "abusada" pela sua capacidade de querer ajudar os outros ou de aceitar os erros dos outros, e foi muitas vezes abusada nesse sentido. Muito abuso de confiança. Eu vi pessoas que eu me lembro de tratar a minha mãe, depois de ter feito muitas coisas por essas pessoas, de a tratarem mal. E eu saber que a minha mãe, coitada, não tinha culpa. A minha mãe doente, sempre disponível para os outros. Ou seja, eu acho que a minha mãe não se soube proteger e acreditava sempre, de alguma maneira, no melhor dos outros. E eu acho que herdei um bocadinho disto. E por que isto pode ser mau? Pode ser mau porque de alguma maneira nos desgasta. Porque é que eu disse há pouco que o perdoar hoje não acredito que seja um problema? Porque eu hoje consigo perdoar os outros, mas eu compreendo que não é um perdoar de: "Coitadinha". Não, aquela pessoa pode ter feito mal, pode ter me irritado, pode ter feito algo com o qual eu não concordo, mas eu aceito que é o processo dela. Isso não tem nada a ver comigo, e eu vou, se calhar, estar perdoada. Posso manter algum distanciamento e se essa pessoa me vier pedir alguma coisa, alguma questão, eu já sei com o que é que posso estar a contar. É mais neste sentido de perdoar e de proteção. E é a dificuldade em dizer não, que eu acho que também teve a ver um bocadinho com a minha mãe. A dificuldade em dizer não, em aceitar tudo, em querer agradar aos outros. Eu tenho isso ainda muito presente. Estas são as principais coisas que eu acho que herdei de má dos meus pais. E gostava de saber também, nos comentários, aquilo que vocês herdaram de mau dos vossos pais. Mas o interessante disto é que hoje há coisas, e é engraçado porque eu até há uns anos, antes de entrar neste tal processo de autoconhecimento, essas coisas todas, cada vez que eu identificava em mim traços do meu pai, eu ficava revoltado, porque era aquela coisa do: "És tal e qual o teu pai." Ficava revoltado. Às vezes, até com trejeitos. O meu pai tinha trejeitos com a boca, fazia um jeito com a boca quando estava a fazer qualquer trabalho manual, tinha um jeito com a boca, e é um jeito que eu repito muito. Às vezes o estar a falar sozinho é uma coisa que eu repito muito. Eu lembro quando eu comecei a conduzir, o meu pai conduzia e agarrava a manete das mudanças e fazia sempre assim: tac, tac, tac. Para quem está a ouvir o podcast só, abanava a manete das mudanças para ver se estava em ponto morto. Sempre. E eu me lembro da primeira vez que eu conduzi um carro, a primeira coisa que eu faço foi isto, porque era isto que eu via o meu pai fazer todos os dias. E eu fiquei irritado, porque era mais uma coisa do meu pai. Hoje em dia, com todo o trabalho que eu faço, os trejeitos que eu herdo do meu pai, eu sorrio. E eu acho que essa é a principal diferença. Eu sorrio, porque aceitei-os como fazendo parte de mim e, sobretudo, aceitei os traços mais negativos, o achar que vai correr tudo mal, que é tudo uma tragédia, o ser mais irritadiço. Ou seja, quando nós os reconhecemos, estamos a tomar consciência deles. Portanto, se estamos a tomar consciência, é um passo importante para ou poder mudá-los, ou poder aceitá-los, ou poder integrá-los e mudando algumas coisas. E isso, para mim, é o mais interessanteE é manter vivo em mim o meu pai e a minha mãe, que com todas as suas questões, são pessoas que foram importantes na minha vida, porque de alguma maneira aquilo que eu sou hoje também devo aos meus pais, com tudo aquilo de mau que também me trouxeram, pelo facto de eles estarem a fazer o seu melhor. Eles estavam a fazer o seu melhor, tal como eu vou deixar más influências para as minhas filhas, certamente, e se calhar elas vão ter trejeitos meus e coisas minhas que não vão gostar. Mas a partir do momento que eu acho que nós aceitamos que eles estavam a fazer o melhor que sabiam, podemos trabalhar essas coisas. E isto é perdoar, mas não é fazer o papel de corno, no sentido: "Coitadinhos, é assim." Não! Já terapeutas me disseram isso: "O teu pai fez coisas más, que podia ter feito melhor." E eu compreendi isso e aceito, e está tudo bem. Mas não conseguiu, por várias razões, que eu nunca vou saber. Não conseguiu. Então, a partir do momento que eu tenho esta consciência, bola pra frente. E poder trabalhar essas coisas. E então hoje, quando a Catarina brinca comigo e eu estou a fazer os trejeitos do meu pai, eu sorrio. Ela chama-me a atenção no gozo, na brincadeira, e eu rio-me. Quando eu sou mais bruto às vezes, rio-me, porque estou a lembrar do meu pai. E quando é um bruto, obviamente, não é um bruto agressivo, é um bruto por natureza, de casca grossa. Mas também é importante, no meio disto tudo, lembrar as coisas boas que nós trouxemos dos nossos pais. E se há algo bom que ficou do meu pai, é a capacidade que o meu pai tinha de desenrascanço. Como eu vos digo, o meu pai era um inventor por natureza e eu lembro-me de o ver trabalhar, e ele explicou que era isso que ele gostava de fazer. Então quando há pequenas coisinhas para fazer em casa, eu consigo orientar, arranjar, seja questões elétricas, muitas vezes, seja improvisar mecanismos, seja o que for. E eu quando estou a fazer isso, eu estou a fazê-lo com o meu pai. É engraçado, quando estou a fazer essas coisas, eu sinto que estou a fazê-las com o meu pai ao meu lado. A minha mãe era costureira. Eu hoje sei costurar. A minha mãe ensinou-me a passar a ferro, portanto, coisas práticas. Mas eu acho que grande parte do meu humor também é graças à minha mãe, ao seu sorriso, à sua capacidade de rir, mesmo nas situações mais adversas. Eu não quero que isto pareça mal, mas a sua bondade. A minha mãe era uma pessoa boa. E eu faço voluntariado, eu procuro ajudar pessoas, eu acho que isso também tem muita influência da minha mãe. E eu procuro, de alguma maneira, passar isso também às minhas filhas, através de exemplos, não do: "Olha, vais ter que fazer isso, vais ter que fazer aquilo." Não, a minha mãe não me dizia essas coisas, a minha mãe fazia. E eu percebi que a minha mãe estava disponível para os outros. Portanto, essa coisa que muitas vezes lhe fez mal, essa tal sua disponibilidade, também era uma das suas maiores virtudes, que eu hoje também sinto que em grande parte é dela. Eu acredito que uma parte das pessoas que me estão a ouvir, que não se lembram dos seus pais ou porque eles partiram muito novos, ou porque nunca conheceram o pai, ou porque nunca conheceram a mãe. Mas eu também já tive no meu consultório pessoas que nunca conheceram o pai e que as mães referiam que eles tinham muitas coisas dos pais e também, às vezes, infelizmente, muitas destas questões relacionadas, de ser más. E eu acho que o importante é nós tomarmos consciência que a nossa história, seja ela com pais vivos, com pais que já partiram, com pais que nunca conhecemos, pode ter toda esta influência, influência desconhecida, seja através da genética, seja através da epigenética, seja através de algo mais energético, seja o que for, mas que isso não tem obrigatoriamente que nos definir. E que nós podemos usar isso a nosso favor, porque eu acho que quando nós começamos a tomar consciência que criamos a nossa própria história ou que podemos trabalhar a nossa própria história, isso dá-nos essa liberdade de saber o que nós queremos herdar. Ou melhor, nós herdamos várias coisas, mas saber o que nós queremos utilizar na nossa vida. E eu acho que isso é o mais importante, independentemente daquilo que nós vivemos para trás, independentemente de qual seja a nossa história, o nosso background, ela faz parte de nós, mas a partir do momento que nós tomamos essa consciência, nós podemos trabalhá-la, podemos aceitá-la, podemos seguir caminho, podemos melhorá-la, podemos aproveitar o que foi importante, podemos colocar de parte, de forma consciente, aquilo que já não nos interessa e construir o nosso próprio caminho, também com a ideia de que nós vamos influenciar muita gente e, se calhar, provavelmente, como aconteceu com os nossos pais, quer vocês se lembrem, quer não, influências e tomar decisões que nós achamos que estamos a tomar por bem e que depois, só mais tarde, é que percebemos que afinal não foram assim tão boas. Porque isso faz parte, lá está, porque todos nós estamos a fazer o melhor que sabemos, com a bagagem que temos. Portanto, é este o processo disto que é viver. Muito obrigado por estarem desse lado. Acho que isto fica uma boa reflexão para esta semana e para todos nós. E muito obrigado por estarem desse lado. E até para a semana, para mais um "Intermédios". Já sabem, quarta-feira, novo episódio. O episódio desta semana é sobre experiências de quase morte. É uma história muito interessante. Estejam atentos, sai quarta-feira. E já sabem, todos os espetáculos do "Volta Já" em antonioraminhos.pt. Conto com vocês. Até para a semana. Quando falo, descubro mais sobre mim e quando escuto, compreendo mais os outros. Mas quer abra a boca ou presta atenção, tenho cada vez mais a certeza de que somos todos malucos.