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Olá! Sejam muito bem-vindos a mais um episódio de "Terapia de Casal", que é o podcast que é feito por mim, Guilherme Fonseca, e pela minha mulher, Rita da Nova. Diz olá.
Estou um pouco assustada. O que está a passar? O que é essa vozinha?
Estou a experimentar vozes novas.
Olá!
Uma pessoa não pode experimentar entoações diferentes? Sempre a mesma entoação. Eu agora quero experimentar tons de voz diferentes. Não posso?
Podes. Estás muito bem disposto.
Olá, meu nome é Guilherme Fonseca, comigo está a minha esposa, Rita da Nova, autora e chata profissional, que no outro dia me mandou uma mensagem a dizer assim, eu vou passar a ler.
Eu tenho que ter cuidado com o que eu te mando.
"Amorzinho, controla as horas a que eu chego. Se eu não estiver às 20h00 em casa, vai ao Find My iPhone".
Estás a ler mal. Estás a ver? Não foi "marido, controla as horas a que eu chego". Não foi nada disso.
Não é eu quero que tu sejas um marido abusivo, apesar de lendo o texto é isso que parece. "Controla as horas". Lê lá então a mensagem.
Vou passar a ler. Vou encontrar, porque tu nem sequer te deste ao trabalho.
Por quê?
Dirá as mensagens.
Não, eu apontei.
Não, não foi "controla-me". Espera aí, que isto é interessante, falámos muito.
Então procura por "Taken".
Ok, tens que ir lá. Isto porque eu estava a vir de metro pra casa.
Saíste do metro e estavas a fazer o que falta a pé até a nossa casa.
O que falta a pé, que passa-se ali por uma zona esquisita.
Há umas escadas com mau aspeto.
Exatamente.
Sem dúvida nenhuma, concordo.
E eu disse: "Vou-"
Olha.
Olha, mas o que é que se passa aqui?
O que é mais perigoso, as escadas ao pé da nossa casa ou a nossa sala? Houve boa cena de porrada aqui agora.
Ya.
Pronto, já passou.
Ok. Eu disse: "Cheguei à estação de metro".
De metro.
"Se não estiver em casa até às 20h00, vê onde estou no Find Me". Não foi "controla-me aí o meu percurso para casa". E tu disseste: "Que dramático, de repente estou no Taken". E eu só disse: "Aqui se vê que eu sou mulher e tu és homem. Eu acho sempre que vou ser violada e assaltada naquelas escadas".
Pois, e eu pensei: "Continuo a fazer piadas?"
Porque já estava escuro. Ou seja, se for durante o dia, eu não te estou a dizer para controlares o caminho, mas à noite, como eu sei que eu demoro mais ou menos oito minutos desde lá até aqui, e eram 19h45 quando estava a caminho de casa.
Mas foi muito no sentido de "se eu às 20h00 não estiver em casa, procura-me no Find Me". Até já.
Não foi assim.
I'm going under.
Não, eu acho que as mulheres que estão a ouvir isto vão compreender.
Repara, eu sou homem e também compreendo.
Olha, tenho usado muito o Find Me.
Ok.
Porque às vezes tu não me dizes onde é que estás.
Espera, então agora vais descobrir que tu é que és a mulher controladora?
Calma, não é controladora, eu não vou durante o dia ver se o Guilherme está onde disse que está. Não é nada disso.
Aposto que fazes. E a sorte é que tu não tens a aplicação do carro, porque a aplicação do carro também diz onde é que está a geolocalização do carro.
Tenho o Find Me.
Mas imagina que eu estaciono em um sítio e vou pra dois quilômetros a pé. Não sabes, achas que eu estou em um sítio.
Não, porque se tiveres o telemóvel contigo, tens que pôr no Find Me, ó parvalhão.
Pois é, verdade.
Tenho usado, porque às vezes tu não me dás horas concretas. Por exemplo, eu preciso pôr qualquer coisa a cozer pro jantar.
Ou mandar pessoas sair cá de casa, o homem zarrama que está cá.
E tu não me dás horários, não me dizes: "Chego daqui a X, chego às não sei o quê".
Sabes por que eu não dou horários? Tu tens ouvido o "Terapia de Casal"? Tu já ouviste bem o que tu dizes sobre os meus horários e as horas em que eu chego e o meu planeamento temporal? Eu não te vou dizer horas nunca. Eu vou dizer: "Estou a ir".
Tens ouvido o "Terapia de Casal". E depois o teu "estou a ir" é sempre um "estou a ir", posso estar a ir agora, posso estar a ir daqui a 20 minutos.
Às vezes demoro um pouquinho mais a despedir-me das pessoas. Tu sabes que eu-
Não é um pouquinho mais.
As pessoas amam-me, eu sou carismático, as pessoas querem dar mais uma palavrinha.
Correu-te bem o espectáculozinho, não é? Devia ter corrido mal, que era pra ver se vinhas achandrado.
Não te preocupes, que há já um esta semana em Leiria, na quinta. Não te preocupes. Não, mas estou a brincar. Às vezes eu demoro um bocado a despedir, porque eu sou um animal social.
Pronto, e então eu uso o Find Me pra saber há quanto tempo é que tu estás de casa, muitas vezes.
Pronto, e gostas de me controlar e não tem mal nenhum.
Não é gostado de controlar.
És uma mulher controladora, ciumenta e impossível de aturar. E isso não tem mal, é normal. Mas no outro dia estávamos a falar lá na Sic e o Zé Diogo Quintela disse assim: "Tu tens o teu irmão no Find My Phone?" E eu disse sim: "Tenho o meu irmão". E depois até fiz aquela coisa de abrir o mapa e mostrar ele está ali em Londres, todo contente. E ele: "Isso é esquisitíssimo".
Eu não acho que seja esquisito.
Até que ponto é que é esquisito ter as pessoas no Find My iPhone? Repara, família, marido e mulher, acho ok.
Sim.
Filhos, acho ok.
Eu tenho a minha irmã.
Irmãos, acho ok. Amigos
Eu tenho a Márcia.
Começa a ser esquisito. Depende do tipo de amizade e do tipo de amigo, já começo a achar esquisito.
Olha, por exemplo, quando eu e o Tomás estivemos em Manchester. Manchester, não sei por que eu disse assim. Em Manchester.
Estiveram onde, desculpa?
Em Manchester, para ver a Florence, foi uma coisa que fizemos, foi pôr-nos no Find My iPhone um do outro.
Mas ainda tens? Neste momento pode ver o teu iPhone?
Acho que ainda tenho, porque ainda não tirei.
Diz-me onde é que ele está neste momento.
Tomás, desculpe. Vou ver.
Eu quero saber exatamente onde é que ele está neste momento.
O Tomás está Calculo que seja casa. Não vou dizer onde é que ele mora.
Está a quantos quilómetros de nós?
Acho que é dois.
Eu gosto muito quando...
Está a quatro quilómetros.
E pelo lado o meu irmão? Tens o meu irmão?
Não tenho o teu irmão.
É que o meu irmão, os quilómetros é sempre muito giro.
Mas tenho a Márcia. A Márcia está em casa.
Queres tentar adivinhar a quantos quilómetros nós estamos do meu irmão?
2000 e tal?
1575.
Pois.
London, England, que é no mesmo sítio de Manchester.
Mas eu acho que o Find My iPhone dá bué da jeito.
Dá.
Ainda por cima tem uma funcionalidade para tu encontrares as pessoas no meio de uma multidão. No outro dia, num concerto, foi muito fácil.
Eu tentei isso em Turnstile contigo e não deu.
Porque tu tens um telemóvel que não está atualizado.
Ya, eu preciso de um telefone novo. Comprem bilhete para me ver, porque eu preciso de um telefone novo.
O desespero.
Não, estou a brincar.
Por falar nisso, correu bem, não foi? Queres dizer alguma coisa às pessoas?
Eu quero agradecer às pessoas de Coimbra que foram. E quero agradecer também à Joana, que várias pessoas foram muito simpáticas e no final ficaram lá comigo, porque eu tenho merch. Tu tens noção disto, ou não?
Pois, já soube. Aliás, sabes uma coisa que eu acho muito engraçada aqui? É que há muitas coisas desse espetáculo que não estão no Find My iPhone e portanto eu não sei sobre ti.
Também há essa. Tens que ir ver o espetáculo para saber o que se passa lá. Mas eu tenho merch. Não tenho uma merch normal. As pessoas que vão lá à procura de T-shirts e cuecas, não tenho. Tenho um merch específico.
Um merch ou a merch? Eu acho que é o merch, o merchandise.
Eu tenho merch específico, que eu respeito os pronomes. Vou dizer é merch ou o merch. É como o merch se identificar. E no fim, para quem quiser, para as quatro ou cinco pessoas que querem tirar uma fotografia e dizer que gostei muito ou dar-me um murro na cara, eu fico no fim à espera.
O murro na cara vou querer quando eu tiver 100 pessoas.
Pronto, já sabes em que fila é que me metes. E houve uma rapariga que ouve este podcast e que sabe que nós temos um vizinho com um corgi. Já falámos do corgi do nosso vizinho aqui. E deu um caderninho com os corgis.
É muito querido.
Este bonito. Eu estava à espera mais de cerveja preta e bolos, não vou mentir. Mas eu aceito tudo o que as pessoas me derem, desde que não tenha nem veneno nem doenças.
Nem antrax. Lembras-te do antrax?
Lembro-me perfeitamente do antrax. Vinham cartas.
Vinham.
E já ninguém mandava cartas.
Ou no multibanco. Saía nas notas.
O multibanco nunca teve antrax.
Teve.
Sabes o que é isso? O que tu viste não era antrax. Tu estavas a assaltar o multibanco.
Cocaína.
O que se passa com a tua pronúncia hoje?
Não, sabes aquele áudio do TikTok?
Cocaína. Sei. E pronto, é isto. Olha, Rita.
Guilherme, sim, diga.
Apesar da loucura que tem sido a minha vida por causa do espetáculo, que agora vai estabilizar.
"Eu sou tão ocupado, vocês não têm noção do quão ocupado eu sou. Eu fui de carro para Coimbra, eu voltei de Coimbra de carro, oh meu Deus."
Era esquisito eu ter ido de carro para Coimbra e ter deixado lá o carro.
Podias ter deixado lá o carro, se eu tivesse a aplicação do carro. Os nossos gatos continuam inacreditáveis.
Fala aí.
Inacreditáveis. É risoto Manuel que está contra Guina. Estão a ouvir? Bem.
Não quero porrada, não quero guinzes aqui. À minha frente.
Bem.
Cada um para o seu canto. Vão dormir, vão cagar, vão fazer ronron. Tudo à minha frente.
Olha, eu adorei. Espero que as pessoas tenham conseguido ouvir. Adorei.
Bom, voltei.
Vão dormir, vão cagar, vão fazer ronron.
São as três coisas que eles fazem cá em casa. Bom, posso?
Podes.
E os vizinhos que acabaram de ouvir isto? Vão achar muito estranho.
Acham que tu tens filhos.
Tenho filhos.
Vão comer, vão dormir, vão cagar, vão fazer ronron.
Bom.
Por acaso nós esta semana andámos com uma cadeirinha de bebê no carro.
Estranhíssimo. Eu senti necessidade de me justificar ao João Miguel Costa e ao Fiti, que é da agência dele e que fomos os três no carro para Coimbra para fazermos o espetáculo. E eu senti necessidade de me justificar, porque como pessoa abertamente e publicamente, que já explicou que não quer ter filhos, nós termos um carrinho de bebê no carro é suspeito.
É suspeito.
É suspeitíssimo.
E se tivéssemos? Podíamos achar bonito e ter, só.
Achas estético ter um carrinho?
Acho estético.
Ok, está bem.
Para viver a minha vida de soccer mom, sem a parte dos filhos.
Sem a parte do mom, nem do soccer. O que eu ia dizer? Já me perdi completamente.
Disseste...
No meio da loucura que foi, terça-feira fui limar umas arestas minhas.
Terça-feira não vai à escola.
Quarta-feira fui limar umas arestazinhas, quinta, solo.
Quarta-feira não vai à escola.
Mesmo assim.
Se todos os pais fizessem como eu, o problema estava resolvido.
Olha, eu vou te dizer uma coisa, e eu vou ser muito honesto contigo agora e tu vais me ouvir até o fim. Eu vou te dizer uma coisa. Eu no outro dia lembrei-me de ti e da maneira como tu fazes este podcast. E foi numa situação em que foi insultuoso e eu fiquei com vergonha. Sabes por quê? Sabes a mania que tu tens às vezes de eu dizer palavras e tu cantares coisas que têm a ver com essa palavra? A Luciana Abreu no programa da manhã do Correio da Manhã TV, faz igual, quando uma pessoa diz uma palavra e ela começa a cantar.
Então, mas a Luciana Abreu, antes de mais, a Floribela, que é mesmo assim, antes de mais, não é para copiar as ideias dos outros. Olha agora.
Porque ela também faz aquilo, ouve uma palavra e começa a cantar a música que lhe vem à cabeça com essa palavra.
Faz ela, faço eu, faz milhões de pessoas fazem isso.
Eu sei, mas lembrei-me de ti quando vi a Luciana Abreu. Esta frase é má. Lembrei-me de ti quando vi a Luciana Abreu.
É um bocado insultuoso, sim.
Fomos ao cinema.
Fomos ao cinema.
Fomos ver o Project Hail Mary.
Fomos ver o Project Hail Mary.
Não sei se é o meu filme favorito deste ano até ao momento, dos que saíram este ano. Não vimos muitos. Tenho aqui imensos filmes que eu vi.
Não, mas dos deste ano.
Deste ano? Vi muitos filmes este ano.
Viste o quê? Para aí três.
Não vi muitos. Mas este vai ser dos meus favoritos deste ano, certeza absoluta. Adorei este filme. Adorei. Acho que está uma excelente adaptação. Eu gostava muito que as pessoas lessem o livro também, porque eu fui ler o livro aconselhado por ti e adorei o livro, mas o filme está espetacular.
Espetacular.
Ganda Rocky, vou só dizer assim.
Grande Ryan Gosling também. Está perfeito.
Ele tem graça, ele faz chorar, ele é bonito, ele é engraçado. Há ali uma mistura.
Ele é low profile também, não é daquelas pessoas muito espalhafatosas na vida, que isso também me agrada.
E sabes que eu já tinha visto vários filmes com o Ryan Gosling e eu nunca achei que ele fosse particularmente bom ator.
Em La La Land?
Há um filme que eu gosto muito com ele que se chama "Drive", que é todo passado com ele a conduzir um carro e nesse filme ele está bastante bem. Mas este é o filme em que eu senti: "Ya, este gajo é bom ator. Está aqui uma movie star em todos os sentidos".
É um ator cômico também.
Também. O gajo é muito engraçado, sem ser tipo meio Ryan Reynolds, que às vezes é exageradamente a puxar a gargalhada. O gajo é engraçado de uma maneira bastante subtil, mesmo quando faz aquele clássico de tropeçar e cair. Achei mesmo muito engraçado. O gajo é hilariante. Adorei o filme. É o meu filme favorito até ao momento deste ano. Duvido muito que algum o ultrapasse. Fomos ver, temos muito tempo.
Chorei muito, ri muito.
Eu também. Tudo misturado. E tu querias muito ver o filme e conseguimos ir encontrar ali num cineminha pequeno.
É verdade, não estava fácil. Fomos a um cinema onde não costumamos ir.
Ya.
Que já é uma experiência estranha. Fomos a uma sexta-feira à noite, que também não gostamos.
Eu não adoro cinema sexta-feira à noite, foi mesmo porque amo muito a minha mulher e queria muito ver este filme.
Tu também querias ver.
Eu também queria ver.
Desculpa, eu tive milhares de oportunidades de ir sem ti e estive à tua espera. Portanto, não é porque amas muito a tua mulher, quando muito é porque eu te amo muito a ti, ok?
Não, é porque eu te amo a ti.
Bem.
Por que até dizer que nos amamos, nós discutimos?
Hã?
Hã?
Hã?
Hã? Qual é o teu problema? Olha, tenho mais um tema pra falar antes de avançarmos para os e-mails.
Eu também. Se calhar é o mesmo.
Que é: fomos fazer...
Ora bem.
Então fala tu, que foste tu que marcaste e depois eu digo o que eu senti, porque não é direto, é à volta.
Não é direto, é à volta. Vocês sabem que nós agora estamos neste plano de fazer dois dates mensais.
Exatamente.
Um em restaurante.
Já esteve sem água, vou buscar enquanto tu falas.
Podes beber a minha. Toma.
É?
É assim que se faz, vês?
Então vou cuspir aqui dentro.
Pela palhinha. Acho que cuspi por dentro da palhinha da minha garrafa.
Vou deitar aqui na uretrazinha da tua...
Nojento. Já me arrependi. Fomos então no nosso date cultural deste mês de março, que foi ir a uma coisa que a Salted Books tem agora, acho que duas vezes por mês.
Explicar só que a Salted Books é uma livraria no centro de Lisboa, em Santos o Velho.
Que é uma coisa chamada Room to Read, que são duas horinhas, tem pequeno almoço incluído, e são duas horinhas em que toda a gente está sentada no chão da livraria em pufes, almofadas, a ler.
Foi muito giro. Olha, acabei um livro.
Eu li um livro inteiro também.
Na verdade, fiquei a três páginas de acabar, mas acabei "A Crónica dos Bons Malandros" do Mário Zambujal, que faleceu a semana passada? Já não sei há quanto tempo é que foi.
Acho que há duas semanas.
Há duas semanas. O livro é hilariante, eu aconselho toda a gente a ler o livro. Tem 140 páginas, tem capítulos curtinhos e é sobre um assalto à Gulbenkian. São uns malandros e ladrões que se organizam para assaltar a Gulbenkian. É muita giro.
Para tu teres noção, estavas tu sentada ao meu lado de vez em quando a rir, e eu a ler um livro do Édouard Louis, que é não ficção, é autoficção, é sobre a vida dele, sobre o irmão alcoólico que morre, que faz a vida negra a toda a gente, que era muito conflituoso. Eu via-te a rir e pensava: "Eu também gostava de estar a rir um bocadinho, mas não é possível".
Podíamos trocar de livro de repente, só para mudarmos um bocadinho a energia.
Então, o que achaste?
Se vocês têm homens ou mulheres, mas são maioritariamente homens, porque as estatísticas todas mostram que as mulheres leem muito mais do que os homens. Mas se vocês têm homens na vossa vida que gostavam de dar um livro para tentar fomentar um bocado o gosto pela leitura, porque às vezes é complicado, porque há livros que nós gostamos, mas não são bons livros para outras pessoas começarem a ler. "A Crónica dos Bons Malandros", do Mário Zambujal, é um livro que tem 144 páginas, tem 10 capítulos ou nove capítulos, são curtinhos e é a história de um assalto de malandros e ladrões em Lisboa. É um livro muito bom para bem dispor e agarrar alguém que lê pouco. Portanto, é um conselho que eu dou, se têm pessoas na vossa vida que vocês querem pôr a começar a ler, "A Crónica dos Bons Malandros", do Mário Zambujal.
Muito bem, também quero muito ler.
Divirti-me mesmo. E depois descobri, que disseste-me tu, que é o primeiro livro dele.
É o primeiro livro dele, o livro de estreia dele.
Muito bem, excelente.
E era isso que querias dizer ou querias falar sobre a experiência da Salted Books?
Não, eu queria falar outra coisa. Nós temos ido bastante para o centro de Lisboa fazer várias coisas diferentes. Já fomos para a zona de Marvila, já fomos para a zona da Gulbenkian. Lá está, olha. Depois de ter sido assaltado pelos bons malandros. E hoje fomos pra zona de Santos o Velho. Pronto, temos ido assim para centro de Lisboa.
Desculpa, vai. Eu também tenho ido muito para escrever, tenho ido para zonas diferentes, mas vou mais de transportes, na verdade.
Exatamente. O que é que se passa? O que eu tenho notado sobre o centro da nossa cidade? Os mais racistas vão dizer: "Porque isto é só castanhos e lojas e não sei o quê". Não é, de todo, a experiência que eu tenho sentido do centro da nossa cidade. E eu moro em Lisboa, morei a vida toda, fora três anos que eu não morei em Lisboa, morei em Sines, que fui morar para fora de Lisboa. Mas o que eu sinto do centro de Lisboa neste momento é lojas de souvenirs, mulheres estrangeiras que vivem em Lisboa e estão com roupa de desporto.
Leggings.
Leggings e tops e tapetezinhos de ioga ao ombro.
Active wear.
Active wear e sítios de cycling e ioga.
Ya.
Lisboa é Nova Iorque.
Está a tornar-se.
Tu nunca mais me pedes para irmos a Nova Iorque. Tens saudades de Nova Iorque?
Acabou. Não quero isso.
Rita, o centro de Lisboa é Manhattan. Qual é a diferença? Explica-me esta.
Há muitas diferenças.
É espaços de brunchs, mulheres de leggings Cães a serem passeados e espaços de cycling e de yoga.
As pessoas que se queixam de indostânicos, pessoas asiáticas.
Têm é de ir mais ao centro de Lisboa.
Têm de ir ao centro de Lisboa.
Até porque nós hoje passámos de carro no Martim Moniz, que eu vejo bem a quantidade de deputados do Chega que vão para lá gravar vídeos e até aquele Afonso não sei o quê, de extrema-direita. Passámos lá. O que é que eu vi? Loiras, branquinhas, que precisam de apanhar sol, de tapete de ioga ao ombro, a passear no Martim Moniz, porque vieram dos power cyclings e que vão para os pilates. É o que é em Lisboa. Lisboa é Manhattan. Eu estou pasmado.
Mas eu sempre disse isso. Para mim, a questão não é a imigração que as pessoas mais conservadoras consideram má imigração. Para mim, o problema sempre foi os patriotas, que se autointitulam patriotas, são só imigrantes glorificados, atenção.
Sim. São diginomads.
Porque é muito raro tu agora entrares num café, que não seja um café típico português, que cada vez há menos, mas é muito raro entrares num café que não seja típico e a pessoa que te está a atender falar português, porque todos falam inglês. Porque são todos americanos, da Europa.
E depois fomos ao castelo levar uma coisa à tua irmã.
Porque a minha irmã é uma princesa.
Exatamente, ela mora num castelo. Não, mas fomos ao castelo, que não há mais centro do que o castelo. Diz-me um sítio que seja mais centro que o castelo. E passámos por 17 despedidas de solteiro.
Ya.
Lisboa é Manhattan.
Larga em Lisboa.
Lisboa é Manhattan. Eu não tenho problema nenhum, que eu adoro a nossa Lisboa. Desculpem isto estar a ser sobre Lisboa, mas é a nossa cidade. Foi muito engraçado que a Rita odeia o Carlos Moedas.
"Muerdas".
E tu dizes o Moedas, que eu no outro dia achei que estavam a nos a dizer e fomos nós que esticamos aqui. Também tens de trabalhar com a minha memória. E foi muito giro porque o Moedas fez aquela coisa da trend da rocinha com o drone. Foi muito giro. O TikTok tem 30 segundos e tu começaste com uma energia e acabaste com outra. Tu começaste com uma energia de: "Olha para este gajo, olha para esta merda, a fazer esta trend estúpida, olha para este gajo." E depois aquilo é o drone a virar e a mostrar Lisboa. E tu começaste: "Esta merda, este gajo, este Moedas, está aqui a gravar estas merdas, estas trends, olha para esta cara de parvo. Ai, mas Lisboa é tão bonita. Lisboa é linda."
É que é mesmo uma cidade bonita, porra. Enfim, olha, não se pode ter tudo.
Podes morar numa cidade muito bonita e depois tens o Moedas.
Tenho o Moedas. Olha, vamos aos e-mails.
Vamos aos e-mails. Não tens mais nada a dizer sobre o reading não sei o quê?
Não, li um livro inteiro.
Tinha pastries, tinha café, tinha queijo e fiambre e tinha pãozinho do lado do Beco.
Muito agradável. É giro porque toda a gente está a ler e toda a gente se sente um bocadinho consciente de mexer no telemóvel, porque não quer estar a mexer no telemóvel porque está toda a gente a ler.
Eu não mexi porque eu queria acabar o livro, estava concentrado nisso.
Mas é quase como uma influência positiva de tu veres tanta gente a ler, que estás duas horinhas ali a ler. Vou querer repetir, certamente. Acompanhem no Instagram da Salted, foi muito bom.
Sim, senhora.
E um beijinho também à Beni, que é a livreira da Salted, dona da Salted atualmente, que é muito querida. É muito querida mesmo, é amorosa. No outro dia, eu fui lá ver uma apresentação e como eu não podia ficar para assinar o livro, ela pediu ao autor para assinar o livro e hoje deu-mo. Amorosa mesmo. Adoro-a.
Olha, um grande beijinho para a Beni. Beni, é Beni?
Beni.
Beni, grande Beni. Vamos ler um e-mail. Demos o nome à pessoa?
Porque a pessoa deu-se.
A si próprio. Ok.
Chama-se Drama Queen?
Drama Queen.
Do Drama Queen.
Do Drama Queen. Sim, senhora. Porque eu estava com medo de ter feito merda nas minhas notas, mas não. O e-mail chama-se Drama Queen e a pessoa chama-se Drama Queen. "Olá, querida Rita e querido Guilherme."
Olá.
"Tenho 31 anos e há cerca de dois, três anos, o meu melhor amigo afastou-se completamente. Ele arranjou uma namorada," e a Drama Queen pôs aspas na palavra namorada, "muito tóxica e desabafava comigo todos os dias até terem terminado. Uns meses depois, descubro por amigos em comum que arranjou uma namorada nova e confrontei-o com a situação. Foi muito frio e disse que não tinha nada de me contar tudo e que estava a pressionar. A partir desse momento, deixou de me ligar quando me ligava dia sim, dia não, até que nos afastamos. Esta situação deixou-me muito afetada porque acabei por perder uma relação que gostava muito. Sinto que foi muito repentina a mudança de comportamento quando me chamava melhor amigo e me contava tudo. Acontece que acabei por levar as coisas muito a peito e se há coisa que eu faço é guardar rancor. Quando temos convívios com o nosso grupo de amigos, nem me apetece ir só pela presença dele. E quando vou, tento evitar ao máximo falar com ele, porque passava meses sem me enviar uma simples mensagem e quando nos reunimos quer sempre saber das novidades. Estarei eu a exagerar ou tenho algum direito de me sentir magoada? Nota: para que fique claro, estou solteira, não tenho qualquer interesse amoroso e gosto muito da namorada dele. PS: Peço desculpa pelo texto extenso. Beijinhos, Drama Queen." Isto é zero extenso.
Zero extenso. Foste ótima, Drama Queen. Olha, acho que ela tem todo o direito em sentir-se magoada, porque ela esteve sempre ali para o apoiar em diversas situações e ele agora aparentemente está feliz numa relação e cagou na raça dela, que é mesmo assim que se diz. E queria trazer aqui a Alyssa.
Já vais saltar do e-mail?
Não. Dentro do e-mail, quero trazer uma questão.
Eu tenho uma coisa para dizer dentro deste e-mail também.
Há pessoas que se transformam quando estão em relações
Sem dúvida nenhuma.
Há pessoas que desaparecem.
Todos nós conhecemos casos disso.
E isso é mais normal no início de uma relação, que estás naquela fase da lua de mel, a pessoa só tem olhos para a outra, está ali no amor, está contigo, mas está a pensar na outra pessoa, está em grupo, mas está a mandar mensagens carinhosas para a outra pessoa. Eu acho isso amoroso, atenção.
Ya.
Mas isso não quer dizer que cagues na raça da tua melhor amiga.
Completamente. Mas sabes porque é que isso acontece algumas vezes? E atenção que isto ainda não é o ponto que eu queria fazer sobre este e-mail. Mas às vezes isso acontece porque as pessoas nas relações são ou adotam uma personalidade que não querem ser à frente dos amigos. E como não conseguem escolher que pessoa é que querem ser à frente dos amigos/à frente da namorada ou do namorado, preferem não misturar. Percebes o que eu quero dizer? Porque eu acho que o passo normal seria: tu conheces uma pessoa, desapareces na fase de honeymoon, de lua de mel, porque estás completamente apaixonado e porque queres ir jantar e estar com aquela pessoa e fazer planos com aquela pessoa. E depois o normal é: eu gosto tanto de ti, quero te apresentar aos meus amigos para tu conheceres as pessoas da minha vida. Eu acho que às vezes não há esse passo, porque tu ou não és genuíno com os teus amigos e não queres mostrar à frente do teu namorado ou namorada com quem és, ou não és genuíno e tu próprio, e estás a fazer uma personagem, um bonequinho com a pessoa que conheceste e não queres mostrar isso à frente dos teus amigos.
Mas eu não acho que seja isso que aconteceu aqui.
Não. Eu estava a continuar.
Ele claramente continua a ir a encontros com os amigos, ela é que está rancorosa e não quer ir. Qual era o ponto que tu tinhas sobre este e-mail?
O meu ponto é: há um pronome muito importante neste e-mail, que é, as duas pessoas são amigas, uma delas arranja namorada e desaparece, e caga na amizade e deixa de falar, etc. Mas em encontros com vários amigos, vai ter com a pessoa outra vez e diz: "Então conta-me novidades" e não sei o quê. Portanto, isto só pode ser performativo. Por que a distância deixou de mexer no telefone?
Acho que simplesmente esqueceu que aquela pessoa existe porque está focado numa relação.
Mas depois ao vivo vai perguntar: "Conta-me novidades".
Ao vivo vai lá e lembra-se e diz: "Então conta-me novidades". Há pessoas mais sem noção do que nós achamos.
Que frase.
Não, é sério, muitas vezes.
Temos que fazer merch deste podcast e há frases que têm que ficar.
Há pessoas mais sem noção do que nós achamos.
Do que nós achamos.
E acho que há muitas pessoas que acham que não fizeram nada de mal. "Não repararam. Desculpa, não percebi que tinha magoado."
Será?
Eu acho que é esse caso.
Espera aí. "Foi muito frio e disse que não tinha de me contar tudo e que estava a pressionar." Ou seja, quando esta pessoa disse: "Olha, então como é que está?" A pessoa podia dizer: "Ei, calma, também não tenho que estar sempre a contar tudo." E depois quando estão ao vivo, vai a correr e diz assim: "E tu, conta-me novidades." Isto é o quê?
Pois.
Porque só há outra hipótese que me passa pela cabeça, que é: a nova namorada é ciumenta e não quer que mexa no telefone, então já a mandar mensagens a uma rapariga, à drama queen.
Mas a drama queen está a dizer que gosta da namorada, e eu presumo que isso seja porque senão está relativamente bem.
Ou se calhar os convívios onde estão. Então, mas por que este amigo deixou de se dar com uma amiga? Será que é a namorada nova que não gosta que um amigo tenha amigas mulheres? Às vezes há esse tipo de ciúmes, mesmo rapazes também fazem esse tipo de controle estúpido, ciumento de: "Mas agora tens um namorado, para que é que estás assim com os teus amigos homens?" Que é uma coisa que não faz qualquer espécie de sentido. É muito aquela mentalidade de homens e mulheres não podem ser só amigos.
Sim.
Amigos, tenho os meus amigos, mulheres é para pinar e não sei o quê. Mas pode ser isso. A nova namorada do amigo pode estar ciumenta. E por isso esta pessoa também aproveita quando está ao vivo e vai meter conversa.
Então, mas eu calculo, como ela diz que gosta da namorada do amigo, que a namorada do amigo também vai a esses encontros.
Sim, mas pode ser uma coisa cordial, de gosto. "Olha, está lá."
Eu acho que a nossa drama queen devia ter uma conversa séria com o amigo.
Eu também acho.
Perguntar o que se passa, porque desde que estás com esta pessoa, que foste frio comigo, disseste-me isto e isto, mas depois quando estás comigo pessoalmente, queres saber da minha vida, o que se passa?
Ya.
E eu sei que nós às vezes odiamos este tipo de confrontos, mas muitas vezes um confronto destes evita que as pessoas deixem de se dar mais à frente porque ficam rancorosas e depois não querem dar o braço a torcer e não querem ir conversar e não querem falar e perdem-se assim amizades.
E é completamente bola de neve, porque é uma coisa que começa pequenina, vai crescendo um problema.
Depois qualquer coisa que aquela pessoa faz já te irrita.
Sim, ou que diz, tu já interpretas com aquela maneira de ver. E depois nunca mais acaba, é eterno.
Ya.
Portanto, às vezes mais vale falar logo diretamente. Até porque no início do e-mail a pessoa disse: "Ele arranjou uma namorada muito tóxica e desabafava comigo todos os dias até terem terminado." Portanto, na relação anterior, o amigo falava à drama queen da relação em que estava a dizer que era tóxica.
Atenção, também pode ser outra coisa, que é, como ele já não precisa dela emocionalmente para desabafar, cagou para ela.
Como está feliz, caga. Ya.
Isso acontece muito. É muito raro, mas acontece muito.
Vou puxar este tema porque eu acho que isto é interessante. Tu não sentes que há pessoas que usam só os amigos para falar dos seus problemas ou das coisas que os chateiam, e quando são coisas positivas, cagam. Porque às vezes há essas dinâmicas de amizade, de eu preciso de ti para me dares apoio, se eu não precisar de apoio, cago completamente e desapareço. E acho que são pessoas que parasitam os seus amigos.
Sim, sanguessugas.
São sanguessugas da disponibilidade e da amizade dos amigos, e depois quando estão bem, cagam. Também pode ser o que se passa aqui.
Pois, também pode ser isso. Mas acho que não invalida uma conversa.
De todo. Concordo 100% contigo. Acho que não invalida uma conversa e acho que devia acontecer diretamente dizer: "Olha, o que se passa? Por que é que agora nesta relação deixaste de me falar? Éramos amigos, tínhamos uma coisa normal. É o quê? É ciúmes, é problemas, sou eu? O que se passa? Eu tenho saudades da amizade que nós tínhamos".
Exato. É porque agora não tens uma tóxica.
Pois.
É isso.
É preciso a tua namorada começar a controlar o teu telefone e a bater-te para tu vires falar comigo?
Pois, se calhar.
Eu sou só polícia, é isso? Eu sou só polícia. Eu sou só PJ aqui. Quando tu tens problemas, vens a correr. Será que os polícias pensam nisso? As pessoas também, quando é para dizer coisas positivas, nunca cá vêm à esquadra. Só quando lhes fazem alguma coisa é que vêm para cá queixarse.
Alguém vem cá dizer: "Olhe, senhor polícia, muito obrigada por ser tão bonito".
Fica saber, precisa já de saber isto. Fui promovido no emprego, fica aqui com uma boa novidade.
Exatamente.
E a minha mulher ama-me muito e deu-me uma prenda e deu-me um beijinho. Nem tudo tem que ser más notícias. As pessoas nunca entram nas esquadras para dizer boas notícias.
É verdade. Olha, vamos ao segundo e-mail?
Não, não vamos. Vamos dizer às pessoas para as pessoas entrarem na esquadra mais próxima da sua casa e vão dizer uma boa novidade que tenham tido na sua vida aos polícias.
Não se metam perto da polícia, não vale a pena. Não ouçam o que o Guilherme está a dizer.
Queres ir a outro e-mail?
Outro e-mail? Quero.
Queres ir a outro e-mail.
As pessoas merecem.
Está bem.
Depois está aí que as pessoas não te querem ouvir e não sei o quê, fazer de Calimero.
Quando é que eu digo que as pessoas não me querem ouvir?
Se não for eu...
Este e-mail é gigante. Boa sorte a todos.
Ó Guilherme. O que achaste?
Olha, eu acho que eles têm que falar, que é o que nós fizemos os e-mails todos.
O título do e-mail é: Pesquisa My Brother's Best Friend. "Olá, Rita e Guilherme. Antes de mais, numa tentativa de ser sucinta, adoro a vossa dinâmica. São ótima companhia, gosto mesmo de vos ouvir falar sobre os dilemas dos outros e dos debates que constroem à volta deles. Por isso, aqui vai o meu.
Muito bem.
Estou presa num amor platónico. Tudo começou quando eu estava no sétimo ano. Apaixonei-me por um rapaz através de uma fotografia numa espécie de exposição de alunos na biblioteca da minha escola. A partir daí, comecei a vê-lo em todo lado. Nos corredores, no bar, sempre ali. Nesse mesmo ano, o meu irmão muda-se para a minha escola e adivinhem, esse rapaz passa a ser o melhor amigo dele.
Ok.
Pois. Passei a viver numa ansiedade constante. Queria cruzar-me com eles na escola, mas ao mesmo tempo passar por eles e os amigos não era propriamente a coisa mais confortável. As maiores surpresas eram quando chegava à casa depois das aulas e quem é que lá estava? Exatamente.
De repente, o rapaz como é amigo do irmão, vai lá para casa. Epa!
O tempo foi passando e eu cada vez mais apaixonada, ao ponto de ser verdadeiramente difícil de lidar com. Para ajudar ou piorar, ele era extremamente querido comigo, dizia que estaria sempre para me defender, tal como os meus irmãos. Enfim, só ia alimentando a situação. Conversávamos sempre imenso, ensinou-me a dançar kizomba. Foi ele quem me ajudou na primeira vez que vomitei depois de uma grande bebedeira, how romantic. A vida seguiu. Eles foram para a faculdade, eu comecei a ter outros interesses amorosos, cheguei a ter um namorado, mas sempre que ele surgia, era o maior clichê possível, o mundo parecia parar. Eu, completamente iludida, achava sempre que seria naquele dia, naquela festa, com a ajuda de uns copos, que ia finalmente ser sincera. Spoiler, nunca aconteceu. Depois pensava que seria horrível da minha parte confessar algo assim estando numa relação, e este dilema prolongou-se durante muito tempo.
Estando numa relação, eu concordo que era horrível.
Claro.
Acho que aqui estamos a concordar.
Acredito que o meu irmão se tenha apercebido cedo desta minha paixão, mas sempre foi um assunto meio tabu. Uma vez o rapaz chegou mesmo a dizer-me que nunca poderia estar comigo porque o meu irmão nunca o permitiria.
De propósito.
E como estas, houve outras pequenas conversas que iam lentamente alimentando a minha paixão. Houve períodos em que não o via e confesso que a distância ajudava, mas bastava ter notícias dele ou vê-lo mencionado em algum lado para que viesse outra avalanche de sentimentos. Hoje em dia estou numa relação muito estável e feliz. Ele também está. E mesmo assim há sempre qualquer coisa que me puxa. Sonho com ele com frequência, aparece muitas vezes nos meus pensamentos e continuo inexplicavelmente a pesquisar livros com o título "My Brother's Best Friend". Então surgem as perguntas: é possível amar alguém sem nunca ter existido sequer um esboço de relação amorosa?
É.
E pior, é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo?
Não. Atenção.
Mais ou menos.
Agora estou só a dizer coisas.
Devo fazer algo em relação a isto ou simplesmente esperar que com o tempo passe e siga tudo o seu rumo? Já ensinei mil formas de lhe dizer isto ao longo destes 12 anos. O que me prende verdadeiramente, o fato de ainda sentir ou o fato de nunca ter dito. Espero mesmo que me consiga ajudar de alguma forma. Obrigada.
Eu acho duas coisas. Primeiro que esta pessoa devia de ver o "Past Lives". Essa é a primeira.
Pois é.
Esta é já a primeira que esta pessoa devia fazer, era imediatamente pesquisar onde é que está o "Past Lives". Aliás, eu posso pesquisar o "Past Lives" enquanto a minha mulher vai dizendo coisas.
Eu acho que está na Amazon.
Será que está na Amazon? Just Watch. Olha, fica com esta dica. Just Watch é um sítio onde vocês podem pesquisar onde é que estão Vidas Passadas, de 2023. Está na HBO.
HBO.
Está na HBO Max, vocês podem ir ver. Olha, tu é isso que vais fazer quando acabares de ouvir este episódio, vais imediatamente ver o Past Lives.
Se ainda não viste.
Eu acho que este é o caso mais óbvio de só continuas a sentir isso porque nunca aconteceu nada. O mais provável era acontecer alguma coisa entre vocês e ser a coisa mais pífia, sem saborona, e tu pensares assim: "Eu estou só a satisfazer o desejo que eu tenho no sétimo ano. E agora que sou uma mulher adulta, e como nunca tive aquilo que eu queria ter, pronto, já passou".
Eu não sei se é possível esta pessoa estar apaixonada por ele.
Eu também acho que não.
Eu acho que ela está...
Está enamorada desde o sétimo ano, é uma coisa completamente diferente.
Está enamorada pela ideia dessa grande paixão, que ainda por cima era proibida.
Exatamente. E que dá muito mais tusa neira por causa disso.
Dá muito mais tusa neira, porque o irmão disse, isto é clássico de filme de domingo à tarde.
Ya.
É a rapariga que se apaixona pelo melhor amigo do irmão e o irmão diz: "Vocês nunca podem estar juntos. Eu nunca vou permitir." E depois ela fica tipo: "Mas eu quero." E depois eles no filme Estão às escondidas, mas depois o irmão aceita, porque percebe que é um amor verdadeiro. Isto é plot de filme de domingo à tarde.
Completamente. Eu vou contar uma história que vai parecer que não tem absolutamente nada a ver, mas tem.
Eu conheço essa história?
Por acaso não faço ideia. Mas foi o seguinte: há muitos anos, a minha mãe deixava-me jogar videojogos à vontade. Desde que eu fizesse os trabalhos de casa todos, os meus pais deixavam-me jogar videojogos. E eu muitas vezes pedia videojogos. "Quero este." Eu não sei o que aconteceu, ou os meus pais estavam mal dispostos ou eu devo ter feito maisneira qualquer e não me lembro. Houve uma vez que eu vi um jogo chamado "Severance: Blade of Darkness". Eu vou te dizer o ano deste jogo. É um jogo de 2001, portanto eu tinha 13, 14 anos.
Tinhas a idade que a Hanley Jones, que foi o nome que lhe demos por causa do "Loving My Brother's Best Friend", que é um filme ou uma série que está não sei onde. Exatamente a idade que ela tem.
Exatamente a idade. Tinha 13 anos. E o que acontece? Os meus pais, que nunca me negaram nenhum videojogo, por mais violência que tivesse ou não, disseram: "Não, este tu não podes comprar. Este não é para a tua idade."
Posso ver a imagem?
Podes. E a capa do jogo é um senhor com uma espada muito grande no ombro.
Devem ter sentido que tu ias ser tipo daqueles meninos do técnico que depois usam uns...
Será? Tinham medo que eu me tornasse num incel que faz bombas. E eu nunca mais me esqueci deste jogo. Este jogo ficou-me gravado na cabeça, porque eu não o pude jogar e porque os meus pais não mo deram. Porque o jogo que eu pedi a seguir para jogar, porque quando acabamos o próximo, eu e os meus irmãos acabamos de jogar, o próximo pedimos e já ofereceram, mas este especificamente nunca me ofereceram. Eu nunca joguei este jogo. Nunca mais me esqueci do título, nunca mais me esqueci da capa e nunca mais me esqueci da sensação de eu queria muito jogar este jogo e os meus pais não me deixaram na altura. Eu tenho a certeza que se eu fosse jogar agora, eu ia dizer: "Era isto? Era esta merda? Pronto, ok." Mas foi a impossibilidade de jogar o "Severance: Blade of Darkness" na altura, que faz com que eu até hoje nunca mais me tenha esquecido do jogo e se calhar outros que eu até pude jogar.
E que eram fixes.
E que eram fixes, desapareceram-me da cabeça.
Porque isso é assim, nós vivemos sempre presos naquilo que não tivemos, naquilo que foi uma oportunidade perdida.
Exatamente, nos "what if", na fantasia do que podia ter sido, etc. E portanto, esta história, que parece só um nerd a falar de um videojogo da sua adolescência, na verdade, eu acho que é exatamente a mesma coisa que se passa com a Hanley Jones.
Exatamente. É o "e se". "E se a minha avó tivesse rodas, era um autocarro."
Eu era. Não.
"Se a minha avó tivesse rodas, era um autocarro."
Eu era um autocarro.
Não, a minha avó.
Não. A frase é: "Se a minha avó tivesse rodas, eu era um autocarro."
Não.
É, porque era genético. Espera, tu não sabes o ditado?
"Se a minha avó tivesse rodas, era um autocarro."
Não.
Ela era um autocarro.
Eu era um autocarro.
Ela era um autocarro.
Se a minha avó tivesse rodas, está aqui. Se a minha avó tivesse rodas, era uma bicicleta. Não, a frase é: "Se a minha avó tivesse rodas, eu era um autocarro."
Não, Guilherme, não é.
Porque na genética eu ia ser um autocarro.
Claro que não. Se a minha avó tivesse rodas, por acaso até é uma bicicleta, eu gosto de dizer um autocarro, que acho que é mais giro. Se a minha avó tivesse rodas, era uma bicicleta.
Mas esta frase não faz sentido nenhum.
Claro que faz, é do gênero: "Olhe, e se uma coisa óbvia", então olha, se a minha avó tivesse rodas, era uma bicicleta.
Eu sempre achei que era eu era. Porque estava na família.
É a parvoíce do: "E se eu tivesse idea, olha, se a minha avó tivesse rodas, era uma bicicleta." É dizer uma coisa estúpida.
Eu achei que o ditado era completamente diferente.
Ou tipo, se as maçãs fossem amarelas, chamavam-se bananas.
Pois. Olha, fiquei triste agora.
terapiadecasalpodcast@gmail.com.
48 anos e ainda estou a aprender ditados. Eu vivi a vida toda a achar que se a minha avó tivesse rodas, eu era um autocarro.
Mas tu podes ser um autocarro se quiseres. A tua avó tinha rodas.
Ela foi uma altura em que andou de cadeira de rodas.
Então pronto, ainda podes ser um autocarro, não te preocupes. Não te preocupes, está tudo bem. Basta acreditares e tu és um autocarro.
Está bem, Suzana Torres.
terapiadecasalpodcast@gmail.com é onde vocês podem enviar os vossos e-mails como fez a Drama Queen e a Hanley Jones.
40 minutos.
Pronto. Nós estamos cá para a semana, idealmente sem este mimimi todo do Guilherme. Até para a semana.
Até para a semana.