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Muito boa tarde. Bem-vindos a mais um podcast da JLL, o JLL Café. O meu nome é Gonçalo Valente, sou diretor comercial da JLL e hoje tenho a honra e o prazer de ter neste estúdio e nesta mesa o João Pedro Oliveira e Costa, presidente executivo do Banco BPI. João Pedro, muito obrigado por teres aceite este convite.
Obrigado eu. É um enorme prazer.
E muito obrigado por estares entre nós.
Obrigado, Gonçalo.
João Pedro, estás na banca há uns anos, tens uma vida neste setor que tão forte e tão abalado tem sido. João Pedro, umas breves pinceladas do teu percurso pessoal nestes últimos anos.
Obrigado, é um enorme prazer estar aqui. Eu já tenho 34 anos de banca, é mais do que as galeras romanas, por isso levisto já com bastante tempo. No BPI estou há 32 anos, entrei em 1991, fiz o meu percurso todo ligado mais à banca de particulares. Em 2007 passei a administrador do banco de investimento, por isso o BPI foi sempre mais na área da banca de investimento. E depois em 2014 passei a ser o administrador executivo com os pelouros da banca comercial, mais do famoso retalho, ou seja, o que tem os balcões. E em 2020, no meio do início da pandemia, passei a ser o presidente executivo do banco com muita honra, do qual eu gosto imenso. Gosto imenso de estar na banca, acho que é um setor fantástico. É um setor importantíssimo. Eu recordo aqui que quando houve a pandemia, houve algumas áreas que estiveram abertas, alguns profissionais que estiveram a funcionar. Recordo os polícias, recordo os hospitais, os supermercados e as farmácias, e é preciso recordar os bancários.
Claro.
Foram os que estiveram abertos todos os dias e por isso faço parte desse setor, que é hoje em dia uma das áreas fundamentais da estabilidade da nossa sociedade.
Trinta e tal anos neste setor, já passaste por algumas coisas, já passaste por algumas crises, alguns tempos, alguns altos e baixos. João Pedro, como é que foi? Lembro-me dos subprimes, lembro-me de quedas de bancos, tanto em Portugal como lá fora. Como é que é trabalhar neste setor cada vez mais global e muito dinâmico?
É um enorme desafio. Eu devo dizer que é um enorme desafio. Tem imenso desgaste psicológico, obviamente. Nós damos muito para quem tem à sua guarda o dinheiro dos outros, e é isso que os bancos essencialmente fazem, é o dever fiduciário de proteção dos seus depositantes. E ao longo deste tempo, de facto, passei por vários momentos, quer internos de Portugal, até quando houve mais recentemente o problema da Troika, até situações externas. Mas tive a sorte de estar num banco em que felizmente teve uma grande imunidade a tudo o que foi passando, e isso tem a ver com a ética, com a transparência, com a forma de estar, e aí devo muito às pessoas que me antecederam, quer ao Artur Santos Silva, quer ao Fernando Ulrich, que foram claramente duas peças importantíssimas, e agora mais recentemente com o Caixa Bank, que é claramente um grande esteio no nosso banco.
E és nomeado presidente executivo na altura H. Caramba, o mundo parou, COVID, ninguém esperava, e o mundo para e é-te colocado este desafio. Como é que foi encarar este desafio nesta altura tão crítica e tão complicada a nível mundial, onde ninguém sabia o que era o dia seguinte, quanto mais um futuro próximo?
Olha, na altura eu fui das primeiras pessoas a ter COVID em Portugal, praticamente não havia quase ninguém. Isto foi mesmo no início de 2020, e por isso eu vivi esses meus primeiros momentos em casa, fechado, onde estive cinco semanas, por isso foi um enorme desafio, mas não deu muito tempo pra pensar, porque tive a sensação que era um momento crítico e histórico pra todos nós. Felizmente, também tive uma ótima recepção por parte de todos os meus colegas, eu conheço muitíssimo bem o banco. E devo dizer também pelo restante setor, eu fui muito bem acolhido pelos meus pares, presidentes de outros bancos e administradores de outros bancos. Fui sempre muitíssimo bem acolhido e também pelos supervisores. E por isso eu tenho uma recordação muito positiva destes momentos e olhando pro percurso do banco, também tenho que sentir um certo orgulho.
Tu és uma pessoa positiva por natureza, por isso também ajuda.
Sou.
Entretanto, há o COVID, o mundo para, ninguém sabe o que é o dia de amanhã. Saímos do COVID, quando as pessoas acham, entramos naquela altura do revenge spending, em que as pessoas tinham aquela vingança de gastar, de viajar, de consumir. E quando tu deixavas que íamos entrar aqui numa bonança, até de repente aparece uma guerra.
Aparece uma guerra, aparece a inflação que já vinha a começar a surgir detrás pelo problema da oferta com a procura, ou seja, havia uma dificuldade nas redes de oferta e por isso também aí uma certa pressão do lado da procura, porque não havia produto. Depois, ao mesmo tempo, também abre-se os mercados e o consumo aumenta de repente, o que leva também a um grande aumento. Depois o tema da energia, que foi um assunto também que aumentou significativamente ou teve um impacto muito grande. E depois há uma reação por parte do supervisor e dos bancos centrais, que é aumentar as taxas de juro para tentar travar a inflação. Por isso, gerou-se aqui novamente uma situação difícil, quando nós pensávamos que íamos entrar num caminho mais calmo. O crescimento econômico estava bastante positivo e por isso houve aqui uma sensação mais difícil pro futuro. A verdade é que hoje, olhando pra trás, e já vamos praticamente a meio do ano, nós conseguimos ver que, afinal, o que nós estamos hoje em dia a viver é mais positivo do que tínhamos antecipado no final de 2022. Por isso, temos um crescimento econômico francamente acima do que esperávamos. Falo em Portugal e na Europa, e Portugal como um dos principais motores. Temos uma taxa de inflação que apresenta claramente sinais de queda e que já se vem a verificar mais ou menos desde março. E por isso temos aqui já alguns meses em que temos assistido a essa mesma queda e temos uma certa estabilidade ao nível das taxas de juro. É verdade que entretanto houve alguns acontecimentos que não têm muito a ver com a Europa, nomeadamente o que houve no sistema financeiro americano, e houve uma grande resiliência, mas a verdade é que hoje em dia estamos num mundo melhor. Também ao nível do desemprego, nós hoje em dia temos as taxas de desemprego mais baixas historicamente que há memória. Temos uma criação de novo emprego também bastante significativo O impulso em Portugal é o turismo e exportações, o que é também outro aspecto que eu diria que é positivo. E se eu juntar toda a capacidade que existe de investimento vindo do PRR, eu acho que temos aqui um cenário de futuro promissor. Agora, a concretização vai depender única e exclusivamente de nós portugueses. E eu penso que todos os atores, nos seus lugares, têm aqui uma grande responsabilidade. Nós não podemos só pôr este peso sempre em cima do Estado. Claro que o Estado tem o seu papel, mas nós todos temos que ter aqui um papel de nós próprios também puxarmos pela carroça e eu acho que Portugal tem aqui um caminho pela frente positivo.
João Pedro, voltando aqui um bocadinho atrás, esta questão da taxa da inflação, o facto de o mecanismo que se conhece para fazer reduzir a inflação é o aumento das taxas de juro e a globalização, e o facto de existirem mercados como os Estados Unidos, que são completamente distintos da Europa, e o comportamento que eles têm é completamente distinto da Europa. Este trabalho aqui é um trabalho com pinças, este equilíbrio é um trabalho muito complicado. Como é que tu vês os bancos centrais e como é que tu vês as entidades reguladoras a tratar estes temas?
É difícil comentar com muita profundidade um mundo tão complexo como é aquele que nós vivemos hoje. Não só o tema que tu falaste, e eu concordo perfeitamente, que a globalização trouxe-nos uma capacidade de influência nos nossos mercados para além do que aquelas ações que nós possamos ter localmente. E por isso, claramente, há aqui movimentos que nós não dominamos, muitas vezes até nem temos perceção que eles estejam a acontecer. E por isso há aqui claramente essa pressão e essa complexidade. Além do mais, também o próprio mundo e a forma como a nossa sociedade está construída tem se vindo a alterar. A esperança de vida aumentou significativamente, o número de pessoas aumentou significativamente e além do mais, também o nível de conhecimento aumentou significativamente.
O nível de educação das pessoas.
O nível de educação das pessoas, mas também o conhecimento do homem. Hoje em dia, estes temas que se fala agora do ChatGPT, dos Quantos, da inteligência artificial, tudo isso muda muito o panorama como nós olhamos para a situação. Um banco deve acima de tudo ser um gestor de riscos. Este é um dos principais papéis no mundo onde corre. E por isso, hoje em dia, aquilo que nós temos feito, e estou a falar pelo BPI, é essencialmente uma gestão de uma estrutura que deve defender os depósitos e deve ser um catalisador da economia pela maneira como intervém no crédito, e nós temos aqui apresentado resultados bastante positivos, é saber gerir muito bem o risco e ter uma permanência no tempo também estável. E por isso, de facto, concordo, é um momento difícil, mas se nós perguntássemos aos meus antecessores com aquilo que enfrentaram, também foi sempre momentos difíceis. Por isso, eu acho que nós vamos sempre estar a dizer que são momentos difíceis. A verdade é que temos sabido resistir e acho que nós temos essa capacidade permanente de nos reinventar e por isso, se calhar, o que estás a dizer, sabes que hoje em dia nós dizemos quando aparece alguém a fazer um comentário mais dito otimista, é porque é um lunático.
É um sonhador.
É um sonhador. Quando aparece alguém com um comentário mais negativo, é um sábio.
Exatamente.
E por isso, eu tenho muita dificuldade de aceitar. Eu gosto mais de olhar para factos, e os factos é que hoje em dia aquilo que nós estamos a enfrentar, apesar de complexo, é uma situação mais favorável do que aquela que antecipávamos, e por isso vamos ter que continuar a geri-la daqui para frente com a mesma forma como gerimos até agora.
Houve um pessimismo natural à cabeça, realmente as circunstâncias assim o também.
Somos portugueses, o fado.
O fado que está entre nós e a saudade, o fado, são coisas tão típicas nossas. Entretanto, o Banco BPI, como já falámos, foi sempre um banco conservador. Eu gosto muito do lema de que a prioridade é os depósitos dos vossos clientes. Entretanto, o Banco BPI, como é que tu vês agora a estratégia do Banco BPI no imobiliário, tendo em consideração o aumento das taxas de juro, o aumento da inflação, este Portugal que é tão diferente de todos, entre a oferta e a procura, falta de produto. João Pedro, fala um bocadinho deste equilíbrio.
Certo. Nós sermos conservadores na gestão Não quer dizer que nós não tenhamos uma posição agressiva relativamente àquilo que é conquista de cota de mercado e posicionamento no mercado, nomeadamente no mercado de crédito. Nós temos claramente demonstrado crescimentos no crédito bastante significativos e não estamos fora de nenhum setor. De facto, no passado, o setor imobiliário não foi muito da nossa preferência, até porque é importante referir que nós temos uma posição muito significativa ao nível do crédito à habitação e, por isso, indiretamente no mercado imobiliário temos uma posição muito significativa. Mas, por exemplo, se olharmos para o nosso volume de carteira disponível para venda, nós temos apenas 3 milhões de euros de carteira de imóveis para venda, o que demonstra um enorme conservadorismo para uma carteira de crédito imobiliário acima de 14 mil milhões de euros. Por isso, o que eu quero dizer é: sim, somos conservadores na análise de risco, mas gostamos de estar em todos os bons projetos e todas as boas oportunidades que surjam. Por isso, contem com o BPI. A palavra aqui para os nossos ouvintes é: contem muito com o BPI, nós estaremos disponíveis e temos vindo a estar disponíveis. Nós crescemos muito na cota de crédito, quer em empresas, quer em particulares, e vamos continuar a crescer. E a nossa ambição é claramente ser um banco de referência com os nossos clientes e os nossos parceiros.
Mudou alguma coisa com o Caixa Bank?
Mudou. Não posso dizer que não mudou. Mudou, claramente, para positivos, e ainda bem. Ter um acionista forte, bem capitalizado, é muitíssimo importante, ponto número um. Segundo, ter um banco que tem por princípio estar de uma forma estável no mercado, como é o caso do mercado português, também acho que é bastante positivo, não houve mudança de marca. A esmagadora maioria das pessoas que trabalham no BPI são portugueses. Só para dizer, eu penso que hoje em dia trabalharão menos de 10 pessoas de nacionalidade espanhola no BPI e nenhum está na comissão executiva. Eu acho que esse é um bom exemplo da independência.
E uma prova de confiança também.
E uma prova de confiança. Agora, o Caixa Bank claramente deu-nos um impulso, com a estabilidade que trouxe, de nós irmos mais à frente em tudo o que tem a ver com o negócio que fazemos. E por isso nós trabalhamos muitíssimo mais o tema dos proveitos, e por isso crescemos o negócio com dimensão, com volume. E isso também tem a ver com o facto de o Caixa Bank ter, hoje em dia, um dos modelos de negócio que é mais premiado na Europa em termos do negócio de retalho. E por isso nós seguimos um pouco esse exemplo, por isso houve aqui uma conjugação positiva entre um conhecimento local, uma história, um historial em Portugal bastante positivo e uma marca de grande reputação, com uma solidez e uma dimensão de um grupo que tem o seu trabalho todo exclusivamente na Península Ibérica. Isto é importante referir, porque é claramente um banco ibérico.
É um banco ibérico. Robustez, músculo, deu-vos outra segurança.
Exatamente. E dimensão. Dimensão é muito importante.
Usando uma gíria, deu muito cabedal.
Exatamente, eu acho que sim.
Deu muito cabedal. O que é importante para uma altura destas de incerteza.
Os bancos são capital intensivo e ter sempre acionistas que têm uma dimensão suficiente para acompanhar todas as volatilidades que elas surgem. O BPI, felizmente, até hoje nunca precisou, mas é uma segurança acrescida, ponto número um. Segundo, é muito importante nós termos uma visão de dimensão para quem tem outras experiências e está em outros mercados. E isso comporta muito um valor acrescentado que nós podemos trazer também para o mercado português e para os clientes portugueses.
E entretanto, há bocado falámos um bocadinho já deste nosso país, este nosso cantinho à beira-mar plantado. Fantástico, este nosso país que nós adoramos, mas hoje em dia vivemos aqui umas condições e umas circunstâncias um bocadinho diferentes de outras paragens. Nós temos nitidamente uma falta de produto. Existe aqui um grande desequilíbrio entre a oferta e a procura.
Fala do mercado imobiliário.
De facto, estou a falar do mercado imobiliário. Ou seja, diria que é a lei base da economia, para não entrarmos aqui numa rocket science, é a lei base da economia. Temos pouca oferta, temos muita procura. Como é que vês o nosso mercado em particular, neste momento, falarmos sobretudo do imobiliário?
Eu concordo perfeitamente com o que acabaste de dizer. Há um problema entre oferta e procura e basicamente esse é o principal problema. Não vejo, muito sinceramente, uma diminuição da procura o suficiente para equilibrar com a oferta, por isso claramente vai continuar a haver aqui esse tema. Nós fizemos uma enorme campanha, e bem, e com muito bons resultados, de ser um país atrativo para estabelecer cá os famosos nômades digitais ou até famílias, ou até para as pessoas que se querem reformar vindas de outras paragens, e agora estamos a assistir isso com o mercado norte-americano. Não vamos poder agora contrariar esse facto. Não quer dizer que isso pese muito no mercado, mas também é mais um contribuinte. E por isso, temos claramente aqui uma diminuição da oferta. Eu, para ser muito sincero, e eu não quero aqui fazer nenhuma crítica, nem me quero meter nesse tema, porque acho que não faz sentido, nem sequer tenho os dados suficientes para uma análise profunda e para essa discussão, se as políticas atuais serão as mais adequadas ou não. O que me parece claro, tal e qual como aconteceu noutros momentos em Portugal, é que está na altura de haver uma política de construção de novos imóveis Acho que este é o momento correto para o fazer. Primeiro, porque podemos redesenhar o que é o nosso parque habitacional. Mais sustentável, mais espaços verdes, juntá-los com escolas, trabalhar as vias de comunicação. Enfim, acho que há aqui um momento claramente de redesenho.
Há uma oportunidade muito grande.
Há uma oportunidade muito grande. Eu não iria tanto para a transformação do existente, porque eu acho difícil que em determinadas zonas históricas das cidades, as pessoas se vão lá instalar com os filhos, depois como é que vão para a escola, onde é que arrumam o carro, onde é que vão ao supermercado. Eu tenho muitas dúvidas que esse seja o modo.
E nem há volta a dar. Ou seja, tu não vais agora remodelar toda a zona do Castelo de São Jorge, da Madragoa.
Parece-me pouco aconselhável fazê-lo. E por isso, tal qual como fizemos os bairros de Alvalade, o bairro de Campo de Ourique, a Expo e no Porto vários bairros, em Braga, que a cidade cresceu muito, Guimarães. Há claramente espaços para nós crescermos, mas de uma forma até mais sustentável, se calhar não tão em altura, mas mais em largura, com parques, com uma qualidade de vida diferente e também depois atrair as empresas para se estabelecerem nessas zonas. Por isso, a minha ideia é que claramente precisamos aqui ter uma lógica de médio prazo. Não vejo nenhuma solução a curto prazo. O que leva também a que eu veja uma sustentação nos preços. Por este diferencial entre procura e oferta. É o que nós temos observado naquilo que toda a gente faticinava, que havia uma grande corrida a vender casas e que havia grandes problemas. Eu não sinto isso com os nossos clientes. Só para termos uma ideia, mais ou menos no princípio, quando saiu o famoso decreto de lei de apoio às famílias para dar soluções para as que tinham mais dificuldade, nós tivemos uma procura mais ou menos de 750 clientes a 1000 clientes por semana. Neste momento, estamos com cerca de 100. Reparem que já passou bastante tempo. O que quer dizer que quem estava mais necessitado foi apoiado e o BPI apoiou todas as pessoas que chegaram ao pé de nós a solicitar esse mesmo apoio e estamos disponíveis para continuar. Eu sei que este é um caminho que ainda não terminou, a subida das taxas de juro ainda não impactaram completamente em todos os créditos, mas eu penso que não só o BPI, eu até falo aqui, acho que os bancos todos têm apresentado soluções significativas. E eu não vejo um inundar de imóveis no mercado que vá colmatar este problema da procura. E eu acho que o mercado imobiliário, muito sinceramente, precisa é de se renovar, mas com nova construção. E nós temos visto isso também ao nível dos escritórios. Isso tem se visto em vários locais de Lisboa, novos escritórios, novos espaços, desde Alcântara, passando pelo Saldanha, para vários locais, onde realmente há essa renovação, por quê? Porque eu não consigo me ter, hoje em dia, com a metodologia de trabalho, nem com as novas formas organizacionais, em prédios antigos ou de habitação e que os possa transformar. Tem que ser realmente toda uma estrutura nova, mais atrativa também, para trazer as pessoas para o trabalho. E eu tenho uma sensação, diria, pelo menos muito estabilizada do mercado imobiliário.
Dada a tua experiência, e tocaste num ponto muito importante, que é o fato de realmente as coisas demoram um tempo a ser planeadas, a ser executadas. Eu não quero entrar aqui em grandes pormenores políticos, porque escapa-nos um bocadinho.
Sim, a mim também.
E porque não tens medo que realmente haja alguma inércia por parte da classe política em enveredar por esses planeamentos e por esses planos a médio prazo, tendo em consideração que necessitam é de resultados rápidos para efeitos eleitorais. Ou seja, eu tenho às vezes um bocado de receio que exista este desequilíbrio, porque realmente tens toda a razão. O que se tem que fazer é algo planeado, concertado e que faça sentido.
Pegando há pouco nas tuas palavras mais mundanas, vou te dizer também uma frase mais mundana: "Quem tem medo compra um cão."
Exato.
Eu penso que há uma componente, sim, de iniciativa e de impulso por parte do setor público, que eu tenho a expectativa que o venha a fazer, muito sinceramente. Acho que isto que eu estou a dizer é de senso comum e vai acabar por entrar, pode demorar um pouco mais tempo, mas vai acabar por entrar. Mas acho também que o resto da sociedade, quer os construtores, quer os promotores imobiliários, devem também pressionar ou incentivar, gosto mais desta palavra, neste mesmo sentido. E eu acho que em vez de estarmos a discutir se estamos ou não de acordo com determinadas medidas, que parece que de fato não estamos todos alinhados, então bora procurar outras que estamos mais alinhados. E eu penso que este tema que eu acabei de referir, eventualmente, do que eu tenho ouvido dos vários atores, estamos mais ou menos alinhados. Por isso, a questão não é tanto de se tenho receio. Eu acho que se temos receio que isso aconteça, temos que falar mais vezes.
Exatamente.
Temos que procurar convencer as pessoas. Na prática, os políticos representam-nos a nós, fazem parte de nós, são cidadãos como nós. Nós precisamos de conversar mais vezes. Se calhar, trocar mais impressões.
Ajudá-los.
Ajudar e no sentido que nos ajudam a nós também.
Claro, exatamente. Entretanto, há bocado falámos um bocadinho deste país que nós todos adoramos. Fomos descobertos, temos vindo a ser descobertos, descobriram as nossas praias, o nosso clima, a nossa forma de os receber. Mas, por outro lado, é engraçado perceber que no campo imobiliário, tanto em Lisboa como no Porto, a esmagadora maioria do volume de transações imobiliárias não são com estrangeiros, é o mercado nacional.
É verdade.
Como é que tu também vês este fator, que realmente existe esta questão das pessoas, esta ilusão de que são os estrangeiros que nos estão a invadir, que nos estão a comprar tudo, e não é bem assim?
Principalmente digo isso muito em defesa da banca, mas vou dizer isto em relação a um conjunto de assuntos e eu espero não ser muito agressivo, mas acho que um dos problemas que passa muitas vezes na nossa sociedade são duas palavras: ignorância e demagogia.
Sim.
Como há muita ignorância, as pessoas não se assumem em cima de números, falam do que não sabem. E demagogia porque defendem coisas que lhes parecem bem, porque falando parece que fica bem, mas depois na prática não tem grande valor. Eu acho que nós somos claramente um pequeno país Com fraco crescimento, a uma ponta da Europa, 50% da nossa fronteira é água. Estamos estrategicamente bem posicionados, dizemos sempre isto, mas é para distâncias grandes. Isto não é uma coisa em que eu tenha ali ao lado um mercado, por isso eu tenho que ser atrativo. Para eu conseguir um crescimento económico que me acompanhe para o centro da Europa, e nomeadamente para os países mais a leste da Europa, eu tenho que ser mais atrativo. E é isso que nós temos vindo a fazer. Eu acho que será um erro se nós diminuirmos a atratividade fiscal, porque as pessoas têm que vir para cá, estrangeiros têm que vir com uma razão qualquer forte. Normalmente trazem várias coisas, não trazem só dinheiro, trazem know-how, trazem população. E agora outra vertente dos estrangeiros, nós precisamos muito da imigração. Muito de imigração, muito mesmo. Por isso, nós não podemos ter aqui nenhuma atitude xenófoba ou demasiado nacionalista, que na prática é bacoca e sem qualquer vantagem. E por isso eu vejo aí como claramente um fator importante. Sobre o mercado imobiliário para portugueses, é importante recordar que a pandemia trouxe-nos algumas alterações na forma como nós olhávamos para as casas.
Exatamente.
Por isso hoje em dia vivemos mais dentro da casa, valorizamos mais as casas, e por isso é normal que isso mesmo aconteça. E depois é importante recordar que, mesmo assim, os portugueses têm um nível de poupança muito elevado. Mantemos o nível de poupança em relação ao PIB, nos particulares, de 91%. Só para dar um dado que eu acho que é importante, tenho ouvido muita coisa sobre este tema. O endividamento das famílias em 2012, 2011, era cerca de 92% do PIB. Neste momento é 61%. E que compara com a Europa, 58%. Nas empresas, o endividamento das empresas, não estou a falar de setor público. Nas empresas era 140% do PIB. Neste momento é 91% do PIB, quando na Europa é 108% do PIB. Ou seja, o que eu estou a querer dizer é que a sociedade portuguesa, seja empresas, seja particulares, fizemos um enorme esforço de alavancagem financeira e fizemos um enorme esforço de preservação da poupança. E essa poupança, que hoje em dia existe tanto nas empresas em capital e liquidez, como no caso dos particulares, em poupança, e vê-se o que cresceram os certificados de aforro. Certificados de aforro, neste momento, valem mais de 28 mil milhões de euros, demonstra bem que existe uma capacidade de investimento, quando nós precisamos de um melhor bem-estar, esse mesmo investimento existe. E por isso eu penso que o mercado imobiliário, também para portugueses, terá sempre uma certa procura. Qual é a nossa preocupação e que deve ser a nossa grande preocupação? É que há um conjunto, e que não é pequeno, muito significativo, nomeadamente aqueles que estão a começar a vida, que não conseguem aceder a comprar uma casa. E já não estamos a falar se é no centro da cidade ou onde é que ele é. Não conseguem. E por isso nós temos que encontrar aqui caminhos alternativos. Mais uma vez, eu não sou político, mas penso. E eu acho que nós temos que encontrar claramente aqui caminhos alternativos e que outros países utilizaram com casas com preços acessíveis. E nós temos que fazer construção com dimensão para todos esses jovens que querem ficar em Portugal, que querem desenvolver o país e precisam de uma habitação. Aí, claramente, nós temos que atacar também esse mercado. E por isso, mais uma vez, a solução passa, no meu ponto de vista, por construção nova, seja a preços acessíveis, seja construção mais comercial, mas eu penso que passa por aí.
Ou seja, demos aqui muitas voltas, falamos aqui um bocadinho de tudo e realmente chegamos à conclusão, na base é que está o problema. Ou seja, falta produto.
É, eu penso que falta produto. Se tivesse que resumir, falta produto.
Falta produto e é necessário investir nisso.
E criar incentivos para isso. Além do mais, a construção sempre foi um motor muito importante de desenvolvimento em Portugal, cria muito emprego e tem muitas relações interdependentes em várias indústrias que eu acho que nós temos que impulsionar.
A todos os níveis.
A todos os níveis.
Diretamente, das cimenteiras, aos materiais de construção, o que seja, as pessoas que trabalham, que toda a vida deram tanto trabalho e que neste momento emigraram nos últimos anos, os bons pedreiros, os bons carpinteiros, os bons canalizadores, que são agarrados por essa Europa afora. João Pedro, falaste de escritórios. Eu recentemente tive o prazer de visitar os vossos escritórios. Gostava de dar os parabéns.
Obrigado.
Projeto realmente fantástico. Eu gostava de saber o que é que tu sentes agora que vocês estão lá instalados, em termos do que é que as pessoas que trabalham no Banco BPI, o que é que sentiram ao voltar a trabalhar e o que é que sentiram ao voltar àquele escritório?
Era bom ouvi-las mais a elas, porque eu vou ter sempre alguma influência da minha paixão, porque de certa maneira fui grande influente que nós tivéssemos um escritório no centro de Lisboa, com aquela visibilidade, com aquele arranjo de espaço e que eu acho que foi um atrativo e tem sido um atrativo, nomeadamente para os jovens, para o talento. Tem sido muito importante. Para retenção de talento. Mas acima de tudo, diria três ou quatro coisas. Em primeiro lugar, os espaços comuns que encontrámos para os nossos colaboradores são todos nas zonas mais nobres do edifício, nos últimos andares, com as melhores vistas, espaços mais alargados. Toda a gente trabalha junto à janela, o que é importante também. Toda a gente tem luz natural, trabalha junto à janela. Temos a maior loja da Península Ibérica, 2300 m² que é all in one. É um espaço, de facto, incrível, onde mete todos os negócios, desde os particulares às empresas. Temos um espaço de restauração dentro do edifício também inovador, tanto com serviço externo como serviço interno. Não há gabinetes, os gabinetes que existem chamamos office for a day, quer dizer, as pessoas podem se isolar e ter esse espaço. Não há telefones em cima da mesa, o que é um enorme descanso. Clean desk. Toda a gente tem o seu lugar. Ou seja, isto não é lugar quente, toda a gente tem o seu lugar. Há uma grande interação entre as pessoas, e por isso Eu sinto uma grande satisfação, mas acho que era bom perguntar. A gente fez vários inquéritos, obviamente são positivos, mas era bom perguntar.
Eu tenho falado com alguns, gostava muito, obviamente, de ter a tua opinião. O que é que tu sentes que estes novos espaços, como hoje em dia são pensados, qual é que é o contributo para a eficiência, a eficácia, a produtividade dos colaboradores e, sobretudo, em termos culturais, que as pessoas às vezes esquecem-se disso, desvalorizavam isso, a questão cultural e realmente o sentido de pertença a uma instituição. Sentes que o projeto que foi idealizado e realizado contribuiu muito para isto, para a eficiência e questões culturais?
Eu quero acreditar que sim, porque falta tempo para efetivar. Poderá não ser a única peça, mas de certeza que é uma peça. Nós, os seres humanos, temos a parte emocional muito desenvolvida. E quando nós falamos em motivação e falamos em as pessoas serem produtivas, advém muito da nossa atitude. Qual é a atitude que cada um tem perante o trabalho. E acho que quando falamos também nas condições de trabalho, para além das condições remuneratórias, o espaço onde nós estamos é muito importante. Eu costumo dizer isto muitas vezes, o dia tem 24 horas, oito se estivermos a dormir, há 16. Das 16, metade estamos no trabalho. Se não estivermos em casa em teletrabalho, estaremos no escritório. Convém que esse espaço seja um espaço agradável, crie tranquilidade, que as pessoas possam, de alguma maneira, ter uma vida saudável, mesmo dentro desse espaço. Por exemplo, o edifício é A+, por isso tem várias valências. E também que as pessoas tenham aquela coisa de olhar para fora e ver o mundo. O edifício é todo em vidro, até ao chão, por isso há uma grande visibilidade. Eu penso que tem muito impacto. Eu penso que essas questões têm muito impacto e quero acreditar completamente que estar no centro de Lisboa, com todos os acessos, metro, autocarro, parque de estacionamento, etc, mais as condições do próprio edifício, acho que é uma enorme atratividade. E de facto, o que nós temos visto com o talento jovem é isso. Eu não tenho praticamente saídas de talento jovem. Desde que nós estamos no edifício, isso aumentou a retenção significativamente. Se quero acreditar que sim, agora o tempo é que vai dizer se temos razão ou não.
Vocês, entretanto, investiram muito em tecnologia.
Investimos.
Mais uma vez, muitos parabéns por aquela loja All in One, aquilo é fantástico, realmente enche o olho. Quem visita fica abismado com o que vê. Isso houve também um investimento muito grande em tecnologia, porque fala-se muito em tecnologia, temos que investir em tecnologia, mas depois realmente muitas vezes não se efetiva. Vocês efetivaram.
Efetivamos. Além de termos algumas pequenas coisas mais engraçadas, como o robô, que temos um robô que mostra a loja, temos um espaço metaverse onde as pessoas podem entrar em realidade virtual dentro do balcão e fazer transações. Todos os nossos colaboradores trabalham em wireless, em computadores portáteis. Todo o nosso espaço é interativo, por isso mesmo em alguns ecrãs onde podem se fazer várias coisas, o cliente pode interagir. Temos uma sala Ágora, onde leva 80 pessoas com um ecrã 360, por isso vejam bem o espaço que tem. De facto, utilizámos muita tecnologia, todas as salas de atendimento a clientes e para empresas são em videoconferência. Por isso nós procuramos aqui criar um espaço não só que seja agradável ir ao banco, que eu sei que hoje em dia muito pouca gente vai ao banco, mas também que seja possível para fazer negócios. E foi esse o ambiente que nós trouxemos. Até agora está a ser um sucesso muito acima do que nós esperávamos. Está sempre cheio, temos imensas pessoas a procurar o espaço. Nós temos um programa de animação permanente dentro das nossas instalações e vamos querer manter essa mesma toada. E acreditamos que isto não é uma novidade, nós copiamos este modelo de Espanha. O Caixa Bank também tem vários All in Ones. Nós até agora temos um, queremos abrir um outro no Norte, procuramos um espaço, mas ainda não encontrámos, mas é claramente uma nova forma de fazer negócio. Há uma coisa muito importante que apesar da tecnologia, apesar do digital, que as pessoas gostam: é estar com os outros. E nós criamos um espaço com uma dimensão que é muito agradável estar com os outros.
É muito equilibrada.
Exatamente.
Entretanto, ESG, fala-se muito, sustentabilidade, eu acho que já nem é um tema que se fala, é uma obrigatoriedade, é a nossa espécie que está em causa. Como é que o Banco BPI olha para este tema da sustentabilidade, do ESG, não só nas suas práticas habituais, como também, obviamente, na vossa vertente de financiamento bancário e se têm isso em consideração ou não.
Muito. Nós temos o plano diretor de sustentabilidade, que estamos há três anos, que foi anunciado, eu não vou aborrecer aqui com números, que estamos mais que a cumprir. Nós temos sido líderes, inclusive, na emissão de obrigações verdes. No apoio social, temos com a Fundação "la Caixa", já em 2022, no orçamento eram 40 milhões, este ano são 50 milhões de euros para obra social, o que é, de facto, impressionante para o panorama nacional. O número de pessoas atingidas ultrapassa as 120 mil, o que é, de facto, também um número muito significativo e também ao nível do governance, com a paridade com as mulheres. Por isso nós temos feito imensas iniciativas nessa área, mas eu gostava aqui de dar duas pinceladas, se me permites, sobre este tema do ESG. Primeiro, gostava muito de destacar o S. Eu não acredito que seja possível ninguém encarar o environment, ou neste caso, o ambiente, se não tiver o seu problema social resolvido, ou seja, se os seus mínimos de vivência, de vida, não sejam cumpridos. Por isso eu acho que nós temos que dar uma grande atenção, mais atenção ao S, e é isso que nós estamos a dar, e eu chamava muito a atenção. E depois no outro ponto, é que eu até no ESG gostava de chamar EESG, e o outro E é educação. Eu acho que é um tema importantíssimo, se nós trazermos mais pessoas para entenderem o problema do planeta, o problema social e a importância do governance, as pessoas têm que ter mais educação. E aqui o papel das universidades é fundamental. Temos excelentes universidades e por isso eu continuaria a apostar muito no ensino. E por isso, em remate, eu diria Esta é uma daquelas novidades que já deixou de ser novidade e é uma exigência.
Claro. É como eu dizia, é a nossa espécie que está em causa, é isso que nós temos que pensar.
E o nosso modelo de sociedade.
E o nosso modelo de sociedade. Educação, concordo plenamente contigo. Nós que temos filhos, temos que realmente apostar e investir muito. É o grande investimento. João Pedro, para terminar, BPI e JLL.
Aquilo que eu penso mais importante entre duas organizações com o prestígio que tem, nomeadamente a JLL, para nós é uma enorme honra juntar duas marcas que têm muita reputação, têm muito reconhecimento em Portugal. Nós temos feito várias operações juntamente com a JLL e continuaremos claramente a fazer. Acima de tudo, eu penso que aqui a experiência, o know-how, mas acima de tudo também a reputação, é algo muito importante num mercado muito fragmentado como é o mercado imobiliário. E por isso, o que eu posso dizer é que daquilo que nós temos experimentado, estou bastante satisfeito. Não foi essa a razão pela qual aceitei o convite, mas também não aceitaria, eventualmente, com qualquer um. E por isso, posso dizer, do nosso lado, daquilo que nós temos operado com a JLL, também estão de parabéns, estamos bastante satisfeitos e vamos continuar nesta parceria durante mais anos.
João Pedro, muito obrigado. Eu acho que nós tínhamos pano pra mangas.
É verdade.
Eu acho que era necessário, se calhar, um outro podcast para continuarmos esta nossa conversa. João Pedro, muito obrigado.
Obrigado.
Pelo teu contributo. Muito obrigado por teres aceite este nosso convite. Foi realmente um prazer e uma honra ter-te conosco.
Obrigado, Gonçalo.
Damos por terminada esta conversa, uma conversa fantástica com o João Pedro de Oliveira e Costa. Realmente é como eu digo, teríamos aqui muito mais tempo e muito mais para falar. Foi um prazer. Espero que tenham gostado. Muito obrigado a todos.
Obrigado, Gonçalo.