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Ainda há autárquicas pelo meio, mas as presidenciais de 2026 já aquecem. O ex-líder do PS, António José Seguro, está a ponderar uma candidatura à direita. Gouveia e Melo, que não exclui entrar na corrida, vê o atual inquilino de Belém, Marcelo Rebelo de Sousa, a defender que o mais lógico é o almirante continuar à frente da Marinha. É uma notícia d'"O Observador". Tiramos temas agora entre os ex-ministros Miguel Relvas, pelo PSD, e Adalberto Campos Fernandes, pelo PS. Muito bem-vindos.

Boa tarde.

Boa tarde.

Adalberto Campos Fernandes, foi aqui mesmo na Rádio Observador que o senhor lançou em junho o nome do ex-ministro das Finanças Mário Centeno para Belém. Vou recuperar aqui a expressão que usou na altura para lhe perguntar se António José Seguro também é um bom nome.

É um bom nome. O Partido Socialista tem um conjunto de nomes, felizmente, como aliás terão à área do PSD e do centro-direita, terão bons nomes, com qualidades e qualificações suficientes. Outra coisa é nós acharmos qual desses nomes está em melhores condições para responder às necessidades do país em janeiro de 2026, do ponto de vista da chefia do Estado.

E tem uma opinião sobre isso?

Eu mantenho a minha posição. Tenho imenso respeito pelo António José Seguro. Acho que o país respeita muito, é uma pessoa de caráter, com grande sentido de Estado. Tenho pena que ele tenha estado tanto tempo ausente e acho que isso, de alguma maneira, pode deixar no país a ideia de que se desinteressou pelos aspetos cívicos, pela coisa pública. Não será esse o caso, mas 10 anos é muito tempo e naturalmente que haverá muitos portugueses que não conhecem, neste momento, o pensamento político de António José Seguro, sobretudo os mais jovens. Mas de qualquer das maneiras, a legitimidade para se lançar nessa candidatura é total e veremos o que o tempo nos vai mostrar, embora me pareça que estes anúncios estão a ser, do meu ponto de vista, manifestamente precoces em termos de gestão do tempo político.

E por quê?

Primeiro, o orçamento nem sequer está votado na votação final global. Segundo, porque há um ciclo político-eleitoral muito relevante, que são as eleições autárquicas. Terceiro, porque há uma indefinição ainda grande nas diferentes áreas políticas, à esquerda e à direita, e há candidatos de peso, ou digamos, protocandidatos, cuja decisão nós não conhecemos. E depois, porque repare, nós temos neste momento, da parte daquilo que o António José Seguro ontem ainda disse na sua entrevista e bem, um alinhamento com uma visão ao centro do país. Será uma visão muito diferente daquela que hoje o próprio Partido Socialista tem relativamente à condução política do próprio partido. Há aqui matérias muito interessantes, creio que estamos demasiado cedo para que esse tipo de avanços se concretizem, mas vamos ver, vamos aguardar.

Mas já que fala nessa visão ao centro do país, Miguel Relvas, já agora, António José Seguro até poderia ser um candidato que congregasse apoios também no centro-direita.

Antes de mais, boa tarde. Eu gostei de ouvir António José Seguro dizer que vai regressar à vida pública. É positivo, ganhamos com isso. A política tem perdido qualidade nos últimos anos e António José Seguro é sempre uma garantia de qualidade para a vida política e para a vida pública. Em primeiro lugar, esta é a minha posição de princípio. Quero também aqui referir que há uma diferença entre o discurso dele e o discurso atual do Partido Socialista. Um discurso muito mais tranquilo, um discurso virado e com a preocupação do crescimento da economia, com uma visão de entendimentos entre as forças do centro para fazer reformas. Teve um discurso mais reformista do que aquele discurso muito inconstante e inconsistente que nós temos ouvido ao Partido Socialista. À sexta apoia o orçamento, ao sábado não é a favor do orçamento, ao domingo faz um acordo sobre o IRC e na segunda-feira já muda de opinião. É esta a situação que nós temos tido nos últimos meses do Partido Socialista. E em terceiro lugar, eu vi uma disponibilidade dele em ser candidato, mas ainda em estudar a questão. Ele não se assumiu como candidato. Conhecendo, como conheço o doutor António José Seguro há muitos anos, ele não é só Seguro de apelido, é também seguro na forma política como age. E, portanto, desenganem-se aqueles que acham que o doutor António José Seguro já assumiu a sua candidatura presidencial. O que em primeiro lugar é inteligente, porque vai querer ver avaliado o seu nome, vai ter um programa de televisão onde vai querer ver se tem audiências, se há impacto, se há empatia e vai querer ver os estudos de opinião. E depois também uma outra questão, que alguns acelerados políticos têm tentado impor, que é ter o candidato a Belém em janeiro de 2026 escolhido em janeiro de 2025. Nos dias de hoje, quem for candidato tão cedo, mais do que crescer, estamos a falar de pessoas que têm notoriedade política já significativa, eu não acredito que cresçam, acredito que possam vir a ser destroçados. E agora respondendo diretamente à sua pergunta, depois desta minha introdução. Se é um candidato que pode querer votos ao centro? Naturalmente, o candidato do PSD e do PS são aqueles que, um vindo da direita para o centro E o outro vindo da esquerda para o centro. O centro não é um ponto de partida, não é um ponto de base político, é um ponto de chegada e de encontro com os eleitores que possam, indeterminadamente, estar mais desiludidos, com uma maior expectativa sobre o discurso que vai ser apresentado. E eu naturalmente acho que sim, isso vai depender de quem for o candidato que ocupe o espaço do centro-direita e da alternativa. Há candidatos que se posicionam, até com bons resultados nas sondagens, que nós não sabemos se são de direita, se são de esquerda. Nós conhecemos o pensamento. Tiveram uma ação pública aquando do Covid, mas não têm uma visão, nem essa visão está assente num pressuposto político. Não sabemos o que é que pensam, qual é a visão que têm da economia, qual é a visão que têm da organização do território, qual é a visão que têm do Serviço Nacional de Saúde, qual é a visão que têm se deve ou não deve haver reformas no sistema de Segurança Social, que está numa situação delicada. E essa é que é a questão central. O presidente da República, com esta dispersão política, irá ter nos próximos quatro anos, um papel importante. E deixe-me só terminar da seguinte forma, até porque nós temos um presidente da República a terminar o mandato e a sair pela porta pequena. E portanto, é fundamental ter candidatos a presidente da República que tenham uma imagem forte, mas que acima de tudo, e mais do que a imagem, que deem a garantia de ser alguém que pode gerar entendimentos para reformas e não entendimentos para discursos de circunstância.

Miguel Relvas, daquilo que está a dizer, depreendo que também ainda espera novidades na pole position dos candidatos presidenciais. É isso que diz quando diz que estes estão a aparecer cedo demais?

Sabe Raquel, eu tenho dito semana após semana, sempre que interrogado sobre esta questão, que eu entendo que a data de aparecerem os candidatos é maio, junho, julho no máximo. Os candidatos aparecem e-

Mas esta é uma fase também de posicionamento, no fundo, para condicionar candidaturas.

O posicionamento é uma coisa tão supérflua. Hoje em dia é tão volúvel como nós temos visto. É-se candidato num dia, não é no dia seguinte. É muito fácil em Portugal, pela dimensão do nosso país, o peso da comunicação, a visão que há da vida pública, é muito fácil, em pouco tempo, nomes que têm de ser nomes de referência, já com alguma referência, poderem ser candidatos a presidente da República como alternativa. Não estamos aqui a falar do candidato do Bloco de Esquerda ou do Partido Comunista. O Chega nem se coloca, porque o candidato é sempre o mesmo. Do Chega nunca podemos ter à espera a situação de nos surpreender com nomes, é sempre o mesmo. Isso já sabemos, se tiver candidato, quem é. Portanto, a grande questão aqui é o almirante Rovira e Melo tem-se posicionado nesta situação. Esta semana apareceu naquela situação em que demonstrou que afinal é um jogador fora do sistema. Ele é do sistema, porque um chefe dos ramos das Forças Armadas que aceita encontrar-se com o ministro da Defesa num bar, tudo à noite, tudo encontro secreto, é mais do sistema, é mais do mesmo e é pena, isso não é bom para a nossa democracia e não é bom para quem vai para Belém. Belém traz um acréscimo de responsabilidade. Será o sucessor de Mário Soares, de Jorge Sampaio, de Cavaco Silva. Não é propriamente uma lista de mais um.

Ocultou o nome do atual presidente. Ocultou o nome do atual presidente por quê? Porque acha que essa não é referência?

Não, para mim não é. Eu acho que o próximo candidato será o anti Marcelo. Tenho dito, este candidato fez um primeiro mandato baseado na afetividade e fez um segundo mandato baseado no discurso impróprio de um presidente da República que diz: "Se não há orçamento, vamos para eleições." Isso não cabe. Ao presidente da República cabe rituais de decisão. O presidente da República é um referencial de estabilidade, não se pode transformar num ritual e num referencial de instabilidade. Custa muito, eu apoiei na sua primeira candidatura, acreditei que pudesse ser positivo. Usou e utilizou bem um vazio no espaço político e veio o discurso da selfie, a atitude da selfie e o discurso do afeto. Chegamos à conclusão que foi o presidente que mais instabilidade gerou no país. Eu acho que isso não me parece positivo e, portanto, nós temos que voltar novamente para ter um presidente da República que seja capaz de nos garantir segurança, garantir tranquilidade na sua atitude, reserva. Um dos poderes do presidente da República é a reserva. O presidente da República não é aquele que pode todos os dias falar.

Adalberto Campos Fernandes, havia algum tipo de condicionamento por parte de Marcelo Rebelo de Sousa ao defender que o mais lógico é o almirante continuar à frente da Marinha? Algum condicionamento para o próximo inquilino em Belém?

Eu aí acompanho o Miguel Relvas nesse sentido. O atual presidente da República não se devia, de facto, intrometer nesta questão. Não é adequado, quer dizer, acho que é, aliás, politicamente intrusivo. É uma matéria que já não lhe diz respeito. Nós não estamos numa monarquia, numa dinastia, portanto, não há aqui sinais de sucessão nem de rejeição. Eu acredito, enfim, de certa maneira acompanho as palavras do Miguel Relvas. Eu fui um forte apoiante do professor Marcelo Rebelo de Sousa na primeira e na segunda eleição, mas eu acho que ele a certa altura deixou de compreender quais são os limites entre o institucionalismo, a representação da República, o distanciamento que é preciso ter com os outros poderes e trocou o afeto e a afabilidade e a simpatia mais fácil por aquilo que é necessário que um presidente tenha, que é a gravitas. É por isso que o presidente que vier a seguir vai ser alguém que de alguma forma vai ter características diferentes. Não pode ser ninguém que arredonde o discurso, que tenha uma lógica muito elástica. Tem que ser alguém que afirme a autoridade do país. O país, neste momento, face ao que acontece na Europa, no mundo, na guerra, nos Estados Unidos, o país é sensível à afirmação de uma candidatura que seja forte e que tenha gravitas e autoridade. E, portanto, eu acredito que quem tiver essas características vai ter vantagem. Infelizmente, e vou dizer isto Com o respeito enorme que tenho pelo almirante Gouveia e Melo. Eu que não gostava que aos 50 anos da democracia os militares voltassem a ser chefes de Estado em Portugal, eu acredito que o almirante Gouveia e Melo preenche de alguma forma estas características e é um competitivo candidato a ter em conta nestas próximas eleições.

Gostava ainda de fazer uma pergunta aos dois, talvez começando por si, Adalberto Campos Fernandes, que é: face à fragmentação da política portuguesa e aos muitos candidatos de que agora se fala, independentemente de quais vão ser os candidatos finais, acham que desta vez vamos ter uma repetição da corrida Mário Soares, Freitas do Amaral, e vamos mesmo ter uma segunda volta das eleições presidenciais?

Sim, claramente que iremos ter uma segunda volta.

É nisso que o Partido Socialista aposta?

Oiça uma coisa. Seguramente que o Partido Socialista não vai cometer o erro de outras eleições presidenciais, de fragmentar o seu apoio e concentrará o seu apoio político ao candidato que entender mais bem colocado ou que o próprio partido entenda definir como o melhor candidato. Ter o apoio do partido PSD e ter o partido PS dá logo a esse candidato uma vantagem em termos de possibilidade de se aproximar de segunda volta. O problema vai ser a segunda volta. Essa sim, vai ser em termos de dinâmicas de voto e também quais vão ser os protagonistas que vão estar de um lado e do outro. Porque nós estamos a falar de candidatos moderados. Não falámos, curiosamente, de Augusto Santos Silva, quanto a mim, é ainda um nome a ter em conta no espaço do Partido Socialista com importância. Mas estamos a falar de que o Partido Socialista tem 30 e poucos por cento de intenções de voto. Os partidos à sua esquerda não serão muito favoráveis a candidaturas moderadas de pragmatismo centrista e temos 18% ou 17% de um partido que é indefinido do ponto de vista do seu comportamento e da previsão do seu comportamento. Vão ser umas eleições muito especiais. Eu aí reforço aquilo que já foi dito. Cautela e galos de galinha, porque a precipitação dos anúncios ou os avanços feitos fora de tempo podem vir a comprometer as expectativas de muitos, a começar pelos próprios que se posicionam como candidatos nesta altura.

Miguel Relvas, sobre esta questão da segunda volta.

Sinceramente, não posso responder essa pergunta hoje. Eu não sei, à partida, se houver uma grande clivagem, teremos duas voltas, mas nós sabemos que tem havido uma alteração muito significativa em termos eleitorais. Há hoje uma clara supremacia do espaço político à direita. Vai depender muito dos candidatos que estiverem apresentados. É difícil ganhar-se à primeira volta, naturalmente que sim. É impossível? Não. Nós sabemos que não. A grande questão é que vamos também ter eleições autárquicas antes, que podem trazer alguma instabilidade. E nós sabemos que com este Parlamento temos que estar sempre disponíveis para encarar momentos de surpresa. E esses momentos de surpresa fazem alterações eleitorais, esses momentos de surpresa criam situações de mudança estratégica e de mudança tática em termos políticos. Eu não acredito que a tranquilidade política venha com a aprovação do orçamento. Nós já vimos como tem sido todo este discurso na especialidade do orçamento. Agora a grande questão das eleições presidenciais, e que é fundamental é: nós temos que ter um candidato a Presidente da República que na sexta-feira antes das eleições, ou no sábado antes das eleições nos Estados Unidos, numa terça-feira, venha dizer publicamente: "Eu prefiro que ganhe o candidato A e não ganhe o candidato B". Ganhou o candidato B. Quem ficou mal? Quem fez as declarações não foi o país. O Presidente da República representa o país e eu não posso aceitar isso. Isso custa muito, independentemente do candidato que ganhou ter sido um candidato republicano, se tivesse sido dito o inverso, eu também questionaria e criticaria. E a campanha eleitoral vai servir para mostrar aquilo que cada um tem de mais forte, aqueles que forem candidatos, mas também serve muitas vezes para acentuar as debilidades. E como nós sabemos, as campanhas eleitorais são particularmente importantes nestes actos, porque nós temos a oportunidade de ver os confrontos, de ver a diferença entre os candidatos e de sentir onde é que há um destino, onde é que há uma estratégia.

E ainda não há candidatos oficiais, mas há vários nomes que se vão perfilando, como se diz, até ao lavar dos cestos é vindima. Muito obrigada, Miguel Relvas pelo PSD e Adalberto Campos Fernandes pelo PS, por terem estado neste Tira-Teimas.