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Sejam bem-vindos. Começa aqui mais um episódio de Transformar Portugal. Este podcast é uma parceria entre o Observador e a EY, onde debatemos temas decisivos para o futuro da economia portuguesa. Neste episódio, olhamos para o setor financeiro para saber qual é o papel da banca no desenvolvimento do país e como é que a tecnologia está a transformar o seu próprio negócio. E vamos fazê-lo com Afonso Fuzeta e Essa, é administrador executivo do BPI, é ele o responsável pelos sistemas de informação. João Sequeira, é partner da EY, com a área da tecnologia para o setor financeiro, e Mauro Batista, diretor para a transformação do negócio também da EY. Eu sou Paulo Ferreira, dou as boas-vindas, antes de mais, aos três. É um gosto recebê-los aqui. Afonso Fuzeta e Essa, deixe-nos começar por si. Nós estamos em plena execução de fundos Portugal 2030. Vamos, obviamente, falar de financiamento às empresas. Há uma forte dinâmica também de garantias dadas pelo Banco Português de Fomento. Como é que a banca comercial, como o BPI, trabalha para garantir que o dinheiro chega onde realmente gera mais valor e mais produtividade na economia portuguesa?
Paulo, uma excelente questão. Temos assistido a uma enorme dinâmica, realmente, do Banco Português de Fomento. Viramos a página nessa instituição com enorme sucesso ao longo dos últimos meses. E do lado dos bancos, acho que também temos feito o nosso papel, e o nosso papel é utilizarmos a nossa capilaridade, o estarmos próximos do tecido empresarial para garantir que os muitos projetos que os empresários, seja de pequenas, médias ou grandes empresas, ao longo deste país fora, tenham acesso aos fundos em tempo, que participamos não só nesta parte de divulgação, de que estes fundos existem, que é uma parte muito importante e que muitas vezes menosprezamos. Numa segunda, que somos sellers a processar as candidaturas e a ajudar nessa parte mais burocrática, chamemos-lhe assim. E depois, numa terceira, a apoiar no desembolso e em tudo o que é a vida das empresas. Portanto, acho que essa simbiose tem funcionado muito bem. Claro que pode funcionar melhor, mas cá estamos para isso.
Muito bem. João Sequeira, a EY é um posto de observação por excelência da economia portuguesa, das empresas. Tem o pulso do tecido empresarial português, sobretudo das maiores empresas. Muitas delas trabalham convosco. Vocês sentem que as nossas empresas olham para os bancos como parceiros também de processos de transformação ou ainda há um pouco aquela visão: o banco é para fornecer crédito, muitas vezes apoiado de tesouraria, até quando é preciso?
Eu acho que temos a ver uma mudança estrutural nos últimos tempos e um pouco aquilo que o Afonso está a dizer. Antigamente, via-se muito os bancos como financiadores, eu preciso aumentar a minha tesouraria. Mas acho que é uma mudança, não só pela transformação, pela inovação, pela rapidez com que as coisas estão a acontecer, mas eu acho que principalmente pela complexidade que acaba por existir. Como o próprio Afonso disse, existe aqui a necessidade agora de apoios nas candidaturas do Portugal 2030, nos apoios em relação com o Banco de Fomento, e acho que cada vez mais as empresas procuram os bancos como parceiros para transformação. Eu acho que hoje em dia nós olhamos e vemos que o capital está disponível, os bancos estão capitalizados, existem fundos de investimento. Acho que é preciso agora, até mesmo para a própria inovação do país e o crescer da competitividade portuguesa, que haja esta simbiose, esta parceria entre os bancos, que trazem o capital, que conhecem os processos, conhecem as cadeias de valor e conhecem os setores, trabalharem cada vez mais com as empresas para: como é que eu vou transformar a minha empresa?
E como é que o banco pode fazer parte disso.
Exatamente. E é aqui esta simbiose que eu acho que está a mudar e vemos as empresas cada vez mais a procurar os bancos como parceiros.
Claro, e isso implica, provavelmente, também mais exigência da parte dos bancos. Mauro Batista, as grandes empresas, os grandes grupos portugueses, não que serão muitos, mas alguns têm acesso ao mercado global ou pelo menos europeu, de financiamento, o mercado financeiro europeu, sobretudo no contexto da moeda única, e têm financiamento alternativo em relação àquilo que é a banca que opera diretamente em Portugal. Nesse sentido, qual é o valor acrescentado da banca que a portuguesa tem nesse contexto?
Acho que a minha resposta também vai um pouco de encontro àquilo que o Afonso e o João mencionaram. Efetivamente, existem mais alternativas de financiamento, é inegável. Por outro lado, as decisões que as empresas hoje atravessam e têm a tomar não é apenas sobre financiamento. Se nós pensarmos que uma empresa quando quer crescer, pode pensar em crescer organicamente ou por aquisição, que tem que pensar, de alguma maneira, se financia para se transformar digitalmente ou não. Se está, por exemplo, a gerir o seu risco de acordo com aquilo que é viável e que até se o faz de forma prudente face àquilo que é a instabilidade geopolítica. Portanto, quando nós olhamos para tudo isto, são mais do que decisões financeiras. Importa ter como parceiro quem compreenda efetivamente o meu setor, o meu negócio, que compreenda o país onde eu estou inserido, e acho que ninguém consegue fazer isso melhor do que a banca portuguesa. Portanto, o capital, por si só, parece estar a tornar uma commodity, e o que verdadeiramente diferencia é o conhecimento que existe. Eu acho que, face a todos estes desafios, é muito difícil estas empresas terem estes diversos domínios de conhecimento dentro dos seus quadros, e aí ninguém melhor que os bancos portugueses para os poderem ajudar e serem efetivamente parceiros estratégicos.
Claro, um primado, Afonso, da relação mais de longo prazo.
Obrigado aos meus colegas de painel pelos comentários lisonjeiros para a banca portuguesa. O mercado financeiro ou o mercado bancário, especialmente na Europa, continua a ser muito multidoméstico O que eu quero dizer com isto? O conhecimento local, o saber o que é o tecido empresarial, conhecer as características das regiões. Por muito pequeno que um país seja, cada região é uma região, cada setor é um setor e, portanto, esta proximidade que os bancos conseguem trazer e proximidade aqui falo até para lá do digital, que continua a ser importante. Continuamos todos a gostar de falar com pessoas, ainda estamos nessa fase. No futuro, quem sabe?
Com reuniões presenciais.
Reuniões presenciais, que são importantes e têm o seu papel e constroem muita confiança e, portanto, os bancos, sim, têm uma. Sei que os nossos clientes nos veem como muito mais do que um apenas fornecedor de fundos e de dinheiro. E, portanto, o relacionamento é muito maior do que esse e obviamente isso é benéfico para ambas as partes.
Claro. Afonso, ainda nessa questão do relacionamento, nós estamos a passar por uma fase em que as exigências ESG, se quisermos ambientais, sociais e de regras de boa governança, deixaram de ser uma coisa gira para se ter, o tal "nice to have", e passaram a ser uma norma. Como é que vocês, banco, intervêm um pouco neste processo, no sentido até de levar a que as empresas cumpram de facto estas regras e a façam ao longo da cadeia de valor?
Intervimos bastante, até que grau devíamos ou não intervir, já não cabe a mim comentar, mas a Europa, se calhar de todas as geografias do mundo ou no espectro geopolítico, é quem levou mais a sério este tema da sustentabilidade, do ESG, como um todo, e o modo como a lei foi feita para fazermos o enforcement, se desculpar a palavra em inglês, de tudo isto foi muito via o setor bancário. Ou seja, o caminho de longo prazo que estamos a desenhar é um caminho em que as empresas que não estão conforme com este género de regras, lá para a frente terão mais dificuldade a aceder a capital, seja ele financiamento bancário ou outro tipo de financiamento.
Ou então vão tê-lo com condições menos boas.
Ou vão tê-lo com condições menos boas e menos favoráveis. E, portanto, o que é que tem sido o caminho? Um, do lado da banca, preparar-se para tudo isto, e é um caminho que não é de menosprezar, a transformação que também isso pediu. E depois cabe-nos ajudar as empresas de forma proporcional, e acho que essa parte aqui é uma palavra muito importante, a fazerem este caminho connosco, que é um caminho, como sabemos, tem altos e baixos. Às vezes estamos mais entusiasmados com o tema, outras vezes estamos menos. O contexto geopolítico aí também tem a sua importância, mas que é um caminho sem retorno e que as economias todas vão ter que, a que velocidade podemos discutir, mas que vão ter que fazer. E à banca cabe aqui um papel muito importante de poder ajudar as empresas a fazer este caminho, outra vez, a ser este parceiro de confiança. E como também salienaram os incentivos para que as empresas tenham que participar também, acho que é um caminho que vamos fazer em conjunto.
Em conjunto. João Sequeira, entrando aqui agora numa área mais tecnológica, se quisermos, nós sabemos que a inteligência artificial e a automação, neste momento, são absolutamente caminhos críticos para manter a competitividade. A grande questão é se o setor financeiro está preparado para financiar ou deixar de financiar tantos projetos, se quisermos, de ativos corpóreos, fábrica, tijão, e passar a financiar mais softwares, mais ativos mais intangíveis, propriedade intelectual, que têm muito a ver com este mundo, não é? E conseguir avaliá-los também.
Exato. Eu acho que claramente este é um dos desafios da próxima década. Aliás, nós conseguimos ver hoje startups que conseguem criar dezenas de bilhões de dólares de valor, porque criam uma propriedade intelectual a um software ou modelo de IA. E obviamente, isto não é o mesmo, avaliar um modelo de inteligência artificial do que avaliar uma fábrica. E mais importante que isto é que o mecanismo tradicional da banca estava feito para ter uma avaliação tangível dos bens e que seriam facilmente executáveis como garantia. Hoje em dia, isso torna-se ligeiramente mais difícil. E portanto, daí a parte de terem que ser parceiros e terem que trabalhar mais com as empresas. Obviamente, há uma mudança que está a ser feita, claramente, e o próprio programa Portugal 2030 e os incentivos todos que existem à inovação, olham muito para IA, inovação, dados e portanto, tudo o que é cibersegurança. E portanto, os próprios bancos estão a reinventar-se para conseguir fazer este tipo de avaliações, e é crucial que o façam, porque têm que injetar capital nestas empresas. É importante, e se olharmos o nível de produtividade de Portugal, ainda está muito abaixo daquilo que é a média da União Europeia, e precisamos desta inovação. E a banca tem um papel fundamental a tentar perceber como é que pode avaliar estes novos modelos, estes novos softwares, incentivar estas empresas a inovar mais e portanto, precisam de capital para o fazer. E portanto, é preciso perceber como é que tudo isto se encaixa para aumentar a produtividade, que é essencial fazermos crescer em Portugal nos próximos cinco, seis anos, para nos mantermos um país com alguma relevância na Europa.
Claro, isso passa a ser fundamental. Mauro, ainda nesta linha, e nós sabemos que temos um tecido empresarial com forte peso de PMEs, pequenas e médias empresas. A partir do momento em que a importância destas ferramentas tecnológicas acelera, nós não podemos correr o risco, de alguma forma, de criar um gap maior entre a capacidade das grandes empresas, que têm capacidade de inovação para recrutar os melhores e por aí fora, e as PMEs com uma estrutura mais débil para acompanhar o passo.
É uma boa pergunta e eu, como qualquer boa pergunta, se calhar começo já com um depende. Eu acho que depende, essencialmente.
Vamos consultar.
Exato. Depende essencialmente de quem gere. Porque a história da tecnologia ensina-nos
Acho que a todos, algo que a tecnologia tende efetivamente a concentrar valor. Veja-se o mais do que repetido exemplo da Amazon e o que fez num setor que era tipicamente tradicional. Transformou por completo e aqueles que estavam no mercado-
Do comércio.
Do comércio.
Começou pelas livrarias, não é?
Exatamente, começou pelas livrarias. Algo que estava tão tradicionalmente estabelecido, de repente levou com uma revolução brutal. E o que dá a ideia de que quem não tenta ou quem não vai atrás, fica efetivamente para trás, por assim dizer.
Claro.
Por outro lado, a boa notícia é que hoje a tecnologia está bastante democratizada. As empresas que hoje decidam investir não precisam de passar pelaquela jornada que foi típica dos bancos, de diversas formas de digitalização e de ir automatizando os seus processos pouco a pouco e usar as tecnologias quase como ferramenta. Eles não precisam de aceder a isso. A inteligência artificial, a cloud, está tudo mais acessível e nós não acreditamos que o valor de entrada, por assim dizer, o valor de investimento, seja por si só uma desculpa. O verdadeiro desafio continua a ser como é que eu atualizo, como é que eu repenso a minha forma de trabalhar e a minha operação.
Claro.
Aqui é que, para mim, continua a ser aquilo que é o maior desafio destas PMEs.
Portanto, a abordagem estratégica é que se faz perante isso, das empresas.
Exatamente.
O que fazer com isto. Afonso Ceteesa, agora olhando para a operação do BPI, para as prioridades tecnológicas do banco, quais são as vossas, nomeadamente aqui na introdução da inteligência artificial?
Respondendo já a isso, deixe-me só dizer uma coisa em relação ao financiamento da economia, desta nova economia, que eu acho que é uma parte fascinante. Nunca esquecer que, e eu acho que é uma coisa que não é repetida o suficiente, o principal dever dos bancos é proteger os depósitos dos seus clientes. Nunca nos podemos esquecer dessa parte. E portanto, quando o banco empresta, não está a emprestar dinheiro dele, está a emprestar o nosso dinheiro, então espero que vocês sejam todos clientes do BPI. Mas pronto, brincadeiras à parte, o que o banco se deve preocupar acima de tudo é que quando faz um empréstimo, que a empresa que o está a fazer tem forma de pagar. E, portanto, o que estamos é a ver-
Claro, cumprir a obrigação
...se vai conseguir cumprir a obrigação. Depois entramos na parte, que o João falou e muito bem, dos ativos que podem estar a colateralizar isto. E aí sim, o modelo bancário foi sempre muito mais pensado para a parte de ativos físicos do que para os intangíveis. O mundo é cada vez mais ativos intangíveis, isso é um caminho que a banca, como todas as indústrias, está obrigada a ir aprendendo e transformando. Indo para a nossa própria transformação, é um mundo de oportunidades a inteligência artificial. Está muito longe de ser uma magia e uma coisa fácil em que chegamos e ligamos e tudo mudou. Tem aplicabilidade, eu diria que em toda a nossa operativa. Onde é que nós estamos focados? Estamos obviamente focados nas partes em que podemos aumentar a qualidade de serviço para os nossos clientes. E o que é qualidade de serviço nos dias de hoje? É velocidade. Portanto, como é que eu consigo mudar processos, procedimentos, o que seja, para responder nesta velocidade a que estamos todos acostumados, seja banco ou outra indústria qualquer, de clicar numa coisa e tê-la disponível. E portanto, temos a nossa transformação toda à volta desta ideia de velocidade, de como é que eu consigo servir melhor os meus clientes e mais rápido e tem os seus desafios. Basta pensar a velocidade a que a banca se fazia há uma década e a velocidade a que se faz agora.
Sim, não tem nada a ver.
E as expectativas que temos do lado dos clientes, não nos esquecemos dessa parte.
Sem dúvida. Deixe-me pegar nesse ponto, maior novamente agora, porque a questão da relação da banca com os seus clientes, a relação de proximidade e até o contacto presencial vai se perdendo e os próprios clientes, acho eu, que a maior parte das vezes querem tratar tudo a partir da app e do computador, como é evidente. Mas de qualquer maneira, como é que a banca pode garantir essa proximidade do cliente num mundo que é cada vez mais à distância?
Certo. Já aqui falámos um bocadinho sobre isto, sobre interação pessoal. E o que me apraz dizer sobre este assunto é: a mim parece-me que efetivamente o conceito de proximidade mudou. Os meus pais lembram perfeitamente que para terem um qualquer extrato bancário, teriam que se dirigir ao balcão.
E conheciam-se seguramente pelo nome da senhora da caixa.
Exatamente. Se até essa simples interação obrigava a ir ao balcão, tudo o resto obrigava a ir ao balcão. E de tanto lá irem, que naturalmente as pessoas se conheciam e eventualmente até tomavam café e passavam até ser amigos. E efetivamente, isso mudou. Nós já não estamos nesse mundo, como o Afonso dizia, tudo tem que ser efetivamente mais rápido, mas eu vou tentar ser aqui rogado na minha próxima colocação, que é: eu acho que a tecnologia não afasta, ela tende também a aproximar. A forma como aproxima é que tem que ser medida de maneira diferente. Portanto, se hoje a necessidade do cliente não é deslocar-se até ao balcão, é ter as coisas mais rápido, ter os problemas solucionados no momento, então nós temos que, de alguma maneira, tentar ir de encontro àquilo que o cliente nos está a dizer. Portanto, ligue-lhe daqui a uma semana para lhe dar a resposta ou ligue-lhe ao final do dia, já não serve.
Deixa eu só cinco segundos sobre o assunto. Como nós costumamos pôr o problema internamente é: eu acredito que a inteligência artificial nos vai permitir humanizar brutalmente o serviço. E é quase um paradoxo, não é?
Parece um paradoxo.
Parece um paradoxo, mas não é. Mas o que é que há de mais humano de eu, por ter inteligência artificial, conseguir conhecer muito melhor o meu cliente e ser muito mais pertinente nas sugestões que lhe faço? O que é que há de mais humano de eu conseguir atender melhor De forma mais rápida e de forma mais eficiente. E há uma oportunidade de humanização enorme na utilização de inteligência artificial, por estranho que pareça.
E na libertação de tempo no dia a dia para nós todos, ou não? Isto é, tornando tarefas rotineiras mais rápidas, temos mais tempo.
Sim, a resposta imediata é sim. Teríamos mais tempo, conseguiríamos também chegar a mais pessoas. Depois o equilíbrio é que é difícil de se manter. Mas continuando e complementando aquilo que o Afonso estava a dizer. Os bancos, hoje em dia, têm dentro das suas organizações empresas de IT, centenas de pessoas dedicadas ao IT. É inegável, qualquer banco grande tem lá dentro competências que podem rivalizar com as melhores empresas de tecnologia. E nunca foram recolhidos tantos dados pelos bancos sobre os clientes, como agora. Se antes o conhecimento do que era o senhor António ou a dona Cristina, que são os meus pais, dentro daquilo que era o banco em que eles estavam, estava dentro da cabeça de uma pessoa, hoje em dia poderá estar acessível a toda a organização em vários departamentos.
Tem de ser trabalhada.
Tem que ser trabalhada, tem que ser recolhida. Agora, aquilo que me parece, tocando mais uma vez com aquilo que eu tinha falado, que é: nós, apesar disto tudo, não podemos pensar os processos da mesma maneira. Acho que há mesmo uma necessidade incrível de nós repensarmos a forma como operamos. Fez a Amazon, fez a Revolut, e os bancos nacionais terão que o fazer também para ir de encontro àquilo que é esta proximidade que o Afonso falava, que é diferente daquela que nós conhecemos. E aquilo que eu acredito, que é que no futuro, nós vamos olhar muito mais por uma tendência de hiperpersonalização. O cliente vai querer um produto para ele, não é o produto para Portugal ou para a minha região.
E começa a haver ferramentas para desenhar esse produto.
E começa a haver potencialidade nas ferramentas para conseguirmos chegar lá. Não sei se concordas.
Sem dúvida, e acho muito alinhado. Para retirar o verdadeiro valor de tudo isto, é um redesenho folha em branco, não é chegar ao que existe e embeber inteligência artificial. Isso traz um ganho incremental, não traz a transformação ou revolução, o termo que queiramos utilizar. E sim, olhando para um mundo em que vamos ter uma disponibilidade de informação muito maior, uma capacidade muito mais fácil de trabalhar e oferecer uma coisa muito mais customizada para o cliente, porque é também o que cada um de nós acaba por ser bombardeado no dia a dia com outros produtos com que contacta e, como não, na banca. Essa pressão concorrencial aí fará o seu caminho também.
João Sequeira, para fechar, e neste caminho que estamos agora de conversa, quais são, de facto, as grandes disrupções tecnológicas que se podem antever para o setor financeiro?
Eu acho que o ponto principal e a chave principal aqui é a hiperpersonalização que estamos a fazer aos nossos clientes. Eu acho que esse é o ponto importante. Nós antigamente éramos bombardeados com dezenas de notificações de coisas que não estaríamos interessados. Hoje, a banca, com a quantidade enorme de dados que consegue processar através de inteligência artificial, consegue, obviamente, ter uma personalização para cada cliente e eu acho que isso torna mais humana a relação, ou seja, parece que conhecem as minhas necessidades, sabem o que eu quero.
É o fato à medida.
Hoje os clientes não querem um crédito, na prática, têm um problema que querem resolver e querem ter de forma ágil que o banco os perceba e os entenda. Acho que é um bocadinho isto o caminho. Um ponto importante, se calhar, para rematar, eu acho que um grande investimento que os bancos têm que fazer é nos dados. Como é que garantimos a segurança destes dados, como é que trabalhamos com os dados. E chave importante é a confiança digital. Nós temos que dar confiança digital aos clientes da banca, as pessoas sentirem seguro, que os dados estão seguros. Já vimos os ciberataques. Tudo isto que existe à volta da perda de dados, de informação. Acho que é um investimento forte que a banca também tem que fazer ao nível da automação, garantir que consegue garantir esta confiança digital para todos os seus clientes.
Muito bem, João, Mauro, Afonso, obrigado aos três pela presença neste episódio de "Transformar Portugal". Este é o podcast do Observador em parceria com a EY, onde debatemos e olhamos para temas decisivos para o futuro da economia portuguesa. Hoje olhámos para o setor financeiro e para a transformação tecnológica em curso. Voltaremos brevemente com outro tema e outros convidados. Até lá.