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Este é o Tratado da Saúde da Rádio Observador com a doutora Vanessa Mendes, diretora clínica dos Centros de Saúde CUF. Doutora, bom dia. Bem-vinda.
Bom dia. Obrigada.
10 mil passos por dia é um dos objetivos de saúde mais conhecidos. Aparece nos relógios, nas aplicações e é quase uma regra universal. Mas será que é mesmo preciso atingir este número ou estamos a seguir uma meta que não se aplica a toda a gente? Doutora Vanessa, precisamos ou não de fazer 10 mil passos por dia?
Curiosamente, diria que não. O número 10 mil passos surgiu até de uma campanha de marketing no Japão, nos anos 60.
Sim.
E foi criada para promover um pedómetro chamado Manpoken. Penso que é assim que se diz.
Será, certamente.
Ou seja, é um número apelativo, mas não tem nenhuma base científica.
O que nos dizem os estudos sobre esta matéria?
Hoje temos dados muito consistentes. Há até uma meta-análise que foi publicada no ano passado na revista científica "The Lancet Public Health", com mais de 160 mil adultos, e que mostrou que atingir cerca de 7 mil passos por dia está associado à redução de cerca de 47% da mortalidade global. Isto é um número importante. Menos 25% de risco cardiovascular, menos 38% de risco de demência.
Pois as pessoas normalmente não associam uma coisa à outra.
Redução do risco de diabetes tipo 2 e melhoria da saúde mental. Ou seja, os benefícios são claríssimos. E começam muito antes dos 10 mil passos.
Qual deve ser o objetivo, então?
O objetivo deve ser ajustado a cada pessoa e para a maioria dos adultos, cerca de 7 mil, 8 mil passos por dia já representam um nível muito positivo. E mesmo valores mais abaixo, por exemplo, 4 mil, 5 mil passos, já trazem também ganhos relevantes.
Como já falámos noutros episódios, não importa fazer qualquer coisa.
Portanto, a partir dos 7 mil passos, os benefícios continuam, mas de forma mais gradual.
E na população mais velha, nos mais velhos, faz sentido falar destes números?
Esta é uma questão fundamental. Porque nos idosos ou em pessoas com alguma limitação física, o objetivo não deve ser um número fixo. As pessoas devem manter-se ativas dentro das suas capacidades. E sabemos, por exemplo, que mesmo cerca de 4 mil passos por dia já reduzem significativamente o risco de mortalidade nesta população. E aqui o foco deve ser manter mobilidade, prevenir quedas e preservar a autonomia, que é fundamental. Portanto, mais do que contar passos, é evitar a inatividade.
Estar parado. E a forma como caminhamos também conta?
Conta bastante. Caminhar mais depressa, com alguma intensidade, pode ser tão ou mais importante do que o número total de passos, porque tem maior impacto cardiovascular e metabólico. Ou seja, não é só quanto se anda, é também como se anda. E aqui eu às vezes brinco com os meus pacientes, não chegue a ver montras. Tem mesmo andar.
Sim, não é andar três metros e parar.
Isso mesmo. E depois é importante evitar longos períodos sentados, porque o sedentarismo prolongado é por si só um fator de risco.
Portanto, e para concluir, os 10 mil passos não são obrigatórios.
Não. Caminhar 10 mil passos é muito positivo, mas não é um requisito obrigatório. O mais importante é manter um nível de atividade regular, ajustado, naturalmente, à realidade de cada pessoa. E perceber que qualquer aumento do movimento tem impacto na saúde, pois mais do que atingir um número, o importante é não parar.
Não parar. tratardasaúde@observador.pt, para onde pode enviar as suas dúvidas, sugestões. Se preferir, também pode enviar um áudio para nós, para o WhatsApp 910024185. Doutora Vanessa, até amanhã.
Até amanhã. Obrigada.