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Cá estamos para mais um episódio de "Tratar da Saúde". Eu sou a Maria João Simões, comigo está a doutora Vanessa Mendes, diretora clínica dos Centros de Saúde CUF. Doutora, bem-vinda.

Obrigada, bom dia.

Há poucos anos, o mundo ficou surpreendido com a morte do ator Chadwick Boseman, aos 43 anos, porque foi vítima de câncer do intestino. Muitas pessoas perguntaram: "Mas isto não era uma doença dos 50 para cima?" Doutora, está mesmo a acontecer mais cedo?

Está, efetivamente. A destacar que a maioria dos casos continua a surgir depois dos 50. Contudo, sabemos que os diagnósticos em pessoas mais jovens têm vindo a aumentar. Em Portugal, são diagnosticados cerca de 10 mil novos casos por ano, e já 8% a 10% surgem abaixo dos 50. Dados internacionais também nos mostram um aumento de cerca de 70% a 80% na incidência abaixo de 50 anos nas últimas três décadas.

É impressionante. Isso ajuda a perceber por que se fala tanto em começar o rastreio mais cedo.

Verdade.

Não é capricho dos médicos.

Não. Nos Estados Unidos, as recomendações já apontam para iniciar o rastreio aos 45 anos na população de risco médio. Em Portugal, a Direção Geral de Saúde preconiza o rastreio para pessoas assintomáticas, e aqui é importante destacar, com idades entre os 50 e os 74 anos, através da pesquisa de sangue oculto nas fezes. Este exame é um teste supersimples, feito em casa, que procura pequenas quantidades de sangue que não são visíveis a olho nu. Quando existe um risco acrescido, com história familiar, por exemplo, está recomendada a colonoscopia como primeira linha e pode iniciar-se aqui aos 40 anos. A colonoscopia é um exame mais completo, pois permite ver diretamente o interior do intestino e remover pólipos, caso existam, que são então lesões pré-malignas.

Doutora, falou dos 40 anos, e a partir dos 40? Quem tem 40 e poucos anos deve fazer o quê?

Há três coisas fundamentais: apostar na prevenção, acima de tudo, já que 40% a 50% dos casos estão associados a fatores modificáveis e, por isso, é fundamental, por exemplo, uma alimentação rica em fibra, atividade física regular, o controle do peso, a cessação tabágica e a redução de consumo de álcool. Isto quase todos nós já sabemos.

Sim, isto é transversal a outras situações.

Exatamente. Depois, conhecer a história familiar e não ignorar sintomas que persistam ao longo do tempo.

Que sintomas são esses? Ou são aqueles que não devem ser desvalorizados.

Por exemplo, alterações persistentes do trânsito intestinal, sangue nas fezes, anemia sem causa aparente, uma perda de peso inexplicada ou uma dor abdominal que se prolonga. Não falamos de um episódio isolado, falamos de persistência.

Repetitivamente, não é?

Exatamente. E perante sintomas suspeitos, o exame indicado é a colonoscopia. Aqui não falamos em rastreio, falamos de investigação clínica.

Doutora, conselho para quem nos ouve e está na casa dos 40 ou tem amigos ou familiares com esta idade.

A maioria dos casos ainda surge depois dos 50, mas os casos mais jovens estão a aumentar. E por isso diria que aos 40 não é altura para alarmismo, mas sim consciência. Caso não existam fatores de risco, pode fazer sentido conversar com o médico de família, por exemplo, e de forma personalizada, definir a estratégia mais adequada. A evidência é clara: o diagnóstico precoce no câncer colorretal está associado a elevadas taxas de cura. Por isso, a prevenção é, sem dúvida, a nossa maior aliada.

É mesmo. Doutora Vanessa Mendes, muito obrigada por mais um "Tratar da Saúde".

Obrigada.

Até amanhã. Já sabe que tanto este como episódios anteriores estão disponíveis em podcast.