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Começa agora mais um Três Toques, sempre com o Júlio Magalhães, que, já sabe, também pode acompanhar em directo no YouTube, Facebook e site do Observador.
Quem? O Três Toques ou o Júlio Magalhães?
O Júlio, o Três Toques, tudo. As câmaras andam sempre voltas a ti.
Sempre. É como os drones do Presidente. Exato, meus drones. É mais uma coisa. Meus drones andam calados.
Foi por acaso.
Pronto, andam calados, o que é que vocês querem? Ora muito bem, bom dia.
Bom dia. Então, tudo bem?
Bom dia aos nossos ouvintes que estão para aí e a vocês também. A vida corre-vos?
Corre.
Ainda bem. Mais aqui.
É que sim, a gente.
Ora bem, hoje, por sugestão, devo dizer, tem autoria este Três Toques de hoje da nossa Carla Jorge Carvalho.
Ande cá para isto.
Ande cá para isto. É uma cabeça.
É uma cabeça.
É de uma raça.
Não, eu sou uma pessoa com memória, porque aqui são todos muito jovens e eu sou a antiga. É só por isso.
Como há já uma greve de jornalistas, a nossa Carla ontem deu uma sugestão e eu fui atrás dela, claro.
De mim?
Da sugestão. E então fomo-nos lembrar de quê? De quem se lembrou? De Saltillo, a Seleção Portuguesa no Mundial de 86. Tu eras nascida, Carla.
Vagamente.
Vagamente.
Era uma criança.
Apurou-se para o Campeonato do Mundo do México e ficou instalada em Saltillo. E aquele Campeonato do Mundo foi tudo menos-
O fim do mundo.
Foi o fim do mundo. Houve uma greve de jogadores, foi uma insubordinação, foi uma confusão, aquilo acabou mal, enfim, foi mesmo o fim do mundo. Quem estava lá nessa seleção? Augusto Inácio, que fazia parte dessa seleção. Augustinho Inácio, o rebelde. E que está agora ao telefone. Inácio, bom dia.
Inácio, bom dia.
Muito obrigado.
Bom dia a todos.
Obrigada por estares conosco, Inácio.
Inácio, tantos anos depois, Saltillo ainda é tema, mas o que é que fica desse mundial? O que é que se passou verdadeiramente que a gente ainda não saiba?
E que possa contar.
E que possa contar.
Não é isso. Nunca ninguém vai saber, porque cada um conta a sua história.
Exato.
E cada um, pronto, eu conto à minha maneira, foi aquilo que eu vivi, mas se calhar outros viveram outro tipo de situações. Olha, deixa-me dizer que aquilo não foi bem uma greve, aquilo foi uma revolta.
Pois, uma revolta, uma rebelião.
E uma rebelião mesmo, mas foi mesmo rebelião. E talvez a partir dessa rebelião, se calhar hoje Portugal está tão bem organizado como está, se calhar à custa de alguns que tiveram que ter essa rebelião, senão nunca mais aquilo acontecia. Mas tudo aconteceu, não foi lá no México, tudo aconteceu aqui já em Lisboa, na preparação para irmos para o Mundial. E aquilo tinha muito a ver, claro, nessas coisas, é sempre os dinheiros que causam muitos estragos. E naquela altura havia muita publicidade, muita sponsorização, e o jogador não recebia nada. Era zero, era tudo para a federação.
Vocês eram usados na publicidade.
Nós éramos os palhaços. Tínhamos que usar, por exemplo, na camisola, isto é um exemplo entre vários exemplos, Sagres, e o logotipo também nas calças, Sagres, e nos calções, Sagres. O que a gente fazia com aquilo para reivindicar? Virámos aquilo ao contrário, as calças estavam ao contrário, as camisolas estavam ao contrário.
De cabeça para baixo.
Não havia publicidades para ninguém. E depois o problema coloca-se sempre, é sempre a mesma coisa: queremos resolver as coisas aqui antes de irmos para o México. "Sim, mas agora aqui não há tempo, mas lá no México a gente de certeza que resolve." Deu o que deu, como é evidente. E então aquilo foi um alvoroço, porque aquilo houve comunicados, aquilo houve reuniões, aquilo houve, enfim, uma série de peripécias, nem vos passa pela cabeça, nem eu quero estar aqui agora a dizer que aquilo até meteu partidos políticos ali, nos comunicados. Foi uma confusão, como devem calcular. E depois lá, pronto, o que é que aconteceu? Nós já tínhamos um pré-preparativo quando fomos para lá. Ou seja, por exemplo, eu era um jogador da seleção, mas não era aquele jogador, a estrela da equipa, não era. E então fazia assim a minha cara numa carica da Coca-Cola, numa caneca ou numa caneta, três publicidades, 100 contos naquela altura. E 100 contos pelo menos já é algum dinheiro. Agora, tudo o resto, depois outros jogadores, quer dizer, fizemos as coisas individualmente. O que não se deve fazer, como deves calcular, porque os craques ganhavam muito mais, mas fizeram bem. Mas aquilo foi o momento. E depois quando chegámos lá, vocês não estão a ver a cena. Eu vou-te dizer. Aquilo, o presidente da federação não aparecia, depois quando quis aparecer já as coisas estavam todas embargadas. Enfim, e depois estava tudo à espera do resultado. E o resultado do primeiro jogo com a Inglaterra ganhámos. Aí os jogadores têm todos razão, os jogadores merecem, os jogadores aquilo, os jogadores aqueloutro. E o segundo jogo já perdemos. E perdemos com a Polónia, ficámos para o terceiro jogo para o apuramento com Marrocos. E naquela história toda, perdemos com Marrocos e viemos para casa, como é evidente. Já éramos os mercenários, honrávamos o país.
Mas Inácio, quando eu te entrevistei no Observadores Como Nós e falámos sobre isto, tu contaste ali uma série de coisas que aconteceram lá no campo de treinos.
Inclinado.
Sim, isso é para dizer, isso aí já é outra coisa. Essas são as condições de trabalho que nós tivemos.
Sim.
E as condições de trabalho que nós tivemos, o que é que foi? Nós treinámos lá num campo que era, como é que eu hei de explicar? Era todo inclinado, tanto no comprimento como na largura A gente treinava, enchia de buracos a relva, fazíamos queixas à organização e então no outro dia a gente chegava lá e de longe a gente dizia assim: "Epa, grande relva está ali". Só quando fomos para o relvado, quando fomos ver, os buracos estavam tapados era com cimento. E muitas outras coisas, que aquilo nunca mais acabávamos. Aqui o programa de amanhã estava tudo combinado.
Pois não, ficávamos aqui amanhã.
Resumindo, aquilo foi para concluir aquilo que foi a "escravidão" do jogador perante o poder, em que nós éramos realmente as figuras, jogávamos dentro do campo, mas retribuição em relação a isso era zero. A partir daí, as coisas começaram a ser faladas, começaram a ser discutidas.
Passagem, Inácio, no meio de tudo, valeu a pena? É o que podes dizer.
Valeu a pena. Eu fiquei sem dois braços, sem duas pernas, mas valeu a pena.
Mas a tua carreira de jogador foi prejudicada por teres entrado nesta rebelião?
Olha, foi, porque logo a seguir, depois do Mundial, nós fizemos um comunicado em que nós não íamos mais à seleção nacional enquanto as coisas não estivessem resolvidas. E evidente que a partir daí, o meu último jogo na seleção nacional foi nesse Mundial e quase todos os jogadores depois não foram à seleção. Mas claramente que depois já houve discussão, já se falou das condições que o jogador poderia ter. Deixa-me dizer também, neste exemplo, até a nível do seguro em relação aos jogadores, as coisas foram muito complicadas, porque o Bento partiu a perna num treino na seleção e quando deu por ela, tinha pouco ou nada de seguro em relação ao seu futuro. E por isso mesmo, isso também foi abordado mais tarde e hoje é as condições que se têm, ainda bem que é assim, mas claramente que alguém tinha que fazer a figura do mau e a figura do mau foi naquela altura aquela geração de jogadores.
Muito bem. Magnífico. E era para ficares testemunha aqui, grande Inácio.
Inácio, obrigada.
Muito bem. As coisas vão mudando as coisas. Inácio, ainda temos tempo?
Sim, mais dois minutos.
Ontem ficamos aqui com uma promessa no ar que tinha a ver com os penáltis do Porto, anteontem. O dilema de um treinador. Os jogadores que estavam convocados para a seleção devem marcar o penalti ou não devem, porque aquilo é um foco adicional que perturba, ou devem, porque aquilo é um foco adicional que os motiva. E até íamos aqui falar disso. E tu foste treinador, jogador, mas treinador sobretudo. Naquele caso do Futebol Clube do Porto, dois jogadores que nessa semana recebem a notícia para a seleção, vão marcar os penáltis e os dois falharam. O que é que um treinador deve fazer?
É muito complicado, Júlio, porque eu também já passei por isso numa eliminatória com o Leeds e também por ali nas grandes finalidades.
Era treinador?
Era treinador do Marítimo. Sabes que nos treinos, por exemplo, eu e acho que outros treinadores fazem isso, treinam os penáltis e todos os jogadores marcam penáltis. Pelo menos comigo era assim, todos os jogadores marcavam penáltis e depois eu todos os dias marcava penáltis e ia vendo aqueles que tinham mais aptidão para aquilo. Só que uma coisa, estás a treinar sem pressão, sem o resultado estar em causa, sem a eliminatória estar em causa, sem os apupos dos adeptos ou os elogios, depende daquilo que se está em casa, a jogar em casa ou não, o estado de espírito do jogador altera-se completamente. E eu acho que o jogador devia estar motivado para marcar o penalti, porque foi à seleção, foi convocado para a seleção uma primeira vez, acho que está no auge. Agora, deixa-me dizer outra coisa que não tem nada a ver com os jogadores que marcaram e que falharam, mas também tem a ver com o jogador que defende, neste caso o Diogo Costa. Hoje em dia, como sabe, toda a gente é observada e diz que: "Olha, este costuma marcar para a esquerda, este costuma marcar para a direita, joga mais rasteiro, mete a bola mais no alto". Enfim, várias informações. Mas eu acho que para o guarda-redes, o melhor que tem a fazer, independentemente de dizerem essas observações, é o feeling, é o instinto do guarda-redes, é que faz com que ele defenda o penalti ou não defenda o penalti. Porque um jogador pode marcar num jogo uma bola para a esquerda e no outro pode marcar para a direita. Tudo depende da movimentação, depois, que se tem dentro do campo. Mas deixem os guarda-redes defender pelo seu instinto, porque esse instinto é que muitas vezes pode defender o penalti ou não. Aqueles que o marcam, bem, vou te dizer uma coisa, tu corres para a bola e quando corres para a bola, a baliza é muito pequenina.
É o nosso parceiro enorme.
E o guarda-redes enorme.
Agora, há aqui uma técnica que eu não conseguia fazer, sinceramente, eu nunca tive essa aptidão também para marcar penáltis, é tu correres para a bola com a cabeça levantada e depois esperas que o guarda-redes ou caia para a esquerda, ou caia para a direita e consoante ele queira, tu encostas. Só que aí a frieza do guarda-redes pode ser muito mais importante para enganar o marcador de penáltis. É não se mexer até à última para ele marcar o penalti. E às vezes falha-se o penalti porque o guarda-redes é frio, é calmo, aguenta e não se precipita. Por isso, depende de muita coisa.
Muito bem, muito obrigado.
Obrigada. Um beijinho. Um bom dia para ti, Inácio.
Ora ver se os jogadores quando marcam os penáltis seguissem o que nós dizemos aqui, levantar a cabeça. É claro.
Nada disso acontece.
Juca, a terminar rapidinho.
Terminar rapidinho. Terminamos amanhã. Temos que fazer referência aqui a duas mensagens de ouvintes, do Edgar, do Londo, do Amanhã e do Fernando Manuel Santos e José Diniz Santos. Eles mandaram dois e-mails magníficos. Amanhã lembrem-me para falar de uma competição nova. Não é nova, não, já foi há uns anos, foi verídico, por acaso.
Mas é fresquinha.
Não, já tem muitos anos, vê lá. É do tempo dos russos, americanos e dos portugueses. É uma competição entre russos, americanos e portugueses que é amanhã.
Parece que então não dá.
Parece que então não dá. Então fica para amanhã.
Fica para amanhã.