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Os primeiros tanques já tinham atravessado a fronteira ucraniana. Naquela madrugada de 24 de fevereiro de 2022, vários empresários russos olham com espanto para as notícias.
"After days on a razor's edge, Ukraine is now a nation at war. Just hours ago, Russian forces began their attack". "Мы приняли решение о проведении специальной военной операции".
Mas não demora até receberem um convite. Chega do Kremlin. O presidente quer falar com eles. Há um que se atrasa. Está longe, no seu palácio, na Côte d'Azur, no sul de França. Assim que recebe a mensagem, parte para Moscovo no seu jacto privado, mas já não chega a tempo. Pelo meio, recebe uma chamada de um empresário ucraniano preocupado: "Podes falar com o teu chefe?", perguntam-lhe. Apesar do atraso, tem direito a uma audiência privada. Um privilégio possível porque tem uma relação próxima com o presidente russo. No encontro, o empresário diz que esta guerra é uma má ideia. Não convence Putin a recuar, mas consegue autorização para agir como mediador e fazer a ponte com os ucranianos. Tem linha direta para o chefe de gabinete de Putin, com quem acerta todos os detalhes. Um mês depois, o mundo fica a saber que este homem está a ajudar nas conversações de paz. Em Istambul, na Turquia, delegados russos e ucranianos reúnem-se a uma longa mesa. Atrás deles, de auscultadores para ouvir a tradução simultânea, está o único oligarca em quem Putin confiou o suficiente para o deixar envolver-se na política. Roman Abramovich ficou conhecido por ser dono do clube de futebol Chelsea. Agora, para surpresa de todos, aparece como representante informal de Putin. A proximidade com o presidente russo não começou da noite para o dia, mesmo que durante anos tenha estado na sombra. "Discreção" é a palavra-chave. São todos homens, a maioria empresários. Têm iates e mansões e vivem vidas de luxo, mas fazem tudo para não ser capa de revistas cor-de-rosa. Roman Abramovich é um deles. Até 1999, não havia uma única foto publicada com o seu rosto e, no entanto, já era próximo do poder na Rússia, mesmo antes de Putin chegar ao Kremlin. Estes são os homens em quem Vladimir Putin confia. Todos fazem por provar ao homem mais poderoso da Rússia a sua lealdade. Conheceu alguns deles quando ainda eram pobres. O presidente tem hoje uma riqueza incalculável, mas cresceu num apartamento partilhado por várias famílias em São Petersburgo. Dizem que quando se encontram, os amigos preferem falar sobre história, sobre música e sobre os velhos tempos. Juram que nunca falam sobre dinheiro, mas a verdade é que o principal laço que usou na Putin são os milhões que tem escondidos. Chamámos-lhe, por isso, o gangue do dinheiro. E neste episódio vamos conhecê-los. O judoca, o finlandês, o talhante, o violoncelista, o centauro, o banqueiro e a carta fora do baralho, o joker. É através deles que Putin mantém a sua fortuna a salvo. Aconteça o que acontecer, mesmo que aconteça uma guerra. Este é "O Espião no Kremlin", uma série para ouvir em seis episódios, que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Marco Delgado, com banda sonora original de Martim Sousa Tavares e Manuel Palha. Episódio três: o gangue do dinheiro.
Esta é uma história real e é o conhecimento da história que guia a Honda em direção a um futuro melhor. Vamos continuar este percurso juntos, porque a Honda tem muito para contar, mas também tem muita vontade de ouvir. Nesta viagem, os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
Vladimir Vladimirovich Putin montou uma teia de poder e guerra que começou no KGB e acabou com a invasão da Ucrânia. Como é que ele fez isso sem que ninguém percebesse? Já sabemos que primeiro o espião no Kremlin usou a guerra para se transformar num líder adorado. Depois, silenciou os traidores. E agora, o terceiro passo: esconder o dinheiro. Neste apartamento em São Petersburgo, vivem três famílias. Há apenas uma pequena casa de banho para todos, improvisada no vão das escadas. Não há banheira e só se consegue ter água quente usando um fogão a lenha. Os quartos foram divididos com contraplacado, que dá pouca privacidade às famílias. Não é raro ver ratazanas a passar no corredor. São quase todos adultos. Há apenas uma criança pelo meio. Chamam-lhe Volodya, mas na verdade, ele chama-se Vladimir. Passa grande parte do tempo no pátio, em lutas com outros rapazes com quem se cruza. Muitos anos mais tarde, o miúdo que nos anos 60 vivia nos corredores pobres de um apartamento partilhado, vai estar a circular pelos corredores do poder em São Petersburgo. Jeremy Kinsman, que nos anos 90 era embaixador do Canadá na Rússia, cruzou-se com ele. Conta-nos que na altura achou-o austero e modesto, mas não ficou surpreendido com isso.
A mãe dela foi deixada no meio de um monte de cadáveres durante o cerco de Leningrado. Foi o marido que a encontrou e descobriu que estava viva. Ele, que é o pai do Putin, também foi gravemente ferido. O filho deles, único irmão de Putin que ele nunca conheceu, morreu quando tinha seis ou sete anos. Putin cresceu como um miúdo pequeno, que trazia um ressentimento, um sentimento de injustiça. Metia-se sempre em lutas no pátio.
Até que a luta ganha um propósito. Aos 12 anos, Vladimir passou a apanhar um elétrico pra zona ocidental de São Petersburgo, três vezes por semana. Ia pra um clube onde começou a treinar judo e depois sambo, uma arte marcial soviética. Durante todo o primeiro ano, treinou com meias de lã, em vez de sapatilhas próprias. Não havia dinheiro para o equipamento, mas havia uma determinação feroz. A maioria dos amigos de Putin, que fazem parte do gangue do dinheiro, vêm desta altura. Olesya Shmagun fala num círculo pequeno. A jornalista russa investigou muitos deles, incluindo nos artigos sobre os Panama Papers, o conjunto de documentos confidenciais que revelou ligações de vários líderes mundiais a contas offshore em 2016.
Na imprensa ocidental, muitos homens diferentes aparecem identificados como sendo amigos de Putin ou parte do seu círculo próximo. Em muitos casos, isso não é verdade. Acho que no mundo ocidental, qualquer russo rico é visto como sendo próximo dele e isso não é assim. Há um círculo muito limitado de pessoas que têm acesso a ele.
Mas quem faz parte deste círculo? Arkady Rotenberg, o judoca. Rotenberg era o rapaz que alinhava com Putin nas brincadeiras nos torneios de judo. E assim que Putin chegou a presidente, foi ele o escolhido pra gerir a empresa estatal, que juntou todas as destilarias de vodka que ainda pertenciam ao estado russo. Três anos depois, o judoca lançou uma nova marca de vodka, a Putinka, batizada em homenagem ao seu amigo. O negócio foi tão bem-sucedido que os distribuidores chegavam a entregar sacos cheios de dinheiro vivo para poder vender a marca. Anos depois, uma fonte da empresa garantia a um jornal que parte desse dinheiro ia para o próprio presidente. Mas Rotenberg não iria ficar pelas destilarias. Esse foi apenas o primeiro de vários negócios lucrativos que viriam nos anos seguintes. Tudo graças a contratos com o Estado. Em 2010, foi uma concessão para construir uma autoestrada que ligava o aeroporto principal de Moscovo ao centro da cidade. Quatro anos depois, Arkady Rotenberg e o seu irmão Boris conseguiram 21 contratos de obras públicas, por ajuste direto, para os Jogos Olímpicos de Sochi. No ano seguinte, a empresa obteve um contrato público para desenvolver um sistema de portagens. E desde a anexação da Crimeia, em 2014, o judoca assinou contratos no valor de 300 mil milhões de rublos para obras na península, cerca de 3000 milhões de euros. Tudo negócios que, garante o próprio, nada têm a ver com o facto de ser amigo do presidente. Ao Financial Times, Rotenberg fez-se de desentendido: "Ele faz muito pela Rússia. Não se pode só ir ter com ele e pedir coisas. Em primeiro lugar, o meu estilo não é esse. Em segundo, ele nem sequer me deixaria passar da porta". Os amigos como Rotenberg beneficiam de contratos públicos milionários. Mas pra vários jornalistas de investigação, isto não acontece por amizade desinteressada do presidente. Olesya Shmagun explica-nos que não tem dúvidas de que homens como Rotenberg são testas de ferro de Putin, guardando-lhe parte da fortuna.
Isto é muito discutido entre as pessoas que investigam a fortuna pessoal dele, porque a única forma de o dizer com certezas é só haver uma decisão judicial ou se o nome dele aparecer em documentos, o que nunca acontece. Mas há tantas provas circunstanciais que penso que podemos dizer com segurança que Putin é um dos homens mais ricos do mundo. Pessoalmente, acredito nisto.
E por que o presidente precisa esconder o dinheiro? Olesya Shmagun defende que tudo se resume a corrupção.
É óbvio que não há uma forma legítima de ele ter adquirido esse dinheiro. Quando vemos o que encontramos, percebemos que é dinheiro roubado. Ele é só um governante na Rússia, um país pobre, e como presidente não pode fazer negócios, certo? Portanto, é tudo ilegítimo, é tudo roubado.
As provas circunstanciais de que fala esta jornalista russa são os sinais exteriores de riqueza que vão sendo apontados, e um deles salta bem à vista. Em 2021, Alexei Navalny, o principal opositor de Vladimir Putin, publicou um vídeo de investigação que rapidamente teve milhões de visualizações. Mostrava uma luxuosa mansão na costa do Mar Negro, que incluía uma sauna, um cinema, um heliporto, um cassino, uma bomba de gasolina, um rinque de hóquei no gelo e um túnel para uma sala especial no interior da montanha. Segundo Navalny, o palácio pertence a Vladimir Putin. Poucos dias depois da publicação do vídeo, Arkady Rotenberg, o judoca, divulgava um outro vídeo onde garantia ser ele o dono da mansão, e não o presidente. Gennady Timchenko, o finlandês. Aí está mais um homem do judo. Em 1998, um grupo de empresários criou um novo clube na cidade de São Petersburgo. Chamaram-lhe Yavara-Neva, a soma de duas palavras. A primeira refere-se a uma arma usada em artes marciais e a segunda é o nome do rio que atravessa aquela cidade. O Yavara-Neva cresceu, tanto que hoje em dia tem um centro desportivo com um pavilhão com centenas de lugares e uma marina para iates. As obras foram pagas em parte com financiamento público. Um dos principais patrocinadores desta escola de judo é o segundo membro deste gangue do dinheiro, Gennady Timchenko, a quem chamamos o finlandês, por viver na Finlândia e ser cidadão do país há décadas. Empresário na área do petróleo, conheceu Vladimir Putin nos anos 90. A empresa de Timchenko é a maior distribuidora de petróleo da Rússia e o seu dono é presença habitual nos serões na residência de Putin, onde alguns dos mais conhecidos cantores de baladas são convidados para dar concertos privados. Como veremos no próximo episódio, ao longo dos anos, o finlandês vai dar presentes extravagantes a familiares de Putin. Tão extravagantes que vão levantar suspeitas. Essa generosidade será apenas uma forma de fazer circular dinheiro, que, na realidade, pertence ao presidente russo. Petr Kolbin, o talhante. Kolbin conheceu Vladimir Putin na infância. Foi numa aldeia nos arredores de São Petersburgo, onde Putin e a família passavam o verão. Kolbin, filho do talhante local, vivia ali. Os dois iam juntos a bailes, onde conheciam raparigas e se envolviam em lutas com outros rapazes. Não é certo com que regularidade mantiveram contato desde então. Certo é que Kolbin, que seguiu as pisadas do pai e se tornou talhante, acabou por ficar muito rico. Segundo a Forbes, quando morreu em 2018, teria uma fortuna de mais de US$500 milhões, apesar de continuar a viver na sua aldeia e de não demonstrar sinais exteriores de riqueza. Pessoas que o conheceram disseram a um jornal russo que nos últimos anos de vida, o talhante passava o dia com o telefone por perto. Aos amigos, dizia que podia ter de receber instruções dos seus camaradas seniores. Quem eram esses camaradas continua a ser um mistério. Da mesma forma que é um mistério como é que Petr Kolbin conheceu o empresário do petróleo, Gennady Timchenko, o finlandês, e se tornou um dos maiores acionistas da sua empresa. A uni-los, aparentemente, existia apenas a amizade com Putin. É um laço forte. O presidente russo chegou a confidenciar que tem muitos amigos, mas só alguns são mesmo próximos. E sobre esses, não tem dúvidas: "Nunca me abandonaram". Sergey Roldugin, o violoncelista. No final dos anos 70, Roldugin era um jovem a cumprir serviço militar obrigatório num quartel de São Petersburgo, quando decidiu fazer uma escapadinha. "Eu não tinha direito a licença, por isso trepei por cima da vedação", contou. O Volodya já ali estava à minha espera, mas fizemos imenso barulho a ir embora, porque o carro tinha os amortecedores estragados. E ainda se lembra da música que os dois cantaram. A música sempre fez parte da relação entre Vladimir Putin e Sergei Roldugin, seu amigo da juventude. Não é de admirar, se pensarmos que Roldugin é um violoncelista profissional. Foi ele que ensinou Putin a apreciar música clássica e que incentivou as duas filhas mais velhas do presidente a aprenderem a tocar instrumentos. Hoje em dia, Putin consegue tocar de cor no piano o primeiro prelúdio de "O Cravo Bem-Temperado", de Bach, garante Roldugin. Uma vez, num dos habituais serões noturnos entre os amigos do presidente, Roldugin levou consigo três músicos pra animarem a festa. Com um violino, um piano e um clarinete, tocaram peças de Mozart, Weber e Tchaikovsky. Mas a relação dos dois vai muito pra além da música, como nos explica a jornalista Olesya Smagoun.
Publicamente, não se lhe conhecia em nenhuma empresa. Em cada entrevista que dava, dizia sempre: "Sim, sou amigo de Putin, mas não tenho nenhum negócio, não tenho milhões, sou só um violoncelista". O seu lema oficial era: "Eu não tenho milhões". Mas aquilo que descobrimos com os Panama Papers é que Roldugin, de facto, não tem milhões, tem milhares de milhões nas suas contas offshore secretas.
Roldugin diz que é um simples violoncelista, mas tem dinheiro para comprar instrumentos que valem uma pequena fortuna, como um Stradivarius que lhe custou 12 milhões de dólares. Mas nem um amigo tão próximo como o violoncelista sabe tudo da vida de Putin. Pelo menos foi isso que o próprio disse num programa que passou na televisão russa, onde recordou o dia em que perguntou ao amigo Vladimir, ainda na juventude, o que ele fazia. "Percebo que é algo relacionado com a segurança", disse-lhe. "Que guardas alguma coisa ou apanhas criminosos". Putin, que já estava no KGB, respondeu: "Não, eu sou um especialista em relações humanas". Hoje em dia, Roldugin é uma das poucas pessoas com acesso aos serões na casa do presidente. Os convidados vão chegando noite fora, por vezes de helicóptero. Durante horas, fala-se de História e Literatura. Uma vez, por exemplo, Putin quis discutir em pormenor a tradução do "Raï" feita por Boris Pasternak. Há um tema que nunca surge naquelas noites: o dinheiro. O violoncelista garante que essas conversas acontecem apenas um para um. Até entre os mais próximos, Putin é cauteloso. Roman Abramovich, o Joker. O homem que se tornou mediador do conflito na Ucrânia não faz parte do círculo íntimo que frequenta aqueles serões recheados de música. Mas mesmo assim, a sua relação com Putin é mais próxima do que a de um empresário russo comum. Abramovich começou por baixo, a vender patins de borracha. Fez bons negócios na área do alumínio, mas a grande oportunidade do Joker chegou com as privatizações da década de 90, quando comprou uma petrolífera por 250 milhões de dólares. Pode parecer muito dinheiro, mas, na verdade, foi a preço de saldo. Mais tarde, vendeu-a por 13 bilhões ao próprio Estado russo. Foi nos negócios do petróleo que começou a colaborar com o genro de Boris Yeltsin. E daí, foi um pequeno passo até entrar no círculo próximo do então presidente russo, um grupo conhecido por todos como a família. A opinião de Abramovich era valorizada por Yeltsin. O ex-banqueiro Vladimir Ashurkov conta-nos como o empresário pode ter tido influência na escolha de Putin pra presidente.
Roman Abramovich foi muito importante em levar Putin até à posição mais alta no final dos anos 90, com uma situação da família de Yeltsin, de escolher um sucessor, convencer Yeltsin a abdicar. Acho que Abramovich foi uma das pessoas-chave.
Desde cedo se percebeu que Putin confiava em Abramovich, apesar de isso não ser publicitado. Segundo os autores da única biografia conhecida do empresário, logo quando Vladimir se tornou primeiro-ministro, foi Abramovich quem entrevistou pessoalmente todos os candidatos a ministro naquele governo Com a chegada de Putin ao poder, o Joker lançou-se numa breve carreira política. Em dezembro de 1999, concorreu a governador de uma remota região do nordeste da Rússia. O principal adversário rapidamente foi investigado por suspeitas de fuga aos impostos e retirou-se da corrida antes da eleição. Abramovich, obviamente, ganhou.
Abramovich became governor of Chukotka, an oil-rich region in northeastern Siberia.
Mas ao fim de alguns anos a investir parte da sua fortuna pessoal na região, o oligarca decidiu trocar a política nos confins da Rússia pelo bairro de Fulham, em Londres. Esta é a canção que os adeptos do Chelsea criaram depois de Roman Abramovich comprar o clube de futebol e em menos de dois anos fazê-lo campeão, com a ajuda do português José Mourinho como treinador. O Chelsea não vencia a Premier League desde a década de 50, e a alegria era tanta que os adeptos cantavam agora que pouco importava se a fortuna do novo dono tinha origem em armas, droga ou petróleo. "Se queres ser o melhor, não faças perguntas", diziam. Mas por que foi um empresário russo comprar um clube de futebol londrino que não tinha sucesso? O ex-banqueiro Vladimir Ashurkov explica-nos como a compra do Chelsea fez parte de um plano do Joker para convencer o mundo de que se estava a afastar do Kremlin.
Ele e Putin tinham uma relação próxima, mas ao longo dos anos, à medida que o poder de Putin cresceu, ele deixou de ter de depender de colegas como Abramovich. E para Abramovich, a certa altura, esta associação às autoridades russas tornou-se mais um fardo do que uma vantagem.
Roman Abramovich percebeu que era melhor parecer que não estava assim tão perto do poder. O Joker nunca falava do presidente russo e aproximava-se cada vez mais do Ocidente. Dava festas que contavam com a presença de cantores norte-americanos, como Prince ou Lady Gaga. Adquiria cidadania israelita e, mais tarde, portuguesa, num processo polémico que ainda está a ser investigado. Passava mais tempo no sul de França do que na Rússia. O Kremlin ia ficando para trás, ou pelo menos era isso que Abramovich queria fazer crer.
One of Russia's most notorious oligarchs is helping to broker a peace deal between Russia and Ukraine.
Até que em fevereiro de 2022, apareceu aos olhos do mundo como mediador de Putin para a guerra na Ucrânia. Afinal, o Joker tinha estado sempre perto do poder de Putin. Vladimir Yakunin, o Centauro. Yakunin faz parte do grupo que está reunido na sauna. Estamos a 12 de agosto de 1996. Vladimir Putin, que tinha acabado de perder o emprego na Câmara de São Petersburgo, juntou os amigos na casa de verão modesta, que construiu nos arredores da cidade. Vladimir e os amigos saem da sauna para dar um mergulho no lago. Mas pouco depois, o dono da casa apercebe-se de que algo está errado. Vê fumo a sair da sauna. "Em voz alta e com mando, gritei a todos para que saíssem", contou mais tarde na sua biografia oficial. As filhas de Putin estão dentro da casa. A mais nova, Katia, sai imediatamente da cozinha. A outra filha, Masha, tem mais dificuldades por estar no segundo andar. E Putin entra em ação. Sobe até ao quarto, arrata os lençóis, estende-os da varanda abaixo como uma corda improvisada. Mas a criança tem medo de descer. O pai atira-a então para os colegas cá embaixo, que a agarram. Ao lembrar-se de que na casa estava a mala com as poupanças da família, em dinheiro vivo, decide voltar para trás para ir buscá-la. Mas as chamas já estão demasiado altas e acaba por desistir. Desce pela corda de lençóis que tinha feito antes. Na versão de Putin, os $5 mil de poupanças que estavam naquela pasta perderam-se, mas os amigos nunca o abandonaram. No rescaldo do incêndio, fundaram uma cooperativa para gerir os custos da casa de férias de Putin e das outras que construíram em volta. Chamaram-lhe O Zero, o nome do lago onde se estavam a banhar quando aquele fogo começou. Atualmente, a propriedade onde se encontram todas aquelas dachas tem segurança dia e noite e está rodeada por uma cerca. Os vizinhos chamam-lhe o Muro do Kremlin. A maioria dos membros da cooperativa O Zero não têm qualquer ligação à política, mantendo-se exclusivamente na área dos negócios. Mas há exceções. Uma delas é Vladimir Yakunin, o Centauro. A alcunha vem do facto de admitir que tem um pé nestes dois mundos. Quando um jornalista lhe perguntou se era apenas um funcionário ou se era um político, Yakunin deu uma resposta curiosa: "A vida ensinou-me a ser um centauro". Esta figura mitológica é metade homem, metade cavalo. No caso de Yakunin, metade político, metade funcionário público. Tal como Putin, Yakunin também foi agente do KGB e com um cargo particularmente relevante. Esteve na missão permanente da União Soviética nas Nações Unidas, em Nova Iorque, um dos postos mais importantes, por ser a sede do KGB nos Estados Unidos. Pouco mais se sabe do seu percurso desde o fim da União Soviética, a não ser o facto de ser um dos membros da cooperativa Zero. Até que em 2005, foi nomeado pelo presidente para chefiar os caminhos de ferro. Esteve no cargo 10 anos. Nesse período, fez uma fortuna difícil de explicar, principalmente se tivermos em conta que apenas trabalhava para o Estado. Vladimir Ashurkov, diretor da ONG de Navalny, aponta um pormenor que ilustra a dimensão da riqueza de Yakunin.
Num dos famosos vídeos que a nossa organização anticorrupção fez há uns anos, mostramos como ele tinha uma divisória especial, na sua mansão, só para guardar casacos de pele.
Em 2015, o antigo espião de Nova Iorque anunciou que se ia reformar. Os rumores do Kremlin disseram que o centauro tinha sido empurrado pelo próprio presidente. O motivo? O facto de o seu filho ter obtido cidadania britânica, numa altura de particular tensão com o Ocidente, depois da tomada da Crimeia. Mas o rumor pode ser falso. Um canal de televisão independente avançou, na altura, uma outra explicação. Putin terá tomado a decisão depois de receber um relatório dos serviços secretos, que dava conta dos altos níveis de corrupção dentro da empresa gerida por Yakunin. "A empresa continuou a desviar fundos, mesmo depois de o presidente já ter dito chega", garantiu a fonte do canal. Abas Galyimov, que trabalhou na equipa que escrevia os discursos de Putin, explica à jornalista Kátia Bruno, que há uma regra não escrita na cabeça do presidente russo.
Ele valoriza lealdade acima de tudo. Não se opõe a que as pessoas usem a sua posição para fazer algum dinheiro, mas tem de se lembrar que a principal tarefa é servir o mestre, promover os seus interesses. Quando têm tempo livre, podem fazer algum dinheiro, não há problema. Mas se começarem a promover os seus negócios acima dos interesses dele, isso não é permitido e pode valer um castigo.
De facto, há uma coisa que os amigos de Putin nunca podem esquecer: a fortuna do presidente é sempre mais importante do que a deles. Yuri Kovalchuk, o banqueiro. A música que estamos a ouvir faz parte da banda sonora do filme satírico "Melodia Esquecida para uma Flauta", de 1987. É uma das favoritas de Yuri Kovalchuk, o presidente do Banco Rossiya. É a pequena instituição no centro das operações financeiras de Putin e os seus amigos, como revelou a investigação dos Panama Papers. Uma vez, um amigo encontrou o banqueiro a cantar esta canção num karaoke, num conhecido bar de Moscovo. Para Kovalchuk, é mais do que uma música, é um lema de vida. A letra descreve desta forma como os burocratas soviéticos se limitam a cumprir ordens. É preciso saber o que o chefe quer, adivinhar, concordar, não discutir e não estragar a carreira. Mas o chefe do banqueiro é mais do que isso. É um amigo. A jornalista Olesya V. Shmagun explica de onde vem esta proximidade.
Ele não é um amigo de infância. Conheceram-se quando Putin trabalhava na Câmara de São Petersburgo. Kovalchuk era um cientista jovem que, durante os anos 90, depois do colapso da União Soviética, tentou ser um homem de negócios na área da tecnologia. Creio que ele era uma pessoa simpática, sabia como se relacionar. Eles conheceram-se quando Kovalchuk adquiriu um pequeno banco chamado Bank Rossiya, hoje famoso por más razões, por ser a carteira de Putin e o centro dos seus bens escondidos. Os dois desenvolveram uma relação ao longo do tempo e agora Kovalchuk é uma das pessoas centrais no grupo de Putin.
Diz-se dentro do Kremlin que o banqueiro foi o homem que apanhou nos braços a filha mais velha de Putin, quando esta foi atirada da varanda durante o incêndio da casa de férias. Mas talvez isso não passe de uma invenção usada para explicar esta proximidade. Uma coisa é certa: Kovalchuk trata Putin por tu, em público. Há quem já o tenha visto a tirar uma costeleta diretamente do prato do presidente. O banqueiro tornou-se o organizador central da fortuna de Putin e dos seus amigos, segundo a investigação dos Panamá Papers. Gennady Timchenko, o finlandês, é um dos principais acionistas do banco Rossiya. Sergei Roldugin, o violoncelista, também tem uma pequena percentagem. Mas se a relação entre Vladimir Putin e a maioria dos seus amigos gira apenas em torno de dinheiro, a que tem com Yuri Kovalchuk é diferente. O presidente russo passou grande parte do ano de 2021 na sua residência em Valdai, por causa da pandemia de Covid-19. Para poder vê-lo, os membros do Kremlin tinham de fazer testes e passar duas semanas isolados. Mas havia uma exceção: Yuri Kovalchuk passou grande parte desse tempo com ele. Foi ali, entre discussões sobre história e geopolítica, que os dois formaram as principais ideias do manifesto ideológico que Vladimir Putin publicaria meses antes da invasão da Ucrânia. O texto defendia que a Ucrânia não é um país, mas um território historicamente russo. Se Kovalchuk defende, de fato, essa teoria, ou se apenas não quis contrariar o presidente, nunca saberemos. Mas sabemos que, anos antes, tinha partilhado com um amigo a ideia de que é sempre melhor concordar com Putin. Caso contrário, perdia acesso ao corpo, expressão usada por vários membros do Kremlin para se referirem ao presidente. Sem acesso a Putin, acaba o acesso ao dinheiro. Por isso, é melhor não o contrariar. Yuri Kovalchuk não é apenas um banqueiro e confidente do presidente russo. É também o principal acionista de um dos maiores grupos de comunicação social do país, que inclui televisões como a Russia Today e a agência de notícias TASS. Há alguns anos, um dos presentes de Ano Novo para os responsáveis da empresa, escolhida pessoalmente por Kovalchuk, foi o decreto de Catarina, a Grande, que introduzia a censura no Império Russo. A mensagem não podia ser mais evidente. A história foi revelada pelo site de investigação Proekt. O diretor, Roman Badanin, não tem dúvidas da utilidade que Kovalchuk e os outros amigos de Putin têm para o presidente.
Eles, na verdade, não são amigos, são representantes. Só existem para representar um papel no lugar dele, para esconder dinheiro, para esconder bens, para esconder amantes de Putin. O senhor Kovalchuk é responsável pela contratação da amante de Putin.
Em 2014, essa amante passou a ocupar o lugar de presidente do grupo de mídia de Kovalchuk. Isto apesar de a sua única experiência profissional ser como atleta. Mas ela não é apenas mais uma amante. A relação com Putin é longa, mesmo que o presidente nunca a tenha assumido. Para um homem que quer manter o poder, tão importante como esconder o dinheiro, é esconder a família. Especialmente se nessa família houver amantes mais novas, filhos ilegítimos e uma sogra que recebe presentes de milhões. Mas essa é uma história para o próximo episódio. "Um Espião no Kremlin" é uma série em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, Marco Delgado, e tem banda sonora original de Martim Sousa Tavares e Manuel Palha. O guião e as entrevistas são de Cátia Bruno. A edição é de João Santos Duarte. A sonoplastia é de Bernardo Almeida. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos ainda as vozes de Larissa Tovmasian, Vadim Poliszczuk, Austin Bush e David Zakharov, agenciados da Sonder People. Ouvimos também sons históricos retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador é mais do que um podcast.
Os Podcast Plus do Observador têm o apoio da Honda Automóveis.
