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10:37. Muito obrigada por estar com as manhãs 360 do Observador. Agora junta-se a nós Isabel de Sousa Guerra. Bom dia, muito obrigada por estar na Rádio Observador.

Bom dia, eu é que agradeço.

Isabel de Sousa Guerra, presidente da Associação Portuguesa de Fisioterapeutas, além de especialista em fisioterapia. Diz que não? Diga-me, corrija-me.

Não, não sou presidente da associação, já fui. Neste momento, estou presidente da Comissão Pro Ordem.

Pro Ordem de Fisioterapeutas.

A comissão que trata as questões exatamente da ordem.

Além de especialista também em fisioterapia, formada pelo ISCTE na área de gestão de serviços de saúde. Conhece bem Alcoitão, o centro de reabilitação aqui em Cascais, quando começou a estudar, e vem falar-nos da profissão e dos problemas que os fisioterapeutas enfrentam. Pergunto-lhe, Isabel de Sousa Guerra, se a Ordem é de fato uma das grandes ambições dos fisioterapeutas.

Sim, é uma enorme ambição. Tem 20 anos de ambição. Ela já estava nos estatutos da associação há 21 anos e há 20 anos foi a primeira vez que nós colocamos este projeto na Assembleia da República. Portanto, imagine este percurso de 20 anos até agora, termos atingido realmente este ponto que foi fundamental, que é fundamental pra profissão, mas é fundamental, principalmente, pras pessoas, pro público que utiliza os cuidados de fisioterapia.

Só pras pessoas perceberem, o que tem impedido esta criação da comissão? Parece um pedido mais ou menos razoável.

Sim, nós também achamos que é razoável e que foi sempre razoável, mas há sempre muitos poderes.

Mas há alguma vontade em que não haja Ordem? Ou seja, qual é a vantagem de não haver Ordem? Que eu só me lembro de vantagens.

Não, eu não vejo nenhuma vantagem em não haver, porque o Estado não regulando, efetivamente, a profissão tem que ser regulada e, portanto, o Estado passa pros profissionais a sua capacidade de se regular. E nesse sentido, a regulação é fundamental. É fundamental para o registro de todos os profissionais, é fundamental contra o exercício ilegal, é fundamental também para que as especialidades que já existem na área da fisioterapia sejam reconhecidas como especialidades. Neste momento não são, não sei se querem que dê algum exemplo relativamente a isso.

Sim, claro.

Dou o exemplo que é o mais conhecido de todos, que é o desporto. Há uma série de fisioterapeutas que são especialistas no desporto, mas verdadeiramente eles não são reconhecidos como especialistas, não têm essa como especialidade que existe.

Aliás, alguns são especialistas no joelho, outros na anca.

Sim. Mas mesmo genericamente no desporto, em cardiologia, em respiratória, as condições neurológicas, condições musculares.

Estudam pra isso.

Fazem o curso base e a seguir fazem formação para serem especialistas. Esta formação, neste momento, não é reconhecida enquanto especialidade.

E a associação não bastava para dar esse tipo de reconhecimento.

Não, a associação não dá esse reconhecimento a essa especialidade. O grande problema é que a associação só se regista quem quer. Enquanto que a Ordem é de registo obrigatório e, portanto, todos os fisioterapeutas têm que estar na Ordem.

Isso tem vantagens para os fisioterapeutas.

Tem vantagens. Tem vantagens e também a questão do cumprimento de princípios éticos e princípios de qualidade. Isso é extremamente importante, porque a Ordem tem diretivas nesse sentido.

Até agora, tudo isso era tutelado pelo Ministério da Saúde.

Era tutelado pelo Ministério da Saúde.

Era e é ainda, porque a Ordem ainda não existe.

Exatamente. Só que, efetivamente, aquilo que acontece a nível do Ministério da Saúde é que ela faz o registo dos fisioterapeutas, dá o título profissional e um certificado. Mas efetivamente não regula daí pra frente.

Mas o que é preciso regular daí pra frente?

É preciso regular, dou-lhe um exemplo, que há países em que dois em dois anos recertificam, ou três em três, ou quatro, recertificam os cuidados dos profissionais. Através das suas competências, de formações, de investigação, etc.

No fundo, podem subir de escalão de acordo com as suas respectivas .

Mesmo não subindo, certifica de que as pessoas têm condições pra continuar a fazer um exercício.

Atualiza as competências.

Exatamente. Aqui há um registo quando eu me formo e a partir daí nada mais.

O que torna diferente, neste momento, os profissionais trabalharem cada vez mais no privado e não só no público?

A diferença, pra já, é a muito maior responsabilidade, porque há um exercício muito mais autônomo. Os profissionais podem trabalhar nas suas unidades de fisioterapia.

Não estão em contexto hospitalar, ou de centro de saúde.

Exatamente. E portanto, essa é uma responsabilidade acrescida, em que o público pode escolher diretamente o fisioterapeuta a que quer ir e, da mesma maneira que eu digo: "Eu tenho o meu médico, eu tenho o meu fisioterapeuta". Isto é uma coisa que nós hoje ouvimos muito e que já é muito diferente do que era antigamente.

Até porque cada vez mais os seguros de saúde comparticipam e, portanto, com o aumento do seguro de saúde, também faz sentido.

Também. Essas comparticipações também são necessárias.

As pessoas não precisam de esperar por uma vaga no hospital público. Quem tem um seguro de saúde ou ADSE, por exemplo.

Sim. E, portanto, esta questão é muito importante. Esta capacidade de exercício liberal é extremamente importante para responder às necessidades da população.

Se houver uma queixa, por exemplo, a quem é que as pessoas podem queixar? Porque existe, por exemplo, se houver negligência por parte médica. No caso dos fisioterapeutas, também estão sujeitos a má prática, pode acontecer.

Claro, neste momento são as organizações próprias da saúde, a Inspeção-Geral de Saúde.

A Administração Regional de Saúde? Todas elas.

A associação não tem capacidade de atuar.

E a Comissão para a Ordem

A comissão para a Ordem também não. A comissão para a Ordem só tem como objetivo continuar a fazer os trabalhos todos relativamente à Ordem. E neste momento cumprimos o nosso objetivo.

Muito bem, Isabel Sousa Guerra, vamos então perceber, já passaram 20 anos, quantos faltam e o que é que falta para se constituir a Ordem, agora que há uma luz verde política para a Ordem.

Sim. Eu agora acho que já falta mesmo pouco. Ao fim destes 20 anos, e que estive sempre ligada a este processo, acho que agora já falta pouco, porque uma vez que foi promulgado pelo Presidente da República, deverá ser publicado em Diário da República, que penso que não demorará muito tempo, e o Ministério da Saúde deverá nomear uma comissão instaladora que tem um ano para instalar a Ordem.

Portanto, criar estatutos e eleições.

Exatamente. Estatutos, registro dos profissionais, que neste momento eles estão registados no Ministério da Saúde e portanto, registrar todos os profissionais. Não sei se já disse, somos cerca de 13 mil profissionais neste momento. E portanto, temos que proceder a essas atividades durante um ano, para a seguir haver eleições para a Ordem. Eu espero que mais ou menos dentro de um ano.

E há interesse, sente que há interesse, mobilização por parte destes 13 mil profissionais para se envolverem também na construção de uma ordem?

Eu acho que sim. Eu acho que houve muito empenho de todos os profissionais. Nós sentimos sempre, mesmo enquanto comissão para a Ordem, muito estímulo por parte dos profissionais para nós continuarmos e para realmente conseguirmos atingir este objetivo. E penso que estão muito motivados para esta Ordem.

Na ótica do utente, o que é que mudará? Na prática, quando eu vou recorrer a um serviço de um fisioterapeuta, a existência de uma ordem dá-me mais garantias sobre esse profissional?

Eu acho que sim, que estão relacionadas com a qualidade. Existem critérios de qualidade que têm que ser cumpridos. Os profissionais têm um conjunto de regras, princípios de qualidade, regras deontológicas, éticas, etc. E que esse cumprimento tem que ser feito e que a Ordem pode atuar se essas questões não forem cumpridas. E portanto, há uma segurança acrescida por parte do doente quando vai a um fisioterapeuta e acho que essa questão é muito importante.

Ainda ontem eu via uma entrevista com o Cristiano Ronaldo, que passou na TVI, e ele falava especificamente da importância que hoje no desporto, todos os cuidados médicos e nomeadamente toda a recuperação do desportista pós o esforço que é feito nas provas e nas competições. Há maior procura pelos cursos de fisioterapia, porque também há uma crescente procura por esses cuidados? A oferta e a procura estão em bons níveis ou são desfasadas?

Não. Há realmente muita procura. Quando eu me formei, havia uma única escola, que era a escola de Alcoitão. E hoje em dia estão 19 escolas a funcionar.

Ou seja, há emprego para fisioterapeutas.

Emprego.

Há trabalho.

Exatamente. Emprego não sei se há, mas as pessoas têm hoje condições de criar o seu próprio emprego. Eu acho que esta questão é fundamental.

Quando diz isso, é criar o seu próprio negócio.

Criar as suas unidades, exatamente, ser empreendedores. E depois, como há uma série de áreas em que os fisioterapeutas podem atuar. Portanto, eu acho que realmente há futuro nesse aspecto.

Na geriatria também é uma especialidade que tem crescido imenso.

E vai continuar a crescer, com o envelhecimento da população vai continuar a crescer. E isso é uma área em que há muitos fisioterapeutas dedicados. Nós temos pós-graduações também na área do envelhecimento e, portanto, é uma área de enorme crescimento.

E há áreas, Isabel Sousa Guerra, em que as funções se podem tornar menos claras entre um fisioterapeuta, por exemplo, e um massagista ou um enfermeiro. Está bem definido o que é que compete a cada um?

Está definido, mas às vezes é difícil ser cumprido e principalmente neste momento que a associação também não tinha muita capacidade para isso. Há zonas cinzentas que são muito difíceis de verificar, mas efetivamente, eu acho que o que o fisioterapeuta faz, mais nenhum profissional faz.

Só para se perceber, para quem nos está a ouvir, o que é que faz exatamente o fisioterapeuta que o massagista não sabe fazer, por exemplo?

Tudo, exceto massagem.

Mas é que se calhar estamos aqui a caminhar para as razões pelas quais estamos há 20 anos à espera da Ordem. Queria mesmo que nos explicasse, dessas zonas cinzentas, o que é que pertence a um e o que é que pertence ao outro.

Sabe que há alturas em que é difícil. Nós, por exemplo, trabalhamos muito em equipes. As equipes de cuidados paliativos têm atividades em que toda a equipe está extremamente envolvida e, portanto, a fisioterapia é claramente a área do movimento e da função. As outras áreas têm as suas especialidades.

Ou seja, quando falam em equipes, essas equipes interdisciplinares, temos o médico, temos etc.

Temos enfermeiro, temos psicólogo, assistente social.

Ou seja, depois de um pós-operatório, a pessoa segue, vamos supor, para uma fisioterapia. Trabalha com o médico nessa questão. O que é que o doente precisa para melhorar?

O doente precisa de uma avaliação do fisioterapeuta, que é uma avaliação própria, e o diagnóstico de fisioterapia, que é diferente de um diagnóstico médico.

Às vezes isso não funciona assim.

Pois não, mas tem que funcionar, porque é para isso que os profissionais se formam.

Às vezes é o médico que designa o número de sessões de fisioterapia.

Exatamente, mas isso não faz muito sentido, porque o profissional, o fisioterapeuta, é licenciado Hoje em dia tem mestrados e doutoramentos na área da fisioterapia, na área científica da fisioterapia e portanto, tem a capacidade de fazer a avaliação e o diagnóstico de fisioterapia.

Isabel Sousa Guerra, mas a verdade é que a Carla Jorge Carvalho tem toda a razão. Se for a um seguro de saúde, por exemplo, é o médico que diz ao seguro: "Esta pessoa precisa de 20 sessões". E se o fisioterapeuta considerar que é preciso mais, o que pode fazer?

Pois, e até se considerar que é preciso menos.

Ou menos.

Porque efetivamente, imensas vezes o fisioterapeuta pode resolver um problema com poucas sessões e pode estar limitado a uma ideia dessas de que tem que fazer 20 sessões.

E a verdade é que as pessoas confiam mais no médico do que no fisioterapeuta.

Pois é. Mas hoje vemos as pessoas a confiarem muito no fisioterapeuta.

Por exemplo, uma ordem faria diferença aí?

Eu penso que pode fazer diferença. Pode fazer diferença nesta capacidade de autonomia dos profissionais, até deles próprios poderem ser-

E da visão dos outros sobre a profissão.

Exatamente. E da visão, eu acho que sim, pode fazer muita diferença.

E em relação a uma outra tendência, que são os quiropratas, os osteopatas, os fisiatras, onde é que esses se incluem dentro deste leque de soluções para alguns problemas do esqueleto e do músculo?

Sim. Eu acho que estas terapias não convencionais foram aprovadas e, portanto, elas estão em funcionamento.

Algumas têm seguros de saúde privados.

Claro. E têm licenciaturas nestas áreas. São concorrentes.

São concorrentes, não poderiam entrar numa futura ordem dos fisioterapeutas?

Não, impossível.

Porquê?

Porque a fisioterapia é com fisioterapeutas. Isto é o nosso lema já há muitos anos e portanto, só os fisioterapeutas é que podem estar na ordem dos fisioterapeutas. Uma profissão, uma ordem.

Estas que enumerei são concorrentes?

Não são concorrentes, são áreas complementares, para dizer a verdade. E as pessoas vão começando a ter acesso a essas opções.

Era possível que um fisioterapeuta depois dissesse: "Se calhar aqui um quiroprata era importante".

Não sei se seria muito normal dizer isso, porque os fisioterapeutas também estudam manipulação, por exemplo. E os quiropratas têm muito essa área da manipulação. Os fisioterapeutas também fazem mobilização e manipulação.

Mas são áreas complementares até para os próprios profissionais. É interessante que até esses profissionais conheçam as diversas formas de atuar perante um paciente.

Claro que sim. Há muitos fisioterapeutas que fizeram osteopatia.

Eu conheço.

Eu também. E congregam essas—

Sim, e utilizam as suas técnicas, se calhar ganharam competências em áreas diferentes e utilizam conforme as necessidades das pessoas.

E hoje em dia vemos alguns desses profissionais, nomeadamente até profissionais portugueses, em alguns dos maiores clubes do mundo de futebol, pela sua importância.

Pela sua competência, sim. Os fisioterapeutas estão muito bem cotados internacionalmente também. Isso é verdade.

A Isabel de Sousa Guerra pode ser a próxima bastonária da Ordem dos Fisioterapeutas?

Era justo, não é? Depois desta guerra.

Posso ser como outros 13 mil, não direi 13 mil, porque precisa de determinadas condições, mas como muitos outros profissionais muito capazes que estão.

Mas tem um mestrado especificamente na gestão da saúde.

Tenho, na área da saúde.

Especializou-se para além.

Estaria disponível se os seus colegas de profissão entendessem assim?

Se eles o sentissem como tal, quem sabe?

Mas já há candidatos a bastonário.

Há de haver. Agora com a ordem, seguramente que há muito mais gente interessada em trabalhar para a profissão. Estou convicta que sim. Felizmente.

Isabel de Sousa Guerra, presidente da Comissão Pro Ordem de Fisioterapeutas, no nosso explicador de hoje. Muito obrigada por ter vindo às manhãs 360.

Eu é que agradeço. Muito obrigada.

Estamos de saída. Depois das 11, fica na companhia da Diana Duarte. Bom dia, Diana.

Bom dia, Maria João.

O que nos traz? Obrigada. Neste início de semana.

Neste início de semana, nesta última segunda-feira de agosto, vamos fazer uma versão tweets do dia, tweets de fim de semana e começamos por falar sobre Costa e tratamento de dados. É um rescaldo da entrevista que deu ao Expresso este fim de semana. Falamos sobre mais um cartaz da Iniciativa Liberal. Desta vez deixamos uma sugestão e falamos também das indumentárias que insistimos em desaprovar, às 11h35.

Portanto, a não perder depois das 11, na companhia da Diana Duarte.

Só para deixar aqui um alerta ao Twitter, Iniciativa Liberal, se precisam de mais táticas e técnicas de marketing, ouçam a Diana Duarte.

A equipa das manhãs 360 volta amanhã, um pouco antes das 7. Até amanhã. Boa continuação de segunda-feira.

Até amanhã.

Até amanhã.

Até à hora certa, a Paula McCartney para ouvires aqui na sua Rádio Observador. Até amanhã.

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