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Olá, bem-vindos à ViciSuave. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado um homem que se a arte de pegar touros fosse desporto olímpico, ele seria medalha de ouro. E as nossas judocas de eleição, a Rita Tavares e a Inês André Figueiredo. É este comitê olímpico que me vai ajudar a explicar uma semana em que António Costa deu um ar da sua graça para distribuir medalhas para todos os gostos. Ele foi à PGR, ele foi a Marcelo, ele foi, atenção, a Pedro Nuno Santos. E por falar em recados, Joaquim Miranda Sarmento decidiu abrir o livro para ameaçar com eleições antecipadas e citar outro Sarmento, mais concretamente Luís Morais Sarmento. Qual é a parte da frase "Não há dinheiro que não entenda"?
A margem orçamental para negociar é curta.
E aquilo que é normal nas oposições é não inviabilizarem a partida a existência de um orçamento.
Numa relação há duas pessoas, não há uma a falar e a outra calada.
O governo está recetivo a essa negociação e está recetivo a calibrar as suas próprias medidas.
O PSD tem agora no PS o seu interlocutor preferencial para se chegar a um novo acordo orçamental.
De um conjunto de medidas apresentadas pelo governo que totalizam 10 vezes mais do que aquelas que foram apresentadas pelo PS. E é bom que nós tenhamos consciência disso.
Limita muito a atuação do governo.
Se não inviabilizam o orçamento é porque estão a apoiar o governo. Não.
É sim, senhor. Para destituir tudo isto e muito mais, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Miguel Viterbo Dias, antes de ir à Rita Tavares para falar sobre política, gostava que falasses ou que dissesses aos nossos ouvintes-
Não queres que eu fale de política.
Como e quando é que nasceu a tua paixão por ABBA?
Olha, nasce sempre a 1 de agosto e fecha a 31. Eu acho que ABBA integra-se muito bem no mês de verão.
E achas que condiz com a tua personagem de forcado amador?
Lá vem, Miguel. Eu escolhi outra música, tu não gostaste. E depois eu apresentei ABBA e tu adoraste. Portanto, se quiseres tu falar sobre isso...
Fica para outra oportunidade. Rita Tavares, para te servir uma sopa com sal e pimenta, obviamente para discutirmos a entrevista de António Costa, há muitos pontos de interesse. Há, sobretudo, para este efeito, críticas à PGR, alguns recados a Marcelo Rebelo de Sousa, mas também alguns avisos ao Partido Socialista e a Pedro Nuno Santos.
É, foi um três em um. Foi uma entrevista que teve um bocadinho de tudo. Houve esse ajuste de contas com Lucília Gago, com uma frase que António Costa trazia claramente preparada a dizer: "Manifestamente temos padrões diferentes no exercício de cargos públicos", para se diferenciar da procuradora, ele que se demitiu do cargo que ocupava, sugerindo de alguma maneira que a procuradora se calhar deveria ter feito o mesmo. E depois, com Marcelo Rebelo de Sousa, foi um bocadinho mais velado, na medida em que não foi propriamente hostil, foi uma coisa mais leve, ainda de discordância absoluta com aquilo que aconteceu depois da demissão e do desencadear de eleições legislativas, quando António Costa e o PS defendiam outra coisa na altura, e deu ali uma bicada a Marcelo dizendo: "Espero que essa tese não faça escola no país." A parte da atualidade política acabou por ser muito interessante na medida em que, apesar de já estar de malas feitas para Bruxelas, António Costa ainda deu aqui umas, não diria dicas.
Deixou cá umas lembranças antes de se ir embora.
Sim, deixou, claramente. E uma pressão que me pareceu recair sobre o Partido Socialista e fez de uma maneira também não muito clara, porque começou por parecer ser equilibrado na sua análise, dizendo que quem tem o ônus da negociação é o governo. O governo não pode usar um orçamento do Estado como momento de uma moção de confiança e a oposição também não pode usá-lo como uma moção de censura. Isto são instrumentos que são para ser usados noutra altura e não no orçamento do Estado. Parece uma coisa equilibrada, mas depois a seguir começou a dizer que duodécimos não é uma coisa desejável no país nesta altura, sobretudo com uma crise internacional, com a instabilidade internacional e com os efeitos que isso provoca na economia. E aqui o ex-primeiro-ministro também já pode estar a falar com o presidente do Conselho Europeu, onde há sempre uma palavra de Bruxelas relativamente àquilo que Portugal faz na gestão das suas finanças públicas. E aí António Costa entrou um bocadinho mais, diria eu, na pressão para a viabilização do orçamento do Estado. Acho que ficou muito claro que é essa a solução que o ex-primeiro-ministro defende, que é o orçamento é um mero instrumento, ele até usa esta expressão para dizer que é um instrumento para o governo governar, e que há outros momentos para a oposição expressar a sua adversidade ao governo, que não este momento, mostrando claramente que está mais virado para uma viabilização do orçamento do Estado. E claro que o Partido Socialista, sendo o partido que está na frente dessas negociações, porque é o maior partido Enfim, tem aqui uma importante decisão a tomar em outubro.
Miguel Viterbo Dias, sabemos todos que Luís Montenegro apoiou a candidatura de António Costa a presidente do Conselho Europeu, portanto estavam totalmente alinhados nesse objetivo. O que é de surpreender é que Luís Montenegro tenha em António Costa o maior defensor da estabilidade política.
É por isso que eu defendo a criação de uma estratégia nacional para a existência de senadores em Portugal, porque sempre que aparecem senadores políticos, vêm apontar caminhos e luzes pra que os atuais titulares dos cargos possam fazer melhor o seu trabalho.
Mesmo que tenham saído dos cargos há uns quantos meses.
Sim, mas vestem rapidamente o fato.
Não tenham tido essas luzes quando estiveram mesmo no cargo.
Aliás, António Costa já tinha um pouquinho o fato de senador mesmo na reta final do mandato.
E mesmo que António Costa tenha aproveitado um chumbo orçamental para ir a votos e ter uma maioria absoluta, mas isso são pormenores.
Mas isto por quê? Porque aquilo que a Rita estava a destacar na intervenção de António Costa, a questão do chumbo do orçamento de Estado não ser uma moção de reprovação e a viabilização não ser uma moção de confiança do governo, é um bom caminho para o qual Pedro Nuno devia começar a ensaiar rapidamente o discurso se quer preparar para viabilizar o orçamento do governo. E portanto, já fica assim a indicação dada por parte de António Costa, e resta ao Benjamim pegar nesses livros e apontar o caminho. Porque acaba por fazer essa defesa daquilo que Luís Montenegro quererá, porque Luís Montenegro também vai dando recados que às vezes umas eleições antecipadas, como vamos falar a seguir, até através de Miranda Sarmento, podem ser úteis ao PSD. Mas António Costa, com esta posição, escolhe esse caminho que o PS devia, ou determina esse discurso que o PS devia adotar, sobretudo um PS que se vai preparando para viabilizar o orçamento do Estado. Eu queria só, sobre a questão da justiça, dizer que António Costa foi demasiado hostil pra quem ainda não tem o processo arquivado. Portanto, senhora procuradora, se agora quiser reativar o caso com mais força.
E foi o adeus ao mantra da justiça.
Era isso, pra assinalar essa questão. Já tinha caído um bocadinho com aquela conferência em São Bento, e agora António Costa certificou-se de que essa tese tem mesmo sete palmos de terra por cima com esta entrevista, ou não.
Miguel Viterbo Dias, continuo contigo, porque estás a ter uma belíssima atuação nesta revista de suave. Para te servir uma caldeirada.
Desculpe, a linguagem olímpica dá-me 12,7 pontos.
Não sei o que isso significa, porque não gosto particularmente de Jogos Olímpicos, mas tenho para te servir uma caldeirada. Nós tínhamos prometido aos nossos ouvintes que tão cedo não falaríamos do orçamento de Estado, pelo menos até setembro.
Estou farto de falar do orçamento de Estado.
E eis que surge, contra a nossa vontade, aliás, o Miranda Sarmento a avisar Partido Socialista e Chega que se desvirtuarem o orçamento de Estado, então será tempo de ouvir os portugueses.
Em tempos idos, o orçamento de Estado era aquela coisa que se discutia durante sete horas no Parlamento e estava resolvido.
Em tempos muito idos.
E agora vamos discutir em sete meses, exatamente. Sim, o ministro das Finanças tem aquela frase meio enigmática na aplicação prática, que é: "Temos que perguntar aos portugueses se querem um orçamento de Estado desvirtuado o programa do governo, porque depois não concretiza, se quer eleições antecipadas, pode-se sempre referendar o orçamento de Estado." É uma ideia que ainda não se explorou e que eu gostava de pôr em cima da mesa.
É um orçamento participativo.
É pra isso que nós estamos cá também. Sim, o orçamento participativo, boa ideia, uma boa maneira também de fazer isso.
Acho que ele já está a ser muito participativo. Esse é o problema do Miranda Sarmento.
O governo não quer é que mais ninguém participe. Já agora, deixem-nos também participar.
Deixem-nos ideia.
Agora que já brincaram todos, nós também gostávamos de poder meter qualquer ideia lá. O governo não tem propriamente um polícia bom e um polícia mau nesta questão do orçamento de Estado, porque todos têm sido polícias maus, que é: "Isto não dá pra mexer muito, procurem não mexer muito." Estão acossados por essas propostas da oposição.
E se mexerem muito, vamos pra eleições.
Exato.
É o polícia mau e o polícia péssimo.
Isto também é um pescado do "Olha o Chega", que é tornar as forças de segurança mais assertivas. Miranda Sarmento, tem aqui uma questão que é: ele terá muito boa margem interna, primeiro porque os ministros das Finanças mandam no orçamento, em particular há muitos anos. Mas Miranda Sarmento já permitiu a tantos ministros dar tanta coisa durante tanto tempo, que agora na hora de fazer o documento, ele vai poder ser o mais castrador possível. Veremos até que ponto é que isso acontece ou não, porque este discurso é bonito, mas vai ter que dar alguma coisa à oposição, e isso vai ter que se ir buscar algum lado e será internamente.
Rita Tavares, esta ameaça concreta de Miranda Sarmento sobre a possibilidade de haver eleições antecipadas, caso o Partido Socialista e o Chega articulem posições e façam votações cruzadas, isto cria, eu temo ser repetitivo, mas cria ainda mais pressão sobre Pedro Nuno Santos?
Cria, mas eu acho que cria aqui outra questão, que é: o que é que vai ser necessário? É o PS viabilizar na generalidade e depois ir à especialidade, onde essa realidade se pode verificar efetivamente, que é depois no debate e na votação de proposta a proposta, a proposta inicial do governo poder ser desvirtuada, como diz Miranda Sarmento. E aí haver um orçamento que no final das contas já nem o governo quer, porque já foi tão alterado ali naquele intermédio. A questão principal vai de saber se isto é logo desbloqueado na generalidade e se passa à especialidade, ou se então o Partido Socialista, olhando pra proposta, diz: "Nem vale a pena ir à especialidade." Porque o PS tem aqui uma questão também
Difícil de gerir politicamente. Foi o PS que esteve a dizer durante este tempo todo que era praticamente impossível votar um orçamento do Estado, depois virou para difícil viabilizar um orçamento do Estado, porque isso significaria apoiar uma linha política de um governo, que o orçamento é de um governo que fundamenta a sua linha política. Ora, se é assim, e se o PS compreende isso, também é difícil que entre numa discussão e numa aprovação na generalidade do orçamento do Estado com intenção de depois, na especialidade, virar a linha política do governo ao contrário. Há uma pressão para viabilizar por um lado, por outro lado, há toda uma confusão política e é preciso muita habilidade para gerir os próximos tempos. Veremos se alguém terá.
Inês André Figueiredo, junto até esta caldeirada e desafio-te a falar de outros dois elementos muito importantes para o orçamento do Estado. André Ventura, por um lado, porque pode efetivamente desbloquear a votação, mas também de Rui Rocha, que estando numa posição mais confortável, ou seja, a viabilização do orçamento do Estado não depende da iniciativa liberal, tem aqui também uma possibilidade de, vou usar uma expressão muito forte, de chantagear o Luís Montenegro, porque é muito importante para a Aliança Democrática contar, pelo menos, com um parceiro negocial.
Vou começar pelo Chega, que aparentemente está numa situação muito mais delicada, até porque por tradição, os partidos que deixam cair governos são prejudicados nas urnas e o Chega tem atualmente 50 deputados. E a somar a isto, ainda o resultado das europeias, que como sabemos foi mau para o Chega, muito aquém das expectativas do próprio partido, e talvez devesse obrigar André Ventura a repensar na estratégia que tem para este orçamento do Estado. O que parece é exatamente o contrário, que o líder do Chega não está propriamente preocupado ou com receio de ir a votos, sempre o disse, na verdade, mantém a tese sempre e até deu ordens para que não se pare o trabalho no verão por causa de umas possíveis eleições antecipadas. E isto dá nota que, de facto, o presidente do Chega está a querer preparar-se para esse cenário. A meu ver, é uma estratégia que lhe pode custar caro nas urnas, principalmente se o orçamento do Estado tiver respostas a algumas das bandeiras que o Chega costuma levantar, como a questão das Forças Armadas, dos professores, até nos impostos. Com que argumento é que André Ventura vai para a estrada fazer campanha se chumbar um orçamento do Estado que responda a esses setores? É verdade que o governo não foi tão longe, pelo menos até agora, na questão do subsídio dos polícias, por exemplo, mas deu um subsídio aos polícias. André Ventura espera que fiquem sem ele.
E conseguiu, de alguma forma, partir o movimento, porque já há sindicatos ligados às forças de segurança que aceitam, pelo menos, o compromisso do governo.
A questão é exatamente essa, retirar este subsídio que foi dado é uma solução para André Ventura. Por outro lado, só para terminar aqui a questão do Chega, André Ventura continua a ambicionar crescer e tem aquele sonho de algum dia esvaziar o PSD de tal forma que o Chega consiga ultrapassar o PSD. Nessa perspectiva, faz sentido afastar-se do governo, mas dificilmente pode sair com mais deputados de umas eleições antecipadas em que seja dado como o culpado da queda do orçamento do Estado. Por outro lado, numa posição completamente diferente, está a iniciativa liberal. Por um lado, nunca ostracizou o governo, optou sempre por dizer que sem os liberais Montenegro não vai conseguir imprimir um espírito reformista ao governo, e essas foram sendo as justificações para primeiro não entrar na Aliança Democrática e depois para não ter cargos no governo, ainda que haja aqui divergências naquilo que o PSD e a iniciativa liberal dizem. E há o outro lado da moeda. A iniciativa liberal não tem deputados suficientes para salvar o orçamento do Estado ou qualquer proposta do governo, não chega para fazer a diferença e sabe que, por essa razão, Montenegro vai ter de escolher com quem conta para lhe aprovar o orçamento do Estado, o que no fundo deixa aqui os liberais um pouquinho mais livres e mais confortáveis. Podem pressionar e pedir mais, é verdade, mas também podem muito bem dar um passo atrás, não aprovar e nem sequer ficam muito em xeque. Podemos lembrar que de todos os partidos de direita, provavelmente a iniciativa liberal é a que menos pode perder com as eleições antecipadas, porque teve um resultado muito longe de ser perfeito nas eleições legislativas e pode sempre argumentar, como muitas vezes temos ouvido, que não vota no orçamento que considera demasiado colado ao PS. Aparentemente, na iniciativa liberal, considera-se que dificilmente há alguma coisa a perder, seja qual for o sentido de voto, o que é uma posição, de facto, muito agradável. É só preciso perceber se Luís Montenegro quer ter em atenção o que é que isto lhe pode custar no que ao futuro diz respeito, caso os liberais venham a ser essenciais numa futura maioria absoluta, por exemplo.
Só mesmo para terminar, Inês, porque esse, de facto, é um ponto importante. Luís Montenegro precisa dar um sinal político de que a Aliança Democrática não está sozinha. Isso jogará a favor da IL?
A IL tem o problema de não querer ser esvaziada pelo PSD. Teve essa dificuldade na campanha da Aliança Democrática, em tentar demarcar-se de Luís Montenegro, da própria campanha, e isso é difícil. Agora, no orçamento do Estado, há realmente questões que a iniciativa liberal procura colocar em prática de forma muito mais forte. Por exemplo, a questão dos impostos. Não querem dar espaço, não querem abrir uma margem para que o governo não faça mais do que já fez. E isso é uma posição que dificilmente Luís Montenegro vai dar um passo atrás.
Muito bem, a primeira parte da Vigice Suave tem de ficar por aqui. Voltamos dentro de momentos com entrevista a David Amado, presidente da Junta de Freguesia de Alcântara e líder do PS de Lisboa Olá, bem-vindos à segunda parte da Vixi Suave. Temos conosco David Amado, presidente da Junta de Freguesia de Alcântara e líder do PS Lisboa. É a última Vixi Suave antes de irmos para férias. É uma estreia do David Amado aqui, portanto, sem qualquer tipo de pressão. Só esperamos a verdade e somente a verdade. As próximas autárquicas vão ser decisivas pra liderança de Pedro Nuno Santos?
Boa tarde a todos, obrigado pelo convite. As próximas autárquicas vão ser decisivas pro futuro das autarquias nos vários sítios do país e o PS certamente vai ter bons candidatos, vai apresentar boas propostas e vai ter bons resultados. Não está em causa a liderança de ninguém.
Não acha que vai ser possível ou vão existir leituras nacionais de um eventual mau resultado do Partido Socialista nas autárquicas?
As autárquicas são eleições muito particulares, onde se elegem os políticos de proximidade que gerem o dia a dia de muitas localidades, de muitos territórios, muitas freguesias e muitas câmaras. Obviamente que há sempre as leituras nacionais que se queiram fazer. Agora, são sempre eleições muito particulares e têm a ver, sobretudo, com aquilo que é a política local, a política autárquica e sobretudo com aquilo que são as propostas que são apresentadas pelos diversos partidos e os intérpretes que são apresentados para executar essas propostas.
Falemos então de possíveis candidatos. Em Lisboa, parecia mais do que encaminhada a candidatura de Marta Temido, que entretanto foi cabeça lista do Partido Socialista às europeias e o processo voltou um bocadinho à estaca zero. Qualquer sucessor ou sucessora não correrá o risco de ser encarada ou encarado como uma segunda hipótese?
Acho que o problema de candidatos em Lisboa prende-se mais com o PSD, porque temos o atual presidente da Câmara que ainda nem sequer assumiu que era candidato à Câmara e com a atual gestão pouco cuidada do município onde a cidade está praticamente abandonada, eu acho que quem tem problemas em escolher o candidato à Câmara deverá ser o PSD, porque a continuar com esta gestão, provavelmente não vejo um grande resultado para Carlos Moedas no próximo ano. O PS terá sempre bons candidatos. O PS está em processo interno de eleições, que começaram no passado junho para as suas concelhias. Terminará agora no próximo outubro com as federações, com os distritais do Partido Socialista.
Mas consegue reconhecer que estava tudo encaminhado para que fosse Marta Temido. Não será Marta Temido, naturalmente, e agora o senhor ou senhora que se seguir será sempre encarado como uma segunda escolha.
Marta Temido seria sempre uma excelente candidata à Câmara Municipal de Lisboa. Neste momento, Marta Temido não é possibilidade para ser candidata, mas mesmo na altura, quando se falava da Marta, falava-se de muitos outros nomes. O PS não tem como problema possíveis candidatos à Câmara. Aliás, qualquer dos candidatos que são falados na comunicação social seria um bom candidato à Câmara. Portanto, o PS está completamente tranquilo, sereno. Obviamente que essa escolha não é uma escolha apenas da estrutura local. Nós estamos na capital do país, portanto, esta escolha, o candidato à Câmara de Lisboa, será uma escolha partilhada entre as várias estruturas, obviamente, do PS, mas também com a direção nacional do PS.
Há nomes que já começam a ser falados. Mariana Vieira da Silva, inclusivamente, já mostrou que a corrida autárquica é um caminho a ponderar. É a melhor candidata para defrontar Carlos Moedas?
Mariana Vieira da Silva, Alexandra Leitão, os outros candidatos que são falados são todos bons candidatos. Penso que o PS não tem qualquer tipo de problema com os candidatos. Aquilo que é mais importante neste momento é primeiro evidenciar o estado da cidade, o estado em que a cidade está, e depois também construir um projeto ambicioso pra cidade, que é algo que não temos. Nós, neste momento, temos uma cidade que está, há pouco falava em abandonada e pouco cuidada, mas se percebermos a única coisa e se observarmos bem aquilo que é a política da cidade de Lisboa, a única coisa que Carlos Moedas sabe gerir bem é a sua conta de TikTok, e por vezes ainda usa a sua conta de TikTok, girindo a Câmara na sua conta de TikTok, que é algo muito preocupante. Quando temos o lixo da cidade e a agenda urbana no estado como eu nunca vi. Repare, eu sou presidente de junta desde 2013 e sempre houve problemas no recolho de lixo. Sempre, só que eram problemas pontuais. Neste mandato, aquilo que anteriormente era pontual, agora é regular. E estamos a falar dessa situação quando temos perante um cenário em que a Câmara Municipal de Lisboa, segundo aquilo que é as posições do seu presidente e do seu vereador, e aquilo que é a informação que está disponível, onde há um investimento quer em equipamentos, quer em recursos humanos, e quando temos os dados que recentemente tivemos acesso, em que o número de lixo que é produzido na cidade reduziu 5%. Ora bem, se temos mais meios, se temos mais homens, se temos menos lixo a recorrer, se o lixo é uma operação logística, algo vai mal no reino da Dinamarca.
Mas deixe-me insistir na pergunta que lhe fiz. Mariana Vieira da Silva, ainda para mais, numa altura onde se fala na intenção de poder existir aqui uma frente de esquerda para concorrer por Lisboa numa coligação pré-eleitoral, é um nome que era interessante também para ser aceito nessa frente?
Repare, Mariana Vieira da Silva, Alexandra Leitão e os outros-
Estou a ver que não acha que sejam nomes suficientes, põe sempre Alexandra Leitão.
São todos-
Prefere Alexandra Leitão, é isso?
São todos bons nomes, não tenho qualquer tipo de preferência. Como lhe disse, nós somos um partido político em que estamos em processo de definição das nossas estruturas internas. E neste momento, já temos alguns nomes que todos falamos e que todos concordamos. E como lhe disse há pouco-
E era importante ter esse nome definido ainda este ano pra fazer a tal oposição já com uma cara à frente de Carlos Moedas.
É importante começar a preparar uma alternativa que Que consiga ter um município que cuide da cidade, que tenha projetos para a cidade, que tenha ambição para a cidade. Acho que esse projeto tem que ser sempre liderado pelo PS. Obviamente, e por todos aqueles que sejam forças progressistas que queiram com o PS construir esse projeto. Quem lidera esse projeto, obviamente, terá que ser alguém do PS e será alguém que terá capacidade para o liderar. Mas como disse há pouco, eu não estava brincando, estou mesmo a falar sério, Carlos Moedas nunca disse que era candidato. Aliás, como já várias vezes foi falado.
Mas tem dúvidas de que vá ser?
Não sei, ele nunca o disse. Repare, ele cuida da cidade muito pouco. E quando eu lhe disse: "A cidade não pode ser gerida pelo TikTok". Repare, eu vou vos dar um exemplo: ele fez um vídeo do TikTok do plano de drenagem, que é algo que a mim me incomoda imenso no vídeo, que o vídeo até estava particularmente engraçado, mas a forma como se lida com uma situação, pra mim, é muito importante pra cidade. Ou seja, o vídeo do TikTok tem como objetivo, que é propaganda. E propaganda de Carlos Moedas é diferente da realidade da cidade. Nós vivemos uma espécie de ilusão que está a ser criada por Carlos Moedas, e vou vos dar o exemplo do plano de drenagem, pegando nesse TikTok. Esse TikTok serve para aquela tentativa de querer provar que o plano de drenagem está a ser realizado por este executivo. É óbvio pra todos que não é, ou seja, ele está a executar, aliás, com atraso, diga-se de passagem, aquilo que era obra que já estava feita. Mas ele fala: o plano de drenagem tem dois túneis que estão a ser abertos agora, como sabem, com uma tuneladora enorme. Como sabem, já foi encomendada há anos, foi construída propositadamente para abrir esses túneis. Portanto, isso torna evidente que não foi Carlos Moedas, nem foi este executivo camarário, que teve a iniciativa do plano de drenagem. Mas pior ainda, deixe-me só concluir, porque isto é importantíssimo. O plano de drenagem não são só esses dois túneis. Existem imensas obras na cidade que estão ligadas a esse plano de drenagem.
Amigo, o problema é que Carlos Moedas que está lá agora.
Certo.
Vai ser preciso uma frente de esquerda pra o derrotar. Só assim é que é possível derrotar Carlos Moedas.
Já respondo, mas deixe-me terminar, porque pra mim é muito importante, tem a ver com Alcântara e tem a ver com o problema que nós temos na cidade, que é gravíssimo, e eu acho que é importante que as pessoas entendam. O plano de drenagem também tem muitas obras em vários pontos da cidade, tem a ver com a substituição de coletores, com maior capacidade a vários coletores da cidade, e que são obras que estavam já pensadas, algumas já projetadas do executivo anterior. Sabem quantas obras essas é que foram pra concurso? Zero. Estamos a falar em zonas da cidade, as zonas mais baixas, em que essas obras atenuam bastante quando há episódios de chuva prolongada ou daqueles episódios de intempéries como existiram ano passado e há dois anos, e o município não tem esse cuidado, e não são obras de milhões.
Mas deixe-me insistir, ainda assim, é preciso uma frente de esquerda? Porque o próprio Pedro Nuno Santos disse que em Lisboa isso era uma situação pautada.
Não sei se é preciso uma frente de esquerda. O PS não tem problema nenhum em ter um tipo de entendimento com outras forças políticas, aliás, como teve já no passado, quer com partidos políticos, quer com movimentos. Pro PS, o que é importante é haver uma alternativa pra cidade, que volte a cuidar da cidade e que volte a ter ambição pra cidade. Carlos Moedas intitula-se o fazedor, mas a única coisa que ele faz é inaugurar a obra que os outros deixaram do passado. Eu posso, até em jeito de brincadeira, costumo dizer que Carlos Moedas é o inaugurador, não é o fazedor. E aquilo que o PS tem que fazer, e não tem que o fazer sozinho, eu sempre entendi, e mesmo antes de ter responsabilidade do PS, que os partidos políticos, nomeadamente em autarquias, têm que contar com todos. Se houver pontos convergentes dos vários partidos pra que exista um projeto melhor pra cidade, ninguém tem que ir sozinho.
E em Lisboa é todos, todos, todos, ou seja, Bloco de Esquerda, pra além do PS. Bloco de Esquerda, Livre e PCP? É uma condição que o PCP também vá ou não?
O PS tem que liderar qualquer processo de acordo em Lisboa. Agora, terá que vir quem conosco quiser vir, quem conosco quiser convergir, quem com o PS quiser criar um programa e uma estratégia que transforme a cidade e que volte a devolver a cidade aos lisboetas e a cuidar da cidade. Agora, cada um sabe de si, cada um sabe da sua casa. O PCP já veio publicamente dizer que não pretende. Ainda estamos a bastante tempo, não sei se irá alterar ou não a sua posição, mas se alterar há que perguntar ao PCP.
Há quase 30 anos que a esquerda toda não se entende em Lisboa. A experiência com o Bloco de Esquerda correu mal e mesmo depois da Geringonça não foi possível juntarem-se na capital. Por que agora seria possível e proveitoso?
Neste momento, nós temos um município que usa a propaganda para gerir a cidade. Vou vos dar o exemplo das habitações. Carlos Moedas diz que entregou 2000 habitações. Isso é uma ilusão. Foram entregues as 2000 habitações. A ilusão é a seguinte: 1000 dessas habitações já estavam lançadas anteriormente pelo Partido Socialista. Neste momento, as habitações que Carlos Moedas pretende lançar, novas habitações, é lá pra 2030. E temos as outras 1000 habitações, que é uma ilusão, que são casas que fazem parte do patrimônio do município, mais de 20 mil habitações, que obviamente vão saindo famílias, vão indo pra concurso e vai havendo uma rotação. Portanto, dessas 1000 casas, grande parte dessas 1000 casas, estamos a falar dessa rotação que existe nessas habitações. O que significa que perante um problema gravíssimo de habitação que existe na cidade, nenhum partido responsável, progressista, pode aceitar que isso seja razoável, pode aceitar que seja esse tipo de propaganda a dizer que já entreguei 2000 casas.
E por isso há urgência em derrotar Carlos Moedas pra estancar essa propaganda, como diz.
A propaganda tem um resultado que é um prejuízo grave para a cidade e pra quem cá mora e pra quem cá trabalha. E isso tem que ser algo que de fato tem que ser estancado e tem que ser travado
Esta semana, virando a agulha para questões mais nacionais, António Costa deu uma entrevista onde defendeu que os governos devem durar quatro anos. Este governo deve durar quatro anos?
O governo foi eleito há quatro meses. Neste momento, temos o orçamento de Estado para ser discutido a partir de outubro. Aquilo que o governo tem feito tem dado sinais importantes.
É importante haver orçamento? Esta é uma altura para chumbar um orçamento?
Quem tem que ter essa maior preocupação é quem está a governar, que tem que ter o ônus dessa necessidade de aprovar o orçamento. O PS tem o programa que se apresentou ainda há quatro meses, ainda bem fresco na memória de todos. O PS tem tido uma postura responsável naquilo que é o papel que os portugueses lhes conferiram na Assembleia da República, através do seu papel de oposição, e tem se mostrado bastante claro naquilo que são as posições. Como este é o último programa que a BBC faz antes de férias, acho que é a altura de irmos todos de férias. Hoje eu vi no Observador umas declarações do ministro das Finanças que sugeria uma espécie de entendimento entre o Chega e o PS. Acho que isto está a chegar a contornos quase de Nárnia. Portanto, acho que esta é a altura de se interromperem todos aqui umas semanas de férias.
A questão é se avançar para umas eleições legislativas agora, com autárquicas no calendário, é um risco acrescido, principalmente para um partido que vai ter quase 60 autarcas a saírem obrigatoriamente por limitação de mandatos.
Eu não vejo as coisas dessa forma. Quando se governa, tem que se tentar governar, tem que se tentar levar os mandatos até o fim, cumprir aquilo que são as melhores políticas para que as pessoas tenham melhorias nas suas vidas, quer seja a política do governo central, quer seja nas autarquias. Eu acho que a tática não pode ter aqui um fator tão preponderante como todos queremos que tenha e como todos queremos fazer crer. Por isso é que quando falava em Nárnia há pouco, é que de facto, muitas vezes as declarações de quem tem mais responsabilidade em que o orçamento seja aprovado, que é o governo, que tem o ônus de encetar essas negociações e ter esse objetivo. Muitas vezes essas declarações que temos vindo a ler e ouvir nos últimos tempos, como vos disse há pouco, parece que vêm de uma espécie de reino de Nárnia que estão a querer criar. Isso não ajuda muito. Parece-me que é preciso algum sangue, alguma calma, alguma serenidade.
Mas não considera que o PS pode vir a ser viabilizado por ser o fator de instabilidade, caso não venha a aprovar o orçamento de Estado? Se isso não prejudicaria as ambições do partido, até para as eleições autárquicas, Pedro Nuno Santos não devia ser mais prudente nessa circunstância?
O PS tem sido sereno, prudente e bastante claro desde o início desta legislatura. Desde sempre vos digo, o PS sempre diz, e não vai abdicar, obviamente, de ter o seu papel.
Não receia que possa ser penalizado.
O PS nunca pode ter receio. Na política não podemos ter receio de sermos penalizados, não podemos ter esse tacitismo. Nós temos que governar perante aquilo que foi a confiança que os portugueses nos deram. Nas últimas eleições, os portugueses decidiram não dar a confiança ao PS em número de votos suficientes para que fosse o PS a governar e para que fosse o PS a ter agora esta maior responsabilidade de negociar com outros partidos para que fosse ou não o orçamento aprovado. Portanto, aquilo que o PS tem que fazer é isso, tem que fazer o que tem feito até agora: ser prudente, sereno e, obviamente, nunca fechar a porta à negociação, que foi coisa que nunca fez até agora.
Mas deixe-me só insistir, se é prudente o PS chumbar o orçamento do Estado.
Mas o PS não pode pensar nisso.
Disse que o PS tem que ser prudente, daí a minha pergunta.
Prudente na sua política, na sua ação, na sua forma de estar.
Não na tática sobre o orçamento do Estado?
Acho que isto não pode ser tática, a política não pode ser tática e nós estamos a chegar a um ponto em que temos que pensar mais nas pessoas, mais nas nossas populações, e a tática deve ser algo que deve ser secundarizado naquilo que é a ação. Eu acho que o PS tem tido uma postura correta naquilo que é a sua posição, respeitando quem votou no PS, mas também respeitando e assumindo que não é o PS que tem que ter esse grande ônus dessa negociação inicial para com o orçamento do Estado.
David Amado, vamos entrar no segundo segmento do nosso programa, o bloco Carne ou Peixe. Como é uma estreia para si, eu explico as regras do jogo. Só pode escolher uma de duas opções.
Quem for vegan não pode jogar este jogo.
Já tivemos uma edição especial vegan, por aí nas choses reais.
Ainda não fomos tão longe. Talvez no regresso pós-férias possamos pensar nessa alternativa. Venha daí a trilha. Quem levaria a tomar um café numa das suas voltas pela freguesia de Alcântara, Carlos Moedas ou Luís Montenegro?
O Carlos Moedas, uma vez que não perco a oportunidade de lhe dizer os problemas que ele ainda não resolveu, portanto, era mais uma oportunidade para lhe dizer.
Vamos lá ver se vai continuar a optar só por um. Quem queria levar a um ensaio das marchas no próximo ano, já como candidata do PS, Alexandra Leitão ou Mariana Vieira da Silva?
Levaria as duas, que eu adoro as marchas, ainda por cima fomos vencedores da marcha do ano passado. Levaria as duas e levar-vos-ia a todos, caso queiram.
Acho que aqui não escolhe.
Desceriam e invertiam todos.
Quem é que preferia levar como companhia para o seu jogging à beira rio, ali na zona do Palácio de Belém, António Vitorino ou Carlos César?
António Vitorino.
E quem é que está a precisar mais de uma boa conta de TikTok, Pedro Nuno Santos ou Fernando Medina?
Fernando Medina.
Não quer explicar por quê?
Estou sempre a brincar com o Fernando com as suas redes sociais.
Muito bem, David Amado, como é hábito no nosso programa, o convidado tem a prerrogativa de escolher uma sobremesa, no caso, uma música. Que música que nos traz e por quê?
Trago o "Tanto Mar" do Chico Buarque, porque estamos nos 50 anos do 25 de Abril e nós, apesar de sermos uma pequena freguesia em Lisboa, tivemos imensas iniciativas nesta comemoração dos 50 anos do 25 de Abril. Esta música, com as suas duas versões, que eu gosto imenso, e para vos deixar com uma iniciativa que nós fizemos este ano e acho que Gosto de partilhar, porque é uma música muito bonita. Todas as crianças da freguesia, em novembro, em parceria com o Instituto Superior de Agronomia, plantamos cravos, fomos cuidando desses cravos, fomos colocando alguns desses cravos com canteiros em várias escolas da freguesia e fomos mantendo a liberdade, a democracia, florindo sempre aqueles sentimentos ligados ao 25 de Abril. Eu achei que era uma música adequada pra este programa e já que vamos todos de férias, também é uma boa música antes de irmos de férias.
David Amado, muito obrigado por ter vindo à Vixi Soares.
Obrigado, Abel.
Os nossos ouvintes já perceberam que nós vamos de férias. Podem ouvir-nos sempre no site, no rádio, mas também nas plataformas habituais. Portanto, até setembro. Voltamos a ver.