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Olá, bem-vindos a mais uma "Vichy Soás" especial, desta vez emitida a partir do Parlamento. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado o chefe de gabinete com que qualquer autarca ribatejano sonha, Miguel Viterbo Dias, e duas das melhores deputadas da nação jornalística, a grande repórter Rita Tavares e a jornalista Inês André Figueiredo. É este grupo parlamentar de luxo que me vai ajudar a explicar uma semana marcada pela apresentação do programa do governo, em que António Costa apareceu no Parlamento com uma grande bazófia, como dizem os garotos. Mais murchito está Rui Rio que, por já estar de saída, mal pôs a cabeça de fora, levou logo três ganchos de esquerda. Por falar em esquerda, o Observador sabe que os serviços da Assembleia da República já puseram cães pisteiros à procura de Bloco de Esquerda e PCP, desaparecidos algures na noite de 30 de janeiro e ainda não regressados. Oxalá esteja tudo bem. À custa da ausência de Rio, Jerónimo e Catarina, e ele e Chega aproveitam para fazer croquetes, agora devidamente insuflados.

Afinal, o país não estava farto nem de mim, nem do PS. Afinal, eu não estava propriamente cansado.

Aprendiam. Era uma pressinha, aprendia o povo e aprendia o Partido Socialista.

Aconteceram muitas coisas no entretanto, e este programa do governo é um programa que dá continuidade ao percurso que iniciámos.

Podem dizer que arranjei um excelente subtítulo para o seu programa de governo. E o subtítulo é: "Agora é que vai ser".

O que acontece com a Iniciativa Liberal é a mesma coisa, a comunicação é excelente, o problema é mesmo a Coca-Cola, é mesmo o produto da Iniciativa Liberal.

Tiramos uma conclusão óbvia: enganou as pessoas. Independentemente de alguns até gostarem de ser enganados. Eu estarei cá mais quatro anos e seis meses à espera de si. Portanto, tem tempo de ir, voltar e eu ainda cá estarei.

Veremos se estará cá. Nós por cá andamos e com muito apetite, portanto, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Rita Tavares, começo por ti, com uma sopa de pavão. Para quem não sabe, e há muita gente que não sabe, os jardins da Assembleia da República têm pavões. Nós não fizemos nada aos bichinhos. Este pavão é mesmo António Costa, que ontem apareceu, como dizia na intro, com uma grande bazófia. Era um António Costa muito diferente daquele que nos tinha habituado.

Sim, não conseguiu disfarçar, de facto. Pregou humildade democrática durante toda a sua intervenção inicial, mas foi difícil praticá-la. Não houve grande humildade democrática. Os primeiros minutos das respostas às várias bancadas foram quase de ajuste de contas. Com Rui Rio foi aquele desafio de se quiséssemos uma segunda volta. Depois para o PCP também foi esta frase que nós ouvimos de início, para o Bloco também teve assim uma tirada. Enfim, foi ali brindando várias bancadas com estes mimos. Mas o que eu destacaria aqui é que de facto nenhum partido também lhe fez frente, nem mesmo num tema que se calhar é um tema de maior melindre, o Presidente da República na tomada de posse.

Exatamente, era isso que eu te ia perguntar. Tu ontem escreveste um artigo onde tentavas perceber nas entrelinhas das várias intervenções de António Costa, se ele se comprometia ou não a ficar até o fim do mandato. Concluíste que...

Que ele fez os mínimos. Para já, fez uma coisa que tomou a dianteira da questão antes que alguém lha colocasse. Tentou ali logo abafar a questão, matá-la, atirá-la para baixo do tapete, tirando uma série de frases que metiam a palavra abandono e nós não abandonamos, nós não isto, nós não aquilo, o programa é para legislatura, vou estar cá quatro anos e seis meses. Enfim, foi deitando isto para as várias bancadas, e aqui eu acho que foi também algum mérito de António Costa, que colocou a questão tão à cabeça e logo na sua intervenção inicial, que acabou por matá-la, mas também demérito dos grupos parlamentares, que não houve nenhum deputado que lhe fizesse a pergunta de forma direta. É que faltou a resposta de forma direta. Eu acho que nesta altura, muito honestamente, o que for dito hoje, toda a gente sabe que pode ser deitado para baixo do tapete com muita facilidade. Por mais que António Costa tenha dito que o mandato é para cumprir em quatro anos e seis meses, nós sabemos lá o que é que acontece daqui a dois anos, ninguém sabe. Nem na vida pessoal das pessoas, nem na vida política do país, nem na cena internacional. Portanto, alguém pode dar por garantido que António Costa em 2024 não vai para Bruxelas? Não. Ele deu esse conforto? Deu. Daqui a uns anos, se ele for para Bruxelas, alguém pode dizer que ele avisou que isso podia acontecer? Pode, ele avisou de alguma maneira, ao não deixar isto absolutamente fechado. Mas a questão é: os partidos fizeram o suficiente para também Provocarem-no com esta questão, falarem da questão da estabilidade política.

E este era o momento, quando o tema está na agenda.

Era o momento e ninguém fez isso. E continuo à espera, ainda hoje de manhã estava à espera, se calhar alguém lhe vai fazer a pergunta diretamente, mas agora já não vale a pena. Ontem é que eram as perguntas diretas ao primeiro-ministro. Se calhar ninguém está interessado, se calhar ninguém está aqui também a querer dar-lhe esse palco.

Se calhar há muita gente a desejar porque haja de facto eleições antecipadas daqui a três anos.

Exato, e às tantas há isso também.

Miguel Viteiro Dias, a Rita falava sobre um certo torpor dos partidos da oposição. Nós já vamos falar dos partidos mais à direita, mas percebeste este novo quadro, este novo comportamento do Bloco de Esquerda e PCP. Que leitura é que fizeste daquelas intervenções tão mixurucas?

Muito obrigado por dar na sua pergunta também a sua resposta, Miguel Santos Caramelo.

Mas tentei condicionar, podes cortar.

Não, foi essa questão, como a Rita já referiu, passámos aqui uma resposta do António Costa ao Jerónimo de Sousa, em que ele explicou ao Jerónimo que as coisas mudaram desde há três meses ou quatro meses e que para o PCP e para o Bloco parece estar tudo um bocadinho igual. Eu até esperava que ele mantivesse o tom que adotou com o Bloco de Esquerda ao longo dos últimos dois anos, mais acintoso ou mais assertivo. E a postura do primeiro-ministro até foi outra mais tranquila e dá a ideia até contou um bocadinho mais paternalista sobre o Bloco de Esquerda, que agora tem tamanho mais reduzido. E eu acho que o Bloco tenta manter aquele ADN combativo que tem, especialmente com a Mariana Mortágua, a Joana Mortágua e o José Soeiro, e também Catarina Martins.

Quase os deputados todos.

Quase todos. Mas não todos, mas quase todos. Tudo tem a sua importância. E o PCP vai procurando ali criar novos rostos que assumam a proa. Jerónimo de Sousa deu a cara na abertura. Paula Santos também já falou, Bruno Dias vai assumindo um bocadinho isso. Alma Rivera ontem, que é outro dos nomes da bancada mais curta, até assistiu à distância, portanto é se calhar a cara mais jovem, não marcou presença, o que também pode não dar aqui um grande sinal dessa renovação que o PCP quer passar e dessa nova vida que o partido quer para recuperar desta fase.

E nós falaremos do PSD, mas Inês, deixa-me passar para ti para servir outra sopa, sopa de gente grande, para falar sobre Iniciativa Liberal e Chega, e pegar nesta questão que o Miguel estava a levantar de alguma falta de combatividade à esquerda, se pode ou não ser aproveitada por Iniciativa Liberal e Chega para ressurgirem com mais força ainda.

Não só pode, como foi, porque aquilo que vimos no primeiro debate foi exatamente isso, foi uma Iniciativa Liberal e um Chega que acabaram por aproveitar tanto este vazio do PSD, como o facto das bancadas do PCP e do Bloco de Esquerda estarem bastante reduzidas. E, mais do que isso, não terem força, porque o que vimos ontem foi, mesmo quando os deputados tanto do Chega como da Iniciativa Liberal falavam, haver apoio, aquela coisa dos aplausos, do falar enquanto o deputado está a falar, do apoio, e do lado do PCP e do Bloco de Esquerda parece que o deputado fala e fica-se praticamente em silêncio. Também são muito menos, não é?

Estão traumatizados.

Deixa-me só pôr aí uma curiosidade que marca esta mudança, que é no painel dos tempos da Assembleia da República, que está disponível no plenário. Antes, os partidos que estavam na primeira coluna eram todos à esquerda, tirando PS e PSD, e agora inverteu. É uma mudança simbólica, que eu estava ali a reparar no primeiro dia.

E o número de minutos cresceu imenso quando tentávamos a falar, por exemplo-

Partidos como o PAN têm uma queda.

E Rita Tavares, não sei se concordas comigo, mas houve na forma como a António Costa se relacionou, quer com André Ventura, quer com João Cotrim Figueiredo, foi muito diferente. Ventura apareceu no seu estilo habitual, com os decibéis muito acima da média. António Costa basicamente chutou um bocadinho para lá, deu quase um tom mais pedagógico à resposta. Com Cotrim Figueiredo, como ouvimos, foi aquela história toda da Coca-Cola.

Que já é uma coisa que vem de trás.

Acho que António Costa tem uma estratégia, puxar mais pela Iniciativa Liberal e não dar tanto palco ao Chega.

A picardia dele com a Iniciativa Liberal não é uma coisa que nasceu ontem, é uma coisa que tem vindo desde que a Iniciativa Liberal tem representação neste Parlamento, portanto, desde 2019, que em todos os debates acaba por ser a parte mais viva até dos debates, esse frente a frente que foi havendo entre António Costa e na altura João Cotrim Figueiredo, agora com mais deputados do outro lado. Mas essa dinâmica tem existido, não sei se intencionalmente para dar mais gás a um do que ao outro partido que se senta à direita da Iniciativa Liberal, mas talvez isto note que haja um respeito se calhar maior, porque também não combates politicamente com quem não consideras democraticamente, que é o que o PS repete relativamente ao Chega. Ontem, com André Ventura, António Costa foi duro, logo na primeira intervenção disse-lhe que não, nesse debate documentário político entra com o doutor Marques Mendes, porque parece que está aqui a fazer um casting televisivo. E com a Iniciativa Liberal, há sempre ali um debate ideológico com mais conteúdo e mais interessante de ouvir e que André Ventura arruma sempre a um canto. Pode ter a ver com isso, mas eu diria que se calhar é mais natural nessa perspectiva da consideração democrática e na relação que os partidos vão estabelecendo. E até o primeiro sinal disso foi Que nós até na semana passada escrevemos sobre a não eleição do vice-presidente da Iniciativa Liberal para a Assembleia da República, com o PS a demonstrar e até a falar publicamente sobre a frustração que sentiu em não ver um vice-presidente da Iniciativa Liberal eleito.

Inês, esta sopa era sopa de gente grande, mas também vimos pela primeira vez mais do que uma voz, quer na IL, quer no Chega, a entrarem no debate. Os sinais que transmitiram mostram que os partidos estão amadurecidos ou que ainda há muita sopa para comer?

Mostram que há muita sopa para comer, mas notar aqui que a forma como eles vieram ontem para o Hemiciclo para este primeiro debate do programa de governo foi muito diferente. Ontem escrevíamos isso. André Ventura conseguiu colocar quatro deputados a falar e hoje já falaram mais dois, salvo erro, pelo menos até o momento do início do programa, mas falaram em momentos muito específicos para temas muito específicos e também questões locais. Ontem, por exemplo, falava um deputado por causa do Algarve, outro por causa da agricultura, questões muito específicas. Para André Ventura, ficou praticamente todo o protagonismo, que já acontecia enquanto era deputado único, e que esta continua a ser a grande questão do que vai acontecer no Parlamento, na bancada parlamentar do Chega, com tantos deputados. Este protagonismo, de facto, aconteceu, foi André Ventura que questionou António Costa e depois foi André Ventura que foi fazer a intervenção no púlpito. O mesmo não aconteceu com a Iniciativa Liberal. João Cotrim Figueiredo, de facto, também fez a intervenção para questionar António Costa, mas foi o deputado de Braga, por exemplo, Rui Rocha, que já usou da palavra para fazer essa tal intervenção ideológica, aqui um bocadinho diferente.

Uma última sopa para ti, Miguel. Uma sopa fora de prazo, não é nada pessoal, mas é para falares de Rui Rio.

Até porque ainda sou bastante jovem.

E daquela intervenção que ficou certamente para a história dos debates de programas de governo.

Portanto, o senhor está a falar da dia abertura.

Dia de abertura, sim. Recordas perfeitamente os temas que Rui Rio levou para o debate.

Eu a imagem que tenho mais presente é o Rio enfiado na cadeira com o ataque de António Costa à segunda volta do Círculo da Europa.

Para quem não assistiu ao momento, Rui Rio fez uma intervenção onde falou sobre a TAP, falou sobre o aumento de salário mínimo, falou sobre o preço dos combustíveis, num tom muito acintoso. António Costa sorriu e disse: "Se quiser uma segunda volta, estou pronto para isso."

Foi falar de política.

O Rio teve um eco de meses e ele foi falar de política. E realmente, como começámos este programa, foi uma pena os partidos, a começar por Rui Rio, não terem dado essa resposta em tom mais político, sobretudo ele que já não tem nada a perder.

Mas a minha pergunta é se esta fragilidade do PSD existirá sempre até final de maio, que é quando o novo líder suceder a Rui Rio, se não é um caminho aberto para António Costa fazer o que quiser, no fundo.

Sim, porque tem essa bazófia de ter ganho com maioria absoluta e, portanto, no limite, pode sempre partir para esta parte mais de teor político do que responder aos problemas em concreto, sendo que a seguir vai começar o debate sobre o Orçamento do Estado, que é uma fase longa também de trabalho parlamentar.

Com que legitimidade Rui Rio encarará esse debate.

Certo, mas por outro lado, também é a parte que ele gosta mais. Portanto, faz isso e depois vai à vida dele e trata da parte econômica e financeira e deixa o caminho aberto para que depois o próximo líder possa fazer esse combate mais diretamente.

Isabel Vaz, um comentário muito breve.

Podem ir fora de prazo.

Estamos a acabar a nossa primeira parte. O Miguel dizia, e bem, que na próxima fase vai ser discutido o Orçamento do Estado, sem parceiros à esquerda, sem uma oposição à direita digna desse nome. António Costa vai muito provavelmente apresentar o orçamento, finalmente, pelo menos o orçamento que quer apresentar.

Pelo menos já não tem desculpa para dizer que não é exatamente aquilo que quer e que não foi exatamente até onde queria nas várias áreas de governação. Sim, é o próximo capítulo de tudo isto que nós estávamos à espera que acontecesse há dois meses, este início de ciclo político. Agora convém perceber se a humildade democrática prometida e o diálogo parlamentar que também foi prometido Pela amostra destes dois dias, achas que isso vai acontecer? O arranque não foi brilhante desse ponto de vista, digamos assim. Agora vamos lá ver se passa à prática no Orçamento do Estado, que é exatamente onde isso tem de se verificar ou devia verificar-se, já que alguém o prometeu.

Rodrigo Saraiva, líder parlamentar da Iniciativa Liberal, bem-vindo.

Obrigado, Miguel.

E vamos diretos ao ponto. Já decidiram como é que vão votar a moção de rejeição ao programa de governo apresentado pelo Chega?

Já, já decidimos, sempre que aparece alguma coisa que é preciso votar, nós tomamos decisões e depois no momento da votação, votamos.

Não quer partilhá-la conosco.

Não, no momento, ficarão a saber.

Mas por que o tabu? Todos os partidos já manifestaram a posição, parece que há aqui um incômodo Iniciativa Liberal em anunciar.

Não há incômodo nenhum. Quem define os nossos timings e a nossa agenda política ou de calendário somos nós, não são os outros. E no momento da votação, votaremos como entendermos que votaremos. Ainda temos que perceber se é uma moção de rejeição ou se é uma moção de provocação.

Se for uma moção de provocação, o vosso sentido de voto será?

Aquele que votarmos na altura.

Mas o texto já foi conhecido.

Por acaso não, não conhecia ainda o texto. Estou a ser sincero.

Muito bem. Aguardaremos então, já não faltará muito tempo para conhecermos a posição da Iniciativa Liberal.

Mas Miguel, que não haja dúvidas de uma coisa, que eu acho que isso já é claro, não foi preciso o debate do programa de governo para isso, não foi preciso a campanha eleitoral que tivemos há dois meses. É todo um curso que a Iniciativa Liberal tem feito de oposição a este Partido Socialista, às políticas que tem implementado, ao governo dos últimos anos e, portanto, independentemente do que for aquele o nosso sentido de voto a essa moção de rejeição/provocação, há uma coisa que é clara: se há oposição ao Partido Socialista, tem sido feita pela Iniciativa Liberal.

Mas feito esse diagnóstico, por que a Iniciativa Liberal não apresentou ela própria uma moção de rejeição?

Porque estivemos há pouco tempo umas eleições. Estamos perante uma maioria absoluta. Penso que foi aquilo que surpreendeu todos no dia 30 de janeiro, inclusive o próprio Partido Socialista. E se nós estamos aqui para respeitar o voto de mais de 270 mil portugueses que votaram em nós, não podemos deixar de respeitar os votos de todos os portugueses que participaram nessas eleições.

Portanto, é a última vez que insisto, mas dizendo isso, admito ou parece-me que não vai alinhar com o Chega. Se diz que é importante respeitar a vontade dos portugueses que votaram no Partido Socialista, é natural que não queira que esse governo caia já.

Nós alinhamos sempre com políticas e propostas liberais. Nunca iremos alinhar com propostas e ideias socialistas e extremistas.

Muito bem, vamos avançar. O facto de o Chega ter sempre um comportamento mais barulhento que a Iniciativa Liberal não é um obstáculo para o partido? Não há aqui um risco de ficarem sempre na sombra de Ventura durante os próximos quatro anos?

Esse risco iria existir se nós entendêssemos que devíamos ter um estilo, um tom e uma forma semelhante a esse partido ou outros. Eu já disse isto várias vezes. Nós olhamos sempre para todos os outros partidos. Vemos o que eles andam a fazer, o que andam a propor, como é que se posicionam, todos eles, de uma ponta à outra. Isso nunca nos tira o nosso foco e o nosso caminho.

Mas a Iniciativa Liberal fará do Chega um adversário preferencial, tendo em conta esta ideia de que são os dois partidos que neste momento estão à direita do PSD?

Há um adversário preferencial, claramente, que é o Partido Socialista, que tem uma maioria absoluta e que está a governar. Esse é o adversário preferencial. Todos os outros partidos que estão na Assembleia da República são também adversários.

Houve aqui um psicodrama em torno do chumbo de João Cotrim Figueiredo como vice-presidente da Assembleia da República. A Iniciativa Liberal queixou-se muito de ter sido vítima do boicote do PSD, mas antes o próprio presidente do partido tinha desvalorizado o cargo, fê-lo até depois de ser chumbado. Afinal, o cargo da vice-presidência da Assembleia da República era ou não era importante para a Iniciativa Liberal?

Não. E vamos separar aqui um pouco os temas. A questão da vice-presidência é um exemplo, entre muitos outros, como aqueles que vamos assistir ao longo dos próximos plenários onde forem feitas votações para inúmeros organismos, onde a Assembleia da República tem que eleger os seus representantes, distribuição de presidências de comissões. Ou seja, há muita coisa que serve de exemplo, que há dois partidos. Nós não nos queixamos apenas de um boicote do PSD nesse episódio da vice-presidência. Há dois partidos que parece que construíram uma casa chamada democracia ou Parlamento ou Assembleia da República, e a seguir mandaram fora a chave. E desde que construíram essa casa, muito tem mudado naquilo que são os resultados das eleições e, por consequência, aquilo que é a representatividade no Parlamento. E esses dois grandes partidos parece que têm alguma dificuldade em adaptar as regras da casa ao longo dos tempos. Para quê? Para que as regras da casa acompanhem aquilo que é a vontade dos portugueses.

Mas quando João Cotrim Figueiredo falou de vingança e de joguinhos por parte do PSD, nós estamos a falar de uma questão geral do PS e do PSD terem todos os cargos da Assembleia da República.

Eu fiz primeiro o contexto, que esse episódio é um, entre outras coisas. Especificamente esse episódio, essas declarações do João Cotrim Figueiredo, são também em reação a uma notícia que foi publicada no Observador, onde de repente tivemos uma espécie de um striptease do próprio grupo parlamentar do PSD sobre as suas reuniões e as suas conversas sobre esse episódio e sobre essa votação, onde usavam expressões como giboiar e coisas assim. No momento da votação percebemos que houve o bloco central, portanto, o PS e o PSD, isto é aritmética pura, não é? Portanto, o PS e o PSD não quiseram que João Cotrim Figueiredo tinha sido vice-presidente e perante essa notícia do Observador, percebemos que, particularmente no PSD, havia ali um incômodo com a Iniciativa Liberal.

Acha que esse é um primeiro sinal de como vai ser daqui para a frente a relação entre a Iniciativa Liberal e o PSD?

Eu acho que essa pergunta tem que ser feita ao PSD. Da nossa parte, não há e na campanha sempre dissemos aquilo.

Também tentaram competir com o PSD por causa dos lugares da bancada parlamentar, coisa que, aliás, caiu muito mal na bancada social-democrata.

A nossa competição não é competição com o PSD. Nós fizemos um pedido e de repente fomos surpreendidos com o presidente do principal partido da oposição, neste caso o PSD, de repente sair de uma conferência de líderes e dar uma conferência de imprensa para falar sobre um pedido que um partido mais pequeno tinha feito. Portanto, quem tem valorizado muito... Aliás, eu fiz até um tweet sobre isso a dizer que o PSD tem perdido demasiado tempo a pensar e preocupado com a Iniciativa Liberal. Os partidos da oposição têm que dar prioridade a pensar e olhar para aquilo que é o adversário principal de todos nós, penso eu, que é o Partido Socialista. Esse é o nosso foco, é isso que nós estamos a fazer. Porque depois, obviamente, há partidos-

Mas repare, o PSD agora está aqui numa época de pousio, até ao fim de maio, algures até ao fim de maio, vai estar praticamente fechado para obras. A Iniciativa Liberal tem o objetivo de tentar ocupar esse vazio, agora neste intervalo, tentando já ganhar terreno

Como eu acabei de dizer há pouco, nós olhamos sempre pra todos os outros partidos, pra aquilo que andam a fazer, o que é que se está a passar. Isso não nos tira o nosso foco e os nossos objetivos.

Não está a responder à pergunta. Vão aproveitar este vazio do PSD para-

A pergunta eu acho que parte sempre de um estereótipo, vamos dizer assim, de que parece que a Iniciativa Liberal só cresce à custa do PSD. Eu acho que os resultados eleitorais, os estudos até já feitos, pós-eleições, demonstram que o crescimento da Iniciativa Liberal não é apenas feito à custa de eleitorado que tem votado PSD.

Mas também é feito à custa desse eleitorado.

Também desse e de outros. Nós temos um eleitorado para conquistar. Ele tem tido um comportamento ao longo das eleições, lá está, e depois há aqueles eleitores novos que entram, onde também penso que os dados demonstram isso, nós estamos muito bem junto desse eleitorado. Todos os outros têm votado em diversos partidos, é um bolo que se parte em algumas fatias, se calhar, a fatia maior pode ser a do PSD, é natural que assim seja, há mais alguma afinidade, mas não é o único. Nós não crescemos apenas à conta do PSD. Mais uma vez eu digo, o nosso foco está na oposição ao PS e iremos certamente crescer perante aquelas pessoas que reconhecerem que nós somos aqueles que melhor faz oposição ao Partido Socialista.

E nessa ocupação de espaço, o PSD está num período pousio e depois terá um novo líder, que até ver será, ao que tudo indica, entre Luís Montenegro e Jorge Moreira da Silva, que são marcadamente mais liberais do que o Rui Rio. Isso não fará a Iniciativa Liberal perder essa margem de crescimento e essa utilidade?

Não. Eu acho que o aparecimento da Iniciativa Liberal demonstra uma coisa, e isto serve não apenas pro PSD, mas pra outros partidos que também gostam sempre de dizer que agregam imensas nuances e posicionamentos, nomeadamente liberais. O aparecimento da Iniciativa Liberal demonstra uma coisa, que os liberais cansaram-se de ser bibelôs em outros partidos.

Portanto, já estão conquistados pela Iniciativa Liberal, independentemente do líder de outros partidos à direita, não fugirão.

Nós já conquistamos pessoas que se sabiam liberais, conquistamos pessoas que se foram encontrando como liberais, aliás, aquela frase que nós também usamos muito, "Tu és liberal e não sabias". E acho que com o passar do tempo, iremos conquistando mais pessoas.

Nas intervenções destes dois dias de debates, ficou evidente que a IL quer aproveitar este crescimento da bancada parlamentar para falar em mais temas, para ser mais abrangente, pelo menos aproveitar o tempo dessa forma. É o reconhecimento de que ser só o partido da redução de impostos não basta, não chega?

Nós nunca nos consideramos como apenas o partido da baixa de impostos ou o partido da liberdade econômica. Sabemos que é aquilo que é mais reconhecido, também porque é aquilo que é a maior necessidade que nós reconhecemos que o país tem. Nós sempre nos posicionamos em três liberdades: liberdade política, liberdade social e liberdade econômica. E também sempre dissemos que destas liberdades, aquela que estava mais atacada em Portugal era a liberdade econômica e era com naturalidade que nós nos focávamos mais nessa liberdade. Em adição, quando entramos no Parlamento, entramos com um deputado e penso que é reconhecido por todos que era humanamente possível. O João quase que conseguiu ser onipresente em muitas coisas, mas não dava obviamente pra ir a tudo. Com oito, sim, já assumimos isso, inclusive até também numa peça que saiu no Observador, isso estava bem afirmado, que com oito deputados isso vai nos permitir ir a mais temas e estando presente em mais comissões, quando a imprensa estiver a noticiar alguma coisa que se passa na Comissão de Agricultura, na Comissão de Ambiente e em outras, é natural que depois também refiram uma posição, uma prestação, uma iniciativa que a Iniciativa Liberal teve nisso. E depois, por consequência, os portugueses irão reconhecer que a Iniciativa Liberal está a falar sobre mais temas. Mas eu acho que é um processo perfeitamente natural daquilo que é o crescimento que tivemos.

Ainda sobre o debate, António Costa comparou ontem a Iniciativa Liberal a uma Coca-Cola de marca branca, se podemos assim dizer. Quis como dizer que o rótulo é parecido, mas o sabor não é o mesmo. Querer ser esse tal partido catchall e menos partido de nicho, não fará a Iniciativa Liberal perder o gás?

Eu nunca disse que nós queríamos ser um partido catchall.

Certo.

Aliás, esse talvez tenha sido o problema de outros partidos que têm estado em decrescimento.

Mas querem ser mais catchall do que foram inicialmente.

Não, nós não queremos ser catchall, nós queremos ser aquilo que somos, um partido liberal, e queremos é que cada vez mais portugueses reconheçam nas ideias liberais aquilo que é a melhor solução e a alternativa pro país.

Mas, por exemplo, com o PAN sucedeu algo muito parecido. Tinha uma agenda muito animalista que quando quis ser mais do que animalista, as pessoas deixaram de se rever no PAN. Isso pode acontecer com a Iniciativa Liberal?

Não, porque nós nunca vamos perder o nosso foco e as nossas prioridades. Estarmos em mais comissões, trabalharmos sobre mais temas, não quer dizer que vamos dar mais prioridade a esses outros temas do que àqueles que temos dado até agora. As prioridades, sobretudo a questão da liberdade econômica, porque é aquela que nós achamos que mais é atacada em Portugal, que mais está em causa em Portugal, continuará a ser a nossa bandeira, o nosso foco e as ideias liberais. Isso nós não vamos ser um catchall, vamos sempre ser um partido liberal e sempre fazer um trabalho pra que cada vez mais portugueses reconheçam nas ideias e propostas liberais a solução pra o país.

E no CDS e no seu novo líder, Nuno Melo, vê aí um adversário direto da Iniciativa Liberal? Ele disse este fim de semana que quer voltar a atrair os liberais pra casa mãe.

Eu penso que já respondi isso. Talvez eu fui também acompanhando O fim de semana, parece-me que o Dr. Nuno Melo também está com um problema parecido com o PSD, passa demasiado tempo a pensar na Iniciativa Liberal, ao invés de pensar no principal adversário de todos nós, que é o Partido Socialista. Tal como eu disse, neste momento, com um partido assumidamente liberal e com as propostas que têm apresentado coerentemente e com consistência liberal, penso que os liberais irão sempre reconhecer que é na Iniciativa Liberal que está a segurança e a garantia do seu voto.

Já não fogem para o CDS? Já não regressam ao CDS?

Quem for verdadeiramente liberal, penso que não. Outras pessoas que possam ter votado conjunturalmente na Iniciativa Liberal, podem votar para o CDS, para o PSD, para outros partidos. É perfeitamente natural. Não há nenhum partido que seja dono do voto dos portugueses. Os partidos têm que todos os dias trabalhar para garantir que mantêm a confiança daqueles que conquistaram e tentar conquistar mais.

Mas este desaparecimento do CDS é uma oportunidade de mercado para a Iniciativa Liberal, ou não?

Volto a dizer o que disse. Nós olhamos sempre para os outros partidos, isso não nos tira o nosso foco. Mas é normal que aquilo que acontece nos outros partidos, de forma positiva ou de forma negativa, influencie todos os outros partidos, nomeadamente aqueles que possam ter mais afinidade ou proximidade política e nas propostas. É perfeitamente normal.

Falemos então sobre a Iniciativa Liberal. Há quem aposte que o aumento do número de egos no partido vai começar a provocar as primeiras fricções, as verdadeiras fricções. Pode acontecer à Iniciativa Liberal o que aconteceu ao CDS?

Não sei o que aconteceu ao CDS, não estou a perceber.

O CDS transformou-se num saco de gatos e entretanto desapareceu.

Eu ficarei é surpreendido se pessoas ficarem surpreendidas que havendo dois liberais numa sala, haja logo uma discussão. É normal, isso é perfeitamente normal. Não acho que isso ponha qualquer risco ao caminho da Iniciativa Liberal e à solidez do projeto comum, que neste caso oito vozes estão aqui a representar. Não estão oito egos, estão oito vozes.

Mas disse há pouco que João Cotrim Figueiredo foi quase omnipresente na última legislatura.

Dentro daquilo que lhe era possível fazer. Aliás, não faltou a nenhum plenário, por exemplo, foi omnipresente nos plenários.

O partido está preparado para a vida pós-Cotrim Figueiredo?

Estamos a preparar. Pós-João Cotrim Figueiredo? Não.

Presumo que não seja eterno, não seja um líder eterno.

Sim, mas isso ainda está longe. Ainda temos muito para trabalhar até lá com o João. Não sei quando é que isso vai acontecer, mas não estou a ver que seja tão cedo a saída dele. Não vai haver um pós-João Cotrim Figueiredo tão cedo.

Muito bem.

É o que eu acredito.

Muito bem, vamos avançar para o segundo segmento da nossa entrevista, Carne ou Peixe. Presumo que o Rodrigo tenha sido brifado, só pode escolher uma de duas opções. Solta a trilha. Preferia que o Belenenses estivesse na Primeira Liga ou que a Iniciativa Liberal conseguisse um lugar no governo daqui a quatro anos?

Carne ou Peixe, eu também costumo comer vegetariano e isto significa que eu nunca vejo o mundo a preto e branco. Essa pergunta é muito difícil. Não me vou refugiar numa neutralidade. Vou dar prioridade àquilo que está mais presente na minha vida há mais tempo, que é o Belenenses.

Escolhia o Belenenses e não a Iniciativa Liberal no governo, é isso?

Sabe por quê? Porque a Iniciativa Liberal, se estivesse no governo, até seriam três pessoas, posso não ser eu, mas na bancada a apoiar o Belenenses, eu tenho que lá estar.

Não vamos sair do estádio só para perguntar: quem é que preferia levar a um jogo do Belenenses, António Costa ou Catarina Martins?

Primeiro, nenhum deles é do Belenenses, portanto não teria que ir para a bancada dos sócios, tinha que ir para outra, mas talvez aquele que quisesse ir.

Esta é que é a diferença?

Não sei qual deles é que gosta mais de futebol. A resposta é, dos dois, aquele que gostar mais de ver um jogo de futebol.

Avançamos para a próxima. É um amante de comida, se fosse dono de um restaurante, a quem é que preferia confiar a caixa registadora? André Ventura ou Rui Rio?

Penso que aí Rui Rio. Toda a gente lhe reconhece que quando toca à contabilidade, ele é mais certinho.

E para terminar, Rodrigo Saraiva, quem é que levava para um interrail pela Europa, Pedro Nuno Santos ou Mariana Mortágua? Há um que é mais especialista em comboios.

Pois, a Mariana seria um interrail mais de mota, o Pedro Nuno seria mais de aviões e comboios. Eu não gosto muito de andar de mota. Entre comboios e aviões, uma pessoa sempre tem escolha, portanto, talvez o Pedro Nuno, porque dava mais hipótese de escolha nos meios de comunicação.

Muito bem. Rodrigo Saraiva, como é hábito no nosso programa, tem agora a oportunidade de nos servir uma sobremesa, uma música à sua escolha. Que música é que nos trouxe e por quê?

É uma música do Tiago Tampur que já tem uns anos e que diz muito daquilo que é, há uns anos, aquilo que é a geração onde eu me insiro, que dizia: "Eu não tenho que pagar por aquilo que eu não fiz." E o que é curioso é que se passarmos essa música para as gerações que têm vindo a seguir, todos eles podem, infelizmente, dizer o mesmo. Portanto, há muito para mudar em Portugal e as novas gerações não têm culpa daquilo que aconteceu, mas estão a levar com as consequências de más decisões de muitos desgovernos ao longo dos últimos 20, 25 anos.

Rodrigo Saraiva, muito obrigado por ter estado connosco.

Obrigado pelo convite.

O "Vício e Suas" volta à sexta-feira, à mesma hora.

Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz. Não me fazem ver que a luta é pelo meu país. Eu não quero pagar depois de tudo que dei. Não me fazem ver que fui eu que errei. Não fui eu que gastei mais do que era para mim Não fui eu que tirei, não fui eu que comi, não fui eu que comprei, não fui eu que escondi. Quando estavam a olhar, não fui eu que fugi. Não é essa a razão para me quererem moldar. Porque eu não me escolhi para a fila do pão. Este barco afundou, houve alguém que o cegou. Não fui eu que não vi. Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz. Não me fazem ver que a luta é pelo meu país. Eu não quero pagar depois de tudo o que dei. Não me fazem ver que fui eu que errei. Talvez do que não sei, talvez do que não vi, foi de mão para mão, mas não passou por mim. E perdeu-se a razão, tudo de bom se feriu. Foi mesquinha a canção desse amor a fingir. Não me falem do fim, se o caminho é mentir. Se quiseram entrar, não souberam sair. Não fui eu quem falhou, não fui eu quem cegou. Já não sabem sair. Eu não quero pagar por aquilo que eu não fiz. Não me fazem ver que a luta é pelo meu país. Eu não quero pagar depois de tudo o que dei. Não me fazem ver que fui eu que errei. Meu som é de armas e mar. Minha força é navegar. Meu norte é encontrar luz. Meu fado é vento que leva e conduz. E conduz. E conduz.