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Olá, bem-vindos à Vixi Suave. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado uma das vozes mais românticas da telefonia portuguesa, o Miguel Viterbo Dias, e as não menos apaixonantes jornalistas Rita Tavares e Inês André Figueiredo. Por falar em amor, antes de começarmos esta nossa edição, impõe-se um aviso aos nossos ouvintes. Lembram-se de tudo que dissemos na semana passada sobre o amuo de António Costa e a tensão com Marcelo Rebelo de Sousa? Esqueçam. Afinal, está tudo bem, está tudo na paz do Senhor, amigos para sempre. No 59° episódio da guerra entre palácios, o país continua a comer pipocas enquanto assiste aos humores institucionais.
É haver um ou outro momento de maior picardia política, mas não passemos da picardia política, isso é muito saudável.
É um verdadeiro termômetro, porque tem representantes de várias correntes de opinião, um termômetro do sentir da sociedade portuguesa.
Acho eu que depois de 50 anos de vida democrática, temos que nos habituar que há uma pluralidade de opiniões e que há protestos.
O Partido Socialista vai ser confrontado com o seu teste final de algodão. Eu creio que esta moção não serve pra nada, mas nós, PSD, não somos o partido das moções, nós somos o partido das soluções.
Lá fui eu parar à política.
No intervalo das guerras de alecrim e manjerona, António Costa vai prometendo passes, mesadas e umas férias nas pousadas da juventude. Só vai faltando mesmo paz, pão, habitação, saúde e educação. Sobre isso, um anúncio aqui, outro anúncio ali, talvez pra semana se saiba exatamente o que pretende fazer o governo. Seria de esperar que à direita as coisas corressem um bocadinho melhor, mas continuam PSD, Chega e Iniciativa Liberal a medir moções de censura. E como os vazios se ocupam, lá vão aparecendo os mitos do passado. Ora Pedro Passos Coelho, ora desta vez, e mais uma vez, Aníbal Cavaco Silva. Para discutir tudo isso e muito mais, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Para mais um clássico, Rita Tavares, começo por ti para te servir uma sopa suspensa. Nós recusamos nos abordar novamente a guerra entre Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, sob pena de ficarmos desatualizados daqui a meia hora. Portanto, vamos falar sobre politics. No caso, as medidas que o governo ou que Fernando Medina ou que António Costa, um a vez, vão anunciando ou pré-anunciando para o crédito à habitação e para o apoio às rendas. O que esperar da próxima semana, Rita Tavares?
Da próxima semana esperamos o Conselho Ministro que vai aprovar tudo isso. Tal como o Ministro das Finanças também já tinha antecipado numa entrevista que deu ao público em julho, parece que vão mesmo existir medidas para a habitação. As pessoas ou estão em casas arrendadas ou estão em casas compradas, portanto, todas elas estão preocupadas nesta altura com as notícias. Tanto o INEC veio esta semana mostrar que o aumento pra próximo ano é galopante novo do valor das rendas e o governo nesse mesmo dia, António Costa fez umas declarações a mostrar que havia uma ponderação que estava a ser feita do governo sobre alargar o travão às rendas, a um aumento nunca acima dos 2%, também para o próximo ano, que essa avaliação está a ser feita. E ficamos também a saber em julho que havia medidas para a habitação, para o crédito à habitação, pra quem comprou casa e está a sofrer com o aumento brutal das taxas de juro. E parece que pra semana vêm então essas medidas que Fernando Medina tinha falado. Se são suficientes ou não.
Antes de ir a se são suficientes ou não, eu até acrescento outra pergunta e podes responder às duas. Se não vêm demasiado tarde, a sensação que dá é que o governo está a reagir demasiado tarde.
Era isso que eu ia dizer. Há aqui uma reação àquilo que se está a passar na sociedade. Ou seja, há um ano as pessoas já estavam preocupadas com os juros na habitação e já havia muitos problemas em algumas famílias porque iam enfrentar mais mês, menos mês, nas suas prestações, esse brutal aumento de juros e as medidas do governo foram aparecendo quase com caráter experimentalista. Por exemplo, a questão da bonificação não foi suficiente, vai ter que ser agora reforçada, mas vem muitos meses depois, seis meses, salvo erro, depois da primeira leva de medidas. Agora vem uma nova leva de medidas. Há pessoas com créditos todos os meses a serem recalculados e a sofrerem esta pressão gigante. O BCE ainda ontem fez o último aumento das taxas de juro. Enfim, fica aqui a sensação, de fato, de que há uma corrida atrás do prejuízo e o prejuízo das pessoas-
E cria uma enorme instabilidade nas próprias famílias.
E ao mesmo tempo, há uma sensação também, e este orçamento do Estado que vem aí, que está a ser preparado, daqui a um mês já o conhecemos, tem uma pressão adicional que é famílias com problemas muito urgentes e muito graves e há uma questão de folga orçamental e de O défice e a dívida é uma questão importante que o governo tem feito questão de dizer que é pra manter essa contenção, porque há dias que podem vir piores e a incerteza é gigante, o crescimento da economia na Europa não está firme, a Alemanha está como está e portanto, que é preciso acautelar e haver uma almofada financeira pra acudir a novas crises. Mas, mais do que uma almofada financeira pra acudir a crises futuras, a questão neste momento é se essa almofada financeira vai, neste orçamento, acudir a problemas que já estão a existir, que estão na habitação, verdade, e que tem havido algumas medidas com caráter algo experimentalista, diria, porque experimenta-se uma coisa, vê se funciona e depois vem se reforçar uns meses depois, se calhar muitos mais meses depois do que seria necessário pras pessoas. E acho que fica toda a gente com uma sensação de estar a ser usada um bocadinho como rato de laboratório nessa situação.
Se pros jovens oferece uma semana numa Pousada da Juventude, pra quem tem crédito da habitação pode oferecer as Pousadas de Portugal.
E depois foi isso, na semana passada aqui estivemos a falar das medidas pros jovens e em como havia medidas como essa de que falaste, que eram medidas que deixavam algo a desejar, que nós pensamos: "Estávamos à espera de um orçamento do Estado que pudesse trazer um bocadinho mais de distribuição e afinal, o que o governo está a dar pros jovens é apenas isto, então o que é que será pras famílias quando chegar ao IRS? E agora pra habitação, também há de ser poucochinho? Não sabemos, vamos ver.
Muito bem. Miguel Viterbo Dias, vou te servir, e devíamos tocar uma sineta, uma vichyssoise para falar sobre mais um regresso de Cavaco Silva, mais um ajuste de contas com António Costa. Tu, apesar de romântico, ou talvez por isso, dependendo da perspectiva, és um conservador. O que te parece destes recados, destas lições de Cavaco Silva?
Olha, Miguel, ainda bem que me coloca essa questão.
E se me permites, sabes que eu faço sempre duas questões.
Eu tento sempre me limitar a que tu vás muito ao específico.
São questões complexas, que é que leitura te merece estes recados de Cavaco Silva e que impacto terá isto no Partido Socialista? Soubemos há instantes que Ana Catarina Mendes, muito provavelmente às 21h vai reagir a este livro de Cavaco Silva, portanto, vai agitar um bocadinho as águas também no Largo do Rato.
É verdade. Permita-me fazer uma intervenção em três partes. Parte número um, eu fico sempre satisfeito, é um comentário que eu aliás faço bastantes vezes quando estou a fazer o turno de rádio, é que o país tem uma falta de senadores gritante e que os senadores que temos, ainda por cima não gostam de falar porque alegam essa arte de senador pra não reagirem aos assuntos do dia a dia.
O que é uma pena pra prática da mobilidade, não é?
É uma pena, sim, exatamente, pra prática da mobilidade. Quer dizer, se não forem os senadores a falar, quem é que vai falar?
Nós não nos pomos a pau e ainda somos senadores daqui a dois ou três anos, somos senadores.
Tu vais chegar primeiro. Portanto, acho sempre bom que um senador venha falar e que goste de o fazer. E Cavaco Silva, graças a Deus, tem-no feito muito nos últimos meses.
De seis em seis meses, não é?
Exatamente. Isso é sempre de louvar.
É um artigo de opinião.
Seja Cavaco Silva, seja quem for, qualquer outro senador de outra área política, apareça. Bem-vindo à luta pelos senadores. Isso é sempre bom. Quanto a Cavaco Silva, e a mais este aparecimento, que foi um bocadinho surpreendente, acho eu, face ao restante. Ou se ele tem aparecido nalguns momentos, aqui aparece meio de surpresa, numa altura em que já é mais ou menos praticamente assente que António Costa vai superar o tempo de Cavaco Silva como primeiro-ministro. Inicialmente, ainda se pensou que o governo podia cair ou existiu essa expressão na direita e portanto, isso podia não ser atingido. Agora já foi, portanto, a luta é mais ao nível dos legados que cada um vai deixar. E depois, quanto às reações na esquerda, eu lembro-me sempre de uma resposta do Carlos César, até acho que estavas lá, Rita, também numa comissão nacional do PS, ali naquele hotel na Expo. O Carlos César disse que preferia outra literatura a Cavaco Silva, mas quer dizer, entre o PS há sempre reações que geram maior interesse que outras.
Essa tensão Carlos César-Cavaco Silva é ótima.
Lá está, porque eram dois senadores a conversa um com o outro. É por isso que aquilo também tem mais graça.
Fundada ali no Estatuto Político-Administrativo dos Açores.
Exato. Pronto, agora quer dizer, claro que aquilo vai gerar ondas de reação no Partido Socialista e em todos os lados. Mas o PS também já está habituado a desvalorizar ou até a gozar, acho que se pode usar essa palavra, com as intervenções de Cavaco Silva. E depois, a curiosidade maior é aquilo que acontece ao PSD, porque há essa questão de Cavaco poder ou não estar a fazer sombra a Luís Montenegro. Confesso que não sei se ele vai estar presente na apresentação. Sei que Miranda Sarmento vai estar, o líder parlamentar, mas também tem uma ligação mais pessoal com Cavaco Silva, foi assessor dele, e portanto, não propriamente pela função institucional de líder parlamentar, mas dentro do PSD há também essa curiosidade que é até que ponto é que Cavaco Silva está a intervir demais ou não, face àquilo que é uma liderança que se quer afirmar, que é de Luís Montenegro.
A questão não é intervir demais ou não, é que quando intervém, faz mossa e talvez Luís Montenegro não consiga. Naturalmente, ninguém esperaria.
Porque ainda não é senador.
E não tem o legado que Cavaco Silva tem, mas não consegue, mesmo enquanto líder da oposição, marcar os pontos que Cavaco Silva, apesar de tudo, ainda consegue marcar.
O Luís Montenegro ontem vem com a proposta do acordo há 15 anos, que é uma coisa diferente, e passou em claro face a uma coisa do dia a dia como as taxas de juro do BCE, que têm muito mais impacto nas famílias, mas quer dizer, nem com esse timing há sorte ou planeamento por parte de Montenegro.
Exato. E também para falar disso, vou te servir, Inês, uma sopa repetida para falarmos da moção de censura, mais uma, do Chega e de André Ventura, e desta, acho que já utilizamos guerra para tudo, mas vamos utilizar a mesma, à falta de melhor palavra, entre PSD, Chega e Iniciativa Liberal. Os partidos à direita ainda não perceberam bem o filme
Desde que este governo tomou posse, é a terceira moção de censura, é a segunda do Chega e houve uma da Iniciativa Liberal. Partindo de um princípio óbvio de que todas têm o mesmo destino anunciado e que serão obviamente chumbadas no Parlamento, apesar de André Ventura ter tentado brincar com o caso e chamar alguns deputados do PS a votarem a favor da sua moção de censura, o que obviamente não vai acontecer, nem o próprio PSD. Mas há duas razões que, a meu ver, podem ter sido usadas por André Ventura para voltar a apresentar esta moção. Primeiro, digamos que é um modus operandi do Chega usar este tipo de ocasiões. É uma postura que agrada ao eleitorado do partido, dar nas vistas.
Mas agrada?
Ao eleitorado eu creio que sim. O Chega queixa-se muitas vezes de que não tem o protagonismo que deveria ter como terceiro maior partido português no Parlamento, nomeadamente na comunicação social, e isto acaba por dar umas horas de protagonismo extra.
E congressos repetidos.
Essa parte não sei se lhes agrada tanto.
Nesse aspeto, o Chega tem de fato preenchido muitas horas de televisão.
E aliás, ainda nos últimos dados da Marktest que saíam, André Ventura era, creio, o terceiro político português que aparecia mais. Mas dentro do Chega há muito a ideia de que só aparece quando é para ser mal falado. Mais relevante do que isso, o segundo ponto será obviamente o lado político, a leitura política que isto tem, que ao contrário do que André Ventura disse, terá como objetivo encostar o PSD um pouco à parede. Se bem nos recordamos, André Ventura-
Mas não é como aquele truque de magia que as pessoas já perceberam qual é o segredo e repetido não tem graça nenhuma. Já toda a gente percebeu que é essa a intenção de André Ventura. Repetir o truque de magia talvez não seja muito avisado.
Certo, concordo com isso, mas é o modus operandi que André Ventura tem e, neste momento, é a única coisa com que tem jogado no cenário político nacional.
À falta de propostas de fato relevantes para o país?
Exatamente.
Era uma pergunta, não era uma afirmação.
Depois há essa diferença. O Chega tem apresentado muitas propostas e no último ano até foi um dos partidos que apresentou mais propostas, mas a relevância do partido é zero quando nenhuma destas propostas é aprovada e é isso que tem acontecido.
Repara, o PSD apresentou um início de reforma fiscal que conseguiu tempo de antena, espaço mediático, espaço político. O Chega não consegue. Por quê?
O Chega não consegue fazer isso. Nós discutimos no arranque do ano que o PSD tinha apresentado essa tal reforma fiscal, que a IL estava a puxar os cordões, a dizer que essa reforma também era um pouco sua, e o Chega acaba por não se conseguir meter nesta discussão. O tema que traz para cima da mesa é tentar imitar.
É o cordel sanitário.
Exatamente.
O cordão é o cordel sanitário.
É tentar imitar a questão das taxas às bancas, copiar aquilo que aconteceu em Itália. Mas não deixa de ser uma tentativa de marcar posição, de tentar até unir a direita, porque André Ventura foi isso que disse. Já sabemos qual é a posição do PSD nesta moção, vai abster-se. A IL vai votar a favor, mas a ideia era tentar encontrar aqui, mais uma vez, uma união à direita, que André Ventura está à mesa procurar. Há pouco fizeste-me uma pergunta quando eu estava só a concluir este raciocínio, só para concluir, esta moção acontece porque André Ventura sugeriu a Luís Montenegro que apresentasse uma moção de censura na altura da comissão de inquérito à TAP, quando se soube que Hugo Mendes tinha mandado aquele e-mail sobre o voo de Marcelo, e Luís Montenegro negou. E o Chega disse: "Se vocês não fizerem, nós vamos fazer no início do ano", porque as fichas já tinham sido gastadas no passado. Portanto, isto foi uma resposta ao PSD: "Vocês não fizeram, nós também não vamos deixar de fazer."
Mas dá a ideia que André Ventura tem aqui uma preza, dificuldade em colocar propostas, um plano, um conjunto de propostas em cima da mesa que possa ser discutido, mas eu acho que esse é um estilo também, é mais vociferar do que propriamente apresentar iniciativas no Parlamento. O estilo é outro e daí esta moção de censura. Mas quando ele faz esse desafio à direita de unir-se, que a Inês estava aqui a falar, eu acho que os debates também têm mostrado, e estes no Parlamento, sobretudo com o primeiro-ministro, que a intenção de André Ventura ao fazer isso não é de uma real união à direita, porque o que ele acaba sempre por concluir nos debates é que a única direita que serve é a dele.
Ele já disse que quer passar o PSD. Esse foi o objetivo.
E acho que o debate vai acabar nisto mesmo, que é André Ventura a dizer: "Este PSD não serve, como veem, não tem nada."
Ele ontem chamou no Twitter de covardes ao PSD, de quem quer um acordo.
Parece-me que há uma tentativa com isso de alimentar a máquina, mas, na verdade, o que André Ventura quer mesmo é ultrapassar o PSD.
Eu acho que será uma estratégia a curto prazo, aproximar-se da Iniciativa Liberal e do Chega para tentar aqui uma união contra o PS, que não servirá na mesma, porque há uma maioria absoluta, mas no futuro, obviamente que o que André Ventura quer é superar o PSD e já o disse com todas as palavras.
Sim, no curto prazo. Quer dizer isto que vai dizer de certeza no debate da moção de censura, que é: a direita que conta é a do Chega. É isto que ele vai repetir, quase de certeza. Queres apostar, Inês? Vamos apostar.
Eu aposto no mesmo, por isso é difícil apostarmos.
Veremos se a estratégia vai ou não produzir bons resultados. A nossa primeira parte fica por aqui. Voltamos em breve com entrevista a Luís Filipe Menezes. Olá, bem-vindos à segunda parte da "Vici e Suave". Temos conosco Luís Filipe Menezes, que dispensa apresentações. Bem-vindo. Estamos com dificuldades em ouvir Luís Filipe Menezes. Agora sim, bem-vindo.
Já estão a ouvir bem?
Muito bem. Vamos a isso?
Vamos a isso.
O país político despertou com o anúncio da pré-candidatura presidencial Luís Marques Mendes. Acredita que será um bom presidente da República?
Eu acho que é muito cedo para falar de eleições presidenciais, mas é perfeitamente legítimo que quem tenha a intenção de eventualmente se perfilar como candidato utilize os momentos que taticamente, na sua perspectiva, são os mais adequados para marcar terreno. Agora, julgo que é algo que ainda é bastante distante. Ainda temos eleições europeias de caminho, ainda temos eleições autárquicas. Aliás, as eleições também presidenciais, fruto do calendário um pouco bizarro que temos nesta legislatura, serão elas próprias relativamente condicionadoras do debate das eleições legislativas subsequentes, que são muito próximas, e que eu penso que isso irá condicionar muito as opções dos partidos.
Compreendo, mas eu estava a pedir-lhe uma avaliação do candidato Luís Marques Mendes. Conhece-o muito bem. Travou duas guerras bastante interessantes e intensas com Luís Marques Mendes. Acha que tem condições para ser um bom candidato à presidência da República?
Luís Marques Mendes é um amigo que estimo muito e eu acho que sim, que tem boas condições para ser um candidato presidencial, porque o candidato presidencial tem que ter uma enorme visibilidade. Aliás, visibilidade que era quase um dos maiores trunfos do atual presidente da República quando avançou para uma candidatura. Estava praticamente eleito por uma visibilidade aliada a alguma lógica de competência, de cultura, de capacidade de trabalho.
Marques Mendes está a seguir-lhe as pisadas, de alguma maneira, de Marcelo Rebelo de Sousa?
O Marques Mendes com o trajeto que tem seguido, mimetiza em alguns aspectos, de uma personalidade completamente diferente, o trajeto de Marcelo Rebelo de Sousa. Agora, eu sobre isso só queria lembrar-lhes uma coisa: é que quando discutimos eleições presidenciais, devemos poder fazer um pequeno volta atrás revivalista e verificamos uma coisa interessante: é que os portugueses são muito conservadores na escolha presidencial. Os portugueses dizem muito mal da classe política, dos políticos, dos políticos que fizeram carreira. Mas a verdade é que olhando para trás, tirando a primeira eleição, que é uma eleição completamente atípica.
Foram só políticos de carreira.
Só pesos pesados, não é políticos de carreira, é pesos pesados da política portuguesa é que foram eleitos. Portanto, pensar em reitores, em generais.
Em almirantes.
É um lirismo.
Mas ainda não falando de outsiders, mas de um enfant terrible da política portuguesa, ao contrário de Rui Rio e Durão Barroso, Pedro Santana Lopes manteve-se e mantém-se nesta pré-corrida presidencial, se pudermos dizer. Entre os dois, entende que Santana Lopes tem um perfil mais indicado para o cargo?
Eu não vou fazer com esta antecedência esse tipo de opção pública. A mim não me repugna rigorosamente nada, aliás, tenho uma formação nesse particular bastante francófona, de que nos diferentes espectros políticos, numa primeira volta, existam dois ou três candidatos e que depois haja uma solidariedade clara à volta daquele que obtenha melhor votação.
Precisamente, era essa a pergunta que nós tínhamos preparada: existe o risco de os dois legitimamente decidirem ir a votos numa espécie de primárias da direita? Isso não pode oferecer uma oportunidade ao Partido Socialista ou ao candidato apoiado pelo Partido Socialista de vencer essas presidenciais?
Já no passado, por exemplo, a esquerda socialista teve dois candidatos e militantes quando o Manuel Alegre se candidatou, por exemplo. Mas eu penso que é uma visão redutora que nós temos do próprio jogo democrático, porque personificamos sempre tudo numa lógica de unanimidade interna nos partidos. Eu julgo que não. Julgo que não há nenhum perigo em a direita ou a esquerda se dividir e depois se unir. Repare que o melhor exemplo que podemos dar é à esquerda. Repare que normalmente o Partido Comunista nunca prescinde de um candidato presidencial, bem como o Bloco de Esquerda. Mas também é verdade que depois, com as divergências que ainda apesar de tudo são relativamente grandes em relação ao Partido Socialista, normalmente convergem no candidato que vai à presidência.
A questão é que o Partido Socialista está afastado do Palácio de Belém há 20 anos. Talvez seja por essa divisão à esquerda. Mas deixe-me só fazer-lhe um desafio antes de avançarmos. Entre Pedro Santana Lopes e Luís Marques Mendes, não consegue então encontrar um perfil, um candidato que lhe ofereça melhores perspetivas?
Não, eu penso que existem muitos tratáveis à direita, até demais. Eu penso que se quisesse ser candidato, Pedro Passos Coelho seria um candidato forte. Penso que independentemente de alguns incidentes de percurso, o currículo de Durão Barroso era compatível com uma candidatura Que era credível, mas eu penso que isso não acontecerá. Julgo que já é possível antever que se houver mais que um candidato, provavelmente esses dois candidatos serão Luís Marques Mendes e Pedro Santana Lopes.
Luís Filipe Menezes, passando agora para a vida do PSD, ainda no rescaldo da Festa do Pontal, disse que Montenegro tem de empolgar o país. O líder do PSD não se tem conseguido afirmar.
É muito difícil ser líder da oposição e é preciso termos em linha de conta que desde 1995, em 28 anos, 80% do tempo o país foi governado pelo Partido Socialista. 80%. Portanto, há pouco me disse que o PS está arredado há uma vintena de anos de Belém, o PSD está praticamente há 25 anos, há um quarto de século, arredado de uma continuidade efetiva de governação do país.
Mas este não é um bom cenário para se afirmar? Ou seja, com as dificuldades do primeiro ano da maioria absoluta, com os portugueses a terem cada vez mais dificuldades.
Para além disso, esse tempo todo, o PSD teve também dois incidentes de percurso que eu acho que foram muito gravosos, que foram as derrotas eleitorais esmagadoras em eleições autárquicas em 2013, em 2017 e que depois não deu sequer para recuperar em 2021. Ora, isso faz com que aquilo que era uma lógica de uma bipolaridade que durante 40 anos existiu, quando um partido era mais forte no governo, mais frágil nas autarquias e vice-versa, agora há um monopólio de poder do Partido Socialista agravado por uma longa permanência no poder central. Ora, o povo português não é por acaso que aguentou 50 anos de ditadura. É um povo muito pouco reativo, muito pouco exigente.
Mas é só o contexto que dificulta essa afirmação de Montenegro? Ou seja, ele está a fazer o caminho que tem que fazer?
Eu acho que o contexto que prejudica bastante, acho que há também um conjunto de mudanças civilizacionais que são muito importantes. A Rádio Observador ou o grupo ligado hoje a tudo aquilo que com o nome de Observador é feito em Portugal, é uma exceção. Porque aquilo que aconteceu foi haver uma atrofia de toda a comunicação social que passou, por exemplo, na cidade do Porto há uma vintena de anos havia três jornais diários, já em Lisboa havia cinco ou seis, havia muitos grupos de comunicação social. Hoje isso tudo está muito concentrado, muito dependente dos subsídios de Estado, muito dependente dos anúncios das autarquias, muito dependente de tudo isso. Isso é altamente condicionador.
Já percebi que não quer fazer uma avaliação daquilo que tem sido o desempenho de Montenegro.
Não, eu acho que o Montenegro tem tido aspectos positivos e os aspectos que eu vejo eventualmente como mais negativos decorrem eventualmente da dificuldade que tem tido e que terá que superar, de combater algumas das questões que estão enquistadas na sociedade portuguesa. E uma delas é a qualificação, eu diria, a baixa qualificação generalizada dos quadros políticos na vida política partidária em todos os partidos. Em todos, não é no PSD, em todos. Basta olhar para a cúpula deste governo para quase darmos uma grande gargalhada, tirando algumas exceções. Essa fragilidade de qualificação da cúpula da classe política dirigente é muito redutora daquilo que é a capacidade de imposição de um próprio líder.
Ele está obrigado a vencer as próximas eleições europeias, apesar de já ter dito que perder por pouco não seria mau, mais recentemente disse que o objetivo é mesmo ganhar. Está obrigado a isso?
Eu acho que não. As eleições europeias, se olharmos para trás, são umas eleições em que os portugueses e os europeus em geral ligam muito pouco, com enormes índices de abstenção altíssimos. São normalmente umas eleições em que se alia um voto de castigo, um tímido voto de castigo a algum folclore político. Aparecem, utilizando uma linguagem sem ser ofensa, quase tal máquina, aparecem uns espontâneos sempre nessa altura que elegem um, dois, três deputados e que alteram completamente a leitura que se pode fazer política desses resultados. E por outro lado, por exemplo, o PSD na oposição ganhou as eleições com Paulo Rangel, era presidente do partido a doutora Manuela Ferreira Leite. Ali, no entanto, apesar disso, poucos meses depois, na primavera, as eleições foram depois no princípio de outono, o PSD perdeu as eleições de uma forma rotunda com José Sócrates.
Mas isso significa se Luís Montenegro falhar esse objetivo das europeias ou se tiver um resultado aquém das expectativas que tem ou não tem o lugar em risco?
Eu penso que o resultado das europeias no que diz respeito ao PSD e ao PS só terá significado político interno com consequências se realmente a vitória ou a derrota for por números muito expressivos, porque se forem resultados relativamente aproximados, sejam eles quais forem, penso que não terão quaisquer consequências internas.
Falou há pouco do nome de Pedro Passos Coelho. Há muita gente no PSD que, num contexto de um mau resultado nessas eleições europeias, aposta num regresso do ex-primeiro-ministro à liderança do partido. Seria a melhor solução para o partido?
Sim. Eu tenho um enorme apreço pessoal a Passos Coelho, acho que é um homem que tem uma marca na generalidade da sociedade portuguesa, de seriedade e dedicação à coisa pública rara. Tem uma vida privada espartana que é também exemplar para muitos portugueses. Agora, o Pedro Passos Coelho, penso que só ele é que poderá tomar uma decisão sobre o seu futuro político. E por aquilo que eu conheço dele, ele nunca o fará contra nenhum dirigente do PSD. Só teríamos o Pedro Passos Coelho na política de novo, se houvesse um enorme vazio dentro do partido e um certo clamor que lhe solicitasse que assumisse responsabilidades. Nessas condições, eu acredito que eventualmente ele regressasse ao partido, mas não o estou a ver, por exemplo, com qualquer tipo de vocação para uma candidatura presidencial.
Luís Filipe Menezes, falávamos há instantes de presidenciais. Marcelo Rebelo de Sousa aproxima-se já da fase final do seu mandato em Belém. Será lembrado como um bom presidente da República?
Eu acho que é uma possibilidade. Acho que sim, porque o nosso sistema semipresidencial é uma questão em que eventualmente o senhor presidente da República, que eu muito estimo e admiro, me desilude um pouco. Eu penso que já era altura de ter coragem de dar uma volta a este sistema semipresidencial. Este sistema, como sabe, foi conceptualizado com medo do fantasma da primeira república, da instabilidade enorme que existiu durante os anos da democracia da primeira república, e em que era necessário criar um poder forte, com a força de ser eleito através de sufrágio direto e universal, que pudesse ser moderador, porque não havia a esperança que pudessem existir maiorias absolutas ou entendimentos entre os partidos para dar estabilidade política. Ora, eu penso que a prova dos nove já foi tirada, os portugueses dão maiorias absolutas e os partidos entendem-se para fazer coligações.
E o presidente é o quê? De mais poderes?
Eu acho que para se justificar a eleição presidencial, penso que teria tudo a ganhar em não haver a lógica do tudo ou nada, ou seja, do presidente ter o poder absoluto da dissolução, que às vezes nem exerce, a meu entender, com total justiça, como aconteceu, por exemplo, com Jorge Sampaio e com o governo de Santana Lopes, com o governo de maioria.
Um presidente que pouco pode fazer no dia a dia.
No cotidiano pode ter alguma esfera de influência.
Nestes últimos meses em que se tem verificado um clima evidente de conflitualidade entre Belém e São Bento, considera que se colocou em algum momento, ou que se continua a colocar em causa o regular funcionamento das instituições, falando aí nessa questão do poder da dissolução?
Não, julgo que não. Sinceramente, julgo que não. Houve um momento em que, porventura, se pode ter estado perto disso, quando foi a crise da sucessão no Ministério das Infraestruturas. Mas retirando esse momento, que de uma forma ou de outra foi ultrapassado, julgo que essa questão não se coloca. Agora, existem divergências evidentes em matérias como o pacote da habitação e outras medidas do governo, mas falar de haver perigo do normal funcionamento das instituições, eu não penso que seja assim. Agora, perguntou-me se eu achava que devia evoluir a lógica dos poderes presidenciais. Eu acho que sim. Acho que o Presidente da República devia ter poderes acrescidos nas áreas de Estado. Estou a falar da defesa nacional, estou a falar dos negócios estrangeiros, estou a falar na segurança. Nessas áreas de Estado havia tudo a ganhar em que um presidente sufragado pela esmagadora maioria dos portugueses pudesse ter poderes acrescidos.
Fazer mais alguma coisa. Deixe-me só fazer-lhe a pergunta da praxe para terminar aqui esta fase da entrevista. Admite, em alguma circunstância, voltar à vida política ativa? Há quem o aponte a si novamente como candidato à Câmara de Gaia ou do Porto?
Olhe, eu afirmei há anos que não tinha nenhuma vontade de voltar a exercer cargos eletivos, e nomeadamente cargos eletivos executivos. Continua a ser essa a minha intenção. Não mudei de opinião, mas é evidente que na vida, não é na política, na vida, o sempre e o nunca são palavras completamente malditas.
Muito bem, Luís Filipe Menezes, vamos agora entrar no segundo segmento desta nossa entrevista, o bloco Carne ou Peixe. Só pode escolher uma de duas opções, já vai perceber porquê. Venha daí a trilha. Quem levava para uma pista de esqui, sujeito a cair e a aleijar-se, mas pouco, só um bocadinho, Rui Rio ou Luís Marques Mendes?
Por favor Eu penso que o Dr. Marques Mendes, que tem o ponto de vista de inteligência motora e é mais pequenino, tem uma base de sustentação baixa, não cairia numa pista de ski como o seria o Rui Rio, fatalmente.
E o Rui Rio está habituado a desportos radicais, como o automobilismo.
E como ser líder do PSD.
Com quem é que gostaria de almoçar num qualquer restaurante do Cais de Gaia: Marcelo Rebelo de Sousa ou Aníbal Cavaco Silva?
Manifestamente com Marcelo Rebelo de Sousa.
Adora navegar sozinho, quem é que deixaria numa ilha deserta: Pedro Nuno Santos ou André Ventura?
Se calhar punha os dois num barquinho de cada lado para ver como é que eles se safavam e eu ia navegar sozinho para o mar.
Para a última agora, preferia voltar ao circuito da carne assada com Luís Montenegro ou Pedro Passos Coelho?
Sinceramente, eu preferia, se voltasse a um circuito, talvez fosse não da carne assada, mas melhorar um pouco o patamar, talvez mais da picanha, para melhorar qualquer coisa o patamar. A da carne assada já não tinha paciência.
Muito bem, Luís Filipe Menezes, como é hábito no nosso programa, o nosso convidado tem o direito a escolher a sobremesa, no caso, uma música. Que música é que nos traz e por quê?
É uma música cantada por pai e filho Bocelli. E o porquê é porque é algo que independentemente da bolsa dos portugueses estar com dificuldades grandes, nomeadamente neste momento, mas um voo low cost a Milão ainda se faz por cento e poucos euros e a 120 km de Milão há uma aldeia que se chama Lajatico, que é a terra natal de Bocelli, onde ele oferece um espetáculo ao povo da sua terra num anfiteatro improvisado na montanha todos os anos quando faz anos a 24, 25 de julho. Eu tenho o hábito de lá ir com a minha mulher e àqueles que puderem e tiverem possibilidades, dentro das dificuldades económicas e financeiras que vivemos, recomendo porque terão essa dupla a atuar todos os anos numa vista dos Apeninos fantástica.
Luís Filipe Menezes, muito obrigado por ter vindo a esta vichyssoise. Foi um gosto tê-lo cá.
O gosto foi meu e reitero o facto de que só mesmo a Rádio Observador é que me obrigaria a falar, porque o resto que anda por aí tenho sempre muitas resistências em deixar que a minha opinião se disperse em órgãos de comunicação social que não dizem nada.
Muito obrigado também por essa nota. Os nossos ouvintes já sabem, voltamos todas as sextas-feiras e pode ouvir o nosso programa nas plataformas habituais. Até lá.