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Olá, bem-vindos à ViciSuave. O governo preparou alterações à legislação laboral que levaram as duas maiores centrais sindicais a convocar uma greve. O primeiro-ministro vai dizendo que PCP e PS não querem deixar nem o Luís, nem o país trabalhar. Na ViciSuave, todas as horas são extraordinárias e as nossas sopas dispensam subsídio de refeição. A greve é um direito. Sem sopinhas, nada feito.

Em minha opinião, não há razões para haver uma greve geral em Portugal.

Nós andamos aqui há muitos anos. Já sabemos qual é a tática e a narrativa.

É assim, eu tenho direito à minha opinião e eu não vou estar a limitar a minha opinião.

É cascas de banana pra gente escorregar. Não, vamos falar sobre a precariedade.

A UGT não pode ser útil quando apoia as intenções do governo e, por outro lado, ser ofendida quando diverge dos interesses do governo.

Eu dou toda a atenção possível a todos os parceiros sociais e à UGT, em particular.

O governo e o primeiro-ministro a ofenderam com as declarações que fizeram.

O senhor primeiro-ministro está a olhar pra realidade de uma forma muito enviesada. Eu não sei qual é o sinal que se quer dar ao convocar uma greve geral, sinceramente.

Eu sou Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. O microfone estava aqui quase a entrar em greve e comigo tenho o Miguel Vitor Dias, que é coordenador de política da Rádio Observador e as jornalistas da seção de política, Mariana Lima Cunha e Rita Tavares. A começar, a ViciSuave. A primeira sopa que eu quero propor é uma sopa de beldroegas. Por quê?

Bem boa.

Ainda por cima tem uma erva que é ligeiramente ácida. E como há alguma acidez aqui na relação com a legislação laboral e como a sopa de beldroegas, como muitos caldos e muitas sopas, representam aquilo que alimenta os trabalhadores. O que não é bom pra comer, também não é bom pra trabalhar, como se costuma dizer. Eu proponho a sopa de beldroegas. Queres começar, Miguel? Eu sei que trabalho e sequer

Sim, haverá melhores pessoas pra falar sobre trabalho do que eu.

Estou a brincar. És um trabalhador incansável.

Obrigado, Rui. Sobre esta matéria, eu acho que todas as partes têm a sua razão nesta discussão. Ou seja, Luís Montenegro tem alguma razão ao dizer que a situação política não tem nada a ver com 2012, e não tem, nem o desemprego, nem o que os trabalhadores passavam durante a fase da Troika e agora. E tem razão também o secretário-geral da CGTP quando diz que a greve geral já ganhou, porque já pôs o país a discutir o pacote de reforma laboral. E, portanto, até ver, estão os dois a ganhar.

Tá um.

No fim das contas, vamos ver quem é que tem mais força, mas eu acho que há essa vantagem, que é o pacote laboral discutiu-se naquela gafe, chamemos assim, da ministra do Trabalho sobre a amamentação e depois passou ao lado de tudo o resto. E a verdade é que o governo teve aqui um problema: é que durante a campanha eleitoral, Luís Montenegro só falou da questão da lei da greve e de repente pega nisso-

E foi à boleia de uma coisa que aconteceu, de uma greve da CP.

Exatamente. Já isso tinha sido à boleia de uma situação casuística.

Sim.

E agora, novamente à boleia de mudar a lei da greve, aproveita e mete mais umas largas dezenas de mudanças. E portanto, quer dizer, aí realmente acaba por ser desonesto face ao eleitorado, ao contrário daquilo que o PSD tem procurado vender nos últimos tempos. E a greve geral, aconteça ou não, acredito que até lá falta um mês, muita coisa ainda pode mudar, apesar da UGT já ter garantido que vai mesmo fazer parte, mas pelo menos tem essa vantagem, isso tem, de já ter posto o país a discutir o pacote laboral.

Não deixa de ser a questão da amamentação, que se mantém a necessidade do certificado, por exemplo, que antes não era exigido. De um atestado, se quisermos, de um comprovativo que têm que pedir as mães que estão a amamentar, é completamente contra a ideia de que o país tem que puxar pra natalidade. Portanto, é um bocadinho contraproducente. Eu só queria dizer, por aqui a precisão, porque suponho que vocês vão falar, que eu suponho que seja da iniciativa liberal, que é pra iniciativa liberal o país vai estar a funcionar até o 11 de dezembro, porque a greve é de trabalhadores, não é de colaboradores. Mariana. Colaboradora Mariana, pra vocês. Não me chames isso.

Um dos pontos era o que o Miguel estava aqui a trazer a debate, que de facto não colocar uma alteração desta monta no programa, e que o governo foi eleito há uns meses, também me parece um bocadinho grave. Nós estamos aqui a falar, lá está, não são de umas alterações cirúrgicas, são de mudanças de fundo na forma como se despede, por exemplo, em Portugal. A questão de as empresas não serem obrigadas a reintegrar os trabalhadores, mesmo que eles ganhem em tribunal. Ou seja, há uma série de mudanças de fundo que é natural que façam as centrais sindicais reagir. Com o problema acrescido de agora o governo precisar, por exemplo, pode precisar do Chega pra aprovar isto. E o Chega, como nós sabemos, tinha aquela intenção, que não sei o que é que lhe aconteceu, mas de criar um sindicato próprio à direita. Está desaparecido em combate e sabe que o segmento dos trabalhadores, de pessoas que sofrem com o custo de vida, que têm medo dessa precariedade, também é um setor a que lhe interessa chegar, esse setor que também pode ter alguma revolta, algum ressentimento, e que é um potencial voto de protesto que também não interessa afastar. Portanto, há aqui depois alguns problemas a nível político Acho que estas narrativas, neste sentido, como tu dizias, é deixar o Luís trabalhar. E o governo pode tentar atirar-se para o chão e gritar penalti e dizer que ora no Parlamento, ora, neste caso, na concertação social, não o deixam trabalhar. Mas essas narrativas eu acho que têm de ser construídas com algum cuidado. É fácil defendê-las nalguns tipos de greves específicos, por exemplo, quando são médicos, quando eram os professores e o governo durante muito tempo, já o governo de António Costa tentou colocar a opinião pública contra os professores, porque evidentemente há muitos pais que são atingidos com as greves e com a frequência com que as greves estavam a acontecer nas escolas.

Que eram greves malandras, à primeira hora da manhã.

Sim, exatamente. E tramava a rotina de muitos pais. Médicos, nem é preciso justificar porque é importante e é verdade que isso facilita um bocadinho a narrativa do governo no sentido de colocar a opinião pública contra os grevistas. Mas para isso, lá está, não só é preciso ter alguma arte a criar essa narrativa, como eu diria que é preciso mostrar alguma boa vontade. Só fazendo algumas cedências é que depois se pode argumentar que o outro lado é que foi o intransigente e que não teve razão. Era importante que o governo desse sinais de facto de que está a negociar e a dialogar. No Parlamento, muitas vezes é acusado, como já era o governo de António Costa no final do geringonça, de fazer simulacros de negociação, mas de facto o governo não tem um apoio assim tão sólido no Parlamento que lhe permita dar este round por garantido. Como o Miguel dizia, ainda está um a um, porque ainda falta um bocadinho até dezembro para percebermos quem é que aos olhos da opinião pública ganha este braço de ferro. Mas são questões que eu acho que é preciso o governo encarar com alguma humildade para conseguir levar os seus objetivos até ao fim e para conseguir talvez fazer algumas cedências ou alguma negociação que lhe permita dizer que de facto olhou para o lado dos trabalhadores, que olhou para o lado dos sindicatos, já agora da UGT, que de facto foi uma crítica se calhar mais arriscada que o Luís Montenegro fez, sendo sindicatos que costumam fazer acordos na concertação social com vários governos. Acho que falta provar aqui um bocadinho da boa vontade do lado do governo para sequer de facto prosseguir com este discurso, comprar esta guerra com os sindicatos e dizer que o que não houve foi boa vontade desse lado, também tem de mostrar alguma cedência do seu, e isso acho que até agora ainda não foi possível ver.

Muito rapidamente, antes de passar a palavra à Rita, só três coisas. Há uma que Luís Montenegro diz que é: como está a ser negociado, não devia ser feita a greve. Mas muitas vezes as greves fazem-se para travar, são uma forma de pressão para isso. A segunda coisa é que diz que não é o momento certo e que é egoísta o país. Acho que o país agora está com as contas públicas a todo o gás, portanto também não é por aí, não é como no tempo da troika, tinhas a Moody's a espreitar pela janela, o que aqueles gajos estão a fazer. Portanto, também seria uma altura mais indicada em que o país pode parar.

A Moody's não diz gás.

Diz.

E somos nós a quem .

Os gajos da troika. Rita.

Eu acho que Luís Montenegro pôs-se a jeito, como se costuma dizer. Acho que é daquelas que foi dando, desde a questão de não estar no programa do governo nenhuma alteração de fundo à legislação laboral como aquela que acabou por avançar agora, ao facto de depois ter tratado um sindicato que normalmente está dentro, colocando-o de fora, a UGT. Aliás, até levou um puxão de orelhas grande por parte de Luís Marques Mendes, o candidato que o PSD apoia nas eleições presidenciais, foi precisamente esta semana dizer que o governo devia ter tratado de forma diferente a UGT e não o fez. Todo o quadro onde Luís Montenegro entrou levou a que estivéssemos agora a dias de vivermos a primeira greve geral desde a troika, desde que a troika estava no país, que é um simbolismo que tem o seu peso, mas também acaba por ser muito natural, não só pelo contexto que já falámos aqui que Luís Montenegro criou, mas também porque a esquerda precisa desta afirmação. E quando se toca em legislação laboral e nestas alterações, e a direita está no poder, normalmente a esquerda agiganta-se nos protestos e estava a precisar aqui de um balão de oxigénio. Portanto, se calhar até podem, de alguma maneira, agradecer a Luís Montenegro, usando aqui um pouco de cinismo, porque permitiu à esquerda ganhar aqui uma área de contestação onde está perfeitamente à vontade, tem força e consegue pôr os seus sindicatos, que estavam a perder fôlego e que estavam ameaçados, de facto, por esta ameaça que existe e que está sempre latente, que o Chega pode entrar nesta área também e de arregimentar tropas no lado dos trabalhadores e, portanto, a CGTP consegue aqui, sobretudo a CGTP, diria eu, consegue ter matéria para este protesto, e o PCP também, e consegue fazer uma oposição com corpo a este governo e que é uma oposição fácil, exatamente pelo contexto que Luís Montenegro criou.

Então, Luís está a deixar os sindicatos trabalhar.

Exato. É a conclusão.

E veja-se que a presidente da UGT, não é o secretário-geral, mas a presidente é a vice-presidente do PSD, portanto, o PSD também está representado nesta decisão de greve geral.

Sim, porque por via dos TSDs, que são uma estrutura autónoma e que fazem parte da UGT, que é um sindicalismo mais ao centro, por assim dizer, e menos duro, numa linha dura da CGTP, que é mais pró PCP. Rita, agora vou inverter aqui um bocadinho a ordem e perguntar uma sopa de letras sobre cruzamentos de palavras cruzadas

Porque tu na semana passada, entretanto não tinhas vindo à Vixi, fizeste um artigo sobre apoios cruzados nas presidenciais.

Sim, nas presidenciais. É uma coisa que é mais ou menos comum e mais ainda quando há um independente em jogo, que tenta pescar nas águas dos seus adversários. O caso do almirante Gouveia e Melo, que apareceu tendo como mandatário o ex-líder do PSD Rui Rio e na sua frota, vou só utilizar a linguagem da Marinha. É da Marinha, não é? Depois meto-me nisto.

Diz que é flotilha.

Agora já vou a todo o gás.

Estás em velocidade de cruzeiro. Desculpem.

Ex-líderes do CDS também, tanto José Ribeiro e Castro como Francisco Rodrigues dos Santos.

Apoios para Marques Mendes foram de vela.

Exato. Apoios para Marques Mendes foram de vela, mas também começa a entrar no Partido Socialista. E essa é a parte mais interessante de tudo isto, é que a partir do momento em que o Partido Socialista apoiou oficialmente um candidato, que é António José Seguro, todos aqueles que o criticavam e que criticavam que esse apoio viesse a ser feito, e também o perfil de António José Seguro para essas presidenciais, nomeadamente muitas figuras ligadas ao costismo dentro do Partido Socialista, começaram a saltar em entrevistas com declarações que podemos classificar de acintosas com António José Seguro. Não sei, Miguel Viterbo Dias, se me acompanhas nisto, tendo em conta que esta semana entrevistaste António Mendonça Mendes, deixar ali uma picada, por dizer o mínimo, a António José Seguro. Mas depois também outras figuras que apareceram entretanto, como Manuel Pizarro, que esperou que estas águas das autárquicas cernassem e mesmo depois de uma derrota, saltou para a frente para apoiar Gouveia e Melo e saltar para o lado de lá da barricada. Não sabemos se nos próximos dias outros virão, mas é de desconfiar que isso aconteça. No Partido Socialista há ali uma ala muito definida que não quer votar em António José Seguro. Já nem vou dizer apoiar, vou dizer mesmo votar. Não vamos estar lá no redacabinho de voto.

Mariana, uma coisa inteligente num minuto sobre estas trocas presidenciais.

Inteligente? Estás a pedir muito. Posso falar um bocadinho da dor de cabeça que o CDS está a ter neste momento. Assim completo aqui um bocadinho o panorama dos apoios, porque falta dar esse apoio, que é o do CDS, que está numa crise existencial neste momento. O CDS primeiro anunciou que anunciaria o seu apoio depois das autárquicas, depois marcou um conselho nacional com as presidenciais na agenda, e assim que nós chegámos lá fomos avisados de que não era nesse dia que ia sair apoio nenhum. E agora continuamos em espera, sendo que o Nuno Melo tinha apontado para a semana passada como data do anúncio e ele continuou a não insistir. Isto tudo porque o CDS ficou abalado com a notícia de que Paulo Portas está mesmo fora da corrida e alguns dos seus principais nomes também não sabem se hão de apoiar ou votar em Marques Mendes. E, portanto, está com esse grande dilema, porque estão órfãos de figura de espólio.

É mais ou menos a mesma coisa que o PS está a passar.

Vai ter de ser.

No caso deles, não têm mesmo um candidato.

Sim, tem um homem dos submarinos, mas não é exatamente aquele que eles queriam. Termina assim a primeira parte da Vixi Faz. Voltamos já a seguir.