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Olá, bem-vindos à ViciSuave. O meu nome é Miguel Santos Carrapatoso, sou jornalista e editor adjunto de política do Observador. Tenho ao meu lado o vencedor do concurso Salsa Portorriquenha Interescolas de Santarém 2009/2010, o Miguel Viterbo Dias, a inevitável Mariana Lima Cunha e um ilustre convidado, o editor de sociedade do Observador, Pedro Miguel Rainho.

Por quê?

É este trio que me vai ajudar a explicar uma semana que começou com mais um caso bicudo no SIRESP e acabou com um bad, bad bunny.

Olho pro deputado André Ventura e faz-me lembrar o Lucky Luke. E do outro lado, olho pra o Partido Socialista, o deputado Zé Luís Carneiro, faz lembrar o Speedy Gonzales.

Também há uma personagem para o deputado Hugo Soares. Não sei se se lembram do Cebolinha. E então o postiço fica sem nada. Fica como um prostituto, sem caráter.

Até o Peter Pan vive na terra do nunca.

Era bom, por isso eu disse há pouco, que as coisas ganhassem um pouco mais de ritmo. Para discutir tudo isso e muito mais, venha daí a refeição mais deliciosa da política portuguesa. Miguel Viterbo Dias, desta vez não começo por ti. Temos cá o Pedro Miguel Rainho para nos ajudar a perceber tudo o que se está a passar no SIRESP e no Ministério da Administração Interna. Tenho pra ti uma sopa a ferver. Como é que fica Luís Neves depois de tudo o que aconteceu esta semana?

Fica pelo menos pressionado. Ao longo da semana foram saindo algumas notícias sobre o que se passou no SIRESP, sobretudo entre 2022 e 2024. Percebemos depois que esses assuntos antigos voltam a queimar no SIRESP, porque António Pombeiro, número dois do MAI, apresenta a demissão. Podemos dizê-lo aqui, se calhar podemos dizê-lo com estrondo, com impacto. E todos esses temas que António Pombeiro refere, sendo antigos, são agora prementes, voltam a estar agora em cima da mesa. E quem tem que geri-los é quem assume neste momento a responsabilidade do Ministério da Administração Interna e, portanto, Luís Neves. Nós tivemos a adjunta de Luís Neves a dar algumas explicações sobre o que se passou para a demissão de António Pombeiro e, portanto, foi uma primeira reação a viva voz de quem tinha intervenção no processo. Luís Neves tem vindo muitas vezes também tomar posição sobre o assunto. Ou seja, percebe-se que sente a necessidade de falar e de defender a escolha que fez para a presidência do SIRESP.

Deixa-me só fazer aqui um parêntese, porque há um comunicado do Ministério da Administração Interna onde sugere que António Pombeiro já tinha apresentado a demissão e não tinha sido pelo motivo agora invocado pelo próprio. Portanto, tentando, de alguma forma, desacreditar o próprio António Pombeiro.

Mostrar alguma contradição.

Acontece que com os e-mails a que nós tivemos acesso e que entretanto demos notícia deles mesmos, o Ministério da Administração Interna foi apanhado numa evidente contradição. Isso mancha a folha até aqui limpa de Luís Neves?

Eu tenho alguma dificuldade em perceber esse argumentário.

O meu?

Às vezes também tenho, mas neste caso refiro-me ao Ministério da Administração Interna e àquele esclarecimento tornado público, em que de facto diz que, não exatamente por essas palavras, mas sugere que foi uma surpresa falar-se agora de situações irregulares no SIRESP, que tudo isto era uma novidade. Tenho alguma dificuldade em perceber por que isto é uma novidade, porque como dizias, nós tivemos acesso a algumas trocas de e-mails entre António Pombeiro, entre a adjunta de Luís Neves, Valentina Marcelino, e há um mês, a 28 de abril, quando pela primeira vez António Pombeiro apresenta a sua demissão, apresenta um extenso relatório com situações irregulares, nomeia-as e dá alguns detalhes sobre essas situações, sobre aquilo que no fundo se passava mal, o que estava de mal dentro do SIRESP. E agora, quando apresenta a demissão, e ela é efetivada na última sexta-feira, volta-se a falar de graves irregularidades, de situações que não estão particularmente claras e que aconteceram no SIRESP. Portanto, tenho alguma dificuldade em perceber essa tomada de posição do ministro da Administração Interna. Não sei. Se calhar está em linha com a posição que assumiu para este caso, que é: vou defender a minha escolha e vou defendê-la até o fim, porque tenho um projeto para o SIRESP, isso é legítimo, e quem pode executar essa missão, essa tarefa, é o general Viegas Nunes. Suponho que seja isto. Agora, de facto, tenho dificuldade em perceber.

Parece que está um bocadinho num curso de introdução à política, não é? Porque depois mostrou-se muito irritado, quer nas declarações que fez em Cascais, quer ontem na Assembleia da República, quando André Ventura o picou. E Luís Neves até era tido como alguém com uma grande capacidade de comunicação, mas agora também mostra que afinal, quando as coisas apertam, perde um bocadinho aquela imagem que tinha de ser um excelente comunicador e aqui parece que está a perder um bocadinho isso.

Sim, mas vamos lá. Há aqui camadas. A capacidade de comunicação não éA mesma coisa em todas as funções que tu desempenhas. Uma coisa é ter boa capacidade de comunicação enquanto diretor da Polícia Judiciária, em que normalmente o que lhe cabe é falar sobre grandes operações, sobre o resultado de operações, sobre a capacidade de atrair novos inspetores. É um plano mais de apresentação de resultados. Aqui, como ministro da Administração Interna, aquilo que pende sobre Luís Neves é o escrutínio sobre aquilo que vai acontecendo, sobre falhas eventuais no Ministério da Administração Interna. São duas vertentes da comunicação completamente diferentes. Ele podia ser um ótimo comunicador enquanto diretor da Polícia Judiciária e agora sentir que está noutra fase e ainda não se ter adaptado a isso.

Pedro Miguel Reis.

Sempre quis ter três nomes, nunca percebi qual seria a fórmula, mas acho que se calhar é essa.

Sempre quis ter três nomes, nunca estes dois. Esta confusão no SIRESP e no MAI, na antecâmara de um verão que será quente e que poderá ter um pico enorme de incêndios. Luís Neves apresentar-se assim antes do verão e tendo ele assumido a escolha de Viés Nunes para o SIRESP, isto deixa-o com pouca margem para errar.

É preciso recordar que o próprio Luís Neves já deixou o alerta de que este verão, de facto, vai ser complicado. Não quero fazer aqui a previsão meteorológica do verão, mas de facto vai ser um verão quente, com muita área para arder e com alguma gestão dos meios ainda a ser feita. E por experiência, a pasta da administração interna é muito difícil de gerir. Há muita coisa a acontecer, há coisas imprevisíveis a acontecer, portanto, a capacidade de gerir esses processos está sempre a ser posta à prova para os ministros. E de facto, a margem para Luís Neves, tendo em conta o contexto em que chega, encurtou um pouco. Ele é uma pessoa com muita experiência por todos os anos que esteve à frente da Polícia Judiciária, como diretor nacional e também como diretor de unidade, mas de facto este verão pode trazer-lhe algumas exigências, não só na comunicação, mas também na gestão dos processos, sobretudo dos incêndios.

E vamos ter seguramente mais oportunidades para falar sobre o SIRESP, porque esta história não ficará por aqui, seguramente. Miguel Vitor Dias, tenho uma sopa de coelho para te servir.

The good bunny or the bad bunny?

Não sei, diz-me tu. Os nossos ouvintes e a nossa comunidade deve saber.

Já sabem, porque o Nelson Ferreira disse no outro dia também.

Que foste assistir ao concerto de Bad Bunny.

É verdade.

Quantas músicas conheces de Bad Bunny?

Não é tudo a mesma? Parece-me mais ou menos. Estou brincando. Foi um excelente concerto, não quero ser cancelado.

Conheço-te há tantos anos e não sabia que eras um apreciador.

Eu sou uma pessoa muito eclética.

Muito bem, mas para falar de Pedro Passos Coelho, o que te apraz dizer sobre esta aparição do antigo primeiro-ministro, desta vez, sem deixar nada por dizer?

Isso também não tem sido uma novidade nos últimos meses. Tenho trabalhado menos nas entrelinhas.

Hás de convir que esta foi particularmente violenta.

Foi. E sobretudo aquela cenografia inicial com André Ventura.

A mise-en-scène.

A mise-en-scène, exatamente. Obrigado pelo apport que nos traz. Foi um bocadinho curiosa, porque Pedro Passos Coelho tinha, à porta fechada, deixado algumas críticas a André Ventura sobre a questão da reforma laboral e da redução da idade da reforma. E depois quando esteve com André Ventura, pelo menos que saibamos pela primeira vez em público, acabou por ser uma pessoa muito mais simpática e acabar por dar lastro aos discursos de André Ventura.

Se estivesses com uma pessoa que tem uma foto tua no gabinete, se calhar também eras doce.

Exato, exatamente. Pode ter sido isso a pesar. Mas foi sobretudo esse cenário inicial que me pareceu curioso. E depois também esta questão de, afinal, o que é que quer? E esta dúvida vai-se acentuando, porque não pode não querer nada e só falar livremente. Ou seja, qual é que é mesmo o objetivo de Pedro Passos Coelho ao manter esta cadência de intervenções públicas, ao ir elevando o tom das críticas e o palavreado das críticas também que vai utilizando. E portanto, que objetivo é que quer nesse acelerar do relógio que se falava inicialmente e que entretanto não teve mais desenvolvimentos e que Luís Montenegro vai pondo sempre água na fervura, lá está, com a história do corredor de fundo e não do sprinter.

Mariana Alamea Cunha, achas que de alguma forma esta sucessão de intervenções de Pedro Passos Coelho e agora esta última com uma violência assinalável, pode acabar por ajudar Luís Montenegro? Ou seja, pode provocar aqui um efeito de blindagem interna em relação a Luís Montenegro?

Não estando eu na pele dos sociais-democratas, eu não vou dizer aqui que sei fazer a interpretação da psicologia do PSD. Mas visto de fora, eu diria que sim, porque primeiro, dada a repetição dos ataques e da frequência cada vez maior dos ataques, e Passos era tido como uma pessoa que reservava tanto a sua palavra que depois quando ela aparecia tinha um peso enorme, e começa a ser uma coisa tão frequente.

Era como Cavaco Silva, também reservava-se muito, depois falava sempre.

A questão dos silêncios começa a ser escassa. Depois, com a violência do palavreado que usou por chamar prostituto político a um antigo aliado, não é para todos. Lá está, eu não tenho a mentalidade de quem está no partido, mas imagino que se estivesse no partido, talvez não adorasse esta tentativa constante de Passos de, aparentemente, demolir o governo de Luís Montenegro enquanto o PSD está no poder. E depois, sobretudo, para mim o maior mistério é o calendário. Ele pode estar a ver mais longe e eu não estar a chegar lá, mas o que Passos acha que vai conseguir? Eu ainda não consegui perceber exatamente. Nem percebi quando é que é suposto chegar lá, ou seja, se a ideia, e nós sabemos que Passos tem esta ideia, e percebo a origem, de que foi injustiçado, que tinha um projeto para cumprir, que nunca chegou a cumprir, etc. Portanto, se a ideia for, de facto, voltar

Nesta ideia de mito messiânico, ele é que vai voltar e é que vai pôr a direita endireitada outra vez. Quando? Porque não se percebe, tendo em conta que nenhum de nós pode apostar que percebe os ciclos políticos hoje em dia, porque já errámos muitas vezes, mas não estou a ver uma oportunidade tão imediata para Luís Montenegro cair e Pedro Passos Coelho ter uma oportunidade de chegar ao poder. E depois como? Porque eu não sei exatamente o que é que Passos acha que poderia fazer quando aparece ao lado de André Ventura, a concordar com André Ventura, a fazer conversa. Nas imagens mais completas que se viram, acho que a CNN possui imagens mais completas em que se vê que até Passos está a puxar a conversa para as câmaras com André Ventura. Ele tinha dito que o governo até devia ter procurado um acordo com a restante direita parlamentar e é o mesmo que diz que a ideia de baixar a idade da reforma é uma coisa completamente irrazoável e, portanto, o Chega aparentemente ou não queria acordo nenhum na reforma laboral com o governo ou, se a quer, está a traçar linhas vermelhas muito extremas. Portanto, qual é a ideia de Passos exatamente? É que ele conseguiria domar André Ventura, que André Ventura vê nele um ídolo tão grande que Passos Coelho, já o estou a dar como líder do partido, ia engolir o Chega e ia ele conseguir que a direita estivesse num estado prolongado de ciclo de poder eternamente? Eu não estou a perceber, talvez Passos possa explicar um pouquinho melhor da próxima vez, na próxima aparição, não atrasar tanto tempo e que possa explicar as contas, porque eu ainda não consegui chegar lá.

Não posso deixar de não confessar a minha mágoa por nenhum de vocês ter citado o artigo que publiquei no site do Observador. Enfim.

Nós combinamos que íamos deixar que tu fizesses esse papel lastimável de te autocitar.

Se os leitores e ouvintes quiserem saber mais sobre Pedro Passos Coelho e Luís Montenegro, podem ler no Observador. Resignados ou chocados, homens de Montenegro não percebem Passos, mas têm uma certeza: está a cavar a sepultura deste vosso escrivão.

Acho que ficámos aquém desse texto.

Leiam para perceberem isto a sério.

A fechar, tenho uma última sopa para vos servir muito rapidamente. Estamos a gravar esta Vichy Suases quando ainda decorrem buscas da Polícia Judiciária na sede do PS. Mariana Lima Cunha, apelo ao teu poder de síntese, por favor. Que efeito é que isto terá no PS?

Entretanto, vou só aqui ver se o Miguel tem já algum artigo escrito sobre isto.

Exato, porque assim eu posso só reencaminhar os leitores e paramos de fazer análises. É uma grande chatice para o PS, vejam lá que José Luís Carneiro que estava bem nas sondagens, que tinha algum fôlego, acontece-lhe uma destas e toda a gente sabe que no PS é particularmente problemático quando estas coisas acontecem, até porque vai ter Ventura a cair-lhe em cima rapidamente, não vou dizer rapidamente e em força, mas rapidamente assim que puder, e a voltar ao fantasma da corrupção, há de se trazer Sócrates também, Vítor Escária, esse fantasma tão recente também de buscas na altura na sede do governo. Portanto, enfim, José Luís Carneiro é um homem que está a fazer uma corrida de muitos obstáculos.

Quando dizem que o lugar de José Luís Carneiro é o caminho das pedras, é mesmo o caminho das pedras.

Bem, e a primeira parte da Vichy Suases fica por aqui. Voltamos dentro de momentos com entrevista a Dio Feio.