Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Olá, bem-vindos à segunda parte da "Vici & Suave". Temos conosco Alexandre Abreu, que foi candidato à Câmara Municipal de Cascais nas últimas autárquicas e é também subscritor da Moção A na próxima convenção do Bloco de Esquerda. A Moção A é aquela que reúne as principais figuras do Bloco, acho que podemos assumir assim, e que apoia, no fundo, José Manuel Pureza. Comecemos pelo momento atual do partido. Mariana Mortágua assumiu que o objetivo de encontrar outros caminhos depois da queda da maioria absoluta do Partido Socialista e o aumento da direita não foi cumprido. Esse caminho não foi cumprido. O que falhou da parte do Bloco de Esquerda?
Olá, boa tarde. Obrigado pelo convite, é um gosto estar aqui. É um longo debate e uma longa reflexão que nos tem vindo a ocupar e que vai continuar a ocupar, aliás, nesta convenção, mas também daqui pra frente. Aliás, um dos objetivos que nós temos, relançando agora o dinamismo democrático e participativo dentro do Bloco, não é que estivesse ausente, mas queremos reforçá-lo, é precisamente pensarmos melhor, mais fundo, com melhores ideias e melhores soluções pra ultrapassar aquilo que inquestionavelmente tem sido um período negativo, difícil para o Bloco. Temos tido dificuldades em responder às circunstâncias. É claro que as circunstâncias são elas mesmas difíceis, isto é reconhecido. O problema não é unicamente do Bloco, não é sequer unicamente português. A esquerda tem estado em recuo e a enfrentar desafios de diferentes naturezas, também à escala internacional. Mas acho que há duas coisas importantes que nós, enquanto partido político de esquerda, nunca podemos fazer. A primeira é deixar de pensar que o ponto de controle perante aquilo que lhe acontece é em grande medida seu. Ou seja, não podemos imputar exclusivamente responsabilidades às dinâmicas externas e àquilo que não está ao nosso alcance, porque senão mais vale irmos pra casa e desistirmos do que estamos a fazer. E segundo, e talvez ainda mais importante, é culpar o povo. Nós nunca podemos achar que a culpa, a responsabilidade é do povo, porque está iludido, porque está enganado, porque está a escolher mal. Isso também é completamente contrário àquilo que deve ser uma postura de esquerda. Agora, o que tem corrido mal? Efetivamente, temos enfrentado muitas dificuldades. Temos tido algumas hesitações.
Em que sentido?
Por exemplo, eu julgo que perante aquilo que tem sido um crescimento bastante rápido e avassalador da extrema-direita, que tem sido marcante do ponto de vista eleitoral, mas sobretudo do ponto de vista da definição do que é a agenda política e os temas na agenda política, o Bloco tem se encontrado numa situação que de alguma forma é de alguma ambiguidade e que tem dificuldade a passagem da mensagem pro eleitorado. Em particular, porque, por um lado, nos coloca numa posição muito defensiva, no sentido de querermos defender a democracia, querermos defender os valores básicos, querermos defender os valores de Abril, a Constituição, querermos defender até o mínimo de princípios de decência em torno daquilo que deve ser o diálogo político, o debate político. E nesse sentido, estamos na defesa daquilo que alguns poderão sentir ou interpretar como sendo o sistema, mas obviamente é uma defesa de valores e princípios e adquiridos que são fundamentais, mas ao mesmo tempo aquilo que é a matriz fundadora do Bloco e a sua razão de ser, é sempre uma matriz de exigência. Nós temos um horizonte socialista de superação daquilo que são as desigualdades intrínsecas da nossa sociedade, de pensarmos que podemos ter mais e melhor em termos daquilo que são os serviços públicos, aquilo que é o horizonte de igualdade, aquilo que é superação das várias opressões que se combinam e interceptam na nossa sociedade. E nesse sentido, a razão de ser do Bloco é a de um partido que não pode e não deve ser defensivo, mas que temos sido colocados muito na defensiva por via de uma certa reconfiguração da agenda política central nos últimos anos, em grande medida em resultado da subida da extrema-direita, e eu acho que não temos conseguido responder a isso da melhor maneira e espero que consigamos fazê-lo melhor.
Mas isenta Mariana Mortágua dessa responsabilidade?
Acho que essas responsabilidades são fundamentalmente coletivas. Acho que não é demais dizer que a Mariana Mortágua tem imensa capacidade, tem capacidade enquanto líder, tem imensa capacidade oratória, tem uma coragem extraordinária, tem enfrentado ataques de uma violência e de uma baixeza incríveis e talvez inusitadas em termos daquilo que é a nossa experiência política, e tem feito com bravura, com coragem e com imensa capacidade. Nesse sentido, nós, na Moção A, o único motivo pelo qual não propomos novamente a Mariana Mortágua como nosso primeiro nome para a Comissão Política e, por inerência, coordenadora e porta-voz, é porque a própria Mariana considerou não ter condições políticas neste momento para poder dar o melhor contributo ao Bloco. E nesse sentido, apoiamos agora outra solução, na qual nos revemos completamente, que é o José Manuel Pureza.
Mas acha que tinha condições políticas para se manter nessas funções?
Eu, pessoalmente, reconheço que a Mariana tem sido objeto de um ataque de tal maneira avassalador que dificulta a passagem da mensagem e cria tanto ruído em torno dela e têm sido tantos os ataques, muitas vezes torpes e falsos, relativamente àquilo que a Mariana é ou a Mariana faz, que dificulta centrar a mensagem política do Bloco na própria proposta, na análise e na proposta, e não tanto na defesa relativamente aos vários ataques.
Mas tornou-se um ativo um bocadinho tóxico para o partido?
Não, de maneira nenhuma. Recuso absolutamente essa formulação. Aliás, até recuso a ideia de que por via do ataque ter sido tão avassalador relativamente à figura da Mariana, que isso nos obrigue, de alguma maneira, a trocar de líder ou a desistir de termos alguém tão capaz e tão competente a liderar o Bloco, porque isso de alguma maneira seria admitir que podemos deixar que sejam os ataques da direita e da extrema-direita, mais em concreto nestes últimos tempos, a definir aquilo que são as opções do Bloco. Agora, é verdade, e eu reconheço que são tantos os ataques, é tanto ruído, é tanta a dificuldade pra fazer passar a mensagem, que percebo que neste momento poder, de alguma maneira, relançar os termos da questão, do debate, da comunicação pública do Bloco através de novas pessoas e do José Manuel Pureza Será conveniente, numa altura em que mais importante do que isso, queremos relançar a nossa maneira de pensar a política, de nos relacionarmos com a sociedade e de trabalharmos internamente em termos de democracia interna, de recusa do sectarismo, de abertura pro diálogo fraterno, franco, mas fraterno.
Vou citar aqui uma pessoa que muito falou sobre o que ele dizia ser essa ausência de diálogo no Bloco. Falava, aliás, muito do centralismo do partido, porque Pedro Soares, que tem sido o rosto da oposição interna no Bloco, disse aqui na Vichy Soares que José Manuel Pureza faz parte do núcleo central e da entourage de Mariana Mortágua e que é escolhido para manter a mesma linha. Faz sentido repetir essa mesma fórmula se querem resultados diferentes?
Não entendo exatamente o que essa crítica quer dizer e não me revejo nela. É um facto que o José Manuel Pureza tem estado presente naquilo que é a história recente e menos recente do Bloco há muitos anos.
E tem estado, pelo que sabemos, de acordo com a linha política que o Bloco tem seguido.
Tem acompanhado de uma forma geral aquela que tem sido a Moção A, a linha dominante, e tem estado presente nos seus órgãos dirigentes de diferentes formas e também publicamente e em termos de responsabilidades no país, enquanto deputado várias vezes, na própria Mesa da Assembleia da República, tem tido essas responsabilidades. E isso pra nós é também importante, na medida em que conhece bem o jogo político, conhece bem o país, conhece bem os parâmetros em que a ação política se desenvolve e vai ter desenvolver nestes próximos tempos. Então, nesse sentido, é um facto que o José Manuel Pureza não é um coelho tirado da cartola que ninguém conhece ou que não tenha nenhuma relação com aquilo que vem detrás. Mas a questão é que nós também não queremos enjeitar, renegar aquilo que é o nosso passado, aquilo que é a nossa matriz ideológica, ou seguramente que queremos debater, debate-se tudo, debate-se com franqueza, debate-se com toda a fraternidade, mas com sinceridade, debate-se todas as opções políticas, inclusivamente aquelas que foram feitas no passado e que eventualmente não correram tão bem ou não estiveram corretas, e debate-se o que queremos fazer pra frente. Mas não me parece que o caminho passe por rejeitarmos aquilo que somos ou por pedir desculpa daquilo que somos ou daquilo que temos feito.
Então o que é que o José Manuel Pureza traz de novo? É o perfil da pessoa que é diferente? Não é a Mariana Mortágua que lá está é uma pessoa, não quis chamar de ativo tóxico, mas que se calhar tem mais anticorpos do que o José Manuel Pureza, não é?
Não sei. Naturalmente, claro que qualquer pessoa que está na vida política durante algum tempo, para mais enfrentando tantos interesses de forma tão corajosa como faz a Mariana Mortágua, e que depois tem sido objeto de ataques de estimação por parte da extrema-direita da forma que tem sido, naturalmente que terá anticorpos. Mas como eu disse, são inúmeras as pessoas que se reveem na coragem, na competência, na abnegação da Mariana Mortágua, e nós na Moção A é isso que sentimos. Sobretudo, é um grande reconhecimento e como eu disse, o único motivo pela qual não é ela a nossa proposta pra coordenadora é o facto de ela se ter mostrado indisponível. Nesse sentido, não há uma decisão deliberada de troca de líderes, não é essa a questão que está em causa. Agora reconheço que novas pessoas poderão trazer novas ideias, poderão trazer novas formas de comunicar, poderão trazer novas formas de agir, e acho que nesse contexto, o José Manuel Pureza tem características especialmente apropriadas, porque ele é uma pessoa que reconhecidamente tem uma grande capacidade de comunicar, de fazer pontes, tem um sentido de humor muito fino, até os adversários reconhecem isso. E então acho que nesse sentido será uma boa pessoa pra ajudar a passar a mensagem numa altura em que nós sentimos esta necessidade de, com grande humildade pra com o exterior do próprio partido, pra dentro também, em primeiro lugar, com fraternidade, mas pra fora do partido com grande humildade, falarmos com os vários setores da sociedade que em diferentes momentos já estiveram mais próximos do Bloco e que se afastaram.
E acha que o José Manuel Pureza tem mais facilidade em fazer essas pontes.
Acho que tem seguramente boas condições e características para isso.
O PS escolheu José Luís Carneiro pra líder, o José Manuel Pureza será o candidato, na prática, à liderança do Bloco. Ambos são considerados mais moderados dentro de cada um dos seus partidos. Perante uma viragem do país à direita, a esquerda deve passar alguma ideia de moderação?
Não, não deve. Pelo contrário, acho que deve ter ousadia, coragem, alegria, mas deve ter todas estas coisas e sobretudo ousadia nas propostas, não ficar defensiva, presa numa resposta a uma definição da agenda política que neste momento oscila entre um polo liberal e um polo neofascista, na verdade, de extrema-direita, extremamente agressivo, que põe em causa alguns dos direitos fundamentais, não só em termos do funcionamento da democracia, mas mesmo dos próprios direitos civis e cívicos de muitas pessoas. Acho que, pelo contrário, deve ter a ousadia de propor horizontes de transformação que respondam às necessidades da grande maioria das pessoas, das pessoas que trabalham, das pessoas que estão em situação de pobreza, que são inúmeras por este país fora, das pessoas que cuidam, das pessoas que confiam no Serviço Nacional de Saúde para tratar da sua saúde e dos seus, que as pessoas confiam na educação pública como mecanismo de transformação e de igualdade. Todas essas pessoas, essas imensas maiorias sociais precisam de respostas. Nós acreditamos que as respostas liberais e as respostas de extrema-direita não são boas respostas, são respostas que geram desigualdade e que geram exclusão. Então, nesse sentido, achamos que continua a haver toda a margem, todo o espaço pra que haja uma proposta socialista convicta. E embora, agora pra responder mais diretamente à sua pergunta, embora seja necessário, com certeza, repensar as nossas formas de comunicação, ter uma grande humildade pra escutar as pessoas, porque é que muitas delas ou algumas delas já não se reveem nas nossas propostas ou sentem que nós não estamos a canalizar as suas aspirações da forma que antes fazíamos e que faziam com que tivessem mais confiança em nós. Embora deva haver essa humildade e essa recalibração da comunicação, o que não deve haver, seguramente, do meu ponto de vista, é uma desistência daquilo que é a nossa matriz ideológica e o nosso conjunto de valores.
Mas encontra alguma explicação para a falta de adesão do eleitorado ao Bloco? Ao contrário, por exemplo, o Livre tem feito um caminho oposto. O próprio PCP tem conseguido crescer entre o eleitorado mais jovem. Considera que esse crescimento pode ser o responsável pelo esvaziar do Bloco?
Acho que a análise é complexa. A transferência de votos é uma análise que é difícil de ser feita. Tecnicamente sabemos que é difícil termos dados sobre estas questões. Temos, naturalmente, as nossas análises mais ou menos impressionistas, com certeza que temos a obrigação de fazê-las, na medida em que fazemos política nos partidos e temos que pensar nestas questões. Mas eu diria, se calhar, duas outras coisas a este respeito. A primeira é que não estamos tão preocupados assim com a questão da concorrência à esquerda. Tomara nós que o polo dos partidos de esquerda, verdadeiramente de esquerda, à esquerda do PS, o PS tem alguns lives ocasionais, umas pinceladas ocasionais de esquerda, mas tem uma grande ambiguidade em termos daquilo que é a sua política e o seu posicionamento, portanto, os partidos verdadeiramente de esquerda, à esquerda do PS, tomara nós que esse polo tivesse o peso, a significância, a representação eleitoral e na sociedade e em termos da disputa da hegemonia das ideias, que tinha ainda há 10 anos. Este polo chegou a valer facilmente 20% há relativamente pouco tempo e hoje em dia está muitíssimo reduzido, embora haja alguma reconfiguração e distribuição dos votos entre diferentes partidos dentro deste polo, eu acho que o grande problema tem sido a redução do polo de esquerda como um todo, do meu ponto de vista. Portanto, nesse sentido, acho que mais do que nos preocuparmos em disputar votos entre partidos de esquerda, que muitas vezes até tem uma natureza sociológica distinta. Sabemos que o voto típico do PCP, embora sejam muitos votos, mas tem uma determinada matriz sociológica, idem para o Livre, que é um voto tipicamente mais liberal, de uma esquerda mais liberal, que muitas vezes não se assume necessariamente como socialista ou anticapitalista. Então há distinções, é positivo que assim seja, isso não impede que trabalhemos em conjunto. Aliás, referiu aqui há bocadinho a minha campanha, que acho que foi feita precisamente em coligação com o Livre e com o PAN, e foi uma ótima experiência. E achamos que estas experiências devem repetir-se em diferentes planos, em diferentes eleições.
Mas o Bloco acaba por estar condenado a esse movimento alargado de esquerda. Daniel Oliveira chegou a dizer: "O Bloco por si só dificilmente tem futuro." Concorda?
Seguramente não concordo, acho que esse epitáfio é um pouco precipitado, como as notícias da morte, como se costumava dizer. Mas neste caso, quero acreditar que sim, e acho que há todas as condições para que assim seja. Acho que há um espaço de aspiração e de representação que o Bloco representa em termos de visão de sociedade e em termos do conjunto de pessoas, de segmentos, de grupos na sociedade que têm aspirações legítimas e maioritárias, em muitos casos, que não estão a ser bem representadas, que cada vez mais vão sentir as suas aspirações coartadas por aquilo que são esta deriva liberal por parte do atual governo, respaldado na direita mais liberal e na extrema-direita. E penso que é fundamental que haja uma resposta que seja simultaneamente socialista, democrática, anticapitalista, também anticonservadora. Esse polo tem um espaço que acho que encontra condições no Bloco que não encontra noutros partidos. Como eu disse, só para terminar já agora o meu raciocínio, eu acho que não é tanto relativamente aos outros partidos de esquerda, que deve ser a preocupação do Bloco andar a disputar votos, deve ser, sobretudo, ir disputar os votos de uma população descontente, que está ou na abstenção ou, do meu ponto de vista, de forma muito equivocada, que tem vindo a aderir de forma crescente à extrema-direita. Extrema-direita essa que seguramente não lhe vai dar as respostas que legitimamente aspira e anseia e que acho que, do meu ponto de vista, o Bloco tem todas as condições para dar. Então é sobretudo para aí que devemos direcionar a nossa comunicação, a nossa proposta política e o nosso trabalho conjunto. Não se trata apenas de falar para estas pessoas, trata-se de falar com estas pessoas, trabalhar com estas pessoas e dar voz a estas pessoas e às suas aspirações nos vários planos políticos.
Alexandre Abraão, deixa-me ir aqui às presidenciais. A esquerda não tem ninguém no Palácio de Belém há praticamente 20 anos. O Parlamento atualmente está com maioria à direita, ainda agora estávamos a refletir sobre isso. Não tinha feito sentido apostar numa candidatura de união para Belém?
Tinha, acho que sim. Acho que teria sido positivo haver uma candidatura unitária à Presidência da República, pela mesma ordem de ideias do que eu estava a dizer há pouco, faz cada vez mais sentido trabalho unitário em diferentes esferas, nas candidaturas autárquicas, em termos da articulação para o trabalho parlamentar, em termos de convergências em diferentes áreas temáticas e também para a Presidência da República teria feito sentido. É conhecido que houve algum trabalho com vista a possibilitar uma solução de convergência unitária em torno de Sampaio da Novo, infelizmente não foi bem-sucedida. Possivelmente não foi muito bem conduzida, mas também não estou exatamente por dentro dos detalhes do processo.
Mas, portanto, o problema para a inexistência dessa candidatura unitária está em António José Seguro. Não é um candidato que conseguisse unir as várias esquerdas.
O problema fundamental, já tem sido dito, mas não posso deixar de dizê-lo aqui outra vez, o problema fundamental é que António José Seguro realmente não tem sequer uma vontade de se assumir como um candidato de esquerda. Nem sequer se trata apenas uma questão da mensagem que está a passar nestas eleições, em que teve aquele momento em que recusou a ideia de ser o candidato da esquerda, depois lá aceitou com muito medo e com muitas cautelas, ficar levemente encostado ao centro-esquerda. Nem sequer é disso que eu estou aqui a falar, mas estou a pensar em tudo aquilo que é um percurso e umas características do ponto de vista ideológico e de posicionamento, nomeadamente no período em torno da Troika, da relação daquilo que foi a postura do PS em termos da forma como lidou com o governo PSD/CDS no momento da Troika e dos programas de ajustamento econômico-financeiro e todas as agressões e regressões que isso representou para os trabalhadores em Portugal nessa altura. Em muitos desses aspectos, achamos que realmente António José Seguro está longe de representar a visão social de esquerda democrática. Será com certeza um democrata, faço-lhe essa justiça, mas tenho muitas dúvidas que seja de esquerda, seguramente não é de esquerda como a esquerda que nós aspiramos, enquanto que os outros candidatos o serão. A questão é que a forma como o processo decorreu, infelizmente, não permitiu uma articulação suficientemente plena. Houve quem quisesse avançar sem ter disponibilidade para conversar e quando isso acontece, fica difícil haver uma união.
Está a falar do PCP, no caso.
Em particular do PCP, o que eu lamento, sim.
Há gente no Bloco, e não só, que diz que o PCP entrou aqui numa deriva
de autossobrevivência, de algum sectarismo. Concorda com essa ideia?
Eu registo como um facto que o PCP decidiu apresentar um candidato à Presidência da República, alguém extremamente respeitável por quem tenho muito apreço político, em particular. Diria pessoal, mas não o conheço pessoalmente, mas seguramente tenho apreço político, é o António Filipe. Decidiu apresentá-lo de uma forma sem qualquer preocupação ou vontade de convergência, da mesma forma que também nas autárquicas foi essa a postura do PCP. Nem sequer vou falar especificamente do caso de Lisboa, porque foi essa a estratégia e opção para o conjunto do país, em todo lado. O PCP, pelas suas opções e motivos que serão respeitáveis em termos de decisão interna e de considerações internas, mas decidiu que iria sozinho e que não estava disponível para conversar, nem para procurar articulações, inclusive em casos em que havia disponibilidade para ser o PCP a liderar os candidatos da CDU a liderarem eventuais coligações. Portanto, objetivamente, não tem havido essa disponibilidade. Isto é uma opção do próprio PCP. Eu registo e lamento. Acho que seria positivo que pudéssemos ter uma maior articulação. Não se trata de uma fusão. Temos identidades distintas, o Bloco e o PCP. Temos posicionamentos distintos em relação a algumas coisas, apesar de convergirmos na maioria, mas eu acho que seria importante poder haver mais convergências, mais aproximações, e lamento que não o seja. A partir do momento em que isso não foi possível, da nossa parte, houve uma disponibilidade pessoal da Catarina Martins para avançar e pessoalmente acho que é uma candidata fantástica.
E deve ir até o fim, Catarina Martins, ou as sondagens podem indicar alguma necessidade de pragmatismo e de um apoio de última hora, por exemplo, de António José Seguro, mesmo que tenha que tapar a carinha no boletim?
Não vejo que isso faça sentido. Em primeiro lugar, as sondagens são relativamente animadoras face àquilo que alguns poderiam prognosticar olhando aos resultados mais recentes do Bloco enquanto partido. Claramente é uma candidatura que vai muito além daquilo que foi a representação eleitoral do Bloco nos meses mais recentes, o que mostra bem que a Catarina Martins é reconhecida pelas pessoas como alguém que tem realmente capacidades pessoais que são notáveis, que merecem apreço e confiança. Ela conhece muito bem o país, tem feito um trabalho notável a dar a conhecer aquilo que é o país, as pessoas que trabalham, as pessoas que cuidam pelo país afora, as suas necessidades, aquilo que deveria ser feito para melhorar a sua condição. E nesse sentido, eu acho que não só é fundamental que ela esteja presente para poder trazer para a campanha e para os debates toda esta mensagem e toda esta visão, que sem ela não estaria representada, seguramente não estaria representada da mesma maneira, como eu acho que é importante que vá até ao voto e depois logo veremos, dentro deste contexto, panorama, desta paisagem política muito fragmentada, logo veremos se consegue passar. Eu gostaria de acreditar que sim, à segunda volta. Se não for o caso, na segunda volta, aí sim é que se pode falar em tapar boletins de voto.
Mas nós vamos aí. Vamos entrar no segundo segmento do nosso programa, o Bloco Carne ou Peixe. O Alexandre Abreu é um estreante na Vici & Suave, mas as regras são claras: só pode escolher uma de duas opções.
Mas tenho visto que muita gente faz both.
Mas nós não costumamos permitir.
Já aprendeu essa parte.
Precisamente, em quem votava ou votaria numa segunda volta das presidenciais? Gouveia e Melo ou António José Seguro?
Esperando que não tenha que fazer essa escolha por causa da minha candidata passar à segunda volta, mas se fosse essa a circunstância, entre esses dois candidatos de centro, eu votaria provavelmente no António José Seguro.
E com quem é que preferia partilhar um camarote no Estádio da Luz? José Luís Carneiro ou Luís Montenegro?
Essa não é fácil, realmente, mas escolheu bem o estádio para o camarote.
Também estudamos.
Está bem. Também não sei. São ambos benfiquistas?
Não, Luís Montenegro é portista.
José Luís Carneiro, confesso, também não sei. Por acaso também não sei.
Muito bem. Apesar de tudo o que disse, é inquestionável que a minha proximidade política será relativamente maior para o José Luís Carneiro, mas apesar disso, teria mais interesse em partilhar o camarote com o José Luís Carneiro, porque no meio das jogadas do Benfica sempre aproveitaria para trocar impressões sobre a política e fazer algumas críticas à sua governação.
E confirmas, José Luís Carneiro é do Benfica. Sempre o podia puxar um bocadinho mais para a ala esquerda.
Se fosse um Benfica-Porto e o Benfica ganhasse, ainda ficaria mais contente de partilhar com o Luís Montenegro.
Quem é que iria apoiar na reta final de uma maratona? Pedro Soares ou Rui Tavares?
Como assim, quem é que eu iria apoiar?
Quem é que ia bater palmas?
São ambas pessoas com quem tenho uma excelente relação pessoal, curiosamente, e conheço há muitos anos, apesar de diferenças políticas. O Pedro Soares é um camarada, partilha o partido comigo e há divergências conhecidas face a almoço ao ano, mas eu pessoalmente tenho uma ótima relação. Com o Rui Tavares também tenho uma excelente relação. Aliás, ele teve a generosidade de vir por duas vezes a Cascais na última campanha. Gosto sempre muito de estar com ele e de falar com ele sobre as mais diversas coisas.
Portanto, o que estivesse em pior forma e que precisasse do seu incentivo.
Sim, não sei dizer. Só porque não vejo o Pedro Soares há mais tempo, talvez escolha o Pedro Soares.
Vai vê-lo este fim de semana. Em princípios, sim.
Em princípios, sim. Se bem que eu penso que a moção do Pedro Soares não está representada, mas posso estar aqui a cometer alguma imprecisão, mas julgo que é o caso.
Vamos apostar nisso. Uma última questão: com quem é que iria comer um gelado à Santini em Cascais? José Manuel Pureza ou Mariana Mortágua?
Vou com os dois. São camaradas e amigos e tenho o maior gosto de ir com ambos. Com os Emel Pureza vou estar este fim de semana. Vou estar com ambos mais uma vez, mas em particular vou estar de forma mais próxima no trabalho direto agora neste fim de semana, se bem que obviamente a Mariana também lá estará, e estará muito bem e é muito importante que esteja. Depois a seguir preciso de combinar algumas coisas com a Mariana Mortágua em torno de algum trabalho académico que também temos para fazer em comum, por isso neste caso combino o gelado com ela.
Muito bem, deixamos então o gelado e a Mariana Mortágua. Como é hábito no nosso programa, o convidado pode servir uma sobremesa, no caso, uma música. Que música é que nos traz e porquê?
Eu escolhi uma música chamada "País Colmeia", de um projeto musical relativamente pouco conhecido chamado Omyri. É um projeto musical português que combina música tradicional portuguesa, samples de música tradicional portuguesa, à Giacometti, com música eletrónica, algumas remisturas tipo world music experimental, e que neste caso desta música é uma colaboração com a Capicua, que é uma das cantoras e letristas de intervenção mais notáveis que temos em Portugal neste momento, claramente à esquerda também. E esta música tem uma letra com alguma piada e bonita, do meu ponto de vista. Fala de um país que trabalha e um país que batalha para garantir a sopa. Acho que é importante recordarmos que o nosso país é sobretudo feito de gente que trabalha, de gente que batalha, sobretudo nesta altura em que essa gente está sob um ataque tão concertado por parte das várias direitas. É importante lembrar porque é que fazemos política: é por causa destas pessoas que batalham todos os dias.
Alexandre Abra, muito obrigado por ter vindo a esta "Vixi Suave". Foi um prazer tê-lo cá. Vamos nos cruzar mais vezes no futuro. Os nossos ouvintes já sabem, podem ouvir esta entrevista na Rádio Observador, nas plataformas habituais e lê-la na íntegra no site do Observador. Até à próxima.