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Existem erros que nós erramos. A minha avó, se tivesse rodas, seria um caminhão.

Era uma figura que se chamava Maria, que estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro a chorar. Não via nada. Eu disse à minha família: "Eu só vou de 11 a Portugal e vou lá e vou ser rececionista". É friado!

Vocês os três façam um quadrado com Rui Miguel Tovar. Bem-vindo, Rui.

Alô, muito bem, tudo bem.

Tenho aqui uma pergunta daquelas de algibeira para ti: onde estavas a 6 de agosto de 2003?

Ora bem, esse dia, ou pelo menos à noite, estava no Estádio de Alvalade. Fui lá ver aquele jogo.

Ou seja, foste ver o Manchester United x Sporting, neste Estádio de Alvalade, no vinho.

É, mais no vinho era impossível. É verdade.

Neste episódio vamos falar da inauguração do Estádio de Alvalade a 6 de agosto de 2003, não é?

É verdade. É um grande dia do futebol do Sporting. Era um estádio europeu, portanto era também mais uma meta que a organização portuguesa cumpria aos olhos da UEFA, tendo em vista o Europeu do ano seguinte. Mas o que interessa aqui realçar, de facto, é o jogo em si, por ter sido a estreia de um estádio tão emblemático como o do Sporting e por também ter sido a despedida de Cristiano Ronaldo do Sporting. Ele teve um ano completo, foi o ano anterior, 2002, 2003, e de repente o Ronaldo arranca uma exibição extraordinária, tanto na primeira parte como na segunda. Pobre O'Shea, um lateral/central irlandês que jogava no Manchester United. Neste dia ele foi lateral-direito. O Fernando Santos era o selecionador, tinha posto o Ronaldo como extremo-esquerdo e o resultado foi bonito para o lado do Ronaldo. Tanto assim é que o Ferguson, quando se foi embora do estádio, só o fez na companhia de Ronaldo, no sentido de assegurar a contratação de Ronaldo. De facto, é um dia histórico. Até para o futebol português, porque significa todo um mundo novo para todos nós.

Exatamente.

Porque, de facto, uma contratação assim é incrível, através de um jogo particular. É como regressar a outros tempos em que, por exemplo, o José Águas, nos anos 50, fez um particular com o Benfica no Lobito, em Angola, e o Benfica contratou-o ali e quando voltou para Portugal, voltou com o José Águas. E aqui há um pouco o fascínio de voltar a outros tempos. E o Ronaldo conseguiu captar a essência e o olhar do Alex Ferguson.

É incrível. E essa história do Águas também, tens um paralelo muito interessante. Imagina o que era se o Águas não tivesse vindo para cá, não tínhamos nem Rui Águas, nem Lena d'Água. Já viste?

É verdade.

Ia ser ainda pior se ele não tivesse vindo. Mas realmente é incrível, aquele miúdo de 18 anos, vindo da Madeira, que começou a jogar no Sporting e que naquele jogo fez um jogo extraordinário.

Sim, já agora, dizer o resultado, 3x1 para o Sporting.

Exato, ainda não demos o resultado.

O primeiro gol foi do Luís Filipe, após um cruzamento de Rui Jorge, depois ao intervalo havia 1x0. Na segunda parte, 2x0 de João Vieira Pinto, de cabeça, e 3x0 de João Vieira Pinto, num grande gol, após um atraso de calcanhar de Lourenço, e o Manchester United marcaria o seu gol através de Hugo, na própria baliza. Se bem que é um gol muito contestado, mas é um gol polêmico, porque não se sabe bem se a bola entrou ou não, porque a bola bateu no poste e não se sabe se passou ou não a linha. Quem passou a linha e se a gente sabe, foi o Ronaldo. Que saiu do Sporting.

Que não marcou, mas foi embora.

Exato. Foi para fora e de facto ele no United ganhou músculo, ganhou experiência, ganhou categoria e ganhou nove títulos, incluindo uma Liga dos Campeões, marcou 118 gols em 292 jogos. E quando saiu, em 2009, deu, por assim dizer, ao Manchester United, saiu para o Real Madrid, e o Manchester United encheu os seus cofres com €96 milhões, tudo à conta desse jogo. É preciso ver também que Manchester United, na altura, o adjunto do Ferguson era o Carlos Queiroz. Por algum motivo é que o Sporting convidou o Manchester United. Já havia conversações nesse sentido, por o Carlos Queiroz ter treinado o Sporting, por ser um elo de ligação com a juventude, desde os tempos das conquistas dos Mundiais e dos Europeus sub-16 e 18. Portanto, tudo isto resulta numa bola de neve que vai desaguar na tal noite de agosto. Eu tive a sorte de ir lá pelo jornal Record e fiz a equipa do Manchester United e tenho ideia, nunca mais reli esse texto, mas tenho ideia que bati no pobre irlandês O'Shea, porque ele foi varrido, fintado vezes sem conta. E atenção, não era fintado na brincadeira pelo Ronaldo. O Ronaldo levou o jogo muito a sério e quando era fintado, era fintado. Não era Garrincha, não era voltar para trás e tentar outra vez. Ele era fintado e lá vai o Ronaldo.

Ou seja, não era para o bonito, era mesmo para ser eficaz.

Nem mais. Tanto assim é que o O'Shea, ao intervalo, já tinha pedido a substituição Já tinha dito ao Ferguson: "Eu não quero estar aqui mais. Estou a sofrer imenso." E por isso mesmo é que o Ferguson percebeu que havia ali um talento enorme e que era preciso, de facto, dar seguimento. E o curioso é que o O'Shea é substituído aos 52 minutos, depois de uma grande jogada do Ronaldo, jogada individual, claro, em que ele aparece à frente do Barthez, só que perdeu muito tempo e o Barthez conseguiu defender. Mas no ato contínuo, o Ferguson tirou finalmente o O'Shea. Coitado, ele tinha pedido ao intervalo a substituição. Não lhe tinham dado isso. E ainda durou sete minutos o martírio do homem. Coitado.

Tivemos aqui duas inaugurações, a do Estádio de Alvalade e a carreira internacional de Cristiano Ronaldo, que se tornou homem, separou-se o menino do homem nesse momento. O Estádio de Alvalade foi inaugurado ainda com o velho ao lado meio por demolir, não é?

Sim. O que também traz grandes memórias. O antigo para mim é que era.

Foi palco para grandes artistas, não é?

Sim, grandes artistas. Era um estádio à antiga, que é o estádio de pedra, que tinha graça. Eu diria que de todos os estádios do Europeu, os únicos engraçados, porque os outros não têm graça nenhuma, são os do Braga e o do Porto, o Dragão.

São muito bonitos. Do ponto de vista arquitetónico.

Têm um impacto visual lá fora e lá dentro. O Estádio de Alvalade é mais um estádio. Eu preferia o antigo, tinha muito mais carisma, tal como o Estádio da Luz antigo tinha muito mais. Mas esse então tinha muito mais carisma e o muito tem muitos Us para mim. Tinha muito mais carisma do que este. Mas é necessidade de remodelar, de estar de acordo com as exigências internacionais e portanto este estádio foi a sua estreia e o pontapé de saída foi dado pelo violino Jesus Correia. Lembro-me também desse momento, porque foi um homem inesquecível na história do Sporting e também na história de Portugal. E revoltou neste jogo. O Fernando Santos, coitado, que quando assinou com o Sporting tinha Quaresma e Ronaldo à sua disposição, de uma assentada ficou sem os dois, porque o Quaresma já tinha ido para o Barcelona e o Ronaldo nesse jogo foi para o Manchester United. Como o destino prega partidas, em 2016, o Fernando Santos foi campeão europeu com Quaresma a substituir Ronaldo na final do Europeu.

Naquela final de Paris, quando todos nós pensamos: "Oh, meu Deus!"

Oh, mon Dieu!

Oh, mon Dieu, exatamente.

Na final, o Éder conseguiu dar a volta com a ajuda de todos.

É verdade.

Mas é curioso que o Fernando Santos em 2003 viu sem topos de aranha, em 2016, com os dois meninos, deu a volta ao texto de que maneira.

E ainda olhando para o velho Estádio de Alvalade, já não vamos ter tempo para falar aqui nos grandes concertos no Estádio de Alvalade. Eu destaco só um, que eu não sei se estavas lá. Olha, eu estava neste, do GNR em 1992, no velho Estádio de Alvalade. Foi um concerto absolutamente incrível e que entrou para a história da música portuguesa. Falta-nos falar aqui de uma coisa, Rui, de dinheiro. Ora, o estádio custou 184 milhões de euros, segundo as referências que encontrámos, o que representa um desvio, atenção, de 75% em relação ao orçamento inicial, que era de 106 milhões. Eu diria, tudo normal, Rui Miguel Tavares. Portanto, devia custar 106, acabou por custar 184 milhões.

Está ela por ela, não é?

Foi um errozinho nas contas.

Mas isso é o zero a zero, em todas as competições. O Brasil foi escandaloso, por exemplo, no mundial 2014. O desvio passou os 1000%.

Para ser mais redondinho.

Está tudo bem. Mas no Euro 2004 também houve muitos desvios. Foi uma coisa escabrosa mesmo, porque é inaceitável como é que isso acontece, como é que ninguém presta contas, como é que ninguém é chamado à pedra. Mas todos os estádios do Euro 2004 também ficaram a dever essa situação. Portanto, o custo era tanto e depois acabou por ser muito mais. E isso diz bem daquilo que infelizmente o futebol também traz, que é esses jogos laterais, esses jogos subterrâneos, que nada têm a ver com as figuras do futebol e com aquilo que é realmente o ópio do povo, que é uma bola de futebol e 22 jogadores.

Exatamente.

Porque muitas vezes isso é que estraga o fascínio.

É que estraga a bola.

É que estraga a bola.

Rui, falta aqui só mesmo um pormenor, já estamos mesmo aqui em cima do tempo. Dulce Pontes cantou "O Amor a Portugal" na abertura do estádio, "O Amor há de Vencer". Vamos só ouvir aqui um instante.

"O Amor há de Vencer".

"O Amor a Portugal", de Dulce Pontes e Ennio Morricone, que morreu recentemente. E esta canção foi lançada precisamente em 2003. Foi um sucesso gigante em Portugal e também lá fora. No fundo, foi como Ronaldo, foi um sucesso cá dentro e depois lá fora. Rui.

Agora só um pormenor meu. Estou aqui a ver, por exemplo, Estádio de Leiria, custo de referência 19 milhões, custo total 51. 19 para 51.

Olha, a esta distância já nos rimos. Vocês os três façam um quadrado com Rui Miguel Tavares. A sonorização é do Diogo Casinho, eu sou o Ricardo Conceição. Rui, um grande abraço.

Grande abraço, obrigado. Até sábado.

Existem erros que nós erramos. A minha avó, se tivesse rodas, seria um camião. Era uma figura que chamava-se Maria, estava a chorar e eu estava a olhar para o quadro. A chorar, não via nada. Eu disse à minha família: "Eu só vou a Londres por Portugal. E vou lá e vou ser feliz em festa." É goleado hoje.

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