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Seja bem-vindo a mais um "Vozes Circulares". É o podcast da Associação Smart Waste Portugal, onde fica a saber tudo sobre economia circular. E um dos grandes motores para a economia circular é a digitalização. E é disso que vamos falar hoje. E para isso tenho comigo José Carlos Caldeira, consultor da presidência do INESC TEC, e também Ricardo Morgado, cofundador e responsável pela área da economia circular na The Loop Company. Muito obrigado por terem vindo aqui ao "Vozes Circulares". Já há vários episódios que andamos a tentar também explicar o que é isto da economia circular e as suas várias características. Uma delas, ou um dos motores para isso mesmo, para tornar as nossas empresas cada vez mais circulares e a própria sociedade também ter comportamentos nesse sentido, falamos hoje de digitalização. José Carlos, por que a digitalização é, de facto, um dos grandes motores para a economia circular e como é que ela ajuda as empresas a produzirem produtos mais circulares?
Muito bom dia. Nós, por razões várias, quando falamos de economia circular, a primeira coisa que nos vem à ideia é pegar nos resíduos e aproveitar aqueles materiais e reintroduzi-los nas cadeias de produção. Mas a economia circular não é isso, nem devia ser sobretudo isso. A razão é compreensível, porque é isso que nós vemos, o lixo que temos, mas a nossa preocupação devia ser como é que nós produzimos menos resíduos. E para produzir menos resíduos, isso implica olhar para a cadeia de valor, desde os materiais aos componentes e aos produtos, e ver como é que eu consigo reduzir essas intervenções. E portanto, é neste contexto que surgem os conceitos que agora estão na moda, eu vou usar o termo em inglês, mas vou explicar o que é, o "safe and sustainable by design", que é o termo oficial destas coisas, ou seja, a necessidade de desenvolver materiais, componentes, produtos, que sejam concebidos e produzidos de forma a minimizar precisamente a produção de resíduos.
Já nascem com essa função.
Exatamente. Não é no final que eu vou ver o que é que faço ao lixo, é eu desenho os produtos e os materiais de maneira a reduzir o lixo. Isso implica, como eu disse, trabalhar ao longo de toda a cadeia de valor, desenhando os produtos de maneira que sejam mais duráveis, por exemplo, ou seja, quanto mais tempo durarem, menos resíduos eu produzo, naturalmente. A desenvolver os processos de produção de maneira que usem menos recursos, materiais e energia. Depois, apoiar os utilizadores na utilização dos próprios produtos. Vamos pensar numa máquina de lavar, eu poder dar instruções ao operador, ao utilizador, ao consumidor, está na altura de fazer uma manutenção. Ou seja, apoiar o consumidor de maneira a esticar o máximo possível a duração dos produtos e depois, no final da sua vida, eu ter uma ideia, uma informação sobre como é que estão os vários componentes e os vários materiais para ver se há alguns que eu posso reutilizar noutras máquinas, e aqueles que eu tenho que reciclar, o mínimo que eu tenho que reciclar, em que condições é que estão para ser reciclados, se eu os posso reciclar, em que outras produções, em que outros produtos eu posso inserir. Ora, tudo isto implica, para além das funções de gestão ao longo destes processos, eu só vou usar a terminologia para as pessoas compreenderem, desde as ferramentas para desenvolver os produtos às máquinas, aos sistemas de informação de apoio, precisamente ao consumidor, etc. Todos eles hoje estão largamente apoiados por tecnologias digitais. Há aqui uma componente crítica que é a troca de informação entre os vários parceiros ao longo desta cadeia de valor, desde quem produz materiais, depois quem produz os produtos, aos utilizadores, aos consumidores, quem vai reciclar. E essa troca, a geração dessa informação, a troca dessa informação e o processamento desses grandes volumes de informação só são possíveis através de tecnologias digitais.
Ricardo, a economia circular procura, de facto, como também o José Carlos estava aqui a explicar, aumentar o tempo de vida dos produtos e promover a sua reutilização. Como é que tecnologias como a internet das coisas, a blockchain ou outras que considere relevantes lembrar, podem contribuir para esse objetivo? É que estamos aqui a falar depois de conceitos que ajudam isto, não é?
Exatamente. E no seguimento da intervenção, que eu saúdo desde já o professor José Carlos, tudo começa na forma como nós idealizamos o produto, na sua conceção, o conceito ecodesign. Quanto mais nós prepararmos as cadeias de produção e os produtos que lançamos para o mercado para que eles possam ser mais reutilizados, maior será a probabilidade que isso aconteça. Depois há tudo o resto. É preciso que o resto da cadeia e que também os consumidores e as empresas que interagem com os consumidores tenham as ferramentas para promover que esse ciclo de reutilização possa ser o mais extenso possível. E o que hoje vemos é que, de facto, há uma predisposição cada vez maior do consumidor a participar nesse ciclo de reutilização, talvez por uma questão geracional, até.
Estão a mudar os comportamentos.
Talvez, se calhar no tempo dos meus pais era muito importante ter um carro, ter uma casa. Hoje, se calhar, para umas gerações mais novas, mais importante do que ter é poder utilizar de forma mais inteligente e, portanto, conceitos desde a mobilidade, de co-sharing, ao boom que houve, por exemplo, nas plataformas de venda de roupa nos últimos anos. E hoje cada vez mais aos produtos também eletrônicos, ou seja, hoje se formos a uma FNAC ou uma Decathlon, das principais coisas que nós vemos numa loja é os programas de entrego o produto que já não precisa, ou venda ou reparo. Portanto, para a pergunta sobre a tecnologia, eu acho que a tecnologia por si só, e já vou a caso especificamente, é talvez um dos principais enablers para uma economia circular que passe a teoria à prática. Não sei se o principal, certamente não ultrapassará as políticas públicas e a parte de conscientização dos consumidores, mas não tenho dúvidas que a tecnologia é o que traz para a palma da mão das pessoas e para os sistemas da empresa, para dizer de formas simples, as ferramentas necessárias para tornar todos estes ciclos circulares, que fogem muito às cadeias e às ferramentas já muito testadas e instaladas de cadeias de economia linear, para que elas possam funcionar. E aí, eu acho que há três tecnologias que hoje vão ser importantíssimas para um crescimento exponencial. Duas já foram referidas, a questão do blockchain e IoT, muito importantes para toda a tracibilidade da cadeia de valor, por exemplo, o Digital Product Passport ou como se costuma dizer, o DPP, que será o passaporte digital que os produtos vão começar a ter, para que o consumidor saiba a todo momento muita informação, uma das quais é como é que aquele produto foi feito, de toda a sua cadeia de valor, de onde é que vieram, quais foram os processos, de onde é que vieram os materiais, as matérias-primas, mas também como é que pode fazer para o reparar, para o reutilizar, etc. Isso depois casa aqui com outras iniciativas, como o Right to Repair, também na União Europeia. Mas depois uma muito importante também é a inteligência artificial. Nós, na Loop Company, trabalhamos ferramentas de economia circular e um dos grandes problemas é sempre, por exemplo, como identificar defeitos, um exemplo numa peça, ou como conseguimos chegar ao preço ótimo daquele produto no mercado. Porque estamos a falar coisas que já têm utilização, o que essa utilização pesa no valor do produto, e tudo isso são exemplos de coisas que a inteligência artificial nos pode ajudar também a resolver. Portanto, eu acho que o boom tecnológico das últimas décadas, e que só vai continuar, pode ser também potenciado para tornar as cadeias de economia circular cada vez mais viáveis.
Eu tinha, por acaso, essa pergunta para o Zé Carlos, mas o Ricardo depois se quiser acrescentar, é que de facto a inteligência artificial até cria aqui alguns receios em outros setores, mas neste pode de facto ser um grande aliado para práticas cada vez mais digitais, cada vez mais circulares.
Como estávamos a dizer, os desafios da circularidade, se eu quiser conceber um produto de forma circular, eu tenho que processar volumes brutais de informação das várias fases da cadeia de produção. Quando eu estou, por exemplo, a desenvolver um material, até agora eu desenvolvia o material, cria determinadas características, desenvolvia o material. Preocupava-me um pouquinho como é que ele era produzido, mas mesmo depois, como ele era utilizado para produzir os produtos, já me preocupava cada vez menos, como era utilizado ainda menos e então como era reciclado, vou chamar assim, pois já não ligava nenhum. Eu agora, se eu quiser desenvolver um material a pensar nisto tudo, eu tenho que recolher, lidar com a informação de toda a cadeia de valor. E para além disso, vários dos objetivos que nós estamos aqui a falar, eles são contraditórios, ou seja, opõem-se. Se eu disser que quero produtos cada vez mais customizados e feitos à medida e à necessidade do consumidor, de maneira a eu não produzir para estoque e ter munus, eu tenho que produzir pequenas quantidades próximo do consumidor. Isso choca com a conceção que nós temos de eficiência e produtividade, que é produzir grandes volumes em série. E portanto, alguns destes objetivos são conflituantes. E eu, quando estou a analisar o desenvolvimento, tenho que encontrar compromissos, equilíbrios. Por exemplo, eu posso usar um material, a primeira utilização, uma matéria-prima que vem da natureza, ou posso utilizar uma matéria-prima reciclada, plástico, por exemplo. Estes dois materiais têm preços diferentes e têm características diferentes. E eu tenho que ponderar quando estou a desenvolver o meu produto, qual é a mistura que eu posso fazer, até onde é que eu posso ir, em função, por exemplo, do meu processo produtivo. Estas análises, com este volume de informação, é impossível um humano lidar com isto. E aí a inteligência artificial ajuda-nos muito. É um dos sítios onde a inteligência artificial vem ajudar as pessoas, vem ajudar a estes desafios que nós estamos a atravessar e não com preocupações de se vem substituir ou se vem afetar, porque aqui é claramente o sítio onde ela vem. Eu costumo dizer, nós temos desafios cada vez mais complexos, cada vez mais multidisciplinares, mais complexos. Felizmente, também vamos tendo tecnologias cada vez mais complexas e poderosas que nos ajudam a lidar com esses desafios.
Ricardo, a Loop tem projetos em particular que ajudam as empresas neste processo de digitalização dos seus processos produtivos, mas se calhar também organizacionais.
Sim. O nosso principal produto, e aquele que está neste momento em maior fase de crescimento no mercado, chama-se Loop OS, ou o sistema operativo da economia circular, como nós lhe chamamos, que é hoje utilizado já por mais de 100 empresas para digitalizar e dar as ferramentas para poderem posicionar-se no mercado da reutilização e da circularidade. E é interessante, nós trabalhamos neste setor há alguns anos e percebemos uma coisa que acho que é bastante fácil de perceber também para quem nos está a ouvir. As empresas, os retalhistas onde nós compramos o nosso telefone ou uma camisola, até há uns anos não estavam muito preocupados com o que acontecia depois do consumidor sair da loja Mas começaram a perceber que essa predisposição nos chamados marketplaces, como os Facebooks ou OLX, etc, havia uma vontade do consumidor em querer dar uma segunda vida ou uma terceira vida, uma quarta vida, e cria-se quase uma outra toda economia com esses produtos que saíam das lojas. Então as marcas começaram também a pensar: "Por que não nós também não aumentarmos a experiência e o ciclo de vida do produto na nossa esfera e criarmos os canais para que, um exemplo, um telefone, quando sai, possa voltar para ser vendido, não num marketplace fora, mas outra vez na marca onde o adquirimos ou possa ser reparado e tudo mais". O sistema que nós criamos permite que qualquer empresa gire o canal circular que bem entender, seja um canal de compra aos clientes para voltar a vender, seja um canal de reparações, de devoluções. E temos aqui até casos que nós nunca imaginamos. Vou dar aqui um exemplo muito interessante. Nós estamos a trabalhar hoje na área dos seguros, das seguradoras, e podemos pensar o que é que têm as seguradoras a ver com economia circular. Mas é fácil pensarmos quando um seguro é ativado, existem normalmente os salvados. Os salvados, simplificando, são os bens que ainda sobram. Vejamos, se uma cozinha tiver um incêndio, o seguro for ativado, pode haver bens salvados, como o frigorífico ainda está bom ou o micro-ondas.
Como um carro que se vende acidentado, salvado.
Exatamente. Também acontece, também há salvados automóveis. Esses bens muitas vezes ficam para as seguradoras, que se torna stock, e stock com muito potencial de ser monetizado, de ser reutilizado, de ser reciclado, de ser doado, mas que ninguém ainda inventou uma forma de gerir isso. Ora, nós hoje estamos a trabalhar nesse mercado para digitalizarmos com essa ferramenta, com o LoopOS, e criarmos os canais para tornar este gigantesco potencial em mercado e em oportunidade. E é muito interessante que nós hoje também com o LoopOS, com este produto que nós desenvolvemos, ele é a base também de algo muito interessante que pode ser aproveitado pelas empresas portuguesas, sobretudo as PMEs. Nós gerimos uma testbed da Rede Nacional de Testbeds apoiadas pelo PRR, dedicada à digitalização da economia circular, que permite que uma PME possa pilotar um canal de economia circular, fazer um piloto de economia circular com acesso muito facilitado, uma vez que há este financiamento por parte do PRR, às ferramentas de economia circular. E nós temos cada vez mais pilotos também de pequenas e médias empresas portuguesas que querem testar economia circular e conseguem.
Porque essas são as que têm maior dificuldade também na adoção.
Obviamente que sim. Quando falamos de montar novos canais, e neste caso canais de economia circular, para uma grande empresa, é sempre difícil, porque tudo nas grandes empresas é mais difícil, as decisões demoram, os investimentos são grandes, mas há esses recursos. Nós trabalhamos com grandes empresas como a Fnac, os CTT, a Decathlon, mas também trabalhamos com empresas onde o potencial transformador pode ser muito maior. Quando digo muito maior, pode representar no curto prazo mais 20, 30% de negócio, mas que não têm muitas vezes os recursos necessários para investir nessas ferramentas. E com este programa também é mais simples. Portanto, Circular Innovation Loop, é assim que se chama a testbed, e penso que até o final do ano está disponível para mais pilotos.
Ótimo. José Carlos, estamos quase a ficar aqui sem tempo, mas queria também a sua opinião sobre a realidade nacional. Aqui falávamos da dificuldade que têm as empresas um pouco mais pequenas na adoção de alguns destes conceitos, mas como é que está o panorama nacional neste capítulo da digitalização e até comparado com outros países ou com os nossos principais concorrentes?
Pois, temos de tudo, temos um bocadinho de tudo. E eu gosto de comparar coisas que sejam comparáveis, portanto, setores que sejam comparáveis. Temos setores que estão muito avançados, que comparam muito bem com países europeus e mesmo fora da Europa. A banca e vários serviços utilities são exemplos disso. A nossa banca, comparativamente com outros países, é relativamente recente e, portanto, quando foi criada, foi criada já com sistemas digitais poderosos, o que lhe permitiu criar um conjunto de serviços digitais em cima muito interessantes. Mas também nos serviços públicos temos bons exemplos. Os serviços que nós temos sempre ao nível do Portal das Finanças é um excelente exemplo. Esta semana eu tive um exemplo, trabalhamos com um consultor alemão, tivemos que fazer um pagamento, pedimoslhe um certificado fiscal da morada dele, coisa que para nós vamos ao site e tiramos na hora, e ele disse que demorava porque tinha que ir às finanças e tinha que pedir para eles mandarem. Estamos a falar de alemão, portanto há coisas onde nós estamos à frente. Já para não falar nos exemplos mais conhecidos da Brisa e do Multibanco, enfim, que já todos conhecemos. Mas depois há coisas interessantes também, por exemplo, na indústria, também há setores que já usam digitalização há muitos anos. Os moldes, por exemplo, há 40 anos que usam tecnologias digitais e muitos setores da metalomecânica. Há um caso muito interessante nos últimos 10 anos, que é o boom de digitalização, por exemplo, na agricultura, e muitas pessoas não sabem disso, há um boom de digitalização e de uso de tecnologias digitais na agricultura. E depois temos setores mais atrasados e que estão aquém daquilo que poderiam estar, quer do lado privado, quer do lado de serviços públicos. Eu dei há bocado um bom exemplo do lado de serviços públicos com o Portal das Finanças. Se eu quiser dar um exemplo, isso nos está a acontecer, por exemplo, e que está muito na moda, e também está agora, que é os sistemas de apoio à gestão dos sistemas de incentivos, por exemplo, são sistemas que poderiam estar muito melhor do que estão.
Muito bem, no Vossos Circulares de hoje ficamos a saber como é que a digitalização é um dos fortes aliados para a economia circular, aqui com a ajuda do José Carlos Caldeira, do INESC Tech, e também do Ricardo Morgado, da Loop Company. Obrigado pelos vossos esclarecimentos. No próximo programa vamos falar de servitização e economia da partilha. Não perca, aqui na Rádio Observador e também nas plataformas de podcast. Até lá.