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Aqui na Rádio Observador continuamos a falar de economia circular e de sustentabilidade. Este é o "Vozes Circulares", um podcast com o apoio da Associação Smart Waste Portugal. Eu sou o Nelson Ferreira e hoje tenho comigo Bruno Silva, diretor de Relações Públicas e Sustentabilidade do PIEP, Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros, e também o António Lorena, Managing Partner da TrêsDriver, aqui para uma conversa hoje sobre inovação para a economia circular. Sejam bem-vindos à Rádio Observador, Bruno, António. Bruno, iria começar por si, porque já noutros episódios aqui do "Vozes Circulares" falamos ao de leve da inovação e parece-me ser um conceito completamente essencial, um dos grandes aliados para uma economia que se quer cada vez mais circular.

Sem dúvida, eu entendo que a inovação é um dos pilares mais importantes, de certa forma, para nós podermos viabilizar, mas também acelerarmos a economia circular. Eu acho que desde logo tem a ver com questões relacionadas na forma como nós desenvolvemos produtos baseados no ecodesign, a forma do produto permitir a sua reparação, a sua reutilização, onde nós através de softwares também podemos fazer a simulação de componentes, onde o nosso foco está em termos menor quantidade de matéria-prima no componente, sem que isso afete a sua função mecânica, a sua função mais funcional do próprio componente. Mas eu penso que a inovação é importante e a questão tecnológica quando nós abordamos materiais. E o PIEP tem o foco no desenvolvimento de materiais, a questão de desenvolvimento de biomateriais, materiais reciclados, mas que nos produtos nós possamos incorporar reciclado e sejam recicláveis no seu fim de vida, o desenvolvimento de tecnologias que permitam o desenvolvimento destes materiais e destes produtos que sejam recicláveis no seu fim de vida e o caso dos materiais compósitos. Mairitariamente os materiais compósitos que são aplicados, por exemplo, em pás eólicas e em outros componentes que têm um problema de fim de vida devido ao polímero, aqui é um termo irreversível. Nós hoje no PIEP estamos a trabalhar em soluções de materiais compósitos, por um lado, com resinas termoplásticas, onde nós permite-nos no fim de vida que esses mesmos materiais compósitos sejam recicláveis e ao mesmo tempo também trabalharmos com outro tipo de fibras, não só fibras sintéticas, mas também fibras naturais.

A biotecnologia será sempre um aliado?

A biotecnologia é importante. É importante quando nós pensamos em valorizar, por exemplo, recursos e resíduos e transformá-los em novos materiais, em novos biomateriais. Mas eu acho que esta componente da digitalização, do blockchain, são importantes também. São importantes, por um lado, nós conseguirmos implementar para permitir a otimização de processos, onde nós hoje conseguimos sensorizar os equipamentos produtivos, conseguimos perceber e de forma integrada com modelos digital twin, otimizar o próprio processo produtivo, mas também naquilo que me parece importante, que é nós vamos poder, com essas tecnologias, implementar o passaporte digital do produto. Isso será fundamental para nós podermos passar a informação ao consumidor do que está a comprar, nomeadamente o seu produto, mas também da própria embalagem, permitir saber ao consumidor qual a pegada de carbono e associado a isso também para o fim de vida, porque estas tecnologias permitirão fazer que nós no processo de reciclagem possamos segmentar e fazer uma separação, uma triagem mais eficaz. E eu dou aqui o exemplo de que ao dia de hoje, é difícil nós separarmos embalagens de contato alimentar e sem ser contato alimentar nas centrais de valorização. E, portanto, se nós tivermos aqui um passaporte digital, é mais uma ferramenta para nós conseguirmos identificar e conseguirmos separar, permitindo uma disponibilidade de matéria-prima de contato alimentar que hoje não existe, tendo único e exclusivamente que seguir maioritariamente por reciclagem química, mas poderemos valorizar aqui componentes, para não falar na questão da inteligência artificial.

Ia perguntar-lhe isso, perdão.

Eu acho que nós podemos implementar nos sistemas de separação de resíduos, nós conseguimos com equipamentos digitais, com sensores, com inteligência artificial, nós conseguimos detectar os materiais de forma mais efetiva, evitando que determinados materiais que não seriam identificados para separação pudessem ir para aterro. Mas plataformas digitais que também estão a ser implementadas para a questão, por exemplo, de venda de artigos em segunda mão, é também aqui um fator de promoção para um novo mercado.

São muitas oportunidades também que podem surgir com esta mudança.

Sem dúvida. Teríamos muito mais para falar sobre este tema.

O António está aqui também representando a TrêsDriver, é uma consultora em sustentabilidade e economia circular. Por isso é que, António, queria perguntar se consegue identificar quais são as principais dificuldades com que se batem as empresas que precisam de alguma forma de mudar de paradigma para serem mais inovadoras, para incorporarem nos seus produtos também este conceito de economia circular.

Claro. O tema de procurarmos um modelo de economia circular dentro das empresas depende, em grande medida, daquilo que nós temos com escassez de recursos. Ou seja, há aqui uma perspectiva das empresas de quando um recurso é limitado, se tornarem mais eficientes. E essa procura pela eficiência acaba por muitas vezes ser o principal driver para conseguirem inovar, acederem, por exemplo, a matérias-primas mais baratas Por outro lado, quando nós temos uma produção de resíduos ou qualquer outro elemento, digamos, uma poluição atmosférica ou emissões para a água, quando elas existem e existe uma pressão legal, por exemplo, para reduzir essas emissões, nós também encontramos modelos de economia circular. E eu acho que o exemplo que o Bruno trouxe, das pás das turbinas eólicas, eu acho que é um dos melhores exemplos que nós temos hoje em dia, e ainda bem que existem entidades como o PIEP que estão a procurar essas soluções, mas são temas extremamente difíceis. As maiores empresas do mundo, as que produzem este tipo de equipamentos, têm este desafio. A legislação existe. Todos sabemos que essas pás acabam, a maior parte delas, em aterro. E o que acontece? Nós temos um produto que é tão otimizado, porque tem que ser leve, tem que ser resistente, e essa obrigação, quase, para nós conseguirmos produzir energias renováveis de forma eficiente, obriga-nos a ter um produto muito complexo. E isto é um exemplo de uma barreira que nós encontramos. Produtos muito complexos têm uma dificuldade acrescida de nós pensarmos no modelo de economia circular, e aí a inovação é o único instrumento que nós temos. Não temos nenhum sistema de gestão de resíduos hoje em dia que consiga tratar de forma circular as pás. E por isso temos que vir atrás, temos que desenhá-las com produtos, com compósitos que sejam mais facilmente recicláveis. Essa inovação está, eu diria, nos grandes centros de conhecimento, são os PIEPs desta vida, passando aqui o elogio de forma fácil, e das grandes empresas, obviamente. Quando nós começamos a olhar para aquilo que são as PMEs, que constituem o tecido nacional.

São as que têm mais dificuldades.

Têm mais dificuldades porque têm dificuldades de aceder. Eu diria que a questão não é tanto fluxo financeiro, porque hoje, felizmente, existem muitos instrumentos financeiros que conseguem dar estrutura às empresas, estrutura, digamos, liquidez às empresas para conseguir investir na inovação. Temos os SIFIDES, etc. Aqui a dificuldade é termos pessoal, termos pessoas, termos capacidade humana para conseguir responder a estes desafios.

E eu tinha essa pergunta também para lhe colocar, António. Que papel é que podem ter as políticas públicas e até legislativas nesse incentivo à inovação? Já estava a tocar um pouco nisso, até porque os grandes beneficiados serão as PMEs.

Sim, nós temos hoje em dia em Portugal um regime muito interessante para as empresas investirem na inovação para estes temas da economia circular. Por exemplo, o SIFIDE até tem uma majoração, não querendo entrar aqui nos pormenores, mas o SIFIDE até tem uma majoração para projetos de ecodesign, mas infelizmente, de acordo com a própria ANI, que tutela ou que gere o sistema do SIFIDE, não existem muitas empresas a utilizar este bónus que existe associado ao ecodesign.

É falta de conhecimento?

Não acho que seja falta de conhecimento, porque na verdade também existe um ecossistema de consultores que apoiam as empresas neste tema. Muitas vezes nós deparamo-nos com uma dificuldade de percecionar o valor desta inovação, e eu diria que isso é uma outra barreira.

Cultural, quase de pensamento.

Existe uma resistência típica ou normal, eu não vou dizer que é cultural, não é só portuguesa, mas existe uma resistência, por vezes, à alteração do modelo de negócio, porque o fornecedor não vai querer, porque vai custar dinheiro. E isso, na verdade, também está nas mãos de entidades como a A3 Drivers ou como a OPIEP, conseguir construir aqui um business case para as empresas, conseguir lhes mostrar que há mais-valias. E as empresas que conseguirem perceber isso, e já há muitas, obviamente, que o percebem.

Vão ter vantagem competitiva.

Vão ter vantagem competitiva. Eu costumo argumentar, usar aqui um número-chave. Portugal é dos países da União Europeia em que as empresas da indústria transformadora gastam mais do seu volume de negócios com matérias-primas e mercadorias. Gastam mais sete pontos percentuais, por exemplo, em média, do que as empresas na Alemanha. E isso significa o quê? Que esses sete pontos percentuais que a Alemanha gasta a menos, significa que podem investir mais na modernização, podem investir mais na valorização dos recursos humanos e por aí adiante. Ou seja, a eficiência material, aquilo que nós defendemos com a economia circular, devia ser um desígnio económico, não só ambiental, mas também económico. A legislação, só para responder, a legislação tem um papel crítico. Nós hoje estamos muito sujeitos no tema do ambiente à legislação europeia. É isso que no fundo que norteia a legislação ambiental nacional é o alinhamento com a legislação europeia, mas existem instrumentos que nós podemos ativar, e Portugal, eu diria, é moderno nesse aspecto, tem conseguido fazê-lo. Cabe mais depois às empresas conseguirem utilizar esses instrumentos.

Bruno, o PIEP, o Polo de Inovação em Engenharia de Polímeros, está na academia, de alguma forma. As universidades, os centros de investigação têm um papel fundamental também no incentivo dessa inovação empresarial. É essencial que exista uma cada vez maior interação entre as empresas, a investigação, destes atores todos dos setores com vista a esta economia cada vez mais circular?

Eu diria que sem dúvida. Ou seja, eu acho que as universidades e os centros de investigação são fundamentais para a criação de um ecossistema.

E como é que é o cenário atual?

Que ele possa realmente, por um lado, valorizar o conhecimento que existe nas universidades, através da inovação, da inovação no desenvolvimento de produtos, de tecnologias, de serviços, por parte das empresas, permitindo a criação de valor, porque isso será fundamental. Será fundamental para nós podermos exportar mais, podermos manter os empregos. Portanto, a questão da resiliência do país será fundamental. Mas eu acho que neste mesmo ecossistema de inovação, é fundamental o envolvimento de atores públicos, de ONGs e da sociedade em geral, porque só assim nós conseguiremos verdadeiramente fazer esta aceleração para a economia circular. Desde logo porque as universidades têm realmente de base o conhecimento científico, onde desenvolvem toda esta investigação mais de base científica. Os centros de tecnologia e inovação fazem aqui a componente mais de desenvolvimento, de inovação, de transferência de tecnologia para a indústria e, acima de tudo, as empresas que também têm muito conhecimento, que também fazem internamente muita inovação, podem realmente valorizar.

São as mais interessadas nesta inovação, não?

Sem dúvida. São elas e somos todos nós, porque podemos ter-

Como consumidores.

Como consumidores. Eu acho que há aqui um papel importante, e o António também referiu, que eu acho que tem a ver com nós termos recursos altamente qualificados. Eu acho que as empresas também têm aqui este papel, porque a inovação faz-se com recursos altamente qualificados e, portanto, as universidades têm um papel. O próprio PIEP também já o fez. Nós temos uma academia de formação específica para questões de reskill, de upskill, até de técnicos das próprias empresas e, portanto, nós achamos que isto é fundamental. Mas não menos importante, eu acho que é um ponto que eu costumo referir sempre, que é a sensibilização que tem que ser feita pelas universidades, pelos centros de investigação, pelas empresas, junto à própria sociedade civil.

Aumentar a literacia.

A literacia é fundamental. E quando eu falo nesta questão da relação entre as universidades, os centros de tecnologia e as empresas, eu costumo dar um caso muito específico que o PIEP desenvolveu, um projeto em colaboração com a APIP, Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos, onde nós construímos um projeto mobilizador para a transição para uma economia circular do setor dos plásticos em Portugal, onde nós olhamos para aquilo que era o setor ao nível da economia circular. Numa economia linear, nós tínhamos maioritariamente empresas transformadoras de plásticos. Quando olhamos para uma economia circular, nós temos desde a indústria química, as empresas transformadoras de plástico, temos as empresas de marca própria, temos as empresas de retalho, os retalhistas, temos entidades gestoras de resíduos, temos empresas de reciclagem e, portanto, nós com base neste projeto, integramos toda esta cadeia de valor, todas essas empresas, onde nos focamos no desenvolvimento de novos materiais, novas tecnologias e fizemos mais. Nós trouxemos para o ecossistema, através de um advisory board, entidades como a APA, como a DGAE, ONGs, associações setoriais, desde o retalho, desde as bebidas, desde o setor automóvel, porque nós entendemos que só assim, com o envolvimento de todos, é que nós seremos capazes de realmente acelerar esta transição.

Eu tinha precisamente uma pergunta relacionada com isso, era se o Bruno considera que, de facto, a indústria dos plásticos e derivados é daquelas que têm mais urgência, mas também mais vantagens na adoção de soluções mais inovadoras.

Quando nós falamos de plásticos, a sociedade civil associa a um estigma. É um estigma que eu acho que está relacionado com a falta de perceção de valor que as pessoas têm sobre o plástico e, portanto, o que faz com que ele no fim de vida seja descartado e pare no meio ambiente. E isso traz-nos um problema, traz-nos um problema realmente ambiental, porque o plástico tem características que são quase omnipresentes no nosso dia a dia. E quando nós falamos da componente ambiental, é de referir que o plástico é barato porque tem um custo de transformação baixo, o que reflete baixa intensidade energética e baixas emissões de CO₂. O grande problema está no fim de vida, quando ele vai parar ao meio ambiente e onde realmente a pegada de carbono e o impacto ambiental realmente é muito mau.

Temos que torná-lo mais circular.

Eu acho que compete-nos a nós, a nós todos, porque, na verdade, o plástico tem características que são únicas e nós hoje temos um automóvel, temos aviões que têm componentes que têm menor consumo e menores emissões porque são feitos de plástico, têm menor peso. Falando das questões das embalagens alimentares, nós conseguimos perdurar no tempo os alimentos sem que haja desperdício alimentar. Ainda na altura do Covid, o plástico salva vidas, porque se não fossem os plásticos, muitas mais vidas teríamos perdido. E a indústria dos plásticos encara este estigma como uma oportunidade, porque sempre viu que há forma de nós podermos melhorar. Mas também é fundamental, e eu acho que queria também só deixar ficar esta nota, é fundamental que haja o envolvimento da sociedade civil, de todos nós. Nós temos que repensar o consumo, temos que consumir menos.

E exigir que os produtos sejam mais circulares.

Isso por norma já o vamos fazer. Tem é que existir do lado da população, por um lado, que nós possamos realmente reduzir o consumo, possamos promover a reciclagem colocando os plásticos no sítio correto e acima de tudo, dar este exemplo. Nós hoje, maioritariamente, Portugal e Europa, importa matérias-primas. Isto é crítico. A questão das matérias-primas, da disponibilidade de materiais. Nós importamos. Se nós pensarmos que através da economia circular, e toco no ponto que o António falava da questão económica, nós passamos a ter a matéria-prima localmente em Portugal e na Europa. Deixamos de ter que importar, podemos promover mais empresas, podemos promover mais emprego e podemos transformar realmente esses resíduos em valor e transformá-lo em produtos para a sociedade. Portanto, eu acho que este é o ponto. Não é só a forma como nós produzimos, porque a indústria, os centros de tecnologia e inovação estão a trabalhar e estão a implementar novos modelos de negócios, novos materiais, novas tecnologias para conseguirmos promover a circularidade. Com o envolvimento de todos, da sociedade, nós podemos fazer mais. Nós podemos criar um país e uma Europa mais resiliente, tendo como base a questão de valorizar os recursos Porque eles estão cá e, acima de tudo, deixar de evitar a extração de recursos, porque o nosso planeta Terra, eu costumo muitas vezes referir isto, tem recursos que são finitos e se nós queremos que realmente a casa comum onde nós vivemos hoje seja também a casa comum das futuras gerações, temos que promover e temos que acelerar a questão da economia circular.

Esse foi o tema do último Vozes Circulares, que depois podem ouvir nas plataformas de podcast. António, o trabalho que a III Driver tem feito consegue aqui nalguns minutos traçar-nos um retrato das empresas portuguesas, de que forma é que elas estão envolvidas com este objetivo da economia circular ou ainda temos um parque empresarial pouco inovador?

Eu não diria isso.

Se calhar até em comparação com os nossos concorrentes.

Nós temos tido o prazer, curiosamente uma das últimas convidadas, a Inês Costa, há muitos anos trabalhava num tema que era um observatório europeu, que eu depois assumi essa responsabilidade, um observatório que acompanhava a ecoinovação dos países. E Portugal nunca se qualificou mal, ficou sempre no meio da tabela para cima. Isso demonstra que há um esforço contínuo das empresas portuguesas e da academia e dos centros de investigação, centros de interface, nestes temas. A dificuldade está no escalar. O tecido empresarial português, quando nós trabalhamos, por exemplo, com empresas alemãs e nós temos tido o prazer de participar em vários Horizontes Europa, vários programas internacionais, nós vemos que as empresas europeias têm uma maior capacidade para conseguir depois internalizar essas inovações nos seus processos produtivos. Ou seja, há aqui um passo final que tem muitas vezes a ver também com a própria capitalização das empresas, de conseguir investir em novas linhas para produção, que torna este último passo nestes modelos de inovação. Mas as empresas estão empenhadas. Nós também temos o prazer de acompanhar muitas empresas de diversos setores e temos cada vez mais empresas empenhadas e a perceberem isto que o Bruno acabou de referir. Ou seja, que isto é uma questão de competitividade, que é a questão de acesso às matérias-primas. E temos associações setoriais que, se calhar, há alguns anos atrás olhavam para estes temas como uma moda, o tema da economia circular como só o último chavão, e que hoje são as primeiras a quererem fazer projetos, quererem fazer iniciativas dentro deste âmbito, para que os seus próprios associados internalizem estas práticas. Ou seja, de forma geral, eu penso que nós estamos no bom caminho. A questão de como nós conseguimos escalar ou conseguimos dar este último passo, eu acho que isto tem a ver também com as dificuldades que a economia tem, com as empresas têm, não só no tema da economia circular, como muitos outros. O fato de termos muitas vezes empresas ou um setor muito fragmentado, significa que depois essas empresas não conseguem alocar uma parte da sua estrutura a incorporar ou a desenhar novas linhas ou serem competitivas no mercado internacional, ou oferecerem novos produtos no mercado internacional. E esse caminho tem que ser explorado. Nós temos que conseguir perceber o que é que falta para dar este último passo. E os projetos, o financiamento da investigação, leva-nos até onde nós estamos a conseguir o que estamos agora a conseguir fazer, mas este último passo, possivelmente, não é com o financiamento à investigação, tem mais a ver com a capitalização das empresas, tem a ver com a consolidação das empresas, consolidação empresarial, ou seja, grandes grupos, porque o que vemos da nossa experiência é que realmente são as empresas com maior escala que conseguem incorporar. Temos depois outro fenômeno, que são as pequenas empresas que aparecem com novos modelos, que querem romper o que é o status quo. E isso tem algum sucesso, mas batemos na questão dos consumidores. E a questão dos consumidores, as empresas de nicho têm sempre a dificuldade em escalar os seus modelos de negócio, porque quando vão bater à porta dos seus consumidores, dos seus clientes ou dos seus clientes finais, há pouca procura por este tema. E há vários estudos europeus que demonstram que a maior parte da população não está disponível, por exemplo, a pagar mais por um produto mais sustentável ou mais circular. E esta pedagogia que o Bruno dizia, eu concordo plenamente, isto é um esforço, é um esforço não só das empresas, das associações, da academia, mas é um esforço coletivo e esse trabalho tem que ser feito.

Muito bem, Bruno Silva, António Lorena, convidados de hoje do Vozes Circulares. Muito obrigado pelos vossos esclarecimentos. Hoje falamos de inovação para a economia circular. Junte-se a nós nos próximos programas. Ouça todos os episódios no site do Observador e no site da Associação Smart Ways Portugal ou então nas principais plataformas de podcast.