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Seja muito bem-vindo ao "Vozes Circulares", é o podcast do Observador, em parceria com a associação Smart Waste Portugal, onde damos voz às pessoas e empresas que estão a transformar a sustentabilidade e a economia circular no nosso país. Muito se tem falado de reciclagem, reutilização e novas metas ambientais, mas será que basta criar mais legislação para acelerar a economia circular ou será igualmente necessário criar condições para que as empresas consigam transformar resíduos em recursos de forma competitiva? É precisamente esse o tema deste episódio, que conta com o apoio da Silvex. E conosco estão hoje Hernani Magalhães, administrador da Silvex, e Nuno Aguiar, diretor técnico da Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos. Muito obrigado aos dois por estarem na Rádio Observador. Hernani, começaria por si. Gostava de começar por uma ideia que tem surgido cada vez mais neste debate. Quando falamos de resíduos, nem sempre estamos a falar de lixo, não é? Porque é importante começarmos a olhar para muitos destes materiais como recursos que até têm valor econômico.
É verdade. Não estamos realmente a falar de lixo. A economia circular faz todo sentido, principalmente pra um país como Portugal, um país de pequena dimensão, onde as coisas estão muito concentradas e é um país pobre em recursos, e faz todo sentido aproveitarmos o que já existe a circular. E a economia circular nos plásticos é um sistema que captura o valor dos plásticos como recurso, prevenindo que estes materiais acabem em aterro, ou queimados, ou mais grave, poluem o ambiente, tanto em terra como nos oceanos, no mar. O impacto de utilizarmos materiais reciclados é muito positivo na redução de CO₂. Por exemplo, a Silvex acaba de obter a primeira certificação mundial de carbono evitado na produção de sacos com reciclados pra recolhas de cápsula de café, uma certificação em que atingimos 79% de emissões evitadas comparando com os materiais virgens, e foi um processo que foi certificado pela Bureau Veritas, portanto, o primeiro certificado mundial de evitarmos as emissões de CO₂ utilizando material reciclado. Portanto, é possível fazer, há certificações que mostram que é bom pro ambiente e ao promover a circularidade dos materiais, também estamos a evitar a importação de matérias-primas virgens, poupamos energia, reduzimos as emissões, revalorizamos o que antes era lixo e evitamos um problema em aterro ou queimar um recurso.
Nuno Aguiar, Portugal tem hoje metas europeias cada vez mais exigentes para a economia circular. A grande questão aqui também é: estamos realmente preparados para as cumprir ou ainda existe um desfasamento entre esta ambição legislativa e a capacidade de execução do tecido empresarial português?
Muito obrigado, Nelson. Antes de mais, um agradecimento, é um gosto estar aqui no Observador, um agradecimento à Smart Waste e, em particular, à Silvex pela oportunidade e a acompanharmos neste programa. De facto, e acho que todos reconhecemos, a economia circular constitui uma enorme oportunidade, desde logo para a indústria, mas acima de tudo para o país, considerando, e isso todos reconhecemos também, que os recursos são finitos. E olhando para Portugal, olhando para nós próprios, pra cá dentro, temos, de facto, um problema estrutural, desde logo, e o Hernani acabou por aflorar a questão do aterro, e o aterro representa hoje mais de 50% do destino dos resíduos urbanos que todos nós produzimos enquanto cidadãos. E desde logo, estamos a perder efetivamente uma oportunidade de ter esses resíduos como recursos e utilizá-los para voltar novamente à economia. E por isso, desde logo, o que é importante é ressaltar a necessidade que temos de investir cada vez mais em recolha seletiva, em novos modelos de recolha, em novas tecnologias de triagem que permita efetivamente aproveitar esses mesmos materiais. Porque, ao contrário daquilo que as pessoas possam imaginar, no caso concreto dos plásticos, o problema não está na capacidade de reciclagem nacional, está efetivamente naquilo que é a capacidade de recolha e triagem e dos materiais que chegam a estas indústrias. Porque muitas delas acabam por necessitar de importar resíduos para fazer face àquilo que é a sua continuidade de laboração. E portanto, sim, a resposta à questão, existe, de facto, um desfasamento entre aquilo que é produção legislativa e aquilo que é o acompanhamento na realidade, quer das infraestruturas que temos à nossa disposição, quer na necessidade de alterarmos comportamentos, que eu penso que este é um ponto fulcral, onde o consumidor continua a ter um papel-chave para que a economia circular possa funcionar em pleno.
Vai entroncar na pergunta que tinha aqui para o Hernani Magalhães. Uma das maiores dificuldades continua a ser a qualidade dos materiais que chegam para reciclagem. Até que ponto a separação na origem continua a ser mesmo um fator decisivo pra que todo este sistema funcione? É aqui o calcanhar de Aquiles.
Sim, é verdade, continua a ser um dos problemas. Eu fui à procura de informação até para ter a certeza daquilo que eu estava a dizer. E segundo o relatório da economia circular para os plásticos da Associação Plastic Europe, em 2024, revela que a taxa de reciclagem aumenta 13 vezes quando existe separação Ou seja, há um estudo que eles fizeram, quando não há separação do resíduo, 60% vai para a queima e cerca de 37% vai para aterro. Ou seja, quando não há, nós vamos perder esses materiais. Quando há separação, quando a separação é bem feita, passamos a taxa de reciclagem para 50% e reduzimos imenso a percentagem que vai para aterro. Isso são dados a nível europeu, mas eu penso que em Portugal será exatamente a mesma coisa. Nós devemos andar na média europeia, que realmente os números não são bons, mas quer dizer que pode-se melhorar, e eu penso que este é o caminho. A taxa da circularidade em Portugal são 3%.
É muito baixo. Há muito caminho aqui a fazer.
97% daquilo que nós pomos a circular, só 3% é que voltam para a reciclagem. Quer dizer, é muito baixo.
Temos que acelerar esses números. Nuno Aguiar, fala-se muitas vezes deste paradoxo da circularidade. Existem mais produtos reciclados, mas continua a faltar matéria-prima reciclada que tenha qualidade suficiente. Como é que se explica esta aparente contradição e como é que mudamos isto?
Diria que, desde logo, há que reconhecer que do ponto de vista regulamentar, existe uma pressão muito significativa para que as indústrias, e no caso concreto do plástico, porque basta olhar para a nova regulamentação europeia de embalagens, que vem fixar, de facto, metas extremamente ambiciosas de incorporação de reciclados para 2030 e 2040.
Demasiado ambiciosas ou não, na sua opinião?
Eu diria muito ambiciosas, de facto. Não tanto a nível, como referi há pouco, da questão da reciclagem ou da capacidade, porque diria que a nível nacional, temos, do ponto de vista tecnológico, das melhores infraestruturas, não só da Europa, mas arriscaria a dizer, do mundo. Portanto, não será esse o problema. O estrangulamento continua, de facto, a estar na recolha, e é aí que nós temos que fazer um investimento bastante significativo. Acreditamos que estes novos planos, fala-se agora no plano Terra+, que o governo vai, esperamos nós, aprovar brevemente, que vai, no fundo, trazer mais investimento para o setor dos resíduos, porque será fundamental que isso aconteça. E, além disso, que os próprios sistemas possam ser mais eficientes do que aquilo que tenha sido até agora e ao longo dos últimos anos. Depois, penso que nós não podemos estabelecer metas muito ambiciosas e depois não existir um mercado estável, um mercado de matérias-primas secundárias. E portanto, creio que passa exatamente por aí, a criação de um mercado de matérias-primas secundárias, que permita impulsionar essa mesma incorporação. Não só pela questão da quantidade, qualidade, que de facto é fundamental, porque há aplicações muito exigentes e nem todos os reciclados permitem a sua utilização ou incorporação em determinadas aplicações, basta falar na questão do contacto alimentar. E para isso é necessário efetivamente termos materiais, neste caso, desde logo resíduos com qualidade, para que possamos ter reciclados com qualidade. Mas eu diria que, e ainda indo de encontro à primeira questão, de facto tem que haver aqui um equilíbrio. Ou seja, a produção legislativa, o cumprimento de metas ou o estabelecimento de metas, têm que acompanhar efetivamente os investimentos e aquilo que é realidade depois no terreno.
Hernâni Magalhães, para empresas como a Silvex, que impacto têm fatores como os custos da energia, o investimento tecnológico, a disponibilidade de matérias-primas recicladas, na capacidade da própria empresa inovar nos seus produtos?
Sim, o investimento tecnológico, o investimento de máquinas de ponta em termos de reciclagem, na separação, na reciclagem, estamos a falar em alta tecnologia e, portanto, não são investimentos pequenos, são grandes investimentos, e são investimentos a longo prazo. O peso energético é significativo.
Principalmente numa altura de alguma instabilidade geopolítica.
Sim, mas nós temos a vantagem em Portugal, que eu acho que nós somos ricos na produção de energia, não tiramos o potencial que nós temos em termos de potenciais energéticos, não fóssil, mas a nível dos renováveis. E portanto, acho que Portugal nos últimos anos tem feito esse trabalho e pode baixar perfeitamente esse peso.
Da sua fatura energética.
Da sua fatura energética. E portanto, temos uma vantagem competitiva, ou podemos ter uma vantagem competitiva quando se fala sobre energia, mas o custo do investimento é significativo, é grande. E portanto, como o Nuno estava a dizer, é preciso criar escoamento destes materiais, porque corre-se o risco de quando os preços dos materiais virgens baixarem muito, estão quase ao nível do material reciclado, há sempre aquela tentação de ir para o virgem, porque o virgem não tem o custo total no produto. E, portanto, há aqui uma fronteira que é preciso ter em conta. A disponibilidade da matéria-prima reciclada e a separação é fundamental para nós podermos produzir e separar os plásticos, porque nós temos muitos plásticos e para muitas aplicações, mas é possível fazer, e nós demonstrámos que é possível fazer, porque nós tivemos um saco em Osaka com material reciclado para contacto alimentar e esteve em exibição. Nós levámos um saco ao Japão como pioneiros num saco feito de plástico pós-consumo. E a tecnologia está lá e podemos agora aplicá-la a uma série de produtos.
Nuno Aguiar, a Europa tem este problema que é ver reforçadas as exigências ambientais, mas compete num mercado global. Como é que garantimos que esta transição não acaba por penalizar a competitividade da indústria europeia face a países que não estão sujeitos à mesma malha apertada de regras que a Europa tem?
Essa é, de facto, a grande questão nos dias que correm. Eu diria até que talvez seja o maior desafio do ponto de vista estratégico que a Europa enfrenta atualmente. Aliás, é reconhecido, e antes deste mesmo reconhecimento, a própria Comissão, os próprios relatórios Letta e Draghi, que vêm reconhecer exatamente essa falta de competitividade e essa perda de reindustrialização a nível da Europa, competindo no mercado global e com países, nomeadamente de blocos geográficos como a Ásia, que como sabemos, não têm os mesmos padrões ou os mesmos requisitos ou exigências ambientais. E portanto, isso desde logo, quer ao nível do próprio custo da energia, como sabemos, é muito mais baixo, e a questão dos custos de mão de obra, mas acima de tudo, estes requisitos ambientais, não sendo os mesmos, coloca num patamar completamente desigual face àquilo que é a realidade europeia e nomeadamente a indústria nacional.
Aí o consumidor terá uma palavra depois na escolha do produto, preferindo um que cumpre melhor com as regras mais apertadas da Europa?
Eu diria que acima de tudo, é importante haver, desde logo, fiscalização.
E certificações. O consumidor também tem que saber ver o cordel, essa literacia, saber que o produto, um é certificado e o outro não é certificado. E há aqui um perigo do greenwashing, que toda a gente diz que tem reciclado e reciclável e o consumidor fica confuso com estas palavras e tantos nomes para o ambiente, que fica um bocado confuso do que é realmente o mais sustentável ou menos sustentável. E portanto, a certificação é um caminho.
Hernâni, estamos aqui a ficar sem tempo. Queria avançar também se me poderia identificar uma prioridade que ache mais importante no acelerar desta economia circular no nosso país. Qual é que seria, neste caso, é melhorar a recolha, é criar mercados mais estáveis para estas tais matérias-primas recicladas?
Nós em Portugal falamos muito sobre economia circular, o que é bom, acho que já é um progresso falarmos sobre este tema, mas o ritmo de incorporação destes materiais é lento. Portugal, segundo a Prodata, em 2024, tem uma taxa de utilização circular de materiais de 3%, que é muito baixo. E se queremos mais economia circular, acho que a contratação pública pode ser a chave na aceleração na utilização destes materiais. Existem muito poucos concursos públicos que exigem materiais reciclados e ainda menos os que exigem certificação destes materiais. E eu penso que o Estado como exemplo, se quer efetivamente aumentar a circularidade, tem que dar esse exemplo e tem que exigir que material circular seja incorporado nos produtos que compra.
Nuno Aguiar, em 30 segundos, concorda com esta ideia aqui deixada pelo Hernâni?
Sim, totalmente. E aliás, isto acaba por entroncar naquilo que eu considero o maior desafio, é deixarmos ter medidas isoladas e acima de tudo, uma visão integrada, uma visão holística, que possa incorporar toda a cadeia de valor, desde a produção, a indústria, até ao consumidor, e falarmos todos a mesma linguagem e acima de tudo, termos no terreno as infraestruturas necessárias para darmos seguimento a algo que é fundamental, aproveitar o valor dos resíduos como recursos e poder voltar a colocá-los na economia, que é isso, a verdadeira economia circular.
Nuno Aguiar é diretor técnico da Associação Portuguesa da Indústria de Plásticos. Estivemos também à conversa com o Hernâni Magalhães, administrador da Silvex, que dá apoio a este episódio do "Vozes Circulares", ao longo do qual percebemos que a economia circular não depende apenas de reciclar mais, depende de criar sistemas que sejam eficientes, mercados capazes de valorizar estes recursos e condições para que a inovação e a competitividade caminhem lado a lado com a sustentabilidade. Este foi o "Vozes Circulares", podcast do Observador em parceria com a Associação Smart Waste Portugal. Junte-se a nós no próximo programa. Continue a descobrir tudo sobre sustentabilidade e economia circular.