Saúde

Morte de jovem à espera de cirurgia. Três altos responsáveis da saúde em Lisboa demitem-se

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Os presidentes da ARS de Lisboa, do hospital de São José e do Santa Maria demitiram-se na sequência da morte de um jovem que aguardava cirurgia. Ministério solicitou abertura de processo de inquérito.

David Duarte tinha um aneurisma e morreu porque não havia médicos para o operarem ao fim de semana

MARIO CRUZ/LUSA

A presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar Lisboa Central (que inclui o São José), o presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar Lisboa Norte (que inclui o Santa Maria) e o presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARS LVT) demitiram-se, esta terça-feira, na sequência da morte de David Duarte, de 29 anos, que perdeu a vida no dia 14 de dezembro, enquanto aguardava por uma cirurgia a um aneurisma cerebral.

“Queria dar-lhes conhecimento que enquanto presidente do conselho diretivo da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, que tem responsabilidade em todos os hospitais da região, acabei de apresentar ao senhor ministro da Saúde a demissão do meu lugar. Gostaria de informá-los igualmente que a senhora doutora Teresa Sustelo, presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Central, e o senhor doutor Carlos Martins, presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Lisboa Norte, decidiram secundar esta posição e apresentaram igualmente o seu pedido de demissão, ao senhor ministro da Saúde”, avançou Luís Cunha Ribeiro, numa declaração à imprensa no Ministério da Saúde, ao início desta noite.

Luís Cunha Ribeiro explicou que, “nos últimos anos, por cortes que tivemos na área da saúde, estes hospitais não tiveram possibilidade de ter recursos humanos para dar respostas a situações de doentes como este” e acrescentou que “esta situação está reposta e a partir deste momento foi-nos autorizado pela equipa do ministério da Saúde que ambos os hospitais passam a ter resposta para situações deste género”. O responsável disse ainda que “isto não limpa, passe a expressão, nem permite esquecer ou desculpar o que aconteceu”. Contactado pelo Observador, Cunha Ribeiro não quis prestar mais declarações, explicando que tem de falar primeiro com a equipa da ARS LVT.

Ao Observador, fonte oficial o Ministério da Saúde referiu que os pedidos de demissão estão a ser “avaliados”. Quanto à solução encontrada para futuro, a mesma fonte explicou que os dois hospitais (São José e Santa Maria) vão articular-se de forma a garantirem este serviço, alternadamente, durante os fins de semana. Fonte do Hospital de São José, citada pelo Expresso, explica que foi possível chegar a acordo com o Governo para aumentar o valor pago aos especialistas pelo trabalho extraordinário aos sábados e domingos.

O Ministério da Saúde avançou também, esta noite, que já solicitou ao Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC), a abertura imediata de um inquérito para apuramento dos factos, assim como já pediu à Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS) a abertura de um processo de inquérito “tendente a avaliar eventuais responsabilidades”.

David Duarte tinha um aneurisma e morreu à espera de cirurgia

Em causa está a morte, noticiada esta terça-feira pelo Correio da Manhã, de David Duarte, um jovem de 29 anos que deu entrada no Hospital de São José, na sexta-feira, dia 11 de dezembro, vindo do Hospital de Santarém. O jovem tinha um aneurisma cerebral e acabou por morrer na madrugada de domingo para segunda-feira, dia 14, enquanto esperava por uma cirurgia. Isto porque, embora a situação fosse urgente, este hospital não tinha equipa médica para assegurar a cirurgia.

A neurocirurgia-vascular era assegurada naquele hospital, aos fins de semana, sob a forma do regime de “prevenção”, mas esse regime está suspenso desde abril de 2014 e no caso da neurorradiologia de intervenção a “prevenção” está suspensa desde 2013, segundo o próprio hospital, porque os médicos se recusaram a aceitar os cortes de 50% aplicados ao valor pago pelo regime de prevenção.

David Duarte foi colocado em coma induzido no domingo, depois de o seu estado de saúde ter piorado durante a noite. Na segunda-feira, a namorada Elodie Almeida entrou em contacto com a equipa do São José para saber o resultado da operação e foi então que soube que a cirurgia não se tinha realizado e que deveria ir ao hospital. Quando chegou à unidade hospitalar, com a família, foi informada de que David Duarte “tinha tido morte cerebral e que seria irreversível”.

Elodie Almeida escreveu um texto, no jornal Expresso, onde conta o que se passou desde que o namorado se sentiu mal, na sexta-feira, dia 11. Às 14h3o desse dia ligou para o 112 porque o namorado tinha ficado paralisado do lado direito da cara e não conseguia falar. Elodie seguiu na ambulância com o namorado, que entretanto perdeu a força na perna direita.

No Hospital de Santarém ficou sob observação e foi submetido a exames. Quando o médico lhe pediu para levantar os braços, David só conseguiu levantar o esquerdo. Mais tarde, Elodie Almeida fica a saber que o namorado tinha sofrido uma hemorragia cerebral e um hematoma e que seria transferido para o Hospital de São José. Seguiu com o INEM, cerca das 18h.

Elodie, que estava com o seu pai e com a mãe de David, chegou ao hospital de São José, em Lisboa, pelas 22h e esperou quase uma hora até ser chamada para falar com dois médicos. Os médicos explicaram-lhes “descontraidamente” que se tratava de uma “rutura de um aneurisma, que o sangue se espalhou pelo cérebro e que, geralmente, estes casos de urgência teriam de ser tratados de imediato”. David deveria ter sido logo operado. Mas como era sexta-feira, já noite, não havia equipa de neurocirurgiões durante o fim de semana, e, por isso, teria de esperar até segunda para ser operado. E esperou, mas não resistiu.

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