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Moda

Os bordados mudaram. Ponto da situação: já não são da avozinha

As toalhas e os quadros com frutas estão a dar lugar a uma nova geração de bordados feitos por artistas e onde se escrevem letras de Drake e se compram fios castanhos para bordar o Chewbacca.

Joana Caetano aprendeu a bordar em Guimarães, terra onde esta arte tradicional é certificada, à semelhança do que acontece em Viana, Castelo Branco ou Vila Verde, com os famosos lenços dos namorados. “Há uma série de regras que estes bordados têm de cumprir, dos desenhos às cores, e eu lembro-me de pensar: mas porque é que elas fazem sempre a mesma coisa?”

Estávamos em 2009 e a portuense agora com 35 anos descobriu a linguagem com que queria trabalhar. Depois de aprender os cerca de 100 pontos que se podem encontrar no bordado livre e de passar a ter na mesa de cabeceira O Grande Livro dos Lavores, começou a dar aulas no curso de artes têxteis da Modatex e a fazer experiências com bordados, aplicando-os por exemplo em sacos, bordando por cima de fotografias ou fazendo ilustrações suas inspiradas na cultura popular. “Nessa altura eu tinha uma lista de artistas que também andavam a fazer coisas diferentes e ela era minúscula. Entretanto é que houve um boom.”

O boom de que Joana fala é muito mais do que um revivalismo nostálgico, é antes uma apropriação de uma técnica antiga com pressupostos modernos. Basta ir ao Instagram para o perceber. Há contas dedicadas exclusivamente ao bordado livre que chegam a ter 90 mil seguidores, e em vez dos designs tradicionais bordam-se frases irónicas ou desenhos iguais aos das lojas de tatuagens, plantas e interiores como os que enchem as páginas de revistas hipsters, letras de músicas de Drake, citações de filmes de terror como o Shining de Kubrick ou até personagens da Guerra das Estrelas — toda uma mescla de castanhos para conseguir um muito realista Chewbacca.

It's going to be one of those nights. ????✌

A photo posted by Cinder & Honey (@cinderandhoney) on

“O bordado sempre foi muito ligado ao têxtil-lar e à mulher doméstica mas para mim ele é uma arte como a pintura, a música ou o desenho”, diz Joana, que é também uma das responsáveis pelos workshops que juntam bordado e serigrafia na Cru, uma loja e espaço de cowork no Porto.

“Não devemos ter medo de brincar com o bordado tradicional, tal como não devemos ter medo do avesso”, é aliás um dos primeiros conselhos que Jubela — assim é o nome artístico da portuense — começa por dar aos seus alunos, seja na Invicta ou na retrosaria Rosa Pomar, em Lisboa, onde também orienta workshops de iniciação ao bordado. O mesmo conselho parecem ter seguido outras artistas que podem não trabalhar com serigrafia para imprimir uma moldura no pano de linho, por exemplo, mas não temem juntar linhas e aguarelas — como faz Jennifer Cardenas Riggs, da Thread Honey –, ou recortar emblemas em feltro para aplicar em casacos e galhardetes, como Erika Duran, da Eradura.

55 in January feels like a dream ⋆✷⋆

A photo posted by E R A D U R A (@eradura) on

Com mais ou menos inovação, não estamos a falar de panos e toalhas para pôr na arca do enxoval — panos esses que a marca portuguesa Hardcore Fofo já tinha apimentado há uns anos — mas sim de objetos para usar no dia-a-dia ou de autênticos quadros em argolas de bordar que as suas autoras vendem em lojas criadas na Etsy, uma plataforma de comércio online conhecida por albergar pequenos negócios feitos manualmente. Sim, porque há quem tenha redescoberto os bordados como hobbie ou quem consiga viver disso, sobretudo numa altura em que se pede uma dose de personalização e em que se assiste a um regresso da máxima “faça você mesmo”, tudo isto enquanto marcas juvenis e provocadoras como a norte-americana Wildfox vão buscar as agulhas para deixar mensagens bordadas nas camisas de dormir.

Whiskey business.

A photo posted by WILDFOX (@wildfoxcouture) on

“Temos pudor de dizer que gostamos de manualidades porque cheira a bafio”

A frase é de Daniela Sestelo, de 31 anos, e não podia ser mais desempoeirada. Daniela é uma das mulheres que se dirigiram ao São Luiz no passado mês de dezembro para o workshop de bordados dado por Joana Caetano no âmbito da programação da Caixinha de Música que a fadista Gisela João — ela própria bordadeira — levou ao teatro lisboeta.

Daniela veio para aprender a técnica ou, como diria a avó que desde cedo a entreteve com uma máquina de costura, “o preceito”, de modo a conseguir fazer coisas para o filho recém-nascido. E a técnica tem muito que se lhe diga. Ao contrário do ponto cruz, “que é sempre feito em repetição”, o bordado livre pressupõe um desenho, embora isso não exclua à partida quem não sabe desenhar — há sempre o lápis e o papel químico. Já para pôr esse desenho no pano há um catálogo de mais de 100 pontos diferentes, do obrigatório ponto pé de flor, um ponto de contorno, ao ponto caseado, ele próprio com vários nomes como ponto de recorte, cobertor ou até festão.

“Aprender não é complicado, e o processo é relaxante”, diz Rita Nunes, de 35 anos, resumindo assim outra das razões que explicam porque está a acontecer com o bordado o mesmo que aconteceu com o tricot há uns anos. “Quando estou a bordar não penso em mais nada.”

“O ato de bordar pode ser encarado de forma mais séria mas também pode ser relaxante”, concorda Joana Caetano. Apesar das mudanças geracionais e de abordagem, uma coisa continua, no entanto, exatamente na mesma: “dos 25 aos 75 anos, a maioria de quem aparece para aprender esta arte são mulheres”.

Valha-nos a ironia de algumas que aproveitam as agulhas para bordar manifestos feministas e deixar bem expresso, preto no linho, o grrrl power.

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