Crítica de Livros

Joseph Roth sabe quanto vale o desejo de mil e uma noites

"A milésima segunda noite de Xerazade é igual à segunda de todas as outras", como escreve Carlos Maria Bobone. Mas a comédia, a ironia e a inocência sentimental de Joseph Roth fazem a diferença.

Autor
  • Carlos Maria Bobone

Título: “A História da 1002ª noite”
Autor: Joseph Roth
Editora: E-primatur

joseph roth

Na tradução que o nosso ínclito Infante D. Pedro fez do livro dos Ofícios, de Cícero, há uma passagem curta mas muito sábia sobre os dados da fortuna. “Quem duvida que Fortuna não tenha grande força em ambas as partes, assim nas cousas de bem-aventurança como nas contrárias? Por que, havendo o seu vento de viagem, vimos com as nossas obras aos portos desejados, e quando nos o vento é contrário, recebemos assaz de tribulações” diz o texto, vertido na ortografia moderna. Os ventos do Azar tornam imprevisíveis as consequências das acções.

Ora, a História da 1002ª noite é uma exploração tragicómica deste princípio. De um barão engraçar com uma rapariguita, ela passa de lojista a amante de fidalgo, e de amante a prostituta do Xá da Pérsia. O caso é insólito: única vez em que, de baronesa a sultana, uma mulher é despromovida. Insólito, mas revelador dos alvedrios descontrolados do azar. Também o barão, por resolver um imbróglio motivado pelas Baixezas de Sua Alteza o Xá da Pérsia, acaba expulso do exército, pobre e sem prestígio.

Do capricho do Xá, de um Xá enfadado que vem arejar a depressão à corte austríaca, de um perpetrador da tradição milenar de passar uma noite com cada mulher, da tentativa de satisfazer o desejo do Xá sem ofender a condessa Austríaca que ele cobiça, espoletam-se as imprevisíveis consequências em catadupa que engrossam o livro.

A eminência Persa, em visita lúdica acolhida por toda a Nobreza imperial, avista a condessa W. e exige dormir com ela, para grande aflição da máquina diplomática dos dois países. Os pobres cônsules nem podem pedi-lo à condessa, nem podem negá-lo ao Xá. A proposta, só por si, já criaria um incidente capaz de fazer voltar de novo à Europa as hordas temíveis aqueménidas: um pedido destes a uma senhora casada exigiria um desagravo da honra dela, pois nem ao Xá se poderia admitir tanta falta dele; a recusa, porém, quem sabe que efeitos teria no omnipotente viajante, capaz de, por via do seu desejo insatisfeito, conduzir a um confronto homérico.

Acontece, porém, que o garboso capitão Taittinger ressaca por essa altura do namorico com uma modesta rapariga bastante parecida com a condessa W. Esfriado o interesse na rapariga devido à acentuada engorda dela nos nove meses anteriores, o barão guardara-a num famoso bacanal ao serviço da comunidade e soltara o seu bastardo numa escola de província. Quando todas as diligências diplomáticas apelam a que ele resolva a situação do Xá da Pérsia, o barão acede e condu-lo ao prostíbulo, amanha um disfarce de dignidade à sua antiga amante, reveste as paredes do lupanar de uma leve pátina de requinte e promove a outrora lojista Mizzi a condessa.

Ao Xá, o encanto passa com a noite. Deixa um colar precioso à sua breve esposa e volta a casa, tão entediado como saíra. Aos outros protagonistas da facécia sexual – Mizzi, Taittinger e a dona do bornalário Sra. Matzner – a vida, contudo, começa a decair. Na história tradicional, o sultão matava as mulheres depois de as tomar; desmaquilhadas pela posse, desfeadas pela revelação do mistério, deixavam de ter interesse, pelo que já não serviam para nada. A lição sobre o desejo dada pela história antiga é tão cruel como o sultão: o desejo só dura enquanto durar a inacessibilidade. O que o texto de Joseph Roth acrescenta é que a milésima segunda noite de Xerazade é igual à segunda de todas as outras.

Não adianta que o desejo tenha crescido ao longo de mil histórias ou de mil peripécias: a cedência da mulher destrói tudo o que a espera construiu, de tal maneira que Xerazade, como Mizzi, assinam com a cedência a sentença de morte. Na história de Joseph Roth o algoz não é tão rápido como na lenda; mas a noite fatídica em que o Xá consuma a relação com Mizzi mata tanto como a outra; por fazê-lo em camara lenta, não quer dizer que não o faça. Assistimos ao silvo da lâmina, ao furar da pele, à separação dos tendões e aos últimos anelos dos moribundos: vemos Mizzi a vender o colar, investir numa loja tomada por um namorado impostor, ser presa, voltar à pobreza, ultrapassar a pobreza inicial e ser explorada pelo filho. Vemos a florescente alcoviteira Matzner a soçobrar com os escombros de um negócio ultrapassado e morrer anónima com o descobrimento de uma fortuna considerável que não pôde aproveitar. Vemos Taittinger, o belo cortesão Taittinger, o rico e charmoso Taittinger, expulso do exército, empobrecido, a braços com um filho delinquente que nunca desejou criar, privado da corte por causa da divulgação de uma história que ele próprio financiou. Vemos todos quantos tomaram parte na maldita farsa do Xá da Pérsia decompostos, directa ou indirectamente, por causa deste acontecimento.

Roth consegue encabelar todos estes acontecimentos com uma peruca cómica, sem deixar de lhes descobrir de tempos a tempos umas carecas infelizes e mesmo trágicas. O cómico tem um toque voltairiano, de desrespeito pelas personagens, todas elas estúpidas; está repassado de uma ironia que em momento nenhum se desfaz, capta as fórmulas absurdas das convenções e os ridículos de classe; Mizzi tem uma inocência sentimental e infantil a despeito de várias patifarias, Matzner uma mesquinhez ignorante, Taittinger um divertido desprezo snob e básico, uma indiferença, um enfado constante de uma crueldade não pensada, um trato quase animal – embora sem más intenções – com os seus inferiores. Esta estupidez, no entanto, não serve, em Voltaire, para mostrar a estupidez das suas teses, mas para colorir a tragédia e vitimá-los com mais crueldade. Todos eles motivam o que lhes acontece, mas motivam-no com uma inconsequência que leva a que as tragédias sejam acolhidas com verdadeira surpresa, com a surpresa das crianças que ainda não compreendem os nexos de causalidade.

As personagens têm, assim, uma inocência ética que torna mais difícil suportar os azares. Como as acções não são tomadas em função das consequências, estas parecem ter também um lado arbitrário. Nem as boas intenções compensam, nem as más se castigam, mas também não são propriamente intenções: trata-se de um caso estranho da mais suja pureza, em que as personagens são marionetas de um destino que lhes é avesso. É difícil dizer, neste livro, se as personagens são arquitectos involuntários do seu próprio destino ou pó arrastado num destino colossal em marcha. Não é difícil, porém, perceber que quando o vento da Fortuna nos leva, ninguém sabe onde vai parar. E por muito cómico que seja o esbracejar de um náufrago em luta, não deixa de ser assustadora a sua morte no mar-alto, a expensas de uma tempestade imprevista, longe do porto de onde partiu.

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia. Colabora no site Velho Critério.

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