Os governos portugueses dos últimos 20 anos, de 1995 a 2015, cumpriram cerca de 60% das promessas inscritas nos programas eleitorais. Os dados são avançados por um estudo pioneiro conduzido pelo ISCTE — Instituto Universitário de Lisboa, que mereceu o destaque da TSF.

De acordo com esta investigação, liderada por Ana Maria Belchior, os dados recolhidos parecem contrariar a perceção negativa que a generalidade dos portugueses têm em relação ao empenho da classe política no cumprimento das promessas políticas. Ainda assim, existe um dado a reter: se é verdade que a maioria das promessas é cumprida, as que não são, como o não aumento de impostos, a criação de emprego ou o respeito pelo salários em pagamento, são as que de facto importam aos portugueses e as que influenciam verdadeiramente a perceção dos eleitores.

É isso mesmo que sugere a investigadora Maria Belchior, em declarações à TSF. “Suponho que [esta perceção negativa] tenha a ver com o facto de que algumas promessas que não são cumpridas serem aquelas que verdadeiramente interessam aos cidadãos. Há um contágio e não há um cumprimento daquilo que é realmente importante para os indivíduos”. Perante o incumprimento, as pessoas “extrapolam que tudo o resto também não é cumprido”, nota a investigadora.

Feita esta ressalva importante, os números: de 1995 a 2015, os sucessivos governos cumpriram cerca de 50% das promessas inscritas nos programas eleitorais na sua totalidade, enquanto as restantes 10% foram cumpridas apenas parcialmente.

Em destaque está António Guterres, que, segundo estes dados, foi o primeiro-ministro que mais cumpriu, com cerca de 85% de promessas cumpridas total ou parcialmente durante primeiro Governo minoritário (1995-1999). Segue-se José Sócrates, com 80% das promessas cumpridas durante o primeiro mandato como primeiro-ministro (2005-2009).

Em terceiro lugar está Pedro Passos Coelho, que durante os quatro anos de mandato — e mesmo com a intervenção da troika — cumpriu cerca de 60% das promessas eleitorais.

O segundo governo de Guterres e os dois executivos PSD/CDS de Durão Barroso e Santana Lopes apresentam números bem mais modestos no que diz respeito ao cumprimento de promessas, com valores perto dos 45% e 30%, respetivamente. Ainda assim, recorde-se que estes governos não cumpriram os mandatos até ao fim, o que pode explicar, pelo menos em parte, este currículo.

A mesma investigadora destaca também o facto de os governos portugueses estarem entre os executivos europeus com “melhores desempenhos no cumprimento de promessas”. Isto, apesar de os eleitores portugueses estarem entre os europeus que mais desconfiança nutrem pela classe política.

Ana Maria Belchior acrescenta ainda o facto de os governos minoritários, sobretudo o primeiro de António Guterres, estar apresentarem os melhores resultados nesta matéria, uma tendência que se regista noutros estudos europeus semelhantes. A investigadora avança com uma explicação: “Os governos minoritários, que têm de negociar, tendem a ter um desempenho particularmente bom no cumprimento de promessas e melhor do que os governos de coligação”.