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Bons Sons: o que há de novo e o que nunca vai mudar em Cem Soldos

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Rodrigo Leão, Orelha Negra, Mão Morta, Samuel Úria e Paulo Bragança são cabeças de cartaz do festival de música portuguesa que começa sexta-feira na aldeia de Cem Soldos, perto de Tomar.

Esta semana, quando o Observador perguntou ao diretor artístico do Bons Sons quais as novidades da oitava edição, Luís Ferreira, de 33 anos, começou por responder que a própria realização do festival em 2017 é a grande novidade.

Temos um formato orgânico, comunitário, e isso faz com que a existência do festival seja sempre uma novidade. Ele acontecer, ou não, a cada ano, não é uma decisão de equipa, é uma decisão comunitária, da aldeia”, explicou Luís Ferreira. “Não há uma empresa por detrás do Bons Sons. A população de Cem Soldos participa e não apenas no acolhimento dos visitantes. Participa de raiz. Todos os anos, a equipa sofre alterações, há muita gente envolvida. É um processo angustiante, mas desafiante. Eu posso, como diretor, querer que haja Bons Sons. Se a aldeia decidir que não, não há.”

Em 2017 há, e decorre em Cem Soldos, como sempre, uma aldeia de 600 habitantes do concelho de Tomar. O festival começa na sexta-feira, dia 11, e dura quatro dias. Rodrigo Leão, Orelha Negra, Mão Morta, Samuel Úria e Paulo Bragança são alguns dos cabeças de cartaz. Existem oito palcos para 45 espetáculos.

Bons Sons. Como se faz um festival numa aldeia

Domingo à noite, José Cid revisita o famoso álbum “10.000 anos Depois Entre Vénus e Marte”, de 1978. O espetáculo surgiu em 2014 e foi retomado este ano, com dois concertos em Lisboa e no Porto. Vai incluir alguns convidados. Paulo Bragança é um deles, sendo histórica a colaboração entre os dois músicos, desde logo em 1993 num tema que concorreu ao Festival RTP da Canção.

Capitão Fausto, Virgem Suta e Né Ladeiras são outros dos nomes em destaque. À porta, os bilhetes custam 22 euros (um dia) ou 45 euros (quatro dias), sendo esperadas 30 a 35 mil pessoas.

Há mais quatro novidades, adiantadas ao Observador pelo diretor artístico:

  • Ecologia: “Fizemos um maior investimento na área na ecologia, que sempre foi nossa matriz, para um festival com menor pegada ecológica. Vamos implementar de forma obrigatória a caneca única, para reduzir resíduos. No campismo vamos ter casas de banho secas, para que o composto seja reutilizado na horta pedagógica da escola e nos campos de Cem Soldos”, exemplificou.
  • Famílias: “Reforçámos a programação familiar, com passeios de burro para as crianças, jogos tradicionais, cinema e feiras, para haver uma maior ligação entre gerações”;
  • Performances: o Bons Sons sempre apresentou artes performativas, mas pela primeira vez essa programação está a cargo da associação Materiais Diversos (que organiza o conhecido festival de artes de palco Materiais Diversos). Carlota Lagido, Lander & Jonas e Ana Jezabel e António Torres são as propostas.
  • Plataforma internacional: pela primeira vez, e de forma ainda embrionária, o Bons Sons ensaia a dimensão de “plataforma internacional de divulgação da música portuguesa”, nas palavras de Luís Ferreira, o que na prática implica divulgação internacional e convites a programadores e líderes de opinião de outros países.

O Bons Sons nasceu em 2006 por iniciativa do Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS). Até 2014, foi bienal. Desde então, realiza-se todos os anos. Apresenta-se como um festival de música portuguesa que “promove uma relação de proximidade” com o público. A população de Cem Soldos está implicada na realização do evento e os próprios habitantes acolhem e servem quem os visita.

O festival é um “processo cultural”, classificou Luís Ferreira, natural de Cem Soldos (estudou design nas Caldas da Rainha e vive entre Ílhavo, Lisboa e Cem Soldos). “Há sempre esta negociação com as pessoas, o que é muito estimulante e necessário, pelo impacto que o festival tem na aldeia. A cultura viva é uma construção permanente, se cristalizássemos não estaríamos vivos”, sublinhou.

O orçamento anual do SCOCS oscila entre 800 mil e um milhão de euros, informou o diretor. Cerca de 150 mil proveem de apoios públicos: Câmara de Tomar, União das Freguesias de Madalena e Beselga e Instituto Português do Desporto e Juventude. O festival orça 450 mil euros. O patrocínio da EDP e da Sagres, bem como a venda de bilhetes e o consumo dos visitantes, asseguram a receita.

Luís Ferreira não tem dúvidas de que, ao longo destes 11 anos de existência, o festival “reforçou os laços da comunidade, criou discurso e método, aumentou o ego e sentimento de pertença” da população.

No ano passado, ao completarmos uma década de existência, olhámos para trás e percebemos que o Bons Sons já está maduro”, analisou Luís Ferreira. “Sabemos o valor que temos para a comunidade da aldeia e para a região e a importância cultural para o país. O nosso papel é também o de valorizar o espaço rural, que está abandonado e sobre o qual há grande desconhecimento. Haver uma aldeia com esta autoestima, que acredita no que faz e no que é, é uma mensagem para um país contemporâneo, que consiga fixar as pessoas no interior.”

Todas as informações sobre o festival aqui.

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