Pedro J. Ramírez: “Até 2020, a maioria dos jornais deixará de imprimir”

20 Maio 2016161

Começou no ABC, deu dimensão ao Diario 16 e fundou o El Mundo. Pedro J. Ramírez é o enfant terrible da imprensa espanhola. Denunciou casos, somou polémicas, foi demitido e acaba de criar o El Español.

69 anos, 41 de jornalismo, 36 deles como diretor de jornais e um título: Pedro J. Ramírez, o enfant terrible da imprensa espanhola. Somou polémicas e denunciou casos que, garante, lhe valeram a demissão dos cargos que ocupava. Primeiro no Diario 16, após ter divulgado as ligações de Felipe Gonzalez ao caso GAL. Depois no El Mundo, jornal que fundou em 1989, por ter revelado o SMS entre Mariano Rajoy e o tesoureiro do PP, que confirmava o financiamento ilegal do partido. Quando se viu no desemprego, em janeiro de 2014, pegou no dinheiro da indemnização milionária e investiu tudo num novo jornal, 100% digital. O El Español nasceu há seis meses. Uma aposta no futuro porque os jornais em papel, segundo o seu prognóstico, irão morrer até 2020.

O futuro digital e o fim do papel

Em outubro de 2013 disse: “O futuro é digital ou não é. O negócio da imprensa escrita não vai recuperar nunca mais”. Já nessa altura tinha na cabeça um projeto como o El Español?

Sim. Nós somos a demonstração de que há um futuro digital. Em pouco tempo, um novo título pode ocupar um lugar importante num país desenvolvido. É o que está a acontecer aqui, em Espanha, com o El Español, e em Portugal também, com o Observador.

Disse também nessa altura (estava a lançar a Orbyt, a plataforma de conteúdos pagos do El Mundo), igualmente de forma algo visionária, que se fosse despedido o seu próximo projeto seria digital, com uma parte em papel.

Tinha-me dado conta de que a transformação do negócio tradicional para o mundo digital precisava de uma fase intermédia, uma réplica digital. Era isso que era o Orbyt, um produto que replicava a edição impressa, tinha a mesma aparência, era isso que fazia com que tivesse subscritores. No El Español também o estamos a fazer, mas com um formato mais inovador, concebido a partir do mundo digital. É aquilo a que chamamos a “edição” [um produto dentro do site só para subscritores, com conteúdos exclusivos].

Pedro J. Ramírez, como diretor do El Mundo (fundou o jornal em 1989, saiu em 2014 (Jose R. Platon/Cover/Getty Images)

Também criou na altura o El Mundo de La Tarde, uma edição vespertina online. Nessa altura começavam a fazer-se coisas novas no digital. Entretanto, achou que os jornais tradicionais estavam parados e a atrasar-se…

Não, não seria justo dizer isso. Ainda que o grau de inovação seja maior nuns casos do que noutros. Os chamados legacy papers, os jornais que vêm do mundo tradicional são em toda a parte os players principais do mundo digital. O que se passa é que o número de novos utilizadores dos jornais tradicionais é muito baixo e isso tem permitido que novos projetos, nativos, ocupem um espaço importante em pouco tempo.

O El País, por exemplo, tem feito especiais no digital, quase que transmissões televisivas, com debates ao vivo. Isso é mais fácil para os jornais que estão inseridos em grandes grupos?

Claro! Os legacy papers têm a vantagem de ter uma grande infraestrutura ao seu serviço. Mas isso tem também inconvenientes: é muito difícil serem sustentáveis. Manter o negócio tradicional deixa um lastro financeiro cada vez maior. Já nós, os novos atores, os nativos do digital, temos menos meios, mas mais flexibilidade e menor risco empresarial.

Até quando é que vai ser possível conciliar os jornais em papel e os sites, onde já são colocadas 90% das peças que sairão no dia seguinte na edição impressa?

O meu prognóstico é que até ao final desta década, até 2020, a maioria dos jornais deixará de imprimir. Se houver alguma edição impressa em Espanha, será residual. Quando era diretor do El Mundo havia quatro jornais com vendas nacionais de mais de 100 mil exemplares e dois com vendas de mais de 200 mil. Agora só há um, o El País, com mais de 100 mil, que dentro de um ano ou dois baixará desse número. Não ficará nenhum jornal que venda mais de 100 mil cópias nos quiosques num país de 45 milhões de habitantes. Isso é insustentável! Do ponto de vista dos custos, da distribuição… Os jornais tradicionais teriam de custar dez euros para poderem sobreviver!

“Até ao final desta década, até 2020, a maioria dos jornais deixará de imprimir. Os jornais tradicionais teriam de custar dez euros para poderem sobreviver”

Essa situação não é exclusiva de Espanha. Está a acontecer em Portugal, em todo o mundo. O The Independent deixou as bancas há um mês, ficou só digital…

É exatamente isso. Porque com o preço que custaria comprar um jornal no quiosque será possível oferecer conteúdos premium online durante todo um mês.

O Orbyt do El Mundo era uma plataforma que apostava nos conteúdos pagos. Tinha 85 mil subscritores e você achava que apenas ‘roubaria’ 5 a 10% do tráfego do site. O que acha agora dos conteúdos pagos na internet? Há quem aceite pagar com tanta informação grátis?

O El Español tem mais de 13 mil subscritores. Mas reconheço que está a ser mais difícil crescer em subscritores do que em usuários. Neste país nenhum dos principais meios tem aberta essa linha de negócio e é muito difícil a um recém-chegado, a um nativo, consegui-lo. Ainda assim, 13 mil subscritores pagos é muitíssimo! Mas, da mesma maneira que disse “O futuro será digital ou não será”, digo agora “O modelo de negócio ou será misto, ou não será”. Há que estabelecer no mundo digital a combinação de entradas de publicidade com a venda de conteúdos, através de subscrições ou micropagamentos. Os grandes meios que resistem a seguir esse caminho terão que render-se à evidência.

E há que fazer um acordo com os grandes motores de busca, como o Google…

Sim. O El Español já aderiu aos Instant Articles do Facebook, estamos em fase de implementação. Acreditamos que todos os canais de distribuição são bons porque ajudam a difundir os conteúdos singulares, que são os que marcam a identidade de um meio.

O projeto do El Español

Lançou o El Español menos de dois anos depois de sair do EL Mundo, a 31 de janeiro de 2014. Arrancar com um projeto destes em tão pouco tempo parece impossível. Já tinha muito caminho feito?

Tinha um acordo de incompatibilidades [segundo o qual não podia trabalhar em jornais concorrentes ao El Mundo] que teoricamente durava dois anos, mas na prática só durou um. Eles deixaram de publicar os meus artigos porque eram muito críticos e acabaram por me libertar. O El Español nasceu em finais de outubro de 2015. Mas não, não tinha nada pensado. Porque nunca pensei que me fossem demitir de diretor do El Mundo. Podia ter continuado até ao fim da vida como diretor do El Mundo.

Mas depois de sair do El Mundo lançou o blogue ‘Nohacefaltaelpapel’ [naofazfaltaopapel]. Foi aí que começou a fazer este caminho ou era apenas um nome provocatório?

Creio que era já uma constatação. O El Español é já um dos cinco, seis grandes meios, do ponto de vista da influência e de peso político, e não nos está a fazer falta o papel…

“Investi toda a indemnização! Tudo o que me deixou o Governo depois de cobrar os impostos. No total foi quase seis milhões…”

É um projeto de 18 milhões…

Esse foi o capital que reunimos. Até agora gastámos menos, dois milhões na fase de arranque, mais dois milhões investidos em tecnologia e ativos e no nosso primeiro ano teremos três milhões de prejuízo. No segundo ano devemos perder um milhão, um milhão e meio.

O modelo do El Español

O modelo do El Español é misto com base em publicidade tradicional e subscrições. Tem 5500 proprietários conseguidos via crowdfunding, tendo pago cada um cerca de 650 euros num total de 3,6 milhões, e investidores tradicionais privados, conhecendo-se, além de Pedro J. Ramírez, a Institución Educativa SEK e a Spainmedia, editora da revista Forbes en Espanha.

A sua perspetiva era zerar esse investimento em três anos. Vai ser possível?

Creio que sim. Nos primeiros seis meses estamos a cumprir estritamente o business plan.

Diz-se que investiu bastante da indemnização que recebeu do El Mundo…

Bastante, não. Investi toda a indemnização! Tudo o que me deixou o Governo depois de cobrar os impostos. No total foram quase seis milhões… O que lamento é que a fiscalidade tenha sido tão alta e eu não tenha podido investir mais.

Quando apresentou o El Español falou das 25 obsessões editoriais que tinha para o projeto. Qual é mesmo a linha editorial do jornal? A denúncia de casos importantes, como os de corrupção na política, que foi sempre a sua imagem de marca; notícias mais imediatas; ou reportagens, análises e trabalhos de fundo?

A combinação de todos esses elementos. Exclusivos do jornalismo de investigação. Análises e artigos de opinião tomando posição nos grandes debates com uma agenda de reforma do sistema democrático. E as reportagens e as histórias bem contadas.

Nos primeiros meses saíram pessoas. Agora acaba de perder mais figuras importantes do jornal. São as dores de crescimento ou diferenças de posicionamento editorial?

Saídas do El Español

Eduardo Suárez, subdirector, e Mariangela Paone, responsável pelas grandes reportagens foram os últimos a sair do El Español nestes seis meses.

Num projeto, ao princípio, há contribuições diversas que combinam sensibilidades distintas, mas só a prática demonstra se isso funciona ou não. Foi assim em todos os projetos por onde passei. Foi assim na fundação do El Mundo. O nosso núcleo fundador tem uma grande estabilidade. Há pessoas que se incorporam, outras que saem e podem ou não ser substituídas.

Disse também, no resumo das 25 obsessões editoriais, que o principal objetivo do El Español seria defender o cidadão acima de todos os tipos de poderes. É um objetivo muito nobre, mas também genérico…

É uma filosofia, mas tem de se concretizar. Falamos dos cidadãos como consumidores, como usuários de serviços financeiros, de bancos, dos cidadãos eleitores, que têm direitos como votantes ante os partidos políticos, como pessoas que pagam impostos e têm direitos nas suas relações com o Governo e o fisco. Estamos a falar da ‘pessoa’, do ‘cidadão’, como elemento central da sociedade. E a defesa dos direitos do cidadão é a razão de ser de um jornal como o nosso.

Quem foi Robespierre

Maximilien François Marie Isidore de Robespierre foi uma das personalidades mais importantes da Revolução Francesa, encarnando a tendência mais radical da Revolução e tornando-se uma figura controversa. Os amigos chamavam-lhe “O Incorruptível”. Os inimigos “Tirano” e “Ditador sanguinário”.


Adapta os conteúdos às audiências? Há algumas tentações? Como faz o equilíbrio?

Seria um erro ignorar as audiências que têm diferentes conteúdos, mas também seria um erro ser escravo dessas medições. É verdade que não mostram a importância que têm certos temas e, em sentido contrário, potenciam temas mais ligeiros. Mas há uma fórmula que nunca falha no jornalismo e que serve tanto para o mundo tradicional como para o mundo digital. Um bom jornalista tem que tornar fácil e compreensível o que é complexo e tem de dar envergadura, sustentação e substância ao que é ligeiro e leviano. Sempre se disse “facts are sacred, opinions are free” [“os factos são sagrados, as opiniões são livres”], ao que acrescento um terceiro elemento do mundo contemporâneo: “Explanations are necessary”. As explicações são necessárias. E esse é o grande desafio que enfrenta o novo jornalismo: explicar às pessoas as coisas complexas. De resto, cito os autores franceses de que tanto gosto. Robespierre disse “A virtude sem o terror é impotente, o terror sem a virtude é fatal”. Eu adapto: o bom texto sem o clique é impotente, o clique sem o bom texto é fatal.

"Adapto Robespierre: o bom texto sem o clique é impotente, o clique sem o bom texto é fatal"

O que consome mais recursos, o papel ou o digital? É possível fazer jornalismo digital com menos pessoas?

Com menos pessoas, sim. Com menos jornalistas, não. A grande diferença e a grande vantagem do mundo digital é que os recursos industriais são intensivos. É verdade que é preciso ter infraestrutura de vídeo, mas custa o mesmo um vídeo para uma pessoa do que para um milhão. No mundo tradicional, cada exemplar que se vende tem um custo adicional de papel, rotativa, tinta, transporte. Quando esse custo é maior que o preço de capa, a dependência da publicidade é grande. Quando a publicidade cai e a circulação também baixa, esse custo sobe. E a maior parte dos jornais tradicionais está a vender com um preço de capa inferior ao custo industrial de produzir esse jornal: é o caminho para a ruína. Para o Observador ou para o El Español, esse custo é zero. E essa é a chave. Podemos concentrar todos os recursos nos conteúdos, em fazer bom jornalismo.

Trabalhava com 300 pessoas no El Mundo. Tem cerca de 100 no El Español. É possível fazer mais com menos? Ou reduz porque agora também é patrão?…

No total da empresa somos 105, na redação 72, 73. É mais difícil porque a ambição e o desejo de oferecer conteúdos de interesse é o mesmo e são menos para os fazer. Mas também é mais emocionante porque se trabalha de forma mais direta com todas as pessoas da redação.

Disse que o nome de El Español era uma homenagem a Blanco White [pensador espanhol que deixou o país nas invasões francesas e fundou um jornal com o mesmo título em Londres em 1810] e a Andres Borrego [que em 1835 fundou o primeiro jornal moderno]. Mas não é sobretudo uma declaração política?

É também uma homenagem ao grande jornalismo espanhol dos séculos XIX e XX. Mas, sim, é a nossa primeira declaração editorial. Acreditamos que Espanha é uma unidade, que constitui um espaço de proteção de direitos democráticos. Achamos que os projetos independentistas são uma ameaça aos direitos dos espanhóis, que devem ser iguais para todos. Mas há uma terceira razão mais importante para termos escolhido este nome: acreditamos que tem grande potencial termos o nome de um dos três grandes idiomas que se fala na Terra. Será muito importante para uma futura expansão na América Latina.

Atualmente, os vossos leitores estão sobretudo onde? Em Madrid?

80% dos nossos leitores estão em Espanha, 35% deles em Madrid e o resto bastante repartidos por todo o país. Temos maior penetração na Catalunha e no País Basco do que tinha a edição impressa do El Mundo. Mas que se explica: quando compras um jornal no quiosque e o levas pela rua, os vizinhos vêem e podem criticar; quando vês em casa, no computador, no tablet, só sabes tu.

E na América Latina, já têm muitos leitores?

Flutua muito em função das notícias. Mas não temos ainda uma penetração estável.

Os casos que denunciou

Casos GAL, Bárcenas e Nóos

Caso Bárcenas. O El Mundo publicou o SMS entre Rajoy e Bárcenas no caso do financiamento ilegal do PP, que comprovou o conhecimento do presidente do Governo espanhol e líder do Partido Popular dos ‘esquemas’ que já condenaram o tesoureiro do partido.

Caso Nóos. Envolve Inãki Urdangarin, marido da infanta Cristina, e a pópria. Há suspeitas de corrupcão política, fraude, prevaricação, falsificação e branqueamento de capitais.

Caso GAL. Os GAL eram grupos parapoliciais que combatiam a ETA, muito ativos entre 83 e 87, no Governo de Felipe González. Foi confirmado em julgamento que eram financiados pelo ministério do interior. Acusavam a França de acolher terroristas e nas suas ações morreram cidadãos franceses.

Quando saiu do El Mundo disse frontalmente que tinha sido despedido por pressões políticas, depois dos casos Barcenas e Nóos. Mantém essa versão?

Ninguém a pôs em causa ou contrapôs… Está convencionado que foi assim.

Já tinha tido também problemas com Felipe González no caso GAL. Foi por isso que deixou de ser diretor do Diario 16…

Sim, e pelo mesmo tipo de coisas. Ao fim de tantos anos como diretor de jornais, não me lembro de ter tido problemas por ter publicado alguma coisa que não fosse verdade. Os problemas chegam sempre quando o que publicas é verdade. O que afetava Felipe González com o terrorismo de Estado e com a corrupção é o que afeta Rajoy com o financiamento ilegal do PP e os pagamentos que se cobravam no partido.

Pedro J. Ramírez com Jose Luis Rodriguez Zapatero e Mariano Rajoy (DOMINIQUE FAGET/AFP/Getty Images)

O El Español não deixou de apostar nessa sua ‘especialidade’: denunciar casos de corrupção, sobretudo na área política… Também já sofreu pressões aqui?

Há muito tempo que os poderes deste país, o político e o financeiro, me deram como um caso perdido. Uma notícia comigo, quando me chega, é como o “lasciate ogni speranza” [“deixai toda a esperança, vós que entrais!”], que está à porta do Inferno de Dante. Antes diziam “O Pedro J. está louco, não há forma de negociar com ele, tem uma notícia e publica-a”. Pois sim! As notícias só têm um sentido e uma função, a de serem publicadas.

“Uma notícia comigo, quando me chega, é como o ‘lasciate ogni speranza’ [perdei toda a esperança, vós que entrais] que está à porta do Inferno de Dante”

Agora vivemos o escândalo dos Panama Papers, onde surgem nomes de muitos espanhóis, inclusive nomes de grupos de media adversários, como Juan Luis Cebrián, do Grupo Prisa [El País, Cadena Ser].

Ele tem de explicar à opinião pública, e aos leitores do El País, porque é que uma empresa petrolífera [a Star Petroleum] lhe ofereceu 2% das ações, pacote que incluía ainda a compra de mais 1%, uma prenda avaliada entre 5 e 10 milhões de euros. E porquê? Não o explicou ainda. O principal acionista dessa empresa petrolífera apareceu também como sponsor e organizador de atividades públicas em que estavam envolvidos quer Cebrián, quer Felipe González. Há uma explicação pendente. E a resposta de Cebrián, aplicando a censura, impedindo os seus jornalistas de irem à televisão [La Sexta] que difundiu a notícia ou expulsando do grupo Prisa as pessoas vinculadas aos meios que a publicaram é inaceitável e impróprio de um jornalista democrático.

Qual é o seu maior inimigo: Rajoy, o rei (emérito) Juan Carlos, Felipe González?…

Eu não tenho nenhum inimigo. Para mim são protagonistas da atualidade, da vida pública. A Felipe González já não dedico nenhum dos meus pensamentos, porque já não é um político no ativo, embora às vezes tenha intervenções públicas. Até acho que tem estado muito bem no papel que está a ter na relação com a Venezuela. De Rajoy deixarei de falar no dia em que deixar de ser presidente. De Juan Carlos só saem à luz do dia coisas do seu passado como rei, o presente de Juan Carlos já importa pouco. O problema é que Felipe, Rajoy e Juan Carlos continuam a considerar-me como inimigo.

Rajoy era seu amigo…

Tínhamos uma boa relação, sim…

… Quantos amigos perdeu ao longo dos anos?

Quase todos os que ganhei. Se o jornalista fizer o seu papel, qualquer relação estável, de confiança ou de continuidade com um político, a certo momento estraga-se.

Também foi amigo de Mario Conde, chegou a achar que ele poderia ser presidente do governo espanhol.

Mario Conde e o Banesto

Mario Conde foi novamente detido por tentar recuperar dinheiro que terá desviado do Banesto, num escândalo que marcou os anos 90, pelo qual foi punido com uma pena de 18 anos.

Mario Conde teve relações com todos os meios e diretores de jornais. É verdade que ele, ou melhor, o banco, o Banesto, teve 4% das ações do El Mundo logo no início. Mas quando lhe foi concedido o título honoris causa da Universidade Complutense o El Mundo publicou um artigo muito crítico sobre esse título. Vieram consultar-me, sabendo que Mario Conde era acionista, e disse-lhes: ‘Naturalmente, temos que publicar’. Conde tinha muito mais intimidade e relações diretas com Polanco e Cebrián que comigo.

Polémicas até no futebol

Até no futebol cria polémicas… Andou em despique com Piqué [jogador do Barcelona] no Twitter…

Foi uma coisa um pouco tonta. Um dia mostraram-me uma foto em que se via a bola mesmo colada à mão do Piqué dentro da área. Publiquei-a no Twitter e escrevi “Era penalty e cartão”, sem querer fazer polémica, foi um comentário como tantos outros. Ele veio responder, dizendo “Antes de comentar dispa a camisola”, sugerindo que eu era do Real Madrid. No dia seguinte publiquei uma foto minha com uma camisola do Barcelona que o anterior presidente, Laporta, seu grande amigo, me deu.

E é do Real ou do Barcelona?

Do Real, mas no basquetebol. O meu desporto é o basquetebol.

Façamos um parentesis com o futebol. Porque o futebol espanhol está supercompetitivo…

A mim surpreende-me sobretudo que quer na Liga dos Campeões quer na Liga Europa sejam as equipas espanholas a dar cartas. Quatro nas meias-finais. Não sei se é uma questão financeira, mas parece-me que não. Talvez seja a maior dedicação, mais gente a ir aos estádios e a valorizar os direitos de televisão a nível mundial. Mas é fantástico voltar a ter uma final da Champions Madrid vs Madrid.

Vale a pena fazer a pergunta do costume: Ronaldo ou Messi?

Creio que Messi é melhor futebolista, mas o Ronaldo é muito mais fascinante. É uma personagem. A obsessão de Ronaldo por ser o melhor. A dependência, a drogodependência de Ronaldo sobre o seu ego é fascinante. Porque lhe dá motivação para todo o tipo de façanhas.

Pedro J. Ramírez e Cristiano Ronaldo nos prémios da Marca em 2013 (Juan Naharro Gimenez/Getty Images)

"Creio que Messi é melhor futebolista, mas o Ronaldo é muito mais fascinante. É uma personagem. A dependência, a drogodepedência de Ronaldo, sobre o seu ego é fascinante"

Publicaria a história sobre quem é a mãe do filho de Ronaldo, que ninguém conhece?

Depende de quais fossem os elementos. Mas seria algo relevante e por isso de publicar. Respeitando a intimidade dos envolvidos, sobretudo porque se trata de um menor.

Acha que o seu estilo é um pouco como o de Mourinho? Não deixa de ser uma estrela do mundo dos media (e não só em Espanha)…

Não! A mim ninguém me quer na televisão… Bem, agora apareci com a minha família num show [no programa de Bertin Osborne “Mi Casa es la Tuya”, na Telecinco]. Mas estou vetado na televisão espanhola. Na La Sexta e nos media que o governo controla não apareço. A comparação com Mourinho é exagerada (risos). Há uma diferença muito grande: eu não meto os dedos nos olhos a nenhum adversário (risos). Em Mourinho gosto do seu sentido competitivo, da sua dedicação de corpo e alma ao trabalho, mas não gosto do seu maniqueísmo. Ele divide sempre o mundo em bons e maus, sendo que os bons são os que estão com ele e os maus os que estão com os outros. E o adversário nunca é um adversário, é um inimigo. Não estou de acordo com essa conceção do desporto, nem da vida.

Sente no dia a dia que há pessoas que o odeiam?

Sim, que me odiaram ou me odeiam. Mas “adversarum impetus rerum viri fortis non vertit animum [citação de Séneca], ou seja, o ímpeto do adversário não altera o ânimo do homem forte.

Li que acha que o El Español foi prejudicado no arranque: falta de espaço nos jornais, nas televisões… Boicote?

Sim, em grande parte. Mas será uma questão de tempo, porque no mundo digital a realidade fará com que seja impossível bloquear o que quer que seja. Pode custar-nos mais chegar a determinados setores da população, mas isso vai acontecendo dia a dia. Se temos cinco milhões de usuários aos seis meses isso significa que as tentativas de nos silenciar não estão a ter êxito.

E costumam citar o El Español?

Com grande mágoa para eles, não têm outro remédio.

Também há quem diga que é mania da perseguição…

Da minha parte? Não sou paranóico, quando tens atrás de ti muita gente que te quer apedrejar não é mania da perseguição, é perseguição real.

Uma vida nos jornais

Fez 64 anos, é diretor de jornais há 36. Não se vê a fazer outra coisa?

A vida de Pedro Ramírez

Pedro J Ramírez nasceu em Logroño a 26 de março de 1952, estudou Direito ao mesmo tempo que seguia jornalismo na Universidade de Navarra, e ensinou literatura espanhola nos EUA no Lebanon Valley College da Pensivalnia entre 73 e 74 antes de começar nos jornais. Estreou-se no jornalismo em 1975, no ABC, onde ficou até 1980, ano em que se tornou diretor do Diário 16, tornando-o um dos três grandes jornais espanhóis da altura. Foi nomeado diretor geral de publicações do grupo, mas acabou destituído em 1989 na sequência do caso GAL/Felipe González. Fundou nesse ano o El Mundo (a 23 de out de 89) onde ficou 25 anos (até 2 de fev de 2014).

Tenho a idade da canção dos Beatles, When I’m 64, e aos 28 anos era diretor do Diario 16. São 36 anos disto… carajo… Para mim ser diretor é ocasional, o que eu sou é jornalista. Quando me nomearam a primeira vez pensei que era por pouco tempo. O que não gostei foi de deixar de ser diretor porque Felipe González o decidiu, ou porque Mariano Rajoy o decidiu. Voltei a fundar um jornal porque ninguém mais me contratava. Não ia ficar no desemprego…

Podia ter uma boa reforma antecipada…

Com o dinheiro que me pagaram por me terem demitido do El Mundo poderia ter vivido muito bem em qualquer sítio do mundo, por muito tempo. Mas para mim viver bem é dedicar-me ao jornalismo.

Agatha Ruiz de la Prada e Pedro J. Ramírez (Europa Press via Getty Images)

Nestes anos todos, qual o caso que mais o afetou?

Os GAL foram um caso terrível. O 11M [os atentados de Madrid em 2004] foi algo tremendo, sobre o qual desconhecemos ainda muita coisa. A corrupção nos partidos políticos, nos últimos anos no PP, é um cancro numa sociedade democrática. E o terrorismo da ETA, em que vias assassinatos uns atrás de outros, às vezes de pessoas que conhecias e pelas quais tinhas apreço, foi uma etapa terrível.

Foi alvo de vários processos na justiça. Quantos ganhou e quantos perdeu?

Acho que ganhei todos, ou quase todos. Se perdi algum não foi importante, porque não me lembro. Os casos fundamentais ganhámos sempre.

O caso do vídeo sexual

O vídeo é de outubro de 97. Pedro J. Ramírez aparece em roupa íntima feminina com uma mulher, num ato sexual. O caso foi investigado e o processo chegou a tribunal. Foi condenado o antigo chefe de gabinete de Felipe González, Ángel Patón, o ex-governador civil de Guipúzcoa, José Ramón Goñi Tirapu, e quatro outras pessoas, por violação do direito de privacidade, com penas de dois a quatro anos. O Supremo Tribunal espanhol declarou mais tarde que o propósito do vídeo era mudar a cobertura do El Mundo no julgamento e acusações do caso GAL.

Incluindo o escândalo do verão de 2005, quando um deputado da esquerda republicana da Catalunha entrou na piscina da sua propriedade protestando por ter sido construída em terrenos públicos?

O caso da piscina foi uma anedota, uma tontice. O julgamento será agora, 11 anos depois.

E caso do vídeo sexual de 1997, aquele que divulgaram sobre si…

O mais desagradável é o facto de o ódio, a vingança contra mim pela minha conduta enquanto jornalista, se canalizarem de forma a prejudicar e causar danos à minha família. Foi algo muito canalha, tentando destruir-me pessoalmente. Mas equivocaram-se na pessoa e no país. Porque a sociedade espanhola percebeu qual era a motivação e a importância que aquilo tinha. Já passaram quase 20 anos…

“Voltei a fundar um jornal porque ninguém mais me contratava. Não ia ficar no desemprego…”

Todos estes casos e a dedicação ao jornalismo afetaram-lhe a vida familiar?

Agora já não. Vivo com a Agatha Ruiz de La Prada há quase 30 anos, os nossos filhos já são crescidos, a Agatha tem uma dedicação ao mundo da moda como eu tenho ao jornalismo, e portanto entendemo-nos. Mas quando os miúdos eram mais pequenos foi um pouco complicado, porque o jornalismo é uma forma de viver sem horários, permanente.

Agora, no mundo digital, trabalha mais horas que no tradicional? Está sempre ligado?

Para mim não é trabalhar, isto não é um trabalho. Nem sequer tento desconectar, não é que não consiga, não tento. Pode estar-se atento à atualidade e conseguir ler ou escrever. Escrevi livros de história durante anos. O jornalismo é compatível com outras coisas.

Pedro J. Ramírez na apresentação de um novo livro, em 2014 (Eduardo Parra/Getty Images)

Os livros escritos por Pedro J Ramírez

Os livros escritos do Pedro J Ramírez: Así se ganaron las elecciones (1979); Prensa y libertad (1980); Todo un rey (1981); El año que murió Franco (1985); La rosa y el capullo: cara y cruz del felipismo (1989); El mundo en mis manos (1991); España sin proyecto: la década felipista (1993); David contra Goliat: jaque mate al felipismo (1995); Amarga victoria: la crónica oculta del histórico triunfo de Aznar sobre González (2000); El desquite: los años de Aznar (1996-2000); Mis 100 mejores cartas del director: 25 años en la vida de España (1980-2005); El primer naufragio (2011); La desventura de la libertad. (2014).

A (sua) visão da política espanhola

Falemos de política espanhola. Escreveu já que se os partidos não forem capazes de fazer pactos, então que vão para casa. Acha que das eleições de 26 de junho vai sair uma maioria?

Se não há acordo, a opinião pública poderá começar a reagir violentamente contra os políticos. Não poderão andar na rua sem que os cidadãos os insultem. O princípio da representação implica obrigações dos representantes. Se de acordo com o nosso sistema político o governo tem de ser fruto de uma maioria parlamentar, se essa maioria não for monolítica, a obrigação dos políticos é chegar a acordos, a pactos.

Nas últimas eleições, uma aliança PP/PSOE/Ciudadanos podia ter funcionado?

Era o que nós defendíamos. Um governo tripartido, com um presidente de consenso. Mas Rajoy não queria aceitar nada que não implicasse ser presidente. E Sánchez o mesmo. Por detrás disto está o facto de em Espanha não existir uma democracia, nem sequer uma partidocracia. Em Espanha há uma “cupulocracia”, o mandato das cúpulas, dos partidos controlados de cima para baixo. Sem primárias, sem processos democráticos de eleição de líderes, apenas como uma continuidade endogâmica na qual os que ocupam o topo dos partidos elegem quem tem de depender deles.

“Em Espanha há uma ‘cupulocracia’, o mandato das cúpulas, dos partidos controlados de cima para baixo”

O ABC escreveu que Rajoy não quis ser o Passos Coelho português e recebeu conselhos de Paulo Portas para não aceitar a nomeação…

Ele sabia que não ia ter os votos suficientes para a investidura e, como é um homem cobarde, nunca arrisca porque não tem segurança nem nos seus argumentos, nem na sua capacidade de ter apoios. Fez o que faz sempre, ficou quieto, imóvel. Não é o tipo de liderança que se precisa numa sociedade tão complexa e com tantos problemas como a espanhola.

Mas a verdade é que Rajoy pode voltar a ganhar as eleições. E mesmo assim continuar tudo igual, sem maiorias…

Ele pode subir um pouco, mas nem o Ciudadanos nem o Partido Socialista estão dispostos a respaldar um governo presidido por Rajoy.

O maior obstáculo à falta de acordo foi…

…O Podemos. O problema matemático é que para um acordo PSOE/Podemos era necessário o apoio dos separatistas catalães, algo que o PSOE nunca aceitaria. Poderia ter havido a outra combinação, PSOE/Ciudadanos, com o apoio externo do Podemos. Mas Iglesias não queria isso, porque quer ultrapassar o PSOE e tornar-se a força, a figura, hegemónica da esquerda.

O Podemos e o Ciudadanos foram uma desilusão?

Há uma desilusão porque a nova política não está a gerar soluções estáveis. Mas a maioria dos eleitores do Ciudadanos e do Podemos estão satisfeitos e vão voltar a votar nos seus partidos.

Espanha pode entrar em crise económica? Bruxelas tem feito avisos… Era preferível o bipartidarismo?

O bipartidarismo não expressa a pluralidade de uma sociedade. Mas quando há uma representação mais fragmentada são necessários acordos. E não há na política espanhola essa cultura do pacto, do acordo que há noutros países. Isso é o que temos de conseguir.

Continua a defender que os meios de comunicação social tomem posições, apoiem candidatos, partidos?

No El Mundo sempre endossámos o nosso apoio a um candidato nas eleições. No El Español não o fizemos, mas não escondemos as nossas coincidências com o programa do Ciudadanos em muitas coisas.

Os novos desafios do jornalismo (e os seus)

Estamos mesmo a ver grandes mudanças no mundo: o problema da desintegração da Europa, o Estado islâmico, Trump nos EUA… Qual o papel que ainda está reservado aos media como meio de explicar a realidade à opinião pública?

É mais necessário que nunca explicar às pessoas esses fenómenos. E depois tomar posição, num cenário pluralista, com opiniões e olhares para os problemas de diferentes perspetivas ideológicas. O El Español e eu próprio vamos sempre ser um meio de centro… De centro radical (risos).

Hoje qualquer cidadão se acha jornalista, as redes sociais criam ondas… Como é possível conciliar essa realidade com o jornalismo?

As redes sociais e o jornalismo do cidadão são auxiliares magníficos do jornalismo profissional, mas não o substituem. O cidadão que noticia um roubo, um acidente, é um bom cidadão, mas não é um bom jornalista. Um dos desafios é processar e descodificar. Controlo, seleção e síntese. Essa é a base da atividade do jornalismo profissional. As redes sociais ampliam o âmbito de coisas a controlar e tornam mais importante a seleção e a síntese.

Segue a realidade, social e política portuguesa?

Não de muito perto.

E lê jornais portugueses?

Às vezes apenas a vossa página.

Pedro J. Ramírez numa das muitas idas a tribuna (Jose R. Platon/Cover/Getty Images)

E ainda lê jornais em papel?

Não leio jornais em papel há muito tempo. Leio livros. Não substituí o livro impresso pelo livro digital, porque tenho uma relação física e material com os livros. Os livros guardamo-los. Os jornais são descartáveis. Não leio jornais impressos, mas estou sempre rodeado de livros.

Voltaria a ser diretor de um jornal tradicional, em papel? Imagine que o El Mundo ou o El Pais o convidavam?

Penso que proximamente não haverá nenhum convite. Só numa história de ficção (risos). Agora em Espanha temos três grandes jornais tradicionais e um jornal digital com mais peso do que o El Español: El País, El Mundo, ABC e El Confidencial. Qualquer um deles é muito atrativo, mas a minha criatura é o El Español.

Mas diz-se que pode comprar o El Mundo? Ainda lhe sobrou dinheiro para isso?

Isso é uma fantasia! O que se falou foi numa possível fusão do El Español e do El Mundo para desenvolver o digital. Mas penso que é falar por falar. Não tenho nenhuma conta pendente. Os que tomaram a decisão de me destituírem foram os verdadeiros financiadores do El Español [pagando-lhe a indemnização que investiu no jornal], devo-lhes poder ter feito este jornal. Por isso, nenhum rancor, nenhum ressentimento.

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