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Rei Ghob: sucateiro, bruxo e assassino. A história dos crimes do castelo dos gnomos

25 Maio 2017338

Aviso

Este artigo contém linguagem e descrições que podem ferir a sensibilidade dos leitores

Dizia que era bruxo, falava com espíritos e encarnava o diabo - e assim assustava e controlava os jovens que passavam pelo castelo da Carqueja. Francisco Leitão, Rei Ghob, é agora julgado por violação

Não há um dia em que Maria de Fátima não pense em Joana. Durante a noite, as imagens da filha, desaparecida há mais de sete anos, voltam-lhe à cabeça. Toma medicamentos para conseguir descansar — ela e o marido, Silvino. Já foi internada várias vezes e teve um princípio de AVC. Ainda se lembra do dia em que uma enfermeira lhe disse que “estava transparente”, às portas da morte. Mas Maria de Fátima sabia que não podia morrer. Resistiu e hoje garante que só terá descanso quando descobrir finalmente o que aconteceu à filha, uma das vítimas de Francisco Leitão, o Rei Ghob: “Eu só morro quando souber o que aconteceu à minha Joana”.

Joana desapareceu de casa, em Sobreiro Curvo (Torres Vedras), em março de 2010. Tinha 16 anos. “Disse-me ‘até já’ ou ‘venho já’. Desceu o degrau de casa, passou perto do meu carro, olhou para mim e eu olhei para ela”, lembra Maria de Fátima, sentada na sala da nova casa para onde se mudou depois de terminado o processo. “Foi a última vez que vi a minha Joana.” Pensava que a filha ia ter com a melhor amiga, Beatriz — não sabia que à espera dela estava Francisco Leitão, um homem de 42 anos que vivia numa casa tornada castelo numa pequena aldeia da Lourinhã, conhecido por andar sempre rodeado por adolescentes. Eles eram os seus gnomos e ele o seu rei.

Maria de Fátima e Silvino tinham proibido Joana de se dar com Leitão. Só que o Rei dos Gnomos era próximo do namorado de Joana e os três costumavam andar juntos. “Ela dizia que não gostava dele, que só ia porque gostava do Luís”, conta a mãe da adolescente. “Ele ia muitas vezes buscá-la à escola, viemos depois a saber.” E não só. Era também o homem de 42 anos que facilitava os encontros entre o casal, disponibilizando a sua casa na Carqueja e também o transporte. Foi assim que, naquela noite de 3 de março, convenceu Joana a encontrar-se com ele: disse-lhe que tinha preparado uma surpresa para Luís.

Francisco Leitão encheu a fachada da sua casa na Carqueja, uma pequena localidade na Lourinhã, destas pequenas estátuas

De acordo com Maria de Fátima, os pais de Beatriz também proibiram a filha de se dar com ele. Foi por isso que, na noite em que Joana desapareceu, a melhor amiga não estava com ela. Passadas 48 horas do desaparecimento da filha, Maria de Fátima foi ao posto da GNR de Torres Vedras apresentar queixa. Daí mandaram-na para Santa Cruz porque, de acordo com os militares, era a essa freguesia que pertencia Sobreiro Curvo. “Se a minha filha tivesse desaparecido na China, tinha de ir a Santa Cruz dar conta do desaparecimento porque ela pertencia ali”, diz Maria de Fátima, com um tom azedo.

O caso parecia simples — uma jovem rebelde parecia ter fugido de casa para contrariar os pais. Mas o que os investigadores da Polícia Judiciária (PJ), responsáveis pelas investigações, acabaram por descobrir era muito mais complexo. A denúncia do desaparecimento de Joana depressa levou a outros casos semelhantes — ao de Tânia e Ivo, e ainda ao de António, um homem mais velho conhecido por “Pisa-Lagartos”. Tânia e Ivo tinham desaparecido dois anos antes, “Pisa-Lagartos” não era visto desde 1996. Todos tinham uma coisa em comum com Joana — o “amigo” chamado Francisco Leitão.

Depois de dois anos de investigação, Leitão foi julgado e condenado no Tribunal de Torres Vedras a 25 anos de prisão, a pena máxima em Portugal, pela morte dos três jovens. O homicídio de “Pisa-Largartos” não ficou comprovado. E os corpos nunca apareceram. Para as famílias, isso significa que será impossível pôr um ponto final numa história que começou há quase dez anos. Para Maria de Fátima significa que nunca haverá descanso.

Numa altura em que o antigo sucateiro da Carqueja volta a tribunal para ser julgado por 542 crimes de violação, ocorridos entre 2009 e 19 de julho de 2010, data em que foi detido, reconstruímos os eventos que levaram ao desaparecimento de Joana, Ivo e Tânia. Esta é a história das três vítimas (conhecidas) do Rei Ghob.

O desaparecimento de Joana

Eram 13h quando Joana e Beatriz se encontraram no café “O Chôco Néu”, em Sobreiro Curvo. Amigas desde que Joana se tinha mudado para a pequena localidade da freguesia de A dos Cunhados (em Torres Vedras), no início do verão de 2009, as duas eram praticamente inseparáveis. Mas tudo havia de mudar naquele final de tarde de 3 de março de 2010: por volta das 19h30, Joana saiu de casa para ir ter com o namorado, Luís. Nunca mais foi vista.

Passados dois dias, Maria de Fátima deslocou-se ao posto da GNR de Santa Cruz para denunciar o desaparecimento da filha. A menor tinha por hábito dormir fora de casa sem avisar os pais, mas nunca durante muito tempo. Entre as causas presumíveis para o seu desaparecimento, a GNR apontava rebeldia. A mudança de Joana para Sobreiro Curvo não tinha sido fácil. Em finais de dezembro de 2009, Maria de Fátima chegou mesmo a ter uma grande discussão com a filha depois de descobrir que esta tinha chumbado por faltas (Joana andava a tirar um curso de cozinha numa escola em Torres Vedras). O embate foi tão grande que Joana saiu de casa. Apesar disso, não era normal ficar em silêncio por tanto tempo, e Maria de Fátima temia que a filha tivesse sido raptada. A razão? As mensagens estranhas que esta lhe tinha enviado.

Joana tinha o cabelo loiro mas, na altura do seu desaparecimento, pintara-o de preto. A mãe mantém as duas fotos em casa

Nos dias que se seguiram ao desaparecimento da adolescente de 16 anos, Maria de Fátima recebeu algumas mensagens escritas do número de telemóvel da filha. Nelas, Joana explicava que se encontrava fora de Portugal, que o tinha feito voluntariamente e que não havia motivos para se preocuparem. Mais: pedia que não a procurassem. Esse discurso foi repetido numa curta conversa com a irmã mais velha, Cátia, que no dia 6 de março enviou uma mensagem para Joana pedindo-lhe que lhe ligasse assim que pudesse.

Na altura, o telemóvel de Joana estava desligado, só voltando a ser ligado longas horas depois. Por volta das seis da manhã do dia seguinte, Cátia recebeu finalmente uma resposta da irmã. A conversa que se seguiu foi bizarra: respondendo-lhe que estava bem, Joana explicou-lhe que estava em França com uns amigos do Porto e que estava a trabalhar num bar. “Não quero estar aí, eu depois volto. Aqui fuma-se uns canhões e ’tá tudo okay”, disse-lhe, de acordo com Maria de Fátima.

As supostas mensagens enviadas por Joana nunca chegaram a explicar que bar se tratava, quem seriam os tais amigos do Porto ou os motivos porque teria fugido de Sobreiro Curvo. E tanto Maria de Fátima como Cátia tiveram dificuldade em acreditar que estas tinham realmente sido enviadas pela menor — não era assim que Joana falava. Além disso, era estranho que tivesse fugido de casa sem levar quaisquer documentos. Como teria Joana saído do país sem ter levado, sequer, o Bilhete de Identidade?

O nome de Francisco Leitão chegou aos ouvidos da polícia através de Beatriz. A jovem de 14 anos lembrava-se que, durante a tarde de dia 3 de março, o telemóvel da amiga não tinha parado de apitar com mensagens e telefonemas de um suposto primo do namorado (ao todo, entre as 11h e as 19h30 daquele dia 3, foram trocadas 182 mensagens). Do outro lado, o tal primo tentava convencê-la a encontrar-se com ele à noite, para fazerem uma surpresa a Luís. Mas Joana não podia contar nada a ninguém — era segredo. Esse primo era nada mais nada menos do que Francisco Leitão, o homem de 42 anos que vivia na pequena localidade de Carqueja, numa casa que tinha pertencido aos seus pais e que, ao longo dos anos, transformara em castelo.

Quem é Francisco Leitão?

Francisco Leitão nasceu a 28 de outubro de 1968, na Carqueja, numa casa que pertenceu em tempos aos pais, José e Maria Idalina. Foi aí que viveu durante toda a vida. Na altura da sua prisão, vivia na mesma moradia a irmã, com o então companheiro e os três filhos.

Quem o conheceu diz que foi uma criança normal. Foi só quando cresceu que se tornou “estranho”, passando a preferir a companhia de adolescentes e só saindo de casa durante a noite. Quando a casa dos pais lhe passou para as mãos, decidiu transformá-la num castelo com gnomos a guardar a porta de entrada.

Leitão, que tem apenas o 4.º ano de escolaridade e que vivia da recolha e venda de sucata, foi alterando a fachada, acrescentando torres, muralhas e enchendo o jardim da entrada com pequenas estátuas.

Numa entrevista que deu ao DN em julho de 2011, quando estava detido, explicou que a casa era “um sonho de infância”. “Os meus trisavôs eram príncipes em Vigo, Espanha, e quando rebentou a Guerra Civil tiveram de abandonar o país. Os meus avós contaram-me que eu tinha sangue azul a correr nas veias.”

A história está longe de ser verdadeira, mas Leitão parecia acreditar nela. Foi por essa razão que disse ter decidido construir um castelo.

Beatriz achou estranho que Leitão quisesse levar Joana para fazer uma surpresa a Luís em vez de o levar a ele a Sobreiro Curvo, onde a namorada morava, mas na altura não ligou. A última vez que falou com Joana foi por volta das 22h, quando ela lhe disse que estava a caminho. Dias depois, antes de ser ouvida pela PJ, Beatriz foi abordada pelos dois “primos” (Luís e Ghob não eram da mesma família, mas era assim que se tratavam), que lhe pediram que não contasse nada à polícia sobre as chamadas e mensagens trocadas. Tinham medo de parecerem suspeitos. Por isso, o melhor era mesmo Beatriz ficar calada.

Foi na mesma altura que Maria de Fátima e o marido receberam em casa uma visita inesperada. Francisco Leitão apareceu na residência do casal em Sobreiro Curvo e, mostrando-se preocupado com o desaparecimento da jovem, deu a entender que seria melhor carregar-lhe o telemóvel desta não fosse estar mesmo fora do país. Com saldo no telemóvel, a adolescente já podia dar notícias.

O caso parecia suspeito e o cadastro de Leitão ainda mais. Os antecedentes policiais referiam crimes de abuso sexual com uma criança, atos sexuais com adolescentes, furto e ainda incêndios. Só que os crimes cometidos pelo Rei dos Gnomos ao longo dos anos não se ficavam por aí, como as autoridades estavam prestes a descobrir.

O telemóvel de Joana parecia guardar o segredo para o seu desaparecimento e, por essa razão, a polícia decidiu investigar mais a fundo. Mas as ordens do tribunal tardavam em chegar e Maria de Fátima decidiu agir. “Telefonei para a Vodafone, expliquei o que se passava e disseram-me que o cartão da minha filha estava num telemóvel que pertencia ao Ivo“, conta ao Observador. A partir daí, não foi muito difícil chegar a Francisco Leitão. A 13 de abril de 2009, tinha sido apresentada uma queixa de furto de alguns artigos do interior de um Audi A4, de cor preta, utilizado por Francisco Leitão mas registado no nome de outra pessoa: desde o verão de 2008 que o carro estava em nome do ‘primo’, o namorado de Joana.

O número 37 da Rua Principal destaca-se no meio das outras vivendas da Carqueja. Tem ameias e torres altas, como um castelo

Três dias depois, a PJ foi bater à porta dos pais de Ivo, Manuel e Cecília, na Serra do Calvo (Lourinhã). O que o casal contou aos inspetores da fez mudar radicalmente o rumo da investigação — Ivo, de 22 anos, também estava desaparecido. E já desde finais de junho de 2008.

O desaparecimento de Ivo

Manuel e Cecília tinham visto o filho pela última vez há dois anos. Convencidos de que Ivo se tinha mudado para Espanha para fugir à polícia por causa de crimes de tráfico de droga e roubo de automóveis, não tinham chegado a apresentar queixa. Quem os informou da fuga do filho foi Francisco Leitão, que, passados poucos dias do desaparecimento do rapaz, apareceu em casa do casal. Antes disso, os pais de Ivo tinham visto Leitão uma única vez, na festa de 22 anos do filho, em 2007. Apesar disso, sabiam que era com ele que Ivo morava desde que, anos antes, decidira sair de casa.

Ivo sempre teve um comportamento instável. Os pais chegaram a procurar a ajuda de um psicólogo, mas o filho sempre recusou receber qualquer tipo de apoio. Com apenas o 4.º ano de escolaridade, saiu de casa aos 17 anos para ir viver para o castelo da Carqueja, a casa do Rei Ghob. Aos poucos, os contactos com a família começaram a escassear (principalmente com o pai, com quem tinha uma relação difícil), à medida que o relacionamento com Francisco Leitão ia ganhando outros contornos — os dois tornaram-se amantes, facto que era assumido por Leitão e do conhecimento daqueles que o rodeavam.

Cecília admitiu em várias ocasiões que nunca gostou que o filho morasse em casa de Ghob, mas Ivo já era maior de idade e não tinha como o contrariar. Nem os relatos de que o jovem era maltratado por Francisco Leitão (foram várias as pessoas que relataram incidentes de violência doméstica) parecem ter convencido o Cecília e o marido a tirarem o filho da casa do Rei dos Gnomos. Quando Cecília perguntava a Ivo o que é que fazia em casa de Leitão, este dizia apenas que estava a trabalhar e que na casa da Carqueja também viviam a mulher e a filha do patrão.

Segundo uma reportagem do Diário de Notícias de finais de julho de 2011, Francisco Leitão tinha casado aos 24 anos com uma jovem de 20 da Bufarda, uma localidade a cerca de quatro quilómetros da sua aldeia. O casamento aconteceu contra a vontade dos pais da noiva e durou uns escassos dois meses. Ao Diário de Notícias, o irmão da ex-mulher de Leitão relatou que, durante esse período, a mulher terá sido vítima de violência doméstica e que Ghob fazia dela sua criada. Abandonou o marido depois de o apanhar com um homem. Depois disso, Leitão terá vivido com uma outra mulher, da qual terá tido uma filha.

Por volta de março de 2008, Ivo começou a trabalhar com o pai na construção civil. De acordo com o jovem, o negócio de ferro-velho que o seu antigo patrão mantinha tinha ido por água abaixo, e Leitão já não tinha emprego para lhe dar. Ghob manteve, durante vários anos, um negócio de recolha e venda de ferro-velho chamado Reciclagem Estremadura Metais, sediado na casa onde vivia.

A rotina de Ivo mudou então radicalmente: pela manhã, deixava o castelo da Carqueja e deslocava-se até à Serra do Calvo, onde tomava o pequeno-almoço com a família antes de sair para o trabalho com o pai. Ao final do dia, jantava em casa com os pais, mas as noites eram passadas com Leitão. O ritual repetia-se todos os dias — até que deixou de aparecer.

Numa das altas paredes do castelo da Carqueja, ainda é possível ler o nome da antiga empresa de Leitão, a Reciclagem Estremadura Metais. Por baixo, diz: "Portugal - Espanha"

O amigo dedicado

Na casa da família de Ivo, já todos tinham terminado de jantar. Ivo estava prestes a regressar à Carqueja quando o pai deu com ele parado, junto à porta, a olhar para eles. Sem dizer uma palavra, saiu. Depois daquela noite de 26 de junho de 2008, não voltou a visitar os pais. Mas, supostamente, continuava a enviar-lhes mensagens, de tempos a tempos, garantindo que estava bem e a trabalhar. As restantes notícias eram levadas por Francisco Leitão.

Durante a fase difícil da suposta fuga de Ivo para Espanha, Francisco Leitão manteve-se sempre ao lado de Manuel e Cecília, mostrando-se um amigo dedicado. Levou-lhes algumas fotografias (16, ao todo) do filho, alegadamente tiradas num hospital espanhol e junto à Torre Eiffel, em Paris, e ofereceu-se para ir com Manuel a Espanha para tentarem encontrar uma cabine telefónica da qual Ivo lhe teria ligado. A viagem aconteceu poucos dias depois do desaparecimento de Ivo. Com eles foi João Jacinto, um amigo do antigo sucateiro conhecido na zona como “João da Roulotte” porque tinha uma roulotte de venda de comida junto ao mercado da Lourinhã.

Depois de terem passado a Ponte Vasco da Gama, Leitão informou-o de que tinham chegado a Espanha (ficam dúvidas se lá terão mesmo chegado). Estacionaram o carro junto a uma rotunda e Ghob, deixando os restantes no interior do veículo, dirigiu-se à cabine telefónica mais próxima. Quando regressou, informou Manuel de que tinha identificado o telefone de onde Ivo lhe tinha telefonado. Era aquela cabine telefónica, junto à rotunda — não havia dúvidas. Deixaram o carro estacionado e começaram a andar às voltas pela zona, em busca de Ivo.

Quando a ida a Espanha se estava a transformar num fracasso, Leitão chamou a atenção de Manuel para um carro que tinha acabado de passar por eles. Segundo Francisco Leitão, ao volante ia nada mais nada menos do que Ivo. Apesar de não ter conseguido ver o rosto do condutor, Manuel foi levado a crer que era de facto o filho que seguia no carro. Recomeçaram a caminhada e, passado pouco tempo, Ghob disse que o jovem tinha voltado a passar por eles. Como da primeira vez, Manuel nada viu. Depois de uma curta chamada telefónica, Ghob informou o pai do jovem que tinha acabado de falar com ele e que Ivo lhe tinha pedido que saíssem dali o mais depressa possível. Corriam risco de vida. Os três regressaram de imediato a casa, sem sinal de Ivo.

As paredes altas do castelo da Carqueja protegem a casa de olhares exteriores

Francisco Leitão continuou a aparecer em casa do casal, repetindo sempre a mesma história de que tinha sido contactado pelo jovem e que este lhe tinha garantido que estava bem e de boa saúde. Numa das vezes, levou o Audi A4 preto que pertencia a Ivo. A Manuel e Cecília, Ghob contou que se tinha encontrado com o jovem e que este lhe tinha dado o carro. Manuel perguntou-lhe onde é que se tinham encontrado, mas Leitão não deu mais detalhes.

Durante as várias visitas que lhes fez, Francisco Leitão chegou a pedir dinheiro e comida aos pais de Ivo supostamente para lhe entregar. Além das fotografias, mostrou-lhes ainda uma carta escrita a computador e assinada à mão. Na missiva — repleta de erros ortográficos e datada de 5 de outubro de 2008 –, o suposto Ivo explicava à família que estava em França com um amigo e que um dia voltaria a Portugal. Só não sabia era quando. A maior parte da carta, porém, era dirigida a Leitão.

Afirmando que a família nunca gostou de Francisco Leitão, o alegado Ivo admitiu que chegou a dizer mal dele para que as pessoas não tivessem uma ideia errada, numa referência a uma relação que sempre fez questão de negar perante os pais. Pedindo-lhes que gostassem do antigo sucateiro, uma vez que ele também gostava dele, disse saber que a família estava a sofrer muito e que a polícia andava a investigar o seu desaparecimento. Mas isso não era um problema: tinha tudo controlado.

Dirigindo-se diretamente a Leitão, Ivo pediu-lhe, na mesma carta, desculpa por gostar tanto dele, que não chorasse e que tivesse força.

Dirigindo-se diretamente a Leitão, Ivo pediu-lhe desculpa por gostar tanto dele, que não chorasse e que tivesse força. Certo de que um dia voltaria a abraçá-lo, porque Ghob já tinha enfrentado um grupo com o qual teria problemas em Espanha, o jovem pediu-lhe que fosse ter com ele ao país vizinho, mas que não levasse ninguém. Aos pais, explicou ainda que lhes pediu dinheiro porque precisava muito e que, se quisessem falar com ele, para usarem o amigo como intermediário, que lhe enviava uma mensagem em código. No final, deixou um pedido: que depois de lida, queimassem a carta.

As visitas e os pedidos de Leitão duraram até que a irmã mais velha do jovem, Marlene, que suspeitava das intenções do antigo sucateiro, pôs um ponto final na situação. Assim que a família de Ivo deixou de lhe dar dinheiro ou comida, Ghob nunca mais apareceu na Serra do Calvo.

Os testemunhos dos pais de Ivo, assim como outras informações recolhidas até então, permitiram aos inspetores da Polícia Judiciária concluir, logo em março de 2010, que havia indícios de que o homem de 41 estivesse envolvido no rapto de Joana e no de Ivo.

O desaparecimento de Tânia

Quando a queixa de Maria de Fátima chegou às mãos da Unidade Nacional Contra o Terrorismo da PJ, no início de março de 2010, as autoridades pensavam tratar-se de um único caso de desaparecimento. Passado menos de um mês, porém, a polícia já tinha em mãos três desaparecimentos. E todos com um nome em comum: Francisco Leitão.

Como tinha acontecido com Ivo, chegar ao nome de Tânia não foi difícil para as autoridades — bastou-lhes falarem com uma mão cheia de testemunhas. A jovem de 27 anos estava desaparecida desde dia 5 de junho de 2008, altura em que deixou de aparecer no Hospital Distrital de Torres Vedras onde a filha estava internada. As duas tinham dado entrada no hospital a 30 de maio, depois de terem sido agredidas por Nuno, marido de Tânia e pai de Carina.

Os problemas entre o casal já duravam há algum tempo. Tinham começado em 2006, agravando-se em 2007. Nuno, que trabalhava como camionista, passava a semana fora, só regressando a casa, em Casal da Serpigeira (em Torres Vedras) à sexta-feira. A certa altura, começaram a chegar-lhe aos ouvidos histórias de que a sua mulher recebia em casa a visita de vários homens quando estava fora. Em entrevista ao Diário de Notícias, a 22 de julho de 2010, Nuno contou que chegou a encontrar em casa “o Francisco Leitão na cavaqueira” com a mulher. “O Ivo também aparecia por lá e cheguei a ver os dois lá na sala com a Tânia.”

As discussões foram-se multiplicando até que, em dezembro de 2007, Nuno decidiu separar-se da mulher e alugar uma casa na Lourinhã. Pediu o divórcio em 2008 e combinou encontrar-se com Tânia em maio para assinarem os papéis. Mas a mulher não apareceu. Furioso, foi ao seu encontro, acabando por agredi-la na sequência de uma discussão. Às autoridades e ao Diário de Notícias, garantiu não ter tocado na filha. Apesar disso, tanto Carina como Tânia deram entrada no Hospital de Torres Vedras nesse mesmo dia. Tânia teve logo alta, mas a filha permaneceu internada.

“Desculpa por tudo o que fiz. Onde me encontro estou bem. Cuidem da minha filha por mim. Não se preocupem comigo. Perdoem-me por tudo.”
Mensagem enviada do telemóvel de Tânia para o irmão Mário

Tânia visitou Carina todos os dias, chegando mesmo a dormir no hospital com ela. Até que, a 5 de junho de 2008, deixou de aparecer. Nuno foi informado pelo hospital e, ao Diário de Notícias, contou que Tânia tinha dito a Carina “que ia ajudar uma amiga a organizar uma festa de casamento”. “No dia 8 de junho, três dias depois do desaparecimento da Tânia, a Carina fez dez anos. Foi a primeira vez que a mãe não esteve na sua festa de anos. A menina ficou muito triste”, disse ao jornal.

Mas de facto foi no Hospital de Torres Vedras que Tânia foi vista pela última vez, a 4 de junho de 2008. Cerca de uma semana depois, Maria da Glória Costa apresentou queixa pelo desaparecimento da filha. Foi ao posto da GNR de Santa Cruz — o mesmo onde, dois anos depois, Maria de Fátima daria conta do desaparecimento da filha Joana. Francisco Leitão foi com ela. Depois, como Tânia manteve sempre o silêncio, o amigo Leitão foi convencendo os seus familiares de que teria fugido. No final de julho, o seu irmão, Mário, recebeu uma mensagem enviada do número da irmã: “Desculpa por tudo o que fiz. Onde me encontro estou bem. Cuidem da minha filha por mim. Não se preocupem comigo. Perdoem-me por tudo”. Mário ficou convencido de que Tânia tinha de facto fugido.

A casa tem várias pequenas estátuas no exterior

Como foi relatado pelo marido de Tânia ao Diário de Notícias, Francisco Leitão era seu amigo. A jovem costumava, inclusive, frequentar a moradia do sucateiro na Carqueja com a filha Carina. Conhecia também Ivo e os outros adolescentes que se costumavam encontrar na casa-castelo do Rei Ghob. O que talvez Maria da Glória não soubesse é que, algures em 2008, Tânia se tinha envolvidode facto com Ivo, como o marido desconfiava, levando o jovem a afastar-se de Leitão. E mais: de acordo com o relato de quem a conhecia, Tânia estaria grávida de gémeos na altura do seu desaparecimento. Os bebés seriam filhos de Ivo. O mesmo Ivo que teria deixado de ser amante de Leitão. Uma teia amorosa intricada.

Passado mais de um mês do desaparecimento de Joana, as autoridades começavam finalmente a aperceber-se de que tinham um processo muito mais complexo em mãos, colocando até a hipótese de se tratar de um caso de tráfico de seres humanos. Na altura, tinha sido libertado numa quinta espanhola um jovem de 15 anos raptado na zona da Lousada, e o caso tinha ficado na cabeça dos inspetores da PJ.

A investigação dos desaparecimentos de Joana, Ivo e Tânia permitiu ainda aos investigadores descobrir uma alegada quarta vítima. António, conhecido como “Pisa-Lagartos”, tinha desaparecido da zona da Lourinhã em novembro de 1996. Natural de Lisboa, António tinha-se mudado para Peniche depois de se separar da mulher, Elisa. O homem de 73 anos teria vivido no interior de uma carrinha na Carqueja.

“Pisa-Lagartos” costumava deslocar-se frequentemente a Lisboa. Foi quando deixou de o fazer que a sua família participou o seu desaparecimento, a 25 de março de 1996. A sua filha, Odete, decidiu tentar, pelos seus próprios meios, descobrir o que se tinha passado. Soube, então, que o pai tinha dado entrada no Hospital de Peniche pouco tempo antes de desaparecer. A acompanhá-lo ia… Francisco Leitão.

Odete tinha a pior imagem de Leitão, que já na altura do desaparecimento do seu pai não gozava de boa reputação na zona. Por esses motivos, decidiu confrontar o sucateiro com a informação que tinha recolhido. Mas este disse-lhe apenas que, depois de ter levado o seu pai ao hospital, o tinha deixado em Entrecampos, em Lisboa. O que tinha acontecido depois disso era, para ele, uma incógnita. No hospital não foi deixada qualquer informação sobre um suposto acompanhante, a não ser que António tinha sido assistido pelo pessoal médico por estar embriagado.

Vários telemóveis, um só homem

Foi graças ao telemóvel de Joana que os investigadores da PJ conseguiram a pista que os levaria a Ivo e, mais tarde, a Tânia, descobrindo assim uma série de crimes que teriam sido cometidos pelo mesmo homem — Francisco Leitão. E foi graças aos telemóveis e cartões SIM das três vítimas que conseguiram apanhar definitivamente o homicida.

Ansioso por despistar as famílias das vítimas, Ghob cometeu vários erros que acabariam por ser fatais. O primeiro aconteceu em julho de 2008, mais de um mês depois do desaparecimento de Tânia. A 21 desse mês, Leitão usou um dos seus telemóveis, onde introduziu o cartão SIM da jovem de 27 anos, para mandar uma mensagem a Mário, irmão de Tânia, fazendo-se passar por ela. Foi também por volta dessa altura, depois do desaparecimento de Ivo, que decidiu usar o telemóvel deste para enviar mensagens aos seus familiares, repetindo o que já tinha feito com a família de Tânia.

Mais tarde, já em 2010, adquiriu dois cartões de telemóvel que registou no nome de Ivo, indicando a morada dos pais como residência — tudo para dar a entender que o jovem ainda estaria vivo. E mais: apoderou-se do Audi A4 que tinha sido do jovem e do seu cartão multibanco, passando a utilizá-lo, incluindo para pagar as prestações do empréstimo que Ivo tinha pedido para comprar o carro.

Durante as investigações, foi ainda possível concluir que a carta e fotografias que Francisco Leitão tinha mostrado aos pais de Ivo não passavam de montagens. Para tal, Leitão usou fotografias suas, que até tinha publicado na sua conta do hi5, e forjou a assinatura do jovem, decalcando-a de um dos muitos documentos que tinha em sua posse. Tudo para fazer crer a Manuel e Cecília que o filho tinha emigrado.

A casa de Francisco Leitão tem estátuas de gnomos e de outras figuras mitológicas

O esquema tinha resultado das duas primeiras vezes, então Leitão decidiu repeti-lo uma terceira vez: depois de Joana desaparecer, apropriou-se do seu telemóvel e, no dia 4 de março de 2011, pelas 13h, introduziu o cartão dela num aparelho que tinha pertencido a Ivo. Foi assim que enviou as mensagens estranhas à mãe e à irmã de Joana. No dia 7 de março, quando se encontrava em A dos Cunhados, telefonou do número da menor para um hotel na Roménia. O estabelecimento contactou-o de volta, mas, como todas as chamadas tinham sido reencaminhadas para o telemóvel de Maria de Fátima, foi esta que recebeu o telefonema da Roménia. O objetivo era claro — fazer com que ela acreditasse que a filha tinha saído de Portugal por sua livre vontade.

A 19 de julho de 2010, o Ministério Público achou que estavam finalmente reunidos indícios suficientes para decretar a prisão preventiva de Francisco Leitão. Foi detido à meia-noite desse dia, na sua casa, e presente a um juiz de instrução a 21 de julho. Nesse primeiro interrogatório judicial, garantiu não ter tido qualquer tipo de responsabilidade na morte de Joana, de Ivo ou de Tânia. Haveria de se provar o contrário. E de ficarem por provar muito mais suspeitas.

Os horrores que o castelo da Carqueja escondia

Joana, Ivo e Tânia eram apenas três dos muitos jovens que frequentavam o castelo da Carqueja. A corte do Rei Ghob era muito maior e não se resumia apenas às terras vizinhas — o processo inclui até relatos de jovens residentes nas Caldas da Rainha. Aliás, de acordo com Maria de Fátima havia mesmo miúdos no norte de Portugal que conheciam Francisco Leitão. A fama do Rei Ghob terá até passado a fronteira e chegado a Espanha, onde costumava ter “reuniões”.

Estes jovens eram, para Francisco Leitão, os seus “gnomos”. Era assim que ele, o seu “rei”, os tratava. O homem, que se dizia uma espécie de mago — capaz de incorporar espíritos, controlar energias e até de impedir o fim do mundo (como diz num dos vídeos que publicou no YouTube) –, aliciava os adolescentes pagando-lhes bebidas e jantares, idas a discotecas e oferendo-lhes objetos de valor, como telemóveis e computadores. Alguns chegaram mesmo a receber dinheiro. A maioria vinha de famílias pobres ou tinha um historial problemático.

Os escolhidos podiam frequentar a sua casa-castelo, na pequena aldeia da Carqueja. O que aí se passava era, até à detenção de Leitão, um mistério. Foi apenas depois de a PJ ter colocado o Rei Ghob atrás das grades que os seus gnomos começaram a revelar os horrores que as muralhas do castelo da Carqueja escondiam.

Foi apenas depois de a PJ ter colocado o Rei Ghob atrás das grades que os seus gnomos começaram a revelar os horrores que as muralhas do castelo da Carqueja escondiam.

Uma vez entrados na corte dos gnomos, os jovens eram levados a crer na existência de forças sobrenaturais. Para provar que o que dizia era verdade, Leitão encenava sessões espíritas, durante as quais incorporava “entidades” usando adereços de magia e alterando a sua forma de falar. Entre os espíritos que encarnava contavam-se personagens como o “LM”, o “Cão”, a “Fatinha”, o “Reficul” (“Lucifer” escrito ao contrário), o “Damásio” e o mais temido de todos — o “Velho”. O ex-sucateiro chegou mesmo ao ponto de criar uma narrativa em torno destes espíritos, levando os adolescentes a crer que eram de facto reais.

Era também recorrente levar os adolescentes a cemitérios durante a noite onde, com a ajuda de terceiros (e até por vezes da própria irmã, Dina), forjava a aparição de fantasmas. Uma dessas visitas noturnas foi captada em vídeo e colocada no YouTube, onde Leitão tinha duas contas e partilhava mensagens de caráter místico e profético. As imagens mostram o momento em que uma mulher mais velha, acompanhada por um grupo de rapazes, é agarrada por um suposto fantasma. Francisco Leitão nunca aparece, mas é possível ouvir um dos jovens a dizer o seu nome.

Apesar de um dos adolescentes se mostrar cético em relação ao que acabou de ver, dizendo que o fantasma parecia estar vestido com uma máscara de carnaval, um outro diz-lhe que não, “que é mesmo assim”. O vídeo, datado de 29 de junho de 2010 (Ghob foi detido em julho seguinte), é claramente uma encenação, mas a reação dos participantes mostra a sua crença nas histórias de Leitão, que não se ficavam por contos de assombrações.

Num dos vídeos mais conhecidos, Leitão, que se apresenta como “Mestre Ghob, sábio”, anuncia o fim do mundo para o dia 21 de dezembro de 2012, uma catástrofe que pretendia impedir através da libertação da sua “energia”. De acordo com Ghob, ele seria o único preparado para travar o fim do mundo.

Francisco Leitão fazia crer aos que o seguiam que todos os seres humanos tinham cópias “negativas” de si mesmos, cujo objetivo era destruir os seus originais. Isso seria alcançado através daquilo a que chamava “energia negativa”. Esta podia ser até usada contra amigos e familiares dos humanos originais, provocando a sua morte. Para que isso não acontecesse, era necessário atingir determinados níveis de “energia positiva” no corpo. E só havia uma maneira de o fazer: através de “injeções de energia”, transmitidas durante o ato sexual.

Foi com esta história que Ghob conseguiu levar dezenas de jovens a praticarem sexo consigo. È por esse crime, o de violações, que está agora a ser novamente julgado. Com medo das consequências, os adolescentes acediam a cumprir um rigoroso calendário sexual estipulado por Leitão, que teria como objetivo limpá-los de todas as más energias. A maioria eram rapazes, mas houve também raparigas que passaram pela casa da Carqueja. Pode parecer difícil de acreditar, mas o medo que estes jovens sentiam era bem real. Muitos temiam pela sua própria vida.

Um deles deixou-se violar consecutivamente em 2009 exatamente por isso. As violações aconteciam de quatro em quatro dias, e Leitão fazia questão de deixar bem claro que, se houvesse alguma falha, o jovem correria risco de vida. O medo que conseguiu incutir no adolescente de 18 anos foi tal que, quando as “injeções” não aconteciam, este entrava em pânico. Além disso, Leitão dizia-lhe que a acumulação de energia no interior das entidades sobrenaturais que encarnava provocava um grande sofrimento emocional. Era preciso, por isso, deitar toda a energia cá para fora. O jovem, que não suportava a ideia de provocar sofrimento a espíritos como “Fatinha” e “Maria”, acabava por aceder. Para ele, as entidades eram como dois amigos próximos. Só mais tarde é que se apercebeu que, afinal, não existiam.

O jovem, que não suportava a ideia de provocar sofrimento a espíritos como “Fatinha” e “Maria”, acabava por aceder. Para ele, as entidades eram como dois amigos próximos.

Um outro jovem, um dos “gnomos” favoritos de Francisco Leitão, acreditou até ao último segundo que tudo o que o Rei Ghob lhe tinha feito tinha sido para o seu bem, incluindo as violações de que foi vítima durante longos períodos. Como muitos jovens, antes e depois dele, o adolescente de 17 anos (que costumava frequentar o castelo da Carqueja com Luís, namorado de Joana) foi levado a acreditar numa realidade que apenas existia na cabeça do Rei dos Gnomos.

Francisco Leitão tinha explicações para tudo e arranjava sempre novas provas da existência das entidades. Foi assim que fez o jovem acreditar que tudo o que dizia era verdade e que os “negativos” — como lhe chamava — existiam mesmo. Ameaçando-o com estas forças sobrenaturais que o queriam matar, Ghob conseguiu, a pouco e pouco, provocar no adolescente um pânico total. De tal forma que, apesar da recusa inicial, este acabou por ceder julgava que, se não fosse “injetado”, que acabaria por morrer. O terror era tal, que o adolescente até tinha medo de andar na rua. Passava as noites em claro e deixava sempre a luz do quarto acesa.

Quem é o Rei Ghob?

Aos jovens que o seguiam, e também nos seus dois canais do YouTube, Francisco Leitão apresentava-se como o Rei Ghob.

Ghob (ou Gob) é, segundo algumas mitologias, o rei dos gnomos, pequenas criaturas mágicas, ligadas à terra, que costumam ser apresentadas como tendo uma aparência semelhante à dos humanos. Vivem debaixo da terra, em minas ou dentro de troncos de árvores, onde guardam tesouros.

Os gnomos foram referidos pela primeira vez no século XVI pelo sueco Paracelsus, num trabalho dedicado à alquimia. De acordo com o autor, são um símbolo do elemento Terra.

Quando mostrava resistência, era hábito Leitão drogá-lo. No dia seguinte, acordava sem qualquer memória do que se tinha passado durante a noite e repleto de nódoas negras. Mas também isso tinha uma explicação, segundo Ghob — era tudo obra dos “negativos”. As “injeções de energia” começaram por ser esporádicas, mas, com o passar do tempo, foram ganhando uma maior regularidade. Com o desaparecimento de Joana, porém, Francisco Leitão transferiu a sua atenção para um outro jovem — Luís, o seu namorado.

Luís conheceu Leitão entre finais de 2008 e inícios de 2009, por intermédio de dois amigos da Bufarda que lhe contaram que o sucateiro era bruxo e conseguia, através do uso de energia, movimentar objetos. Curioso com a história, Luís visitou nesse dia a casa de Ghob, que, para o impressionar, lhe mostrou um exemplar do Livro de S. Cipriano e lhe fez um truque de magia no qual um ramo de flores se mexia sozinho. A confiança entre os dois foi crescendo, à medida que Leitão ia começando a ganhar o controlo da vida do jovem. Pouco antes do desaparecimento de Joana, o domínio já era total. Para isso, o Rei Ghob recorria à história dos “negativos” e positivos” — se não lhe obedecesse, o adolescente seria punido com a morte.

Ghob conseguiu, a pouco e pouco, provocar no adolescente um pânico total. De tal forma que, apesar da recusa inicial, este acabou por ceder — julgava que, se não fosse “injetado”, que acabaria por morrer. 

O Observador soube que Francisco Leitão chegou mesmo a convencê-lo da existência de uma entidade chamada “88”, um fantasma do passado que o estaria a amaldiçoar há muito tempo. Luís veio mesmo a “encontrar-se” com o tal “88”, durante uma das muitas visitas ao cemitério. Terá sido depois disso que Leitão, encarnando o espírito “LM”, lhe explicou que era necessário receber “injeções de energia” para combater o espírito. Estas prolongaram-se até à data da detenção do Rei Ghob, em julho de 2010.

Apesar da influência que Leitão exercia sobre Luís, houve uma coisa que o sucateiro não conseguiu convencer o jovem a fazer — a deixar Joana. E terá sido por causa disso que a jovem terá sido assassinada. Terá sido também por ciúmes que Francisco Leitão terá matado Tânia, temendo que Ivo o abandonasse. Outra teoria é de que Ivo terá confrontado Leitão com o desaparecimento da namorada de 26 anos. Temendo ser descoberto, ele terá tomado a decisão de fazer desaparecer Ivo.

Mas Joana e Tânia não terão sido as únicas a sofrer com os ciúmes do Rei Ghob. Uma outra jovem que se cruzou com Leitão em agosto de 2009 contou aos investigadores que temeu ser morta pelo sucateiro. Os dois conheceram-se numa altura especialmente conturbada da vida da jovem, que tinha terminado um relacionamento amoroso e se encontrava a viver na rua, nas Caldas da Rainha. Leitão prontificou-se a ajudá-la, explicando-lhe que os problemas da sua vida se deviam a “energia negativa” e que, por essa razão, precisava de ser “descontaminada”.

A esse primeiro encontro seguiram-se vários outros, sempre na companhia de outras pessoas. Até que, certa noite, ela aceitou tomar um copo apenas com Leitão. Dessa noite, tem apenas algumas recordações vagas. Lembra-se de ter acordado no dia seguinte, não sabe passado quanto tempo, numa cama de casal da casa de Francisco Leitão. À semelhança de muitos outros, terá também sido drogada e violada. Vendo-a acordada, Ghob preparou-lhe o pequeno-almoço — pão aquecido com creme de chocolate barrado e leite com chocolate, o seu favorito. Como Leitão soube qual era o seu pequeno-almoço favorito, a jovem não soube dizer.

A jovem começou então a frequentar a casa da Carqueja, chegando mesmo a manter um relacionamento amoroso com um dos adolescentes que frequentava o castelo. De acordo com a adolescente, Leitão sempre se mostrou contra a relação. Em finais do mesmo mês de agosto, durante um encontro com o seu namorado, Leitão e Luís num centro comercial, o Rei Ghob disse-lhe que fosse até ao parque de estacionamento, porque estava lá a “cópia dela”. O namorado e Luís, porém, alertaram a jovem para que não o fizesse e se fosse embora. Ela acredita que se não tivesse seguido o conselho dos dois, muito provavelmente teria sido morta por manter aquele relacionamento com um dos gnomos.

A história de Mara e o que ela viu no castelo

Mara aparece nesta história da mesma forma que todos os outros. Mas acabaria por ser ela a ser uma das testemunhas chave do processo. Conheceu Francisco Leitão por intermédio da irmã, com quem Leitão terá tido um relacionamento. Terminado o namoro, Mara e Leitão permaneceram amigos, chegando mesmo a ter um relacionamento de caráter sexual depois do fim do casamento dela e numa altura em que vivia na casa da Carqueja com a filha e o sobrinho de 18 anos. Apesar das aparentes boas intenções de Francisco Leitão, que a ajudou quando mais precisou, Mara depressa descobriu a realidade. Durante o tempo que habitou no castelo do Rei Ghob, assistiu às situações mais bizarras, acabando envolvida nos jogos do Rei dos Gnomos. Foi ela que contou à PJ o que aconteceu a Ivo.

Um dos motivos que levou Mara a aproximar-se ainda mais de Francisco Leitão foi o facto de acreditar que este podia comunicar com o seu pai, que já tinha morrido. Ciente disso, Leitão fazia de tudo para alimentar as esperanças da mulher — recorrendo ao “Velho”, uma das entidades que dizia encarnar, procurou convencê-la de que era ela a responsável pela morte do pai.

O “Velho” era a personagem mais cruel de Leitão. Facilmente irritável e até violento, foi ele que fez com que, a pouco e pouco, Mara caísse numa espiral de culpabilização. Esta, por sua vez, agarrou-se a Leitão, vendo nele a sua última esperança de pedir desculpa ao pai, por não ter estado lá nos momentos em que mais precisou. Terá sido por causa disso que acabou por auxiliar Ghob, acreditando que, de certa forma, estava a ajudar o pai a encontrar a luz. Ajudou a drogar alguns dos jovens que passaram pela Carqueja, colocando medicamentos nas suas bebidas, e até a meter um homem dentro de um carro para que Francisco Leitão o pudesse levar para sua casa. Fez macumba com ossos que tinha a certeza que eram humanos, sacrifícios com animais. Magia negra.

Quando não fazia o que Francisco Leitão queria — ou melhor, o que o “Velho” queria –, era castigada. Uma vez, foi obrigada a passar a noite amarrada a uma árvore juntamente com Ivo, que também seria manipulado por Leitão através da encarnação de espíritos e com recurso a medicação. Foi vítima de violações, até quando já não vivia no castelo do Rei dos Gnomos.

Durante o tempo em que viveu na Carqueja, Mara tornou-se confidente de Ivo. Essa proximidade fez com que tivesse de assistir àquelas que terão sido as últimas horas de vida do jovem. Foi Mara que deu à Polícia Judiciária a prova derradeira da morte da antiga paixão de Francisco Leitão, transformando-se numa testemunha-chave para o inquérito relativo ao seu homicídio.

Quando não fazia o que Francisco Leitão queria — ou melhor, o que o “Velho” queria –, Mara era castigada. Uma vez, foi obrigada a passar a noite amarrada a uma árvore juntamente com Ivo.

Na altura, Mara já não vivia na Lourinhã. Tinha-se mudado para Guimarães com o namorado que, durante o período que viveu na Carqueja, se tornou alvo do assédio de Ghob. Certo dia, Leitão ligou-lhe para lhe dizer que tinha problemas. O “Velho” estava com ele e chamava por Mara. A mulher tinha viajado até Lisboa para uma consulta e decidiu ir ao encontro de Leitão.

De acordo com o testemunho de Mara, Leitão terá agredido Ivo com uma barra de ferro na sequência de uma discussão junto à Lagoa de Óbidos. O jovem terá caído no chão, sangrando na cabeça, e os dois, Mara e Francisco Leitão, colocaram-no na bagageira da carrinha Mitsubishi Space do antigo sucateiro. Leitão disse-lhe que tinham de o levar ao hospital e, convencida de que eram isso mesmo que iam fazer, os dois fizeram-se à estrada, cada um no seu carro.

Chegados às Caldas, Leitão fez um desvio, dando a entender que não se dirigia para as urgências. Disse a Mara que não fizesse perguntas e continuasse a segui-lo. Passado pouco tempo, disse-lhe para deixar o seu carro e ir com ele no dele, uma carrinha de dois lugares, comercial. Ivo ia atrás, tapado até à cabeça, sem dar quaisquer sinais de vida.

Francisco Leitão levou Mara para um pinhal, onde a obrigou a transportar o corpo de Ivo para uma casa. No seu interior, havia um buraco aberto, e Mara teve a certeza do que se seguiria. Enojada, saiu de rompante e vomitou à entrada. Virou-se para Ghob e chamou-lhe assassino. Ele assegurou-lhe que Ivo estava bem e que no dia seguinte, 27 de junho de 2008, falaria com ela. Mara garantiu à polícia que o jovem ainda não estava morto quando saiu e que o tinha ouvido a respirar. Porém, nunca mais o viu. Ainda chegou a receber algumas mensagens, supostamente enviadas por ele, mas que pareciam não ter sido escritas pelo jovem. Na decisão final, o coletivo de juízes não teve dúvidas: foi na sequência daquela pancada na cabeça que Ghob matou Ivo, desfazendo-se depois do corpo para evitar que fosse encontrado.

No seu interior, havia um buraco aberto, e a testemunha teve a certeza do que se seguiria. Enojada, Mara saiu de rompante e vomitou à entrada. Virou-se para Ghob e chamou-lhe assassino.

Mara indicou à PJ o local onde o Rei Ghob teria escondido o corpo de Ivo — um pinhal a caminho da Foz do Arelho. Os inspetores vasculharam o local, mas não encontraram nada. Foi também esta testemunha que disse à Judiciária que existia uma masmorra na casa do Rei dos Gnomos. E que teria sido aí que o jovem teria sido preso por Leitão antes de ser assassinado. A moradia foi alvo de buscas por parte da polícia, mas nunca foi encontrado nenhum indício que indicasse que Ivo aí estivesse estado. Notícias divulgadas na altura referiam que teria sido nesse espaço que Ghob teria cometido muitas das violações de que é acusado e pelas quais está agora a ser julgado (depois da condenação por homicídio). Mas nada foi encontrado.

O rei calculista que gostava de ser o centro das atenções

Francisco Leitão começou a ser submetido a testes de psicologia e psiquiatria forense no Instituto Nacional de Medicina Legal, em Lisboa, a 19 de outubro de 2010, de acordo com o Diário de Notícias. O objetivo era provar que o Rei dos Gnomos não era inimputável e que tinha noção dos seus atos. E foi exatamente a essa conclusão que os psicólogos chegaram.

Com traços ou características histeriformes, narcísicas, anti-sociais, que remetem para uma estrutura da personalidade do tipo borderline, um comportamento frio e um distanciamento afetivo, refletindo introversão, desconfiança, egocentrismo e alguma dificuldade em lidar com estímulos emocionais, Francisco Leitão apresentava-se como alguém com baixo limiar de tolerância a situações frustrantes e dificuldade no controlo dos impulsos. Calculista e narcisista, procurava ser constantemente o centro das atenções. O mandado de detenção de 19 de julho de 2010, citado pelo Diário de Notícias, referia ainda traços de esquizofrenia e psicopatia.

Além destas características, Carlos Poiares, psicólogo criminal que seguiu o caso de perto, referiu ainda ao Observador os claros “contornos de bizarria” e de “ostentação”. De acordo com o psicólogo, foi exatamente este “comportamento preenchido por bizarria” que fez com que Leitão se convencesse de que “era possível cometer uma série de abusos passando pelos pingos da chuva”. O Rei dos Gnomos nunca confessou os crimes de que foi acusado e mostrou até uma postura de desafio em relação às autoridades.

"Eles [Joana, Ivo e Tânia] têm de aparecer e dar explicações do porquê de estarem a fazer os pais sofrer. Eu também sofro por estar preso."
Francisco Leitão em entrevista ao "Diário de Notícias"

Numa entrevista concedida ao Diário de Notícias em janeiro de 2011, quando já estava detido no Estabelecimento Prisional da PJ, em Lisboa, Ghob frisou que não matou ninguém. E mais: “Estou na cadeia, acusado pela polícia, mas gostava de ver as provas e os supostos cadáveres dos três”, disse ao jornal. Na entrevista, a que respondeu por escrito, Francisco Leitão negou ainda ter utilizado os cartões de telemóvel dos três jovens desaparecidos, Joana, Ivo e Tânia. “Se os cartões foram ou não utilizados em aparelhos meus, isso não sei. Não introduzi nenhum cartão nos meus telemóveis que fosse da Tânia, do Ivo ou da Joana. Mas eu tive vários telemóveis que fui oferecendo ao longo do tempo a várias pessoas amigas”, afirmou, concluindo: “Não vou assumir uma coisa que não fiz”.

“Ele não diz ‘não abusei, não violei’, mas sim ‘não têm provas disso’”, salienta Carlos Poiares. “Refugia-se na questão instrumental objetiva, e esse é geralmente o discurso de pessoas que cometeram crimes e que acham que são impunes.” É esse sentimento de impunidade que, muitas vezes, leva ao “crime continuado”, explica Poiares. Isto é, a uma sequência de crimes iguais que surgem quando o criminoso “acha que está acima de toda a suspeita e começa a repetir o mesmo crime”. “Dá uma ideia de grandiosidade ao indivíduo, mas é normalmente nestes momentos que é apanhado. Os casos já são tantos que já toda a gente percebeu que foi ele menos o próprio.” Segundo o psicólogo, muitas vezes, os criminosos chegam a tentar ajudar nas buscas — neste caso, o Rei Ghob ofereceu-se para acompanhar as famílias à polícia para apresentarem queixa.

Apesar de um aparente sentimento de superioridade, Francisco Leitão apresenta-se, ao mesmo tempo, como “um sujeito que precisa de conseguir auto-afirmação e que terá usado todos os meios para isso”. É um homem que age “conforme pensa, que passa ao ato com facilidade” e que procura “estar sempre fora das normas”, salienta o psicólogo. A “estrutura da personalidade do tipo boderline” tem a ver exatamente com isso — com o facto de se sentir “bem nas margens”.

“Ele não diz ‘não abusei, não violei’, mas sim ‘não têm provas disso'. Refugia-se na questão instrumental objetiva, e esse é geralmente o discurso de pessoas que cometeram crimes e que acham que são impunes.”
Carlos Poiares, psicólogo criminal

Com uma personalidade narcisista, Leitão é também incapaz de sentir empatia. Para ele, os “outros são mero objeto”, estão ali “para servir os seus interesses”. Os crimes que cometeu serviram exatamente para “conseguir os seus objetivos”. “O homicídio não tem a ver com uma questão psicológica, mas instrumental”, explica o psicólogo. Isto significa que um número significativo de homicidas não tinha “o propósito de matar”, mas que mataram “para impedir algo” como, por exemplo, as consequências judiciais de um crime menor, como um furto.

No que diz respeito às violações, Poiares explica que um violador é alguém que “não é capaz de manter uma relação normativa” e que, por isso, “passa à força”. “São pessoas que são incapazes de ter uma relação com alguém do ponto de vista direito, então optam por ter estas relações” forçadas. Além disso, o ato sexual será para Leitão “uma forma de se preencher”.

Três (ou quatro) homicídios, nenhum corpo

Durante meses, os inspetores da PJ tentaram encontrar os cadáveres de Joana, Ivo e Tânia. Fizeram dezenas de buscas — à casa de Ghob, aos terrenos circundantes, a barracões e matas na região de Torres Vedras e Lourinhã –, interrogaram dezenas de testemunhas, mas sem qualquer resultado (relativamente a “Pisa-Lagartos”, nunca houve pistas suficientes para fazer buscas no terreno). Até que, em julho de 2011, desistiram, admitindo que só voltariam ao terreno com novos dados.

Quando Francisco Leitão foi formalmente acusado de quatro homicídios nesse mesmo mês, não havia qualquer indício de prova de como e onde as vítimas teriam morrido, à exceção de Ivo. No final de julho, numa entrevista concedida ao Diário de Notícias, o diretor nacional da PJ, Almeida Rodrigues, admitiu que a investigação era “extremamente difícil” e que os corpos dificilmente seriam encontrados. Segundo Almeida Rodrigues, isso teria a ver com “a inserção geográfica do local dos crimes”. Ghob vivia e costumava circular por localidades rurais dos concelhos da Lourinhã e Torres Vedras onde existem extensas zonas de floresta. A própria aldeia de Leitão, Carqueja, fica num local isolado, rodeada por terras de cultivo. Não há mais nada em volta.

A Carqueja fica no meio de dois concelhos: o da Lourinhã e o de Torres Vedras. Em seu redor, existem apenas alguns campos de cultivo

Apesar de o caso do Rei Ghob não ter sido o primeiro em Portugal a chegar a tribunal sem que se tenham descoberto os corpos das vítimas, foi o primeiro a envolver tantas suspeitas de homicídio (quatro no total, acusado por três). Na já citada entrevista ao Diário de Notícias de 25 de julho, o diretor nacional da PJ frisava a “segurança da prova recolhida”. “A senhora magistrada do Ministério público e o senhor juiz de instrução consideraram que tinham indícios fortes da prática de três crimes de homicídio”, disse. Questionado sobre a eventual descoberta de mais vítimas, Almeida Rodrigues afirmou não existir “nenhum elemento concreto que aponte nesse sentido”, não fechando porém “a porta” a essa possibilidade.

O julgamento de Francisco Leitão arrancou a 9 de janeiro de 2012, em Torres Vedras, com um tribunal de júri composto por três juízes e quatro cidadãos previamente selecionados. Durante os três meses que durou, Francisco Leitão manteve-se em silêncio. Falou apenas durante as alegações finais, para se declarar inocente. “Não matei ninguém“, repetiu. No final da audiência, a irmã de Maria de Fátima, tia de Joana, revoltada com todo o processo, atirou uma pedra na direção de Leitão, enquanto ele abandonava a sala. Atingiu a advogada de uma das famílias, mas sem causar ferimentos.

A 29 de março, foi lida a sentença — mais de dois anos depois da queixa pelo desaparecimento de Joana ter chegado às mãos das autoridades policiais. Francisco Leitão foi condenado a 13 anos de prisão pelo homicídio de Tânia, a 12 anos e meio pelo homicídio de Ivo, a 18 anos pelo homicídio de Joana e ainda a três anos por crimes de ocultação de cadáver (12 meses por cada um). Foi ainda condenado a uma pena de 12 meses de prisão por falsificação de documentos e de três meses por detenção ilegal de uma arma, uma taser, que havia sido encontrada em sua casa durante as buscas.

Mara desempenhou um papel fundamental na condenação de Francisco Leitão, principalmente pelo homicídio de Ivo. Apesar de o tribunal a considerar uma testemunha com fragilidades várias (na altura do julgamento encontrava-se detida pelo rapto de um idoso), o seu relato impressionante foi confirmado por uma outra vítima de Ghob (não identificada). O jovem terá, inclusive, estado presente no momento em que Mara e Ivo, vítimas de maus tratos por parte de Leitão, foram levados para uma mata e amarrados a uma árvore. O seu testemunho incluiu ainda o episódio em que Ghob e “João da Roulotte” lhe colocaram um rato na boca. “O João prendeu-me as mãos e o Francisco meteu-me um rato na boca. Depois o João bateu-me com um ferro no joelho e ambos deram-me pontapés e murros”, contou perante o coletivo de juízes, citada pelo Correio da Manhã.

Francisco Leitão começou a ser julgado a 9 de janeiro de 2012, no Tribunal de Torres Vedras

O único crime de que Francisco Leitão foi absolvido foi o do homicídio de António, “Pisa Lagartos”. A PJ nunca chegou a reunir provas suficientes que corroborassem a teoria de que Leitão teria sido responsável pelo desaparecimento do homem de 73 anos. Ficou também por provar que os dois eram amigos e que foi o arguido que o acompanhou ao hospital no dia 10 de novembro de 1995, como defendeu a sua filha Odete. Por esse motivo, o Tribunal de Torres Vedras decidiu dar os factos como não provados.

Leitão foi condenado, em cúmulo jurídico, a 25 anos de prisão, a pena máxima em Portugal, ainda que os corpos nunca tenham aparecido. Apesar disso, o tribunal não teve dúvidas na hora de tomar uma decisão. Descartando todas as outras possibilidades, nomeadamente a de o arguido fazer parte de uma rede de tráfico de seres humanos, o Tribunal de Torres Vedras concluiu então que, somando todos os elementos probatórios, tinha surgido a evidência de que os três jovens desaparecidos estavam mortos e que tinha sido o Rei Ghob que os matou, ainda que não se tenha sido possível apurar, com exceção do caso de Ivo, como foram infligidas as lesões mortais. Apesar de poderem sempre surgir teorias alternativas, a verdade é que não cabe ao Ministério Público avançar com novas hipóteses.

Fernando Carvalhal, advogado de Leitão, recorreu para o Tribunal da Relação de Lisboa e, mais tarde, para o Supremo Tribunal de Justiça, alegando falta de fundamentação da decisão e de exame crítico das provas. Considerando que a decisão do Tribunal de Torres Vedras não teve suporte probatório e que não existiam provas de que os três jovens estivessem de facto mortos, a defesa alegou que foram violados os princípios da presunção da inocência e que, por isso, o arguido devia ser absolvido dos crimes de homicídio e de ocultação de cadáver.

O Supremo, contudo, concluiu que os factos eram demasiado graves e que a pena devia ser mantida, afirmando no acórdão que não tinha nada a acrescentar ao que fora dito pelo Tribunal da Relação, que já tinha recusado o pedido. O Observador tentou contactar Fernando Carvalhal por telefone, mas sem sucesso.

Além da pena de prisão, o homicida foi ainda condenado pelo tribunal a pagar uma indemnização cível à filha de Tânia, Carina, no valor de 150 mil euros, e aos pais de Ivo e Joana, no valor de 100 mil euros cada. Contudo, o pagamento nunca foi feito. Ao que parece, Francisco Leitão não tem bens que possam ser liquidados, logo não tem como pagar o que foi estipulado pelo Tribunal de Torres Vedras há cinco anos.

Francisco Leitão foi condenado, em março de 2012, a 25 anos de prisão pelo Tribunal de Torres Vedras por três homicídios

Dada a impossibilidade de a indemnização ser paga por Francisco Leitão, Maria de Fátima e Silvino decidiram avançar com um pedido ao Estado. A lei portuguesa prevê a possibilidade de as vítimas de crimes violentos o fazerem quando o indivíduo que praticou o crime não o pode fazer, desde que este tenha “causado uma perturbação considerável do nível e qualidade de vida da vítima”, como explica o site Infovítimas.

Essa ajuda, porém, só é atribuída quando a vítima do crime é economicamente responsável por quem avança com o pedido de indemnização. O que, no caso de Maria de Fátima e de Silvino, não acontece. Por essa razão foi-lhes dito que não teriam direito a nada. Uma decisão com a qual não se conformam. Apesar de o parecer ainda não ser definitivo, Maria de Fátima admite não ter muitas esperanças de, um dia, vir a receber alguma coisa. “Agora é mais cinco ou seis anos à espera de uma resposta. Vão pagar a quem? A ninguém”, afirma. “É o deixa-andar, porque não lhes cai na pele a eles — cai aos outros. O que é certo é que nas alturas todos se lembram da gente, mas quando passa, tudo se esquece. Ninguém se lembra, ninguém telefona.”

A advogada Marta Batista, que está a tratar do caso, explicou ao Observador que, apesar de tudo, o argumento tem “alguma razão”, uma vez que não “há uma dependência económica”. “[Nestas situações] há um abalo muito grande e muitas vezes as pessoas não têm situação para continuar a trabalhar, mas aqui a posição da instituição é que não estão reunidos os requisitos.”

Sete anos de uma longa espera

Os anos que passaram desde que Joana desapareceu até ao julgamento de Francisco Leitão foram, para a família da menor, anos de espera. Uma espera que dura até hoje. Maria de Fátima garante que tem sido “muito difícil, muito complicado”. “Parece que a gente não existe à face da Terra”. Revoltada com o modo como todo o processo se desenrolou, critica a PJ e acredita que muita coisa ficou por explorar. Está convencida de que, se as coisas tivessem sido feitas de outro modo, já saberia o que tinha acontecido à filha. Incapaz de dizer o nome do homicida, trata-o sempre por “o gajo”.

Joana desapareceu há sete anos, mas Maria de Fátima ainda não perdeu a esperança — continua a acreditar que a filha está viva. Para ela, é claro que há muito que ficou por contar na história do Rei Ghob. “Há aqui muita coisa que não bate certo. O gajo disse aos inspetores que não tinha dinheiro para nada, mas vim a saber que tinha dinheiro para uma [carrinha] Mitsubishi Strakar [comprada] em Alenquer, para comprar um computador novo para oferecer a uma rapariga ou a um rapaz, para comprar um telemóvel para oferecer à irmã mais nova do Ivo, para ir para o Arena [Shopping, em Torres Vedras] comprar roupa de marca para os miúdos.” Além disso, segundo a mãe de Joana, Francisco Leitão dizia que era frequente ter reuniões em Lisboa e em Espanha. Que reuniões eram essas?, pergunta. Além disso, a mãe de Joana acredita que Francisco Leitão não agiu sozinho e que faz parte de uma rede muito maior. E que quem está cá fora não fala por medo.

Enquanto não tiver respostas, Maria de Fátima e o marido não conseguem pôr um ponto final na história. Porque, como ela própria diz, perder uma filha “não é brincadeira” e só quem passou por isso é que sabe o sofrimento que significa.

Moram pouco mais do que 40 habitantes na Carqueja, uma pequena localidade a cerca de uma hora de Lisboa

Na Carqueja, a vida continua com toda a normalidade, como se nada se tivesse passado na casa do Rei Ghob. Com pouco mais de 40 habitantes, e uma única estrada que atravessa a localidade de uma ponta à outra, a única coisa estranha na aldeia continua a ser o castelo de Francisco Leitão. Com muros altos — semelhantes a muralhas — encimados por figuras de anjos e gnomos, a moradia parece ter sido abandonada. O jardim está coberto de folhas secas, as janelas da frente foram tapadas com tijolos e a porta parece ter sido selada. Para quem olha de fora, nada parece indicar que a casa do Rei Ghob ainda seja habitada.

José, porém, garante o contrário — a irmã de Francisco Leitão, ainda lá mora com o companheiro. Nascido e criado na Carqueja, José chegou a conhecer os pais de Francisco Leitão e lembra-se bem de quando o castelo não passava de uma casa como outra qualquer. Emigrado em França durante vários anos, quando voltou à sua terra natal já Leitão estava preso e a casa se tinha transformado num castelo. Sobre o antigo vizinho da frente, diz que se fazia “muito amigo da gente, mas depois…”.

Salvador Ferreira era presidente da junta de Bartolomeu dos Galegos, freguesia a que pertence uma parte da localidade (a outra pertence à Atouguia da Baleia, concelho de Peniche), quando Leitão foi detido em 2010. Durante a fase de investigação, chegou mesmo a acompanhar os investigadores da PJ ao cemitério onde se encontra sepultada a mãe do Rei Ghob. Na altura, os investigadores acharam possível que Leitão tivesse escondido objetos relacionados com as vítimas (ou até mesmo os próprios cadáveres) na campa da mãe, depois de terem tido conhecimento de que o suspeito teria andado a remexer no local. As investigações, porém, revelaram que a campa permanecia intacta.

Daquele tempo conturbado, Salvador Ferreira lembra-se que os habitantes da Carqueja “não ligaram muito” ao caso, apesar de terem ficado “admirados” por uma “coisa daquelas acontecer aqui”. Frisando que na aldeia “ninguém sabe de nada” e que “nem a polícia conseguiu dar com os corpos” quanto mais os moradores, Salvador descreveu Leitão como um homem “que se via pouco”. “Não falava com as pessoas”, afirmou o ex-presidente da junta e atual tesoureiro da mesma freguesia.

Junto à casa de Francisco Leitão, há um pequeno altar dedicado a São Lourenço

Como era presidente da junta, Salvador andava sempre de um lado para o outro, visitando os vários pontos da sua freguesia. Quando passava por Francisco Leitão, cumprimentava-o com naturalidade. “Bom dia, ó Chico!”, dizia-lhe, e Leitão respondia-lhe de volta. Sempre “com consideração”. Apesar disso, garante que “era homem que não se via muita vez”.

Um novo julgamento

Cinco anos depois de ter sido julgado e condenado por homicídio, Francisco Leitão está de regresso a tribunal para responder por 542 crimes de violação de 12 menores. O início do julgamento, que decorre no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa Norte, Loures, à porta fechada, como em todos os casos de violações de menores, aconteceu no dia 15 de maio, e há várias audiências marcadas até julho. Tal como tinha feito em 2012, Ghob recusou-se a prestar declarações ao coletivo de juízes.

Os crimes terão ocorrido entre 2009 e 2010, altura em que Leitão foi detido pela PJ, e foram cometidos seguindo o mesmo padrão relatado por muitas das testemunhas que foram ouvidas durante a investigação do desaparecimento de Tânia, Ivo e Joana. Os jovens, entre os 14 e os 17 anos, aliciados a ir a casa do Rei Ghob com bebidas e outras ofertas, eram levados a crer na existência de forças sobrenaturais e, com receio das consequências, convencidos a manter relações sexuais com o arguido.

“As vítimas eram levadas a ter uma perceção adulterada da realidade, na qual acreditavam e à qual se sujeitavam, permitindo que o arguido as manipulasse.”
Acusação do Ministério Público

“As vítimas eram levadas a ter uma perceção adulterada da realidade, na qual acreditavam e à qual se sujeitavam, permitindo que o arguido as manipulasse”, refere a acusação do Ministério Público, que, além dos crimes de violação, acusou ainda Leitão de seis crimes de pornografia de menores, ameaça agravada, ofensa à integridade física qualificada e devassa da vida privada. O que se passava no interior do castelo da Carqueja era muitas vezes filmado pelo arguido sem o consentimento das vítimas, recorrendo para isso às muitas câmaras de filmar que tinha instaladas no interior da casa. De acordo com o testemunho de um dos jovens, Leitão incitava rapazes e raparigas a manterem relações sexuais num dos quartos da residência.

Segundo a Agência Lusa, que teve acesso ao despacho emitido pela juíza Cidalina de Sousa de Freitas, as queixas chegaram ao Ministério Público em 2009, um ano antes do desaparecimento de Joana. O inquérito acabou por ser arquivado, sendo depois reaberto na sequência das buscas domiciliárias em casa de Leitão, que resultaram na apreensão de vídeos pornográficos e outro material, e de novas denúncias durante o período da investigação, julgamento e condenação.

No processo relativo aos homicídios, consultado pelo Observador, não faltam, aliás, referências a alegados crimes sexuais, que terão sido cometidos antes das datas dos desaparecimentos dos três jovens. Num dos volumes, é mesmo referido um inquérito do Ministério Público de Loures, datado de outubro de 2008, de “atos sexuais com adolescentes”.

Uma das muitas câmaras de filmar do castelo da Carqueja, apontada para a rua

Maria de Fátima, mãe de Joana, diz ao Observador que este processo envolve todos os jovens do processo anterior — à exceção de Joana. Apesar de a jovem aparecer num dos vídeos captados por Ghob na sua casa da Carqueja e de, por isso, ser referida na acusação, Joana não consta da lista de ofendidos. Um facto que ninguém parece saber explicar e que se terá devido a um “lapso”. “Esqueceram-se. Puseram os outros nomes todos menos o da minha filha. Eu sei que lapsos acontecem… Mas isto que foi tão mediático, falou-se tanto, não devia haver lapsos nenhuns”, diz ao Observador.

A advogada de Maria de Fátima já pediu esclarecimentos ao tribunal. “Isso há de ser resolvido”, garante a mãe da adolescente de 16 anos. “Tem de haver alguém responsável. Senão, eu caio em cima.” Enquanto a resposta não chega, a mãe de Joana está impedida de assistir a este julgamento de Francisco Leitão. Apesar de ter pedido para ser constituída assistente, o pedido foi-lhe negado por a filha não ser uma das vítimas.

O que diz a lei?

O Artigo 173.º do Código Penal, relativo a atos sexuais com adolescentes, prevê uma pena de até dois anos de prisão para quem, “sendo maior”, praticar ou leve alguém a praticar um “ato sexual de relevo” com um menor entre os 14 e 16 anos, “abusando da sua inexperiência”.

A pena pode chegar aos três anos de prisão se “o ato sexual de relevo consistir em cópula, coito oral, coito anal ou introdução vaginal ou anal de partes do corpo ou objetos”.

A tentativa também é punível por lei.

O abuso sexual de menores de 14 anos, previsto no Artigo 171.º do Código Penal, é punível com uma pena de prisão que pode chegar aos dez anos.

Código Penal

E quanto a Francisco Leitão? Uma vez que já pesa sobre ele uma pena de 25 anos, o que é que representa, em termos práticos, uma eventual segunda condenação? Miguel Matias, especialista em Direito Penal, explicou ao Observador que os julgamentos são “autónomos e independentes, o que significa que [Francisco Leitão] poderá apanhar a pena que o tribunal ponderar ser a mais correta”. Ou seja: apesar de ter sido condenado a 25 anos de prisão em 2012, nada impede que Leitão volte a ser condenado a outros 25 (o que, tendo em conta o número elevado de crimes de que é acusado, é possível que venha a acontecer). “Cumpre a primeira pena e depois cumpre a segunda”, esclareceu o advogado.

Mas a verdade é que por mais anos que o ex-sucateiro da Carqueja, hoje com 48 anos, passe na prisão, os horrores porque fez passar as suas vítimas permanecem na memória de muitos. E a busca pelos corpos e por todas as respostas vai continuar.

Fotografias de André Marques / Observador, Mário Caldeira / Lusa e Carlos Barroso / Lusa
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