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Saudades de Nelson: um ano sem Prince

21 Abril 2017

Nos últimos 12 meses vendeu discos como há muito não fazia; e foi protagonista de todas as controvérsias possíveis. Ainda assim, o mais importante: um ano sem Prince foi um ano sem o melhor.

Mesmo o maior dos perfeccionistas descura sempre um detalhe. Prince Rogers Nelson, por exemplo, era um control freak compulsivo que não comemorava aniversários porque, dizia, se não contasse o tempo este não passava. Mas o tempo não se preocupa com as idiossincrasias das estrelas pop; de modo que há exactamente um ano Prince caiu em casa, vítima de uma sobredose de opiáceos. Desde então comprámos-lhe discos como nunca, ao ponto de Prince ter sido o artista mais vendido nos últimos 365 dias (morreu a 21 de abril de 2016), mais que Adele – mas continuamos a não saber quem ele era e que raio o vitimou, se as drogas se ele mesmo.

Estou em crer que poucas vezes a morte de uma estrela foi acompanhada tão de perto, ao ponto de nos dias seguintes à morte de Prince se ter criado um anedotário ao redor do autor de “Purple Rain” que, no fundo, mais não fez que reforçar a ideia do génio louco mas são. Toda e qualquer pessoa que alguma vez se cruzou com Prince botou faladura; gestores de redes sociais fizeram horas extraordinárias para alinhavar listas do género “13 coisas que desconhecia sobre Prince”. E assim as gentes comuns ficaram a saber que:

Prince um dia reservou todo um restaurante para um date e contratou um DJ, mas quando queria saber o nome de uma canção de que havia gostado mandava a moça falar com o disck-jockey;

Prince, segundo Magic Johnson, dizia muita javardeira quando jogava básquete (e, sim, Prince tinha algum jeito para jogar básquete);

Prince (reparem na contradição) tinha uma Swear Box nos seus estúdios em Paisley Park – sempre que alguém dizia um palavrão era multado;

Prince usou cabeleira em algumas cenas de “Purple Rain” (embora notícia, na minha opinião, seria ficarmos a saber que houve um dia em que Prince não usou cabeleira).

Não estou a fazer pouco disto. Era puto quando ouvi pela primeira vez “Time”, num maxi-single que a minha irmã comprou e cuja letra decorei, após obrigá-la a traduzir-me cada palavra (e assim descobri o crack). A verdade é que Prince pode muito bem ter sido a única estrela pop global com quem tive uma relação pessoal. De modo que também me alimentei do mencionado anedotário.

O ponto é que aquelas eram as histórias que queríamos ouvir, porque estranhamente ele era parte da família.

Prince e os outros (todos)

Quando alguém como Prince surge, uma parte da humanidade vai atrás e a outra remói: que é ordinário, onde já se viu isto, que pouca vergonha. Mas por muita força que meia dúzia de velhinhas conservadoras tenham, elas pouco podem contra alguns factos. Como este: Prince pôs os putos a dançar (e a yada yada yada). O yada yada yada tem imensa importância, um tipo passa a vida inteira a pensar como é que há-de yada yada yada.

Acho que já disse isto antes mas repito: Prince deu-nos licença para dançar. Tentem, por um instante imaginar o que Portugal era em 1987: ou se gostava de música alternativa ou de lixo; e quem gostasse de música alternativa não podia dançar e estava confinado a uma vida de calças pretas, Doc Martens e casaco de cabedal preto. Ou se gostava dos Joy Division ou dos New Order – não havia meio termo. E se pensam que isto era assim apenas no atraso de vida deste rectângulo que o mar rejeitou mudem de ideias: no que aos costumes diz respeito os anos 80 ainda eram a Idade Média.

Há algo de desesperado na obsessão de controlo de Prince, que há algo de desesperado no seu espalhafato e que, porque nos apaixonamos por figuras assim, quase sempre desmerecemos o que elas são quando não estão a ser geniais.

Uma Idade Média com MTV, porém. E a tal meia dúzia de velhinhas conservadoras pouco pode contra vídeos da MTV a rodar de manhã à noite. Há uma espécie de força depressora no bombardeamento televisivo: por mais que alguém se oponha contra o lixo que passa na televisão, o lixo vence sempre. (Não que Prince seja lixo; mas quando Dirty Mind saiu muita gente assim o qualificou.) De modo que um dia Prince tornou-se querido. Aceitável. Um membro da família. Mesmo aquele tio que não aceita nada aprecia que o baixinho tenha papado a Kim Basinger. Aceitável, querido, fofinho, um membro da família. Para quê estragar a imagem de alguém assim?

Mas, claro, não podia ser tão simples quanto isso. Um tipo (e isto vai soar conservador) não abana o rabo em fio dental amarelo em frente a dezenas de milhares de pessoas, consciente de que vai chocar e enfurecer, um tipo não rebola por cima de não sei quantas mulheres emulando actos sexuais (alguns deles proibidos nos estados que votam Trump) sem ter algo para compensar; e não é possível acumular tanto narcisismo sem que esse narcisismo se manifeste – mais que ocasionalmente – da pior maneira possível.

Neste ano sem Prince, as histórias interessante sobre Prince, as histórias que possam eventualmente revelar alguma coisa sobre Prince, acabaram por sair – embora por norma tenham sido soterradas em notícias como a da venda de uma guitarra amarela outrora pertencente ao mais baixo sex symbol que a humanidade já conheceu, pelo valor de 137.500 dólares num leilão. (Uma madeixa de David Bowie foi vendida no mesmo leilão por apenas 19.000 dólares. Desconhece-se a que fase da obra do camaleão pertencia a madeixa.)

A minha preferida é contada por Michael B. Nelson, trombonista de Prince nos anos 90. Num concerto, Nelson não deu uma nota tão alta quanto devia. No dia seguinte, nos bastidores, Prince humilhou-o à frente da banda; não contente com isso, durante o concerto resolveu apontar a sua pistola-microfone à cabeça de Nelson durante o medley em que a nota aguda tinha de ser tocada. Deve ter achado tanta graça à ideia que voltou a fazê-lo ao longo da digressão, ao ponto de Nelson fechar os olhos sempre que chegava àquele momento. Trivia pop: sempre que um músico seu errava uma nota, James Brown, que Prince idolatrava, apontava para ele – e, claro, esse músico recebia menos. Prince conhecia a história do funk.

Quase sempre um génio

Não pretendo ser exaustivo com este tipo de histórias (sendo que no último ano surgiram suficientes com mulheres para traçar o retrato de um homem manipulador e inseguro), apenas assinalar que há algo de desesperado na obsessão de controlo de Prince, que há algo de desesperado no seu espalhafato e que, porque nos apaixonamos por figuras assim, quase sempre desmerecemos o que elas são quando não estão a ser geniais. Sendo que é o que elas são quando não estão a ser geniais que as leva a cair com uma sobredose de opiáceos.

Apaixonamo-nos ao ponto de querer gostar delas mais do que merecem. Por mais duro que isto seja, há quantos anos é que Prince não era relevante? Dirty Mind (1980), Controversy (1981), 1999 (1982), Purple Rain (1984), Sign ‘O’ the Times (1987) são discos geniais e tenho um soft spot por Diamonds and Pearls (1991) porque, bom, saiu quando eu tinha 16 anos e aqueles vídeos têm impacto num puto de 16 anos. Mas de 1991 a 2016 vão 25 anos em que só muito ocasionalmente Prince se aproximou da qualidade do início de carreira.

A história desses 25 anos envolve guerras com a indústria musical, mudanças de nome, casamentos, nascimento e morte de um filho, ingresso na vida religiosa, abandono da vida religiosa. Nessa história de 25 anos não entram – com um par de excepções – grandes canções, mas entram quantidades absurdas de fentanyl, uma droga sintética mais poderosa que a heroína. (Há igualmente relatos de um flirt com a cocaína em 2008. Supostamente Prince não tomava drogas desde que apanhou com ecstasy fora de prazo e pôs o Black Album na gaveta durante sete anos.) Paisley Park estava repleto de comprimidos de fentanyl, havendo, inclusive embalagens de outros medicamentos que, na realidade, continham o opiáceo, um comportamento típico em quem está viciado em drogas duras e legais.

Um ano depois, ainda não é claro o que aconteceu naquela noite, mas há um retrato de abandono do qual é impossível fugir: um tipo milionário, sozinho, entregue às suas drogas e a uma corte de lacaios que facilitava o acesso (ou seja, uma manhã comum na vida de Charlie Sheen). O cenário é similar, em certo sentido, ao fim de Michael Jackson, com quem manteve uma certa rivalidade. (Isto é eufemismo: Prince não aceitava perder nem a jogar ping-pong. Quando Michael Jackson o convidou a cantar em “Bad”, Prince recusou por considerar que se tratava de um insulto. Há um milhão de histórias assim de Prince, como ter um salão de cabeleireiro em casa, que a mulher não podia usar, ou esta não poder telefonar-lhe – ele é que lhe telefonava. É difícil ser-se mais controlador que isto.)

O rancor, só por si, pouco pode. Associado a muito talento e uma ética de trabalho inabalável, é uma força inquebrantável. Em particular quando se traduz em ritmos insidiosos e estupidamente sexualizados. Mais ainda quando se explode no momento em que nasce a MTV e em que as digressões de estádio se tornam universais.

O retrato adensa-se quando notamos que ainda não se determinaram os herdeiros. Prince nunca fez testamento, em parte porque (lá está) não acreditava que ia morrer, em parte porque se recusava a assinar contratos (a desconfiança de Prince para com os seres humanos conseguia ser maior que o seu ego).

É difícil que a vida possa ser mais retorcida que isto: a morte de Prince, à conta de drogas que oficialmente não tomava, serviu para encher ainda mais os cofres da estrela (que vendeu 2,3 milhões de discos físicos no último ano, sem contar com downloads), cofres que encerram uma maquia que ainda hoje se desconhece como dividir: no último ano os tribunais têm tentado determinar quem é ou não irmão (ou filho) de Prince. Não é uma imagem de estabilidade, convenhamos.

Sendo que essa instabilidade vem de trás e quando ele baixava a guarda reconhecia-o. Prince era filho de John Lewis Nelson, músico de jazz, e Mattie Della, uma cantora. Graças à influência do pai (com quem supostamente manteve uma relação de proximidade até ao fim) começou a tocar piano aos sete anos.

A infância, contudo, foi marcada pela separação dos pais e por uma certa instabilidade: andou a saltar do lar do pai para o da mãe e, inclusivamente, de uns vizinhos. Há igualmente relatos de doença – aparentemente epilepsia. Teve muitas dificuldades de integração social e foi vítima de bullying. A pobreza também criou nele uma raiva permanente.

O melhor

Isto são citações de várias entrevistas de Prince (que, já agora, não permitia que os jornalistas gravassem as entrevistas, para não venderem as cassetes com a voz dele, mas também não permitia que tirassem notas). Prince admitia – bom, ao início, quando ainda não era completamente Prince – que muito do que fez foi uma forma de compensação. Antigos colegas recordam-se de o ver no liceu vestido de forma espalhafatosa, numa tentativa desesperada de chamar a atenção, apenas pare receber desprezo e agressividade.

O rancor, só por si, pouco pode. Associado a muito talento e uma ética de trabalho inabalável, é uma força inquebrantável. Em particular quando se traduz em ritmos insidiosos e estupidamente sexualizados. Mais ainda quando se explode no momento em que nasce a MTV e em que as digressões de estádio se tornam universais. A dimensão de Prince – e de Michael Jackson ou Madonna – é também sinónimo da época em que surgiu. Duvido que hoje possa ser possível a uma estrela pop ser tão consensual – e isso explica, em parte, que Prince não tenha herdeiros óbvios, embora seja uma influência clara de um sem número de músicos que, directa ou directamente, o citam.

Quando Prince morreu era quase impossível encontrar uma canção sua no YouTube, à conta da perseguição que ele movia aos piratas. Nesse mesmo dia os seus fãs inundaram o canal e menos de 24 horas depois a sua obra estava ali, completa e disponível.

O que isto nos diz é que por mais poder que acumulemos, por mais que queiramos controlar como os demais interagem connosco, o nosso poder termina no exacto momento em que morremos. Prince, apesar de toda a sua riqueza, de todo o seu poder, morreu menos Prince e mais Roger Nelson, o filho solitário e introvertido de John, que um dia foi para o piano do velho a ver se este lhe prestava alguma atenção.

Mas como não havíamos de te prestar atenção, Nelson, se tu eras o melhor?

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