A frase que afirma que uma imagem vale mais do que mil palavras é, bem sabemos, demasiado simplista e redutora. Mas há de facto instantes que marcam o ritmo da vida, os seus altos e baixos, os momentos de ânimo e também de desolação.

Agora que nos aproximamos a passos largos da celebração da Páscoa vem-me à memória uma fotografia captada há cinco anos. A imagem de um homem sozinho num espaço imenso e icónico: o Papa Francisco no Vaticano.

Descreve Jorge Bergoglio na sua recente autobiografia “caminhei através de uma Praça de São Pedro vazia e brilhante da chuva para a Statio Orbis”. E mais à frente, a propósito das regras da pandemia que implicaram a bênção à distância e outras medidas práticas, acrescenta “diante do sofrimento humano organizámo-nos, fomos capazes de mudar”.

Estes sinais intencionais foram importantes, para crentes e não crentes, e marcavam o tom que a pandemia era para levar a sério e que o isolamento social era – naquela altura -a única alternativa sensata e realista.

Recordemos que muitos líderes tiveram a atitude oposta.

De Trump a Bolsonaro, passando por movimentos religiosos inorgânicos, a negação da realidade e o desdém perante os alertas dos cientistas e  profissionais de saúde ceifaram vidas.

Liderar bem implica ouvir quem sabe para um bom discernimento e para, citando o jesuíta P. Vasco  Pinto de Magalhães, “fazer o Bem, bem feito”.

Infelizmente passadas estes cinco anos os movimentos anti-ciência intensificaram-se com um impacto considerável na saúde pública através de campanhas de desinformação.

O aumento dos casos de sarampo é um exemplo paradigmático.

Perante o actual surto de Sarampo no Texas o político anti-vacinas Robert F. Kennedy Jr., nomeado secretário da Saúde, defendeu a toma de vitamina A como uma forma de gerir a doença.

Por cá, e segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças, os dados sobre os casos de sarampo na União Europeia e no Espaço Económico Europeu (UE/EEE) relativos aos últimos doze meses revelam um aumento considerável das notificações em comparação com 2023. Oito em cada dez pessoas a quem foi diagnosticado sarampo na UE/EEE no último ano não foram vacinadas.

Não podemos prever quando e de que forma surgirá a próxima pandemia.

Talvez através da chamada gripe das aves (vírus Influeza H5N1) ou outro vírus. Esta incerteza devia favorecer a vigilância epidemiológica global e a preparação através da Organização Mundial de Saúde.

No entanto, estamos num ponto em que vários movimentos nacionalistas tentam cortar laços entre as nações.

Muitos eleitos ignoram o pensamento racional e promovem o retrocesso, enquanto alheiam o cidadão da Ciência.

Felizmente o oposto também é verdade.

As sociedades liberais, livres e democráticas favorecem a inovação, a solidariedade, cooperação e ciência numa interdependência em espiral positiva.

Como escreveu José Mariano Gago (1948-2015) “o desenvolvimento científico é uma força democrática. Convoca necessariamente toda a sociedade”.