O longo e sinuoso percurso da História humana está repleto de paradoxos, avanços e recuos. A humanidade, fruto de uma inteligência natural consciente de si — conceito central na obra do neurocientista António Damásio — revelou a capacidade singular de se organizar em comunidades complexas e de edificar grandes civilizações.
Essas civilizações, por mais poderosas que tenham sido, conheceram invariavelmente um período de apogeu seguido de declínio. Revoluções internas, pressões externas ou a combinação de ambas acabaram por fragilizar estruturas que, em determinado momento, pareciam sólidas e permanentes. Apesar das diferenças geográficas, culturais e temporais, coloca-se uma questão fundamental: haverá traços comuns no sucesso e no colapso das grandes civilizações?
É a esta pergunta que responde o livro Peak Human – What We Can Learn from History’s Greatest Civilizations (ainda sem tradução portuguesa), do ensaísta e historiador sueco Johan Norberg. O autor propõe-se a um exercício ambicioso: identificar, de forma rigorosa e acessível, os fatores que explicam os períodos mais férteis da história humana, da Atenas clássica à atualidade, passando pela República Romana, a China da dinastia Song, a Itália do Renascimento ou a República Holandesa.
Essas “idades de ouro” partilham características notáveis: florescimento cultural, dinamismo científico, inovação tecnológica, comércio livre e crescimento económico sustentado. Um elemento recorrente é a existência, mesmo que temporária, de sociedades relativamente abertas — capazes de acolher o outro, favorecer a circulação de ideias e confiar na liberdade e criatividade individuais.
Neste enquadramento, alguns autores designam a civilização contemporânea como “anglosfera”. Trata-se de uma realidade que não se define por fronteiras rígidas nem por um centro político único, mas por um conjunto de instituições, práticas e valores partilhados. Com raízes na herança britânica, expandiu-se sobretudo através dos Estados Unidos, do Reino Unido, do Canadá, da Austrália e da Nova Zelândia, exercendo influência cultural, económica e tecnológica à escala global.
A língua inglesa desempenha aqui um papel central, funcionando como veículo dominante da ciência, do comércio, da diplomacia e da cultura popular. A anglosfera floresceu em contextos de abertura: acolheu vagas sucessivas de migração, integrou contributos culturais diversos e promoveu redes globais de circulação de bens, capitais e conhecimento. Foi neste ambiente que emergiram universidades de referência, centros financeiros e polos tecnológicos, bem como uma produção científica sem precedentes. A sua força residiu menos na uniformidade do que na capacidade de absorver a diferença.
Hoje, porém, esta civilização atravessa um período de tensão. O receio da perda de identidade, o desgaste das elites, a polarização social e a tentação do protecionismo colocam em causa os princípios que sustentaram o seu sucesso. Tal como aconteceu no passado, a anglosfera encontra-se num ponto crítico: entre a continuidade do seu legado histórico ou a repetição de ciclos de retração e declínio.
A História sugere que as civilizações não fracassam por excesso de liberdade, diversidade ou abertura, mas pela renúncia progressiva a esses valores. O futuro da anglosfera dependerá, em grande medida, da sua capacidade de reconhecer que aquilo que a tornou dominante é precisamente o que hoje parece mais difícil de preservar.
Seremos capazes de aprender com a História?