As datas redondas são importantes. Convidam à avaliação daquilo cujo aniversário se comemora – ou se lembra com pesar – muitas vezes com o benefício (ou o preconceito) do conhecimento do que se lhe seguiu, ao término de processos de luto, ao encerramento de questões com a validade passada, ao tributo ao sofrimento das vítimas (se as houve).

Este ano celebram-se os setenta anos do fim da Segunda Guerra Mundial e da descoberta pelo mundo do extermínio sistemático de judeus pelos nazis. Ontem lembrou-se a chegada dos aliados a Auschwitz. Não penso que seja possível avaliar ou entender, nem passados setenta anos, aquilo que se chama de Holocausto. É demasiado maligno, demasiado desumano – o objetivo não era apenas matar judeus, era (como muitos sobreviventes afirmavam sentir-se) torná-los em não-pessoas –, demasiado grande (vejam-se os números de judeus mortos e aprisionados). E, por outro lado, demasiado seco, demasiado profissional, com demasiada eficácia operacional, com a racionalidade industrial com que se produz qualquer bem inócuo – como alguém também disse da Primeira Guerra Mundial, os campos de extermínio foram uma linha de montagem de morte. Houve ódio, claro, mas houve também indiferença, desinteresse e, sobretudo, falta de empatia – que é, argumenta o psicólogo Simon Baron-Cohen, a fonte da crueldade humana.

Não se consegue perceber. Resta-nos, portanto, lembrar.

Mas a distância dos eventos cria problemas. Há umas semanas tive uma conversa no twitter com um tuiteiro que considerava a guerra fria – não a tendo vivido e não sendo órfão do comunismo – como um bom equilíbrio mundial. 1989 foi há vinte e cinco anos e já se começa a esquecer a penúria atroz em que o bloco soviético estava mergulhado (os gregos, então, estão desejosos de experimentar as boas receitas económicas comunistas), os recursos que se gastavam em armamento e equipamento militar (e se retiravam a atividades mais apelativas), as guerras paralelas e as vidas que se perderam durante o período da paz que até se chamava guerra.

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Em 2011 morreu o último veterano americano da Primeira Guerra Mundial e em 2012 também morreu a senhora que se alistou no corpo feminino da Royal Air Force e era a última britânica a ter servido nas forças armadas durante a guerra de 1914-1918. Com estas mortes foi-se a experiência em primeira mão das trincheiras, do gás mostarda e do primeiro conflito onde números devastadores de soldados sofreram o que agora chamamos de perturbação de stress pós-traumático. Então apelidado de shell shock, por se considerar que ocorria por causas fisiológicas em quem vivia de perto o rebentamento de uma bomba.

Com os sobreviventes do Holocausto passa-se o mesmo: vão morrendo e os que estão vivos são já sobretudo crianças e adolescentes que viveram os guetos e os campos de concentração. Vai deixar de haver quem diga ‘eu senti o cheiro da carne queimada’ ou ‘os meus pais organizaram a minha fuga do gueto de Varsóvia’. Brevemente vamos ficar sem testemunhas. Aquelas que nos fazem perceber que os eventos do passado não são abstrações mas sobressaltos (ou catástrofes) da vida de pessoas reais.

Não nos podemos queixar de não ter relatos do Holocausto escritos pelos sobreviventes. Há memórias. Há ficções com fundo autobiográfico. E há um enorme manancial de testemunhos recolhido. Yale tem o arquivo videográfico Fortunoff com mais de 4000 entrevistas a sobreviventes, Claude Lanzmann realizou o monumental Shoah com histórias na primeira pessoa, jornais de todo o mundo ao longo das últimas décadas têm disponibilizado páginas para as vivências que conta quem sobreviveu, e há um número infindo de filmes e romances sobre o tema.

Ainda assim, é essencial recolher os testemunhos dos sobreviventes que nos restam. Por questões de conhecimento – dos factos históricos, de como estes traumas afetam as crianças de forma diferente que afetam os adultos – mas acima de tudo como tributo. Porque era vontade das vítimas do Holocausto que se soubesse o que aconteceu. E porque, sendo-lhes doloroso recontar o horror e, quantas vezes, enfrentar a paradoxal culpa por terem sobrevivido, e tendo muitos sobreviventes escolhido silenciar a sua história ou embatido num mundo hostil que não queria ouvir as violências da guerra, na verdade não existe paz nem cura se não a contarem.

Deixo aqui umas frases ilustrativas do psiquiatra americano Dori Laub, que foi ele próprio criança sobrevivente do Holocausto, retiradas de Testimony, Crisis of Witnessing in Literature, Psychoanalysis and History (tradução minha da edição de 1992).

‘E de facto, contra todas as contrariedades, tentativas de prestar testemunho ocorreram […]. Diários foram escritos e enterrados no solo para serem historicamente preservados, fotografias foram tiradas em segredo, mensageiros e fugitivos tentaram informar e avisar o mundo do que se estava a passar.’ (p. 84)

‘[U]ma mulher sobrevivente afirmou: “Nós queríamos sobreviver para viver um dia depois de Hitler para podermos contar a nossa história”. […] Os sobreviventes não só queriam sobreviver para contar a sua história, eles também precisavam de contar a sua história para sobreviver. Existe, em cada sobrevivente, uma imperativa necessidade de contar e assim ficar a conhecer a sua história, desimpedida de fantasmas do passado contra os quais se tem de proteger.[..]

Este imperativo para contar e ser ouvido pode tornar-se uma tarefa que consome toda a vida. No entanto, nenhuma quantidade de contar parece fazer justiça a esta compulsão interior. Nunca há palavras suficientes ou as palavras certas, nunca há tempo suficiente ou o tempo certo, e nunca há ouvintes suficientes ou os ouvintes certos para articular a história que não pode ser totalmente capturada em pensamento, memória e discurso.’(p.78)

Nós não compreendemos o Holocausto. Os sobreviventes também não. Façamos-lhes a gentileza de pelo menos sabermos o que viveram – de os ouvirmos.