Não sou apologista de políticos cinzentos que teimam em comunicar com os eleitores fazendo uso dos hábitos vigentes circa 1970. Não torço o nariz à experimentação de novas formas de comunicação, mesmo quando correm mal (quem disse que se acerta sempre?) Não tenho paciência para quem arenga com sobranceria sobre a abstenção e a distância entre os cidadãos e os eleitores dos políticos, mas critica com ainda maiores peneiras as tentativas dos políticos comunicarem e fazerem pontes com os seus súbditos, perdão, governados.

Por isto, não estive entre os críticos do telefonema do Presidente da República para Cristina Ferreira quando iniciou o novo programa. Nem com os atormentados com cozinhados de Assunção Cristas e António Costa no dito espaço de televisão. E não me indigna só por si que Marcelo Rebelo de Sousa tenha convidado para o Palácio de Belém umas dezenas de influencers, acabando por se passear pelas redes sociais em abundância.

Se os influencers têm seguidores – tal como Cristina Ferreira tem espetadores e fãs – por que diabo não poderia o Presidente mostrar que comunga interesses com os cidadãos (os que veem televisão e os que seguem instagrammers)? Que se esforça por criar pontes com os eleitores? Que valoriza a tal sociedade civil de que tanto se fala e, até, pessoas empreendedoras e que vivem da sua iniciativa e engenho? Que quer normalizar as figuras políticas junto dos mais novos (que só usam o instagram e reviram os olhos com excentricidades dos velhotes como o twitter ou o facebook)?

Nada a apontar nesta iniciativa presidencial, até meritória. O problema de Marcelo Rebelo de Sousa está noutro lado: em não entender que há mais atividade presidencial para além da que lhe permite exibir-se nas luzes da ribalta – ou das redes sociais. Não tenho dúvidas que o Presidente é um trabalhador incansável. E já comprovei várias vezes que tem uma visão das dinâmicas internacionais, que a prazo nos cairão em cima, bastante sagaz. É um promotor de estabilidade política – e eu aprecio e valorizo muito a estabilidade.

Mas, mas, mas. Mas Marcelo Rebelo de Sousa não gosta das questões menos glamourosas a que, como Presidente, tem toda a obrigação de oferecer atenção.

Em abril deste ano, três associações que trabalham para combater a violência doméstica – a Projeto Criar, a Dignidade e a Associação Contra o Femicídio – pediram uma audiência ao Presidente da República, o tal que é o garante do regular funcionamento das instituições. Pelos piores motivos, tem havido fartura este ano fartura de notícias e peças jornalísticas sobre violência doméstica e as suas vítimas. Portugal tornou-se no ano passado – e neste continua – caso único no mundo: a maioria das pessoas assassinadas são do sexo feminino. É como quem diz: a maioria dos assassinatos em Portugal são em contexto de violência doméstica (que vitimizam mais mulheres), em vez de resultantes de atividades ligadas a outras criminalidades (que vitimizam mais homens) e costumam ser a grande causa de mortes violentas. As absurdas sentenças de agressores domésticos têm sido noticiadas. O mau funcionamento dos mecanismos de proteção às vítimas que apresentam queixa, idem.

Não é um problema de somenos, diria eu. Mas Marcelo Rebelo de Sousa não concorda. Uma assessora do Presidente poderia receber as três associações, as três associações responderam que queriam reunir com o Presidente, foi-lhes respondido que estes pedidos caem sempre para os assessores, o pedido das associações foi repetido, depois disso veio silêncio absoluto do Palácio de Belém. Desde maio que as três associações estão a aguardar por data para a audiência com o Presidente.

Note-se que as três associações não são novatas nem associações sem credibilidade. Os deputados que trabalham nos dossiers da violência doméstica conhecem-nas e costumam recebê-las oficialmente no Parlamento para obterem inputs sobre os seus pontos de vista, aquando de desenharem legislação.

O combate à violência doméstica é uma causa que o Presidente não quis assumir. Reunir com associações que apoiam vítimas de violência não é glamouroso, não dá boas fotografias, não é tão popular no instagram. Donde, Marcelo Rebelo de Sousa não participa, envia uma assessora.

As prioridades do Presidente da República quanto a quem recebe em Belém são questionáveis. E contraditórias com a imagem de presidente empático, próximo e humano que promove – tanto mais eficaz por serem, de facto, qualidades de Marcelo Rebelo de Sousa.

Além de questionáveis e contraditórias, em boa verdade as escolhas do Presidente para as suas companhias em Belém vêm da desconsideração geral em se tratando de violência de género e, concretamente, violência doméstica. Não vamos esquecer que somos o país que há cinco anos teve gente a aplaudir um assassino que disparou contra quatro mulheres quando a polícia finalmente o prendeu. Isto tudo depois de o esconderem e ajudarem a fugir. Há cinco anos. Ontem, portanto. E que as próprias medidas penais que temos incentivam a aplicação de penas suspensas e dificultam a prisão preventiva dos agressores que já bateram mas não mataram.

Nada disto desculpa Marcelo Rebelo de Sousa, claro. Um presidente – e sobretudo se humano e empático – tem obrigação de liderar moralmente estes combates civilizacionais importantes, como são parar as mortes de mulheres por ex-maridos ou ex-companheiros e de facto promover a eliminação da violência doméstica. Mas escolheu não o fazer, e em vez disso foi brincar para o instagram.