Igualdade

Os queixinhas

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Nem todas as críticas às mulheres políticas são sexismo. E os homens terão de aceitar que o mundo mudou e têm de competir com quem é diferente (mas mais parecido com outros eleitores).

Por estes dias a infeliz ex-ministra Constança Urbano de Sousa veio queixar-se que porventura teria tido mais respeito no ano passado se não fosse mulher. (Suspiro.)

Não tenho qualquer dúvida de que as mulheres são tratadas de uma forma mais brutal, exigente, irracional e cruel que os homens nos media. Basta ver as reações aos últimos Golden Globes, com o seu dress code negro em apoio aos movimentos #metoo e Time’s Up. O assunto do assédio sexual, cuja autoria é masculina, ficou de lado em muitas cabecinhas (que não o queriam na ribalta).

O importante foi evidenciar que Oprah, dona de um discurso bonito e contundente, seria uma péssima candidata presidencial (candidatura com que doidos em simétrico sonham). Ou que as mulheres de Hollywood sempre conviveram com os abusadores, pelo que são umas hipócritas. (Já se sabe: quando as mulheres calam, são cúmplices; quando falam, são hipócritas; quando contam logo, são mentirosas que querem enlamear homens inocentes e bons pais de família). Gente particularmente amante da liberdade considera que as mulheres que não são escravas sexuais do ISIS ou intocáveis na Índia são umas dondocas do primeiro mundo sem problemas e deviam manter-se caladinhas. As mulheres financeiramente bem-sucedidas e com mediatismo por alguma razão obscura estão privadas de liberdade de expressão.

Às mulheres foi oferecido um rol de críticas feroz. Aos abusadores? Bem, não devemos ser demasiado puritanos.

Não tenho dúvidas que Constança Urbano de Sousa, como qualquer política portuguesa com visibilidade, sofre ataques sexistas. Sucede que, no caso desta senhora, esta desculpa é muito esfarrapada. Morreram 111 pessoas, pelo menos, em incêndios florestais. Houve mudanças questionáveis na liderança da proteção civil sob a sua tutela. As condições meteorológicas antes dos incêndios eram conhecidas. Jogar a cartada do machismo perante a morte de 111 pessoas é patético e insultuoso. Tal como foi a queixa das férias que não teve.

Até digo mais: como mulher e como feminista a atuação de Constança Urbano de Sousa foi assaz ofensiva. Gosto muito da feminilidade das políticas (como das restantes profissionais), aprecio sempre o ponto de vista diferente das mulheres, aplaudo a diversidade, não gosto de autómatos. Mas não perdoo a Constança Urbano de Sousa ter-se portado como uma barata tonta incapaz de controlar as emoções depois da calamidade de Pedrógão. Deu uma péssima imagem das mulheres na política. As mulheres que conheço não vivem à beira de ataques de choro, nem tal despautério é característica feminina fora dos romances oitocentistas. Estou mais acostumada a mulheres que sabem enfrentar adversidades. Em boa verdade, uma característica que associo às mulheres é uma enorme resiliência.

A ministra a chorar (numerosas vezes) e a conversa sobre os seus sentimentos foram uma caricatura das reações femininas tão provocadora de icterícia quanto a paródia à imperturbabilidade masculina que Costa nos ofertou, com a sua frieza e falta de empatia em todas as ocasiões a propósito dos incêndios e das mortes.

Como disse Nancy Mitford de Madame de Pompadour, a incursão de Urbano de Sousa pela política não foi de molde a deixar as feministas satisfeitas. Mas a ex-MAI parece fazer parte de uma moda de queixinhas. Por estes dias Theresa May fez uma remodelação que trouxe políticos mais novos, mais mulheres e com maior diversidade racial para o governo. É certo que o primeiro objetivo é enviar um susto por correio para a UE, ao dar sinal de planearem a possibilidade da saída da Grã-Bretanha sem um acordo. Em todo o caso, um segundo objetivo pretende tornar o governo mais representativo do país atual.

Pois faz muito bem, porque os assuntos da representatividade não se esgotam na proximidade ideológica, mas alastram-se também à partilha de experiências comuns, local onde se vive, tom de pele, sexo, classe social, idade e por aí fora. Como um membro do governo disse aos media, May percebia que os eleitores olhavam para o governo e viam um grupo ‘stale, male and pale on the wrong side of the fifties’.

Vai daí despediu alguns dos membros masculinos do governo (a ministra da Educação saiu porque não aceitou a mudança de ministério). Dos elementos seniores eram dezassete homens versus seis mulheres. Uma atroz escassez de saias e saltos altos. Mesmo assim houve queixinhas. Um deputado conservador rezingou que se estava a promover gente impreparada devido ao sexo e à cor de pele. Como se sabe, só os homens louros (que também se sentem melhor representados por outros homens louros – é da natureza humana de gostarmos de quem se nos assemelha), ou com outra cor de cabelo, são sempre poços sem fundo de mérito e nunca, lá agora, são escolhidos porque são homens, donde mais do mesmo, seguidores das regras do old boys club e previsíveis.

O governo inglês continuará a ter uma larga maioria de utentes das gravatas. Contudo alguns senhores consideram pouco e amuam e fazem birra porque alguns lugares vão para arrivistas de sexo ou cor questionável.

Eu digo que anda demasiada gente – homens e mulheres – de cabeça perdida com as questões do sexismo e da necessidade de diversidade na política e nas administrações públicas – esta última é, para mim, um fim político em si mesmo. Nem todas as críticas às mulheres políticas são sexismo. E os homens terão de aceitar que o mundo mudou e têm de competir com quem é diferente (mas mais parecido com outros eleitores). O que é bom, porque maior concorrência faz sempre bem.

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