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Algures entre 2000 e 2002, a primeira parte de um jogo correu mal ao Atlético. O clube de Madrid ainda habitava a segunda divisão e, no balneário, um jogador queixou-se. “É preciso termos mais cojones“, criticou. Paulo Futre ouviu, levantou-se da cadeira e baixou as calças até aos joelhos. “Têm aqui os meus, os primeiros”. Não se sabe o que aconteceu na segunda parte, nem qual o encontro em causa. Este sábado o Atlético de Madrid perdia 1-0 em Camp Nou ao intervalo e esse resultado tirava-lhe o título de campeão na última jornada. Teve cojones. E a cabeça de Godín.

A primeira metade correu mal. A equipa esteve amorfa, encolhida no seu meio campo e à espera do que o Barça lhe podia fazer. O azar também apareceu quando Diego Costa, aos 18′, saiu lesionado – a segunda vez em três visitas a Camp Nou esta época – e, aos 23′,  foi a vez de Arda Turan.

Tudo para o balneário. Foram à volta de 15 minutos a ouvir Diego Simeone, treinador argentino da equipa. Não se sabe (ainda) o que terá dito aos 11 homens que o ouviam, mas resultou. Os colchoneros voltaram ao relvado e viram-se as diferenças. Na segunda parte lembrou-se que estava ali para lutar.

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Começou a pegar na bola, a ter a ousadia de invadir o outro lado do campo. Aos 49 minutos chegou a recompensa – um canto acabou com a bola na cabeça de Godín e com o uruguaio a mandá-la para dentro da baliza. 1-1, o Atlético empatava. Era o que o clube precisava para, 18 anos depois, voltar a ser campeão – chegou a Camp Nou com dois pontos de vantagem sobre o Barça. E Simeone, também. Em 1996, o hoje treinador estava dentro de campo, com a camisola vestida, quando o Atlético conquistou La Liga pela 9.ª vez.

Até aos 60′, o Barça ficou atordoado. E o Atlético inchado. Os de Madrid continuaram no meio campo rival, a trocar a bola e a tentarem chegar ao segundo. Não conseguiram e assim sendo, os últimos 30 minutos foram de sofrimento. Messi marcou aos 64 minutos, mas o golo foi anulado por fora-de-jogo (e o argentino fecha 2013/14 sem marcar um golo ao Atlético). Depois foi aguentar, aguentar e aguentar, com Tiago a ser parte importante da muralha que o Atlético montou à frente da baliza.

No último apito, a festa. Pelo segundo ano consecutivo o Atlético celebrava um título em casa de um rival – em maio de 2013 foi ao Santiago Bernabéu conquistar a 10.ª Taça de Espanha e, em maio de 2014, viajou até Camp Nou para garantir o 10.º campeonato. Nestas duas aventuras – antes, em 2012, ganhara já a Liga Europa e a Super Taça Europeia -, o Atlético teve Diego Pablo Simeone ao volante.

Em dezembro de 2012 o argentino não resistiu. Saiu do Estudiantes de la Plata, na Argentina, e acudiu ao pedido de ajuda do ‘seu’ clube na Europa (como jogador, também andou pela Lazio e pelo Sevilha, por exemplo). Chegou, motivou as tropas, colou peças a quem poucos viam utilidade e, praticamente com os mesmos jogadores, sagrou-se este sábado campeão de Espanha.

Quando a partida terminou, foram esses homens que se ajoelharam no relvado. Uns deitaram-se, outros pularam de alegria e os restantes correram pelo campo de braços abertos em direcção aos poucos, pouquíssimos, adeptos colchoneros que estiveram em Camp Nou – o Barça apenas cedeu 447 bilhetes ao Atlético de Madrid para um estádio que contou com 96.973 espetatores (0,49% do total). Durante quase dez minutos, porém, alguém ficara sentado. Simeone ainda estava no banco, com um sorriso, a observar o que se passava e a deixar os primeiros festejos para quem correra durante 38 jornadas para ali chegar. Apenas se levantou quando eles, os jogadores, o foram buscar ao banco.

E com eles estará em Lisboa a 24 de maio, no Estádio da Luz. Próxima missão, final da Liga dos Campeões. Próximo rival a abater, o Real Madrid.