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Lisboa quer atrair pessoas com ideias, com negócios e com capital. Empreendedores e investidores são os alvos na mira da Câmara Municipal de Lisboa (CML), que, nos últimos três anos, tem promovido uma estratégia para o empreendedorismo. A vontade existe, mas o caminho é longo. Faltam casos de sucesso mundiais, uma mudança de cultura nas universidades e a atracção de capital estrangeiro, diz Peter Cohan, especialista internacional em empreendedorismo e professor na Babson College, em Boston.

Cohan esteve em Portugal a propósito do Lisbon Challenge, programa de aceleração internacional de startups promovido pela Beta-i, associação para promoção do empreendedorismo. Ao Observador explicou que Lisboa está no caminho certo, que deve potenciar o capital humano e ter as ferramentas de investimento necessárias para agarrar ideias, transformá-las em startups e dar-llhes o capital necessário para que possam empregar “talentos”.

Quanto às universidades, acrescenta que devia existir um programa que ensinasse aos alunos das áreas de engenharia ou de ciências computacionais as competências que precisam para lançar uma empresa. Para Miguel Santo Amaro, fundador da Uniplaces, plataforma online de alojamento onde estudantes de qualquer parte do mundo podem reservar um apartamento ou um quarto, em dois anos, as mudanças na cultura académica já se começaram a sentir.

“As universidades estão muito mais vocacionadas para as áreas de inovação e empreendedorismo”, explica, referindo que as pessoas não precisam de ser todas empreendedoras. “Isto foi quase como um mito urbano que surgiu”, adianta.

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Lisboa ainda não tem mentores que tenham passado por experiências de sucesso global, diz Miguel Santo Amaro.

Quando Miguel Santo Amaro chegou a Portugal, no final de 2011, estava decidido a lançar um projecto, mas percebeu que não existia muita familiaridade com o termo startup. Inclusivamente entre os alunos de gestão. “Esta era a realidade que existia no final de 2011, início de 2012, mas, de lá para cá, houve um dinamismo muito bom”, explicou ao Observador.

Para o jovem de 25 anos, existem dois ou três pontos importantes para que Lisboa possa subir para o patamar de startup city. Tal como Peter Cohan, assinala que é preciso ter um ou dois casos de grande sucesso à escala global, como um Google, Facebook ou Spotify, que possam catalizar o ecossistema. Depois, é preciso capital e mentores, pessoas com experiência na vida empresarial e que a passem a quem está a começar. “Os melhores mentores são aqueles que já passaram pelo processo e que já cresceram numa empresa. Neste momento, ainda não temos ninguém que tenho tido um grande êxito”, adianta.

Motivação e mais investimento pré-seed são mais duas palavras de ordem para Lisboa. “Tem de existir mais investimento entre os 10 mil e os 100 mil euros que permita lançar o negócio, construir protótipos e ver se a ideia é ou não viável. Ainda não há muito deste capital disponível e é difícil conseguir rondas superiores a um milhão de euros”, acrescenta Miguel Santo Amaro. Por isso, propõe parcerias entre investidores portugueses e internacionais. Objectivo: que bebam do conhecimento exterior.

Menos impostos

O que é urgente? Uma mudança na legislação, diz Miguel Santo Amaro, com maior flexibilização do mercado laboral e sobretudo a nível dos impostos. Quando recorda o plano de reforma do IRC, apresentado pelo Governo em 2013, lamenta que se tenha perdido a oportunidade para discutir a situação das startups. “Os projectos de base tecnológica com grande potencial de crescimento a nível global estão numa posição diferente do negócio tradicional, que vive para o mercado interno, em Portugal”, explica.

A sugestão passa por seguir casos práticos, como o que já acontece no Reino Unido ou em Israel. “Não vamos precisar de inventar a roda. Podemos adaptar casos de sucesso e leis que já existam noutros países e adaptá-las à nossa realidade”, explica.

João Vasconcelos, director da Startup Lisboa, incubadora de empresas que nasceu do Orçamento Participativo da Câmara Municipal de Lisboa, em 2012, concorda. “Não se pode tributar ou exigir os mesmos impostos a empresas que estão há três ou quatro anos a desenvolver um produto sem emitir uma única fatura”, refere. A esperança vai agora para o pós-troika, período em que acredita existirá melhor ambiente para discutir o tema.

“Quando não há um euro de fundos comunitários para apoiar o empreendedorismo tecnológico em Lisboa, estamos a deixar um motor sem combustível e a pôr combustível onde não há motores”, sublinha João Vasconcelos.

O director da Startup Lisboa lembra o que a cidade tem para oferecer a quem vem de fora: a relação entre custos e qualidade de vida, a qualidade dos recursos humanos disponíveis, acesso aos principais mercados e às companhias aéreas de baixo-custo. Em três anos, conta que algumas coisas mudaram: surgiu mais investimento público e privado, existe uma primeira geração de empreendedores que já está em Londres ou em Silicon Valley e que se assiste a um desenvolvimento diário do ecossistema.

“Se há três anos o investimento em startups era muito envergonhado e não havia atenção política ou mediática para o assunto, isso mudou”, conclui.