O alcaide de Barcelona (equivalente ao presidente da Câmara), Xavier Trias, admitiu na noite desta quinta-feira mandar parar a demolição do Centro Social Can Vies para poder negociar com os ocupantes do espaço. Nas últimas quatro noites, milhares de pessoas têm saído às ruas em protestos violentos contra a decisão do município de demolir o armazém que, há 17 anos, é gerido por okupas.

Trias disse estar disposto a parar os trabalhos se isso “for uma condição” exigida pelos okupas e moradores do bairro de Sants – onde o Can Vies se situa – para negociar.

Na manhã desta sexta-feira, os responsáveis do Can Vies deverão apresentar uma proposta de negociação à junta de freguesia de Sants-Montjuïc, onde se exige a paragem imediata dos trabalhos de demolição, o fim da presença policial nas ruas e a avaliação do estado da parte do armazém que ainda não foi demolido.

Na última noite, o Carrer de Sants voltou a ser palco de violentos protestos, com um grupo de manifestantes de cara tapada a pegar fogo a 16 caixotes de lixo e a polícia a deter pelo menos 21 pessoas. Ainda assim, foi uma noite mais calma do que as três anteriores, em que cerca de 1.500 pessoas estiveram no bairro de Sants a manifestar-se contra o desalojamento do projeto. As manifestações, aliás, alastraram-se a toda a cidade de Barcelona e a outras localidades da Catalunha.

Na primeira noite de confrontos entre manifestantes e polícia, um carro de exteriores da televisão catalã TV3 foi incendiado e os agentes dispararam balas de borracha. Depois, a escavadora que estava a demolir o edifício foi também queimada. Na sequência dos protestos, o diretor dos Mossos d’Esquadra (o equivalente à PSP), Manel Prat, demitiu-se do cargo, alegando, contudo, “motivos estritamente pessoais”.

O edifício ocupado é propriedade dos Transportes Metropolitanos de Barcelona, que há sete anos tentam reavê-lo. Há duas semanas, este órgão decidiu passar a gestão do problema para a Câmara, que propôs aos okupas a mudança para outro espaço – o que foi recusado pelos ativistas, que dizem já antes terem sido feitas promessas pela autarquia que não chegaram a ser cumpridas.

“Xavier Trias e Jordí Martí [presidente da junta de Sants-Montjuïc] enganaram-nos nas três reuniões que tivemos para salvar Can Vies. Aproveitaram a noite eleitoral para ordenar o desalojamento e a demolição. E houve violência contra as pessoas que se recusaram a sair, a demolição começou com elas lá dentro”, acusa Pau Guerra, porta-voz do Centro, exigindo a demissão dos dois dirigentes autárquicos.

Xavier Trias, por seu turno, reagiu várias vezes no Twitter. “Tivemos uma paciência infinita. Não é fácil dialogar com quem não quer falar, com quem não te reconhece”, disse na quarta-feira.