As emboscadas, atribuídas a homens armados da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), maior partido da oposição, foram intensificadas desde segunda-feira no troço de cem quilómetros entre Save e Muxúnguè, centro de Moçambique, onde o transporte de passageiros e carga tem sido feito sob escolta militar desde abril do ano passado, quando eclodiram os primeiros confrontos. “Os ataques fizeram escassear os produtos provenientes do sul, o que fez disparar o preço da cebola, batata e ovo”, disse à Lusa Arminda Fajú, comerciante do mercado central em Chimoio, a capital da província de Manica.

Uma caixa de meia-dúzia de ovos aumentou 70 meticais (1,7 euros), passando a custar 200 meticais (4,9 euros), enquanto as batatas e cebolas variam entre 200 meticais a 330 meticais (oito euros) por 10 quilos respetivamente, quase um terço mais em comparação com os valores praticados na semana passada. “Estes ataques não têm só impacto militar, mas afetam-nos socialmente, deteriorando o tecido social, quer com os preços, quer com a privação das pessoas em circular num troço importante para a economia do país”, explicou à Lusa Francisco Pedro, habitante de Chimoio.

O número de passageiros que procuram ligar por terra as cidades de Chimoio e Maputo, através de transportes semipúblicos (“chapas”) caiu quase quatro vezes, desde o reinício dos confrontos naquele troço da região centro. “A procura baixou muito. Agora temos que encorajar cada passageiro que nos procura para viajar. Há autocarros que saem para Maputo com 15 passageiros, num total de 57 lugares”, adiantou à Lusa Fredson Rodrigues, funcionário da companhia de transporte Angolano, assegurando que a receita nem cobre o combustível necessário para a viagem. “Temos que viajar por uma questão de compromisso com o passageiro”, declarou Chabinza Miguel, um outro operador de transporte e que escapou ileso no ataque de segunda-feira naquele troço.

Arnaldo Jordão, presidente da Associação dos Transportadores de Passageiros de Manica (ATPM), receia que os ataques possam avolumar a divida bancária dos empresários que adquiriram os autocarros através de crédito. “Os ataques preocupam-nos, pois há autocarros adquiridos via empréstimo bancário e as letras precisam ser amortizadas. Arriscamos agora as viagens para atender às letras”, disse Arnaldo Jordão, que na terça-feira, que viveu duas horas de fogo cruzado naquele troço, quando viajava com destino a Maputo. O transportador receia o aumento do raio de ação dos ataques, abrangendo outros corredores importantes, prejudicando a economia, e apela para um entendimento “urgente e fiel” entre as partes beligerantes.

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Um novo impasse encravou o diálogo entre o Governo e a Renamo, sobre a paridade nas Forças de Defesa e Segurança e o desarmamento do braço militar do movimento de oposição, que protesta contra o avanço das tropas do Governo nas encostas da Serra da Gorongosa (Sofala), onde se supõe que esteja escondido o líder do partido, Afonso Dhlakama.

A escalada dos ataques ressurgiu quando a Renamo quebrou esta semana o cessar-fogo unilateral que havia decretado, e já fez três mortos entre os militares e dezenas de feridos, incluindo civis. Moçambique vive o pior momento de tensão político-militar após a assinatura do acordo de paz, em 1992, que pôs fim a guerra civil de 16 anos, entre o Governo e a Renamo.