O número de crianças, adolescentes e cuidadores que receberam apoio psicossocial do Unicef em Moçambique ultrapassou 154 mil até julho, com a insegurança no norte a agravar-se, com mais de 28 mil deslocados este ano.
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) alerta, no seu mais recente relatório humanitário sobre Moçambique, que a situação de segurança no norte do país permaneceu volátil em julho, com novas deslocações de população, expansão dos movimentos de grupos armados para distritos do sul da província de Cabo Delgado e um aumento das necessidades humanitárias das crianças e respetivas famílias.
Aquela província do norte enfrenta uma insurgência armada que, desde 2017, já provocou mais de 6.600 mortos.
Segundo o documento do Unicef, divulgado esta segunda-feira, “a insegurança manteve-se volátil no norte de Moçambique em julho”, tendo operações militares intensificadas em Macomia levado grupos armados não estatais a dispersarem-se para os distritos de Quissanga, Meluco, Ancuabe, Chiúre e Montepuez.
Acrescenta que os movimentos populacionais continuaram ao longo do mês de julho, com a ferramenta de monitorização de emergências da Organização Internacional para as Migrações a registar 3.729 pessoas em movimento nas províncias de Cabo Delgado, Nampula e Niassa, das quais 1.575 crianças. A maioria destes movimentos ocorreu em Cabo Delgado, sendo a violência o principal fator de deslocação, seguida de regressos planeados e do receio de novos ataques.
[Outubro de 1965. O diplomata suíço Raymond Quendoz espera pela mulher na pista do aeroporto de Havana, mas a portuguesa Annie Silva Pais simplesmente não aparece. O desaparecimento dela vai dar origem a um mistério de dimensão internacional que vai mobilizar o responsável da CIA em Cuba, o chefe dos serviços de segurança suíços, o mais alto representante de Portugal no país, e até Salazar e Fidel Castro. Porque Annie não é só casada com um diplomata suíço. Também é filha de um dos homens mais importantes do Estado Novo, Fernando Silva Pais, o diretor da PIDE. Já estreou “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Pode ouvir o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]
De acordo com dados citados pelo Unicef, o Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) contabilizava, no final de julho, 28.163 pessoas deslocadas pelo conflito desde o início de 2026, sendo mulheres e crianças responsáveis por 65% desse total.
Num contexto de agravamento das vulnerabilidades, o Unicef refere que, até julho, prestou serviços comunitários de saúde mental e apoio psicossocial a 154.659 crianças, adolescentes e cuidadores em Moçambique, dos quais 146.071 nas províncias do norte afetadas pelo conflito.
Só durante julho, a agência apoiou 24.603 crianças, adolescentes e cuidadores através destes serviços, incluindo 18.645 crianças em Cabo Delgado através de atividades recreativas, culturais, desportivas e de apoio comunitário destinadas a reforçar a proteção e o bem-estar psicológico.
O relatório destaca ainda que 1.440 crianças sobreviventes de violência receberam serviços de gestão de casos em julho e que 46 crianças desacompanhadas ou separadas das famílias foram reunificadas com familiares ou encaminhadas para acolhimento alternativo.
Na educação, outro dos setores fortemente afetados pela violência, o Unicef contabilizou 154.608 crianças com acesso a ensino formal ou não formal através dos programas apoiados pela organização, incluindo aprendizagem pré-escolar. Em Cabo Delgado, 208 professores do distrito de Palma receberam formação para ensinar em contextos de crise e identificar riscos de proteção infantil.
O Unicef alerta também para o impacto esperado do fenómeno El Niño durante a época chuvosa e ciclónica de 2026-2027. Segundo o relatório, as previsões mais recentes apontam para uma probabilidade de 100% de o fenómeno persistir até ao início de 2027, com possibilidade de agravamento da insegurança alimentar, sobretudo no sul e centro do país.
Apesar da continuidade das operações humanitárias, a agência das Nações Unidas assinala constrangimentos financeiros significativos. O apelo humanitário do Unicef para Moçambique em 2026 ascende a 58,8 milhões de dólares (50,4 milhões de euros), mas o défice de financiamento permanece em 49%, afetando “a capacidade do Unicef de responder plenamente às necessidades das crianças e dos seus cuidadores”.
O relatório estima que um milhão de crianças necessitem atualmente de assistência humanitária em Moçambique, num universo de 1,8 milhões de pessoas em situação de necessidade, incluindo mais de 506 mil deslocados internos relacionados com o conflito e cerca de 715 mil regressados às zonas de origem.