Queijada de Sintra? Tem.

Pastel de feijão? Tem.

Pastel de Sta. Clara? Tem.

Mimos? Tem.

Toucinho do Céu? Também tem!

E este Domingo havia até Natas do Céu!

A Confeitaria Portuguesa “De Além Mar” é uma doce tentação que fica em Lauro de Freitas, cidade que deve o nome ao engenheiro e político brasileiro que em 1950 morreu num acidente aéreo, e que fica a pouco menos de 22 km’s de Salvador, capital do estado da Bahia.

Mónica Morais e Maria João Morais abrem uma porta branca que tem escrito a letras azuis “oficina dos segredos De Além Mar” e chegam de sorriso rasgado ao meio da sala relativamente pequena que é o espaço comercial da confeitaria.

As duas irmãs são portuguesas de Angola. Nasceram em África onde viveram até 1975. Com a revolução, os pais, portugueses, vieram para o Brasil, para Salvador. Elas foram criadas aqui. Mónica foi a Portugal uma vez. Maria João viveu durante dois anos em Lisboa, depois de ter concluído a licenciatura em arquitetura.

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Em Lauro de Freitas, onde vivem, os jantares de família sempre contaram com amigos, e esses amigos comentavam sempre a mesma coisa. “Nós fazíamos as sobremesas e aí eles começaram a dizer que nós tínhamos de trabalhar com comida”, diz Mónica. Vontade para isso elas sempre tiveram, e há dois anos decidiram meter as mãos na massa, literalmente. “Tomámos coragem”, afirma Maria João.

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Na cabeça das irmãs estava um doce em particular, pastel de nata. “A gente demorou alguns meses, testando, testando, criando, até chegar na receita que nós usamos”. A estrela da companhia, o doce mais procurado, é mesmo a nata, mas a oferta não se esgota aí, há muito mais. Queijada de Sintra, pastel de feijão, pastel de Sta. Clara, toucinho do céu e mimos. Ao fim-de-semana há também uma sobremesa portuguesa, neste foi natas do céu, no anterior arroz doce.

Extra! Extra! Vem aí uma nova confeitaria para a Barra! 

A prova de que acertaram em cheio na receita mede-se facilmente. “A gente abriu um bem pequenininho de início. Em um ano e meio já mudou de local e agora a clientela está crescendo muito e estamos indo para Salvador”. E assim nasce uma notícia para quem vive em Lauro de Freitas ou Salvador e quiser comer um doce português, é que a decisão de Mónica e Maria João é fresquinha, como a massa dos pastéis que vendem. “É uma novidade em primeira-mão. Decidimos hoje. Estamos indo para a Barra”.

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A expansão do negócio, que as deixa com o sorriso ainda mais aberto, não significa apenas mais um espaço. Ela acarreta uma mudança profunda. “A gente está chegando no ponto em que vamos ter de escolher entre as carreiras. Eu (Mónica) trabalho ainda como veterinária, em Educação Ambiental, ela (Maria João) trabalha como arquitecta, mas a gente vai ter de tomar uma decisão em breve”.

A clientela da “De Além Mar” é o espelho da região baiana, uma mistura. Há muitos brasileiros. “Eles chegam aqui para comer um pastel de Belém”, diz Mónica, “e aí a gente explica que não é de Belém, é de Lauro de Freitas. Explicamos que isso de Belém é uma marca registada e eles vão-se acostumando. Agora já sabem o que é o pastel de nata”. Mas também muitos portugueses. “Tem uma comunidade bem grande de portugueses em Lauro de Freitas e em Salvador e aqui acaba por virar referência porque eles vêm atrás de matar a saudade.” As pessoas sentam-se nas cadeiras de madeira e ouvem a música que sai da aparelhagem, “quase sempre fado, Dulce Pontes, e também Madredeus”, conversam, “alguns começam a contar histórias, a partilhar um monte de coisas, é meio balcão de bar”. Não se trata só de alimentar o estômago, mas também a alma. “Alguns ficam ‘ah estou emocionado com essa música’. Adoram”.

A decoração também remete para o outro lado do Atlântico. As duas irmãs socorreram-se das tecnologias, “foi muita inspiração na internet”, da herança cultural, “fomos trazendo muita coisa de casa”, e da generosidade, “algumas coisas são também clientes que nos trazem, a Nossa Senhora de Fátima que está ali foi um cliente que trouxe, um português que tem um restaurante lá”.

Portugal ou Brasil? Brasil

Na entrada da confeitaria repousam dois cachecóis lado a lado, um de Portugal e outro do Brasil, as duas nações que dividem o coração de Mónica e Maria João. Com o Mundial (a Copa, como dizem aqui) mesmo aí, o futebol entra fácil na conversa. Se tivessem de deixar cair um dos cachecóis da entrada, futebolisticamente falando, o vermelho, verde e amarelo ficaria a perder. “Ainda bem que, por enquanto, é um jogo de cada vez. Mas se jogarem os dois… Brasil”, afirma Mónica. “Provavelmente”, diz Maria João, “não tem como”. Ainda assim, e se os portugueses quiserem adoçar a boca, um em particular, Cristiano Ronaldo, podem contar com a “De Além Mar”, “Nossa Senhora, é só dizer onde ele está e a gente vai agora! Fazemos caminhada até ele!”.

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Ronaldo não vai estar longe, Portugal joga no Arena Fonte Nova, em Salvador, no dia 16, contra a Alemanha. As duas irmãs gostavam de poder ver o craque da seleção ao vivo, mas não têm bilhete para o jogo. “Não conseguimos comprar os ingressos. O meu pai ficou na internet madrugadas e não conseguiu”. Ainda assim, as irmãs Morais não duvidam de duas coisas, apoio à equipa das quinas, “o estádio vai ser bem português, tem uma torcida muito grande”, e sucesso, “Portugal vai ganhar 2-1”, diz Mónica, “e o Cristiano Ronaldo marca os 2. Se ele recuperar, sem dúvida. Ele vai recuperar, os ares baianos fazem milagres!”, acrescenta Maria João.

Resta esperar, e saber se os orixás ajudam.