Qual roleta russa. Esta era alemã. Senão, vejamos as hipóteses. Número um: a Alemanha vencia o Gana, acumulava seis pontos e tirava da gaveta o passaporte para entrar nos oitavos de final. Assim, os africanos somavam a segunda derrota e ficavam à espera de Portugal. Número dois: os ganeses conseguiam empatar a coisa e as decisões adiavam-se para a última jornada, onde a Alemanha teria de jogar para ganhar contra os EUA. Número três: o Gana ganhava, sacava uma surpresa da cartola e, caso Portugal vencesse também os norte-americanos, todas as equipas chegavam à derradeira jornada com três pontos.

Alemanha: Neuer; Boateng, Hummels, Mertesacker e Howedes; Lahm, Khedira e Kroos; Ozil, Gotze e Muller.

Gana: Dauda; Asamoah, Boye, Mensah e Afful; Muntari e Rabiu; Ayew, Boateng e Atsu; Gyan.

Talvez a primeira hipótese fosse a única a evitar. Era a que livrava Müller, Özil, Lahm, Kroos e companhia da obrigação de vencerem os EUA, no último jogo. Caso Portugal ganhasse no domingo aos norte-americanos, convinha que, depois, a equipa de Jurgen Klinsmann não somasse pontos frente à Alemanha, de modo a que a seleção portuguesa não ficasse a depender da diferença de golos para rumar aos ‘oitavos’ — o confronto direto é apenas o quarto critério na lista de prioridades da FIFA para desempatar as coisas.

Tudo ‘ses’. Era isto que também estava em jogo no Alemanha — Gana, o duelo que, quatro anos volvidos, voltava a meter um Boateng a lutar contra outro. Jerôme do lado direito da defesa alemã, e Kevin-Prince no Gana, com o número 9. Bastou meio minuto contado com as redes calmas para os africanos fazerem melhor do que o primeiro jogo, contra os EUA, onde sofreram logo um golo aos 29 segundos. Já era melhor. E não foi só isto.

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Os ganeses quiseram discutir com os alemães. O tema — a bola. Um debate que já se tinha visto isto contra os EUA (derrota por 2-1) e até no amigável pré-Mundial, frente à Holanda (outra derrota, por 1-0). Com Asamoah, o canhoto da Juventus, Muntari, outro esquerdino, do Milan, e Boateng, o irmão bad boy do Schalke, os africanos decidiram não trazer ao jogo o chutão para a frente. Não. Mantinham a bola na relva e sempre que pretendiam trocá-la entre os seus jogadores, faziam-no com passes curtos. Fosse na defesa, no meio campo ou no ataque.

Só aos 7′ não o fizeram, quando Muntari enviou a bola pelo ar rumo a Atsu, na direita, que, após a dominar, a cruzou (aí sim, pela relva) para Asamoah Gyan aparecer ao primeiro poste e rematá-la por cima. Era tal e qual ao que Portugal fizera — também nos primórdios do 4-0 sofrido diante dos germânicos, fora de Hugo Almeida o primeiro remate do encontro. Aos 12′, os alemães faziam o mesmo de sempre: uma série de passes de primeira, rápidos, levaram a bola até à área do Gana, onde o calcanhar de Muller a amorteceu para um remate de Kroos, que bateu na perna de um ganês. No minuto seguinte, Atsu respondia e, à entrada da área, disparou para aquecer as mãos de Neuer.

Os alemães tiveram a bola mais tempo. Sempre. O Gana, porém, só a tentava roubar a partir da linha do meio campo, ao mesmo tempo que punha uma trela na sua linha de quatro defesas — era proibitivo caírem na tentação de avançarem para apertar os médios alemães. Isso não. Porquê? Assim não alargavam o espaço atrás de si, até à área, para onde os germânicos tanto gostam de enviar Gotze, Ozil e Muller. Conseguiram-no.

A Alemanha até chegava perto da baliza africana, mas nunca através do meio do campo. E quando o fazia pelas alas, os cruzamentos nunca encontraram um pé que os conseguisse desviar para a baliza de Dauda. Como aconteceu aos 20′, 29′ e 41 minutos. Do Gana, a maior ameaça apareceu aos 32′, quando Muntari se lembrou da bomba de Atsu e resolveu fazer explodir uma igual. Tão semelhante que também não fugiu muito das mãos de Neuer. Os africanos passavam muito tempo a defender, sim, mas faziam-no tendo os jogadores alemães quase sempre onde os queriam — à sua frente, a trocar a bola, incapazes de a fazer passar por entre as pernas ganesas.

Defender bem era isto. Sustos valentes? Para o Gana, nem um. Já Portugal, ao intervalo, perdia por 3-0 no seu duelo com os alemães. Pois. Os africanos já faziam melhor e, para a segunda parte, já não tiveram de entrentar Jerôme, o Boateng germânico, que ficou no balneário para entrar Mustafi. Aos 53′, o irmão Kevin-Prince seguiu-lhe o exemplo quando também ele saiu para entrar Jordan Ayew.

Esta substituição fez-se logo após o golo alemão, que apareceu quando Muller fugiu da área, recebeu a bola e cruzou-a para o espaço entre os centrais ganeses. Lá estava Götze, que fechou os olhos, ajeitou a cabeça e rematou a bola tão para baixo que, antes de entrar na baliza, ainda foi empurrada pelo seu joelho. Bonito ou não, era o 1-0 para a Alemanha. À primeira tentativa na segunda parte, os europeus marcavam. Os ganeses não acharam piada. Portanto, armaram-se em imitadores.

Ou em fotocópias. Logo na primeira vez que a equipa se aproximou da área alemã, aos 54′, Harrisson Afful, o defesa direito, cruzou a bola e, no meio dos centrais alemães, André Ayew saltou para cabecear e fazer o 1-1. Réplica do golo germânico. Tudo idêntico, menos o joelho trapalhão a tocar na bola após o cabeceamento. Arrancava aqui a loucura.

O empate transtornou os alemães. Já não mostravam tanta certeza a fazer as coisas. Ficaram mais lentos e receosos. E que melhor prova haveria do que ver o sempre fiável Philip Lahm a errar? O homem que Pep Guardiola, no Bayern de Munique, puxara da lateral direita da defesa para se tornar numa bússola de passes à frente da defesa.

Foi ele, logo ele, a falhar um passe no meio campo alemão, aos 63′, que culminou com a bola nos pés de Asamoah Gyan, capitão ganês, que a usou para fazer o 2-1 sem que Neuer parecesse sequer ter hipótese de defender o seu remate. Era o quinto golo do avançado em Mundiais, que o igualava a Roger Milla — avançado que marcara o último pelo Camarões aos 42 anos, em 1994 — como o melhor goleador africano nestas andanças.

Parecia que o jogo acabara de acordar de um pesadelo e ainda não sabia onde estava. O estádio não se calava, os adeptos estavam em pé e a hiperatividade invadia os jogadores. Quatro minutos volvidos, Jordan Ayew lançou-se numa correria pela esquerda até à área alemã. Quando lá chegou, mesmo com dois ganeses sozinhos, na área, a esbracejarem e a pedirem-lhe a bola, optou por finar Hummels e rematar rasteiro, na direção de Neuer. Tanto egoísmo merecia castigo. E ele não demorou muito a aparecer.

Até veio do banco de suplentes. Já se sabia que por lá estava um alemão com a mania das cambalhotas no ar, mas não se esperava que demorasse tão pouco tempo a mostrá-la. Na primeira vez que tocou na bola, 114 segundos após pisar o relvado, Miroslav Klose pegou na caneta e assinou de vez o seu nome na biografia dos Mundiais. Aos 71′, foi o pé do avançado de 35 anos que desviou a bola vinda de um canto marcado na direita. Golo.

Klose correu, deu murros no ar, gritou e sacou um salto mortal. A tal cambalhota, com já o fizera por 14 vezes entre 2002, 2006 e 2010. O alemão acabara de marcar o 15.º golo num Mundial, o que faltava para apanhar Ronaldo. O Fenómeno, o brasileiro dentudo, que assim deixava de ser o único a vangloriar-se como o melhor de sempre a marcar golos em Campeonatos do Mundo. E a coincidência foi tão amiga que ambos chegaram ao 15.º golo contra o Gana (Ronaldo fê-lo em 2006). Histórico. Eles, este jogo e este Mundial — que, com o golo de Klose, passava a ter 82 marcados em 28 jogos. Afinal, o futebol é um espetáculo, certo?

Sim. Mas nos restantes 20 minutos deste encontro, ele esteve apenas no lado ganês do relvado. Com o empate feito, a Alemanha acelerou em busca de mais um golo. Os ganeses pareciam já não ter nada depósito. Não conseguiram fazer mais do que defender contra o que os alemães lhes iam atirando. E não foi pouco. Aos 85′ e 87, só as pernas que Asamoah e Mensah se esticaram ao último segundo e cortaram dois remates germânicos que tinham tudo para acabar em golo. Aos 90′, Müller rematava ao lado. Até que o sufoco acabou e mais um jogaço se fechava no Brasil.

Como ficam as contas

Ufff, que correria. A pujança do Gana e a história de Klose davam o primeiro empate ao Grupo G. Logo, o jogo ficou-se pela hipótese número dois. E que porta se abre com esta chave? Primeiro, a das contas. Com este 2-2, a Alemanha soma quatro pontos e o Gana, um. Passemos a Portugal. Caso a seleção nacional vença no domingo os EUA, em Manaus (a partir das 23h), faz três pontos e iguala os norte-americanos. Se isto acontecer, o esqueleto para a última jornada será este: Alemanha, com 4 pontos, Portugal, com 3, EUA, com 3 e Gana, com 1.

Em caso de vitória contra os states, portanto, não basta depois um empate contra os ganeses? Até poderia bastar, mas é melhor nem sequer pensar nisso. Passemos a explicar. Na lista de critérios de desempate da FIFA, é a diferença de golos, primeiro, e os golos marcados, depois, que aparecem antes que se possa recorrer ao confronto direto para desempatar duas equipas que terminam a fase de grupos com os mesmos pontos.

Para já, a seleção nacional tem quatro golos sofridos e nenhum marcado. Logo, o rácio é de -4. Os alemães, agora, têm seis marcados (+4), os ganeses três (-1) e os norte-americanos um (+1).

Por isso, ou a equipa de Paulo Bento goleia os EUA, pelo menos, por 8-0, a melhor conta para a seleção é somar duas vitórias nas partidas que tem por realizar. A primeira terá de aparecer contra os norte-americanos e, depois, virá o mais difícil. O Gana deverá ser o muro mais firme a erguer-se no caminho de Portugal, e o empate com a Alemanha não amenizou em nada as perspetivas. Porque, se razões faltavam, os africanos mostraram que estão no Brasil para serem temidos.