António Correia de Campos, antigo ministro da Saúde, alertou hoje, em Coimbra, para a centralização do Serviço Nacional de Saúde, que apenas ajuda “à sua captura” por corporações e interesses.

O antigo governante falava durante a Conferência da Rede Global de Centros Colaboradores para Enfermagem e Obstetrícia da Organização Mundial de Saúde (OMS), que se centra no combate às iniquidades.

“Um setor que gasta 10% do PIB tem sobre ele uma imensa voracidade”, afirmou Correia Campos, alertando que a centralização dos serviços “só ajuda à captura do Serviço Nacional de Saúde por corporações e interesses”.

Segundo o antigo ministro, “quem quer capturar o Ministério da Saúde prefere que as decisões surjam todas a partir do ministério, do que de cada uma das administrações regionais da saúde”.

Correia de Campos considerou ainda que a cobertura da saúde nas zonas periurbanas, como Gaia ou Amadora, é “o maior falhanço” do Serviço Nacional de Saúde (SNS), em termos de equidade.

O sistema de saúde continuou “imutável” face ao aumento da população em zonas “periurbanas, como Gaia, Sintra, Matosinhos, Loures ou Seixal”, havendo uma “rarefação preocupante” de profissionais de saúde nessas zonas, alertou Correia de Campos.

“Há uma boa cobertura de médicos de família no interior e má no litoral”, salientou o antigo ministro, exemplificando que, nas zonas periurbanas, “40% dos atendimentos nas urgências são de cuidados médicos primários”.

Para além dessas alterações, o “Serviço Nacional de Saúde”, em termos de equidade, tem de enfrentar “o desafio demográfico” do envelhecimento da população, resultado de um aumento na esperança média de vida e na diminuição do número de nados-vivos por ano, referiu.

Correia de Campos constatou também que “em algumas áreas há pessoal em excesso, noutras em falta, numas áreas há despesa elevada, noutras produtividade baixa”, frisando que o sistema de saúde “nem sempre tem sido sensível à inovação e a ganhos de produtividade”.

Apesar de considerar que uma reforma do SNS seria “garantir o futuro”, o ex-ministro sublinhou que a reforma do sistema “não é tão importante como o combate das desigualdades”.

Na sessão solene de abertura da Conferência, que decorre até 25 de julho, no Centro de Congressos do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra, também discursaram Maria da Conceição Basto, presidente da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC), entidade organizadora do evento, Isabel Mendes, secretária-geral da Rede Global de Centros Colaboradores da Organização Mundial de Saúde (OMS) e Marie-Paule Kieny, diretora adjunta da OMS, através de um vídeo previamente gravado.

No final da conferência de abertura proferida por Correia de Campos foi feito o anúncio público da designação da ESEnfC como Centro Colaborador da OMS, que será dirigido pela docente Ananda Fernandes.