Ødegaard. Soa a nórdico? Só pode. É mesmo. Neste caso, trata-se do apelido de Martin, do norueguês (check) que, com 15 anos e 245 dias de vida contados, recebeu um telefonema que o “chocou”: estava convocado para se juntar à seleção de futebol do país. Temos que repetir — ainda nem entrou na adolescência, e Martin, pelo menos, já sabe que vai treinar com os adultos noruegueses que melhores pontapés sabem dar pontapés numa bola. Bravo.

O imberbe médio do Strømsgodset, clube de Drammen, cidade localizada no sul do país, nem queria acreditar. “É um sonho tornado realidade”, desabafou, na ressaca da novidade, enquanto a notícia ia pulando pela Internet e invadindo as redes sociais. Nascido a 17 de dezembro de 1998, Martin vai devia estar a fazer companhia a juvenis. Em maio, contudo, marcou o seu primeiro golo pela equipa principal do Strømsgodset. Ao que parece, é um talento precoce.

Talvez o seja em dose suficiente para, a 27 de agosto — quando os seus 15 anos já tiverem 253 dias em cima — ser um dos jogadores que Per-Mathias Hogmo, seleccionador da Noruega, mandará para o relvado, no encontro contra a Arábia Saudita. A confirmar-se, será o mais novo de sempre a jogar pela seleção nórdica. Histórico, sim, mas só no manual da Noruega. Para chegar ao cume do ranking global, Strømsgodset devia ter começado a comer sopa mais cedo.

Aparecer, treinar e ser escolhido aos 13 anos

Caso jogue pela Noruega na próxima semana, Martin será apenas o 31.º mais novo a vestir a camisola de uma seleção sénior de futebol. “Se és bom o suficiente, tens idade suficiente”, chegou a argumentar o pai de Strømsgodset, ao site da FIFA. Terá razão: afinal, bastaram 14 anos e dois dias de idade para Lucas Knecht se estrear entre graúdos. “Estava bastante nervoso, mas sabia que não teria sido posto naquela situação se não estivesse pronto”, argumentou, confiante, quando recordou ao Observador o tal dia.

Que até podia ter aparecido mais cedo. “Até tinha 13 anos quando fui selecionado. Estávamos a treinar para uma eliminatória de qualificação para a East Asia Cup, da Federação de Futebol da Ásia Este, contra a ilha de Guam. O primeiro jogo foi em casa, mas não entrei em campo”, começou por lembra. “Uma semana depois, dois dias após o meu 14.º aniversário, entrei aos 83 minutos do segundo encontro”, revelou. A tal partida, contudo, deu-lhe uma derrota por 9-0. Mas, aí sim, fazia-se história.

Perdão, escrevia-se. Onde? Nas Marianas do Norte, um arquipélago de 14 ilhas, sob administração dos EUA, cuja seleção não é oficialmente reconhecida pela FIFA. Mas conta. E contou mesmo. Agora falta perceber o ‘como’. Lucas Knecht ajuda. “A nossa associação [de futebol] é muito nova, só foi criada em 2006. Na altura fizeram treinos de captação abertos e só apareceram pouco mais de 40 pessoas”, disse, antes de apontar que o jogador “com a idade mais próxima” de si “deveria ter à volta de 20 anos”.

Apareceu, jogou e, pelos vistos, deu nas vistas. “Sim, os outros eram muito mais velhos, mas, fisicamente, eu era um miúdo forte. Quase tão alto e forte como os restantes que lá estavam. Não tive medo de sofrer com isso. Assim que pisei o relvado, só pensei em provar que merecia estar ali”, garantiu, minutos antes de dar as primeiras pinceladas no retrato do futebol nas Ilhas Marianas.

Ser criança e estrear-se na seleção: bem-vindo às Ilhas Marianas do Norte

Professores, advogados e até capitães de barcos e pescadores. “Era tudo o que tínhamos. Eram muito velhos enão jogavam futebol há anos” quando tudo começou, em 2006, confessou. “Ao início, colocavam-se os jogadores nas posições e dávamos o nosso melhor para que tudo funcionasse. À medida que os mais velhos deixavam de jogar, a associação foi forçada a começar do zero e apostar nos jovens. Isto causa ‘dores de crescimento’, mas acaba por ser positivo e por dar experiência aos mais novos”, explicou Lucas Knecht.

Juventude. Aqui se centrou a aposta do arquipélago, numa altura em que “o basebol e o basquetebol” dominava as atenções nas ilhas. Parece ter resultado. “Hoje em dia toda a gente joga futebol”, assegurou Lucas. O football à moda dos states (futebol americano) ou o que por lá chamam de soccer, perguntámos, só para ter a certeza. “Sim senhor, o soccer”, garantiu-nos.

E a aposta nos talentos imberbes não é mentira nenhuma. E a lista dos mais novos de sempre a jogadores por seleções principais prova-o. No top-20 aparecem cinco jogadores das Ilhas Marianas do Norte, e Lucas, hoje com 21 anos, até é o mais velho — os restantes nasceram todos a partir de 1997 e todos se estrearam na seleção antes dos 16. Isto quando o futebol “praticamente não existia nas ilhas antes da associação de futebol ser criada”.

https://www.youtube.com/watch?v=WrNAMxO2aKk
Um vídeo que resume o tipo de competição na qual a seleção das Ilhas Marianas do Norte participa.

Por estes dias, Lucas não anda pelas ilhas. Está em Americus, cidade da Georgia, estado norte-americano, onde a família se fixou entretanto, para que ele “pudesse continuar os estudos”. Hoje está na Southwestern State University, a concluir uma licenciatura em História e a preparar-se para, um dia, “dar aulas”. Leccionar ou futebol, eis a questão? Não, porque ela nem se impõe. “Escolheria o futebol, claro, pois essa oportunidade pode aparecer só uma vez na vida”, respondeu, sem hesitar, explicando que terá sempre “o curso e a hipótese de dar aulas quando deixar de jogar”.

Dar pontapés na bola, aliás, é coisa que faz há quase três anos pela equipa da universidade. “Enviei um email ao treinador, pedi-lhe que me visse jogar, ele gostou, e convidou-me”, resumiu. Logo, a Major League Soccer (MLS) pode ser uma terra à vista — anualmente, em janeiro, a liga profissional de futebol dos EUA realiza um draft, no qual as equipas escolhem jogadores que alinhem em equipas do campeonato universitário do país. E Lucas Knecht está lá no meio. “É uma viagem que precisará de muito mais preparação, mas primeiro tenho de acabar os estudos”, concluiu.

Resta-lhe jogar, fazê-lo bem e esperar que alguém repare num “defesa duro, que odeia ver bolas no fundo da sua baliza, adora um tackle agressivo e uma boa luta até ao apito final”. É o próprio quem o garante. “Adorava dizer que sou um jogador veloz e com pés incríveis, mas não é essa o caso”, brincou.

Uma coisa é certa: a ter que escolher, nunca jogará pela seleção dos EUA. “Devo as minhas origens às Ilhas Marianas. Abriram-me as portas e foi lá que comeceu a jogar futebol. São a minha família. Nunca se vira as costas à família e temos sempre que nos lembrar de onde viemos”, argumentou. Certo. E os 14 anos e 2 dias que tinha quando se juntou às futeboladas das Ilhas Marianas do Norte farão com que, por enquanto, toda a gente se recorde do seu nome.