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INÊS LACERDA/OBSERVADOR

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Entre robôs, telescópios e uma caça ao tesouro, a ciência saiu à rua e uniu gerações na Noite Europeia dos Investigadores

Mais de 40 instituições, sete Clubes de Ciência e mais de 4.000 visitantes. Na última sexta-feira de setembro, Oeiras acolheu a sua maior edição de sempre da Noite Europeia dos Investigadores.

“As pessoas têm sempre a última sexta-feira de setembro marcada no calendário”. E a deste ano não foi exceção: no Jardim do Palácio do Marquês de Pombal, não há uma banca sem pelo menos duas pessoas a receber um “mini pitch” ou uma criança a cumprir um desafio em troca de uma lembrança da Noite Europeia dos Investigadores. Todos os anos, milhares de pessoas em todo o país — e em toda a Europa — procuram o convívio com a Ciência. E, pela primeira vez em duas décadas da iniciativa em Portugal, a data foi assinalada no Jardim do Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras.

No ano passado, os eventos tiveram lugar na Marina de Oeiras. Na edição de 2026, o recorde de visitantes foi batido logo na primeira hora desde que foram abertas as portas. “Neste momento já passaram por aqui mais de 2.500 pessoas”, contava ao Observador Susana Ferreira, membro da direção da Ciência Viva. Ao fim do dia, eram 4 mil visitantes.

Mesmo que existam mais de 40 expositores no recinto, o que chama a atenção é o palco. “Valem a pena os prémios. Vão chamar os vossos amigos e voltem para jogar”, ouve-se. O evento começou com um quiz com perguntas científicas, direcionado tanto para miúdos como para adultos, que viria a ser o tema das várias atividades da noite. A noite é dos investigadores, mas a comunidade é o público-alvo. “Somos todos voluntários. Queremos mostrar às pessoas o que andamos a fazer e estimular um entusiasmo pela ciência”, partilhou Henrique, um estudante da Escola Superior Náutica Infante D. Henrique, enquanto mostrava ao Observador o seu projeto.

Em cima da mesa está “apenas” um braço robótico. Ao fundo da tenda, um televisor transmite o funcionamento do dispositivo — um plano B, já que a câmara avariou no dia do evento, mas que mesmo assim a tornou uma das bancas a atrair o maior número de pessoas. Como explica o criador do engenho, a câmara habitualmente funcional capta o movimento do sujeito que se coloca diante dela e o braço robótico mimetiza os gestos. “Fiz um tutorial, que está disponível online gratuitamente, para qualquer pessoa que queira experimentar fazer um igual”, afirma o jovem. Afinal, o objetivo — além de ser um projeto académico — é também chamar mais pessoas para a robótica.

Seja qual for o instituto que representam, todos os investigadores, sejam eles juniores ou seniores, têm esta mesma intenção. “A comunidade científica em Portugal é muito generosa. Na Ciência Viva temos essa experiência nas atividades em parceria com instituições científicas e escolas. E em 30 anos, nunca nenhum investigador ou investigadora nos disse não para comunicar ciência. Eles têm essa ansiedade e vontade de mostrar o que fazem”, partilha uma das diretoras da agência nacional de divulgação científica. E o interesse existe. De um lado para o outro do recinto, filhos arrastam os pais para ver as diferentes atividades em que podem participar.

Não interessa se é um simples desenho, um labirinto, uma sopa de letras ou uma experiência em realidade virtual, cada banca tem a sua forma de captar o público: tanto os filhos, como os pais. Mas para além desta vertente claramente pedagógica, acaba por ser também uma oportunidade dos investigadores exporem o seu trabalho e atraírem diferentes financiamentos para outros projetos.

Em Oeiras, o evento organizado pelo consórcio BRIDGES for Science, liderado pelo ITQB, pelo I3S e pela Ciência Viva não é único em Portugal. Em mais de 20 pontos do país, celebram-se e divulgam-se diferentes iniciativas científicas portuguesas, apoiadas pela União Europeia — onde o número de eventos ultrapassa as centenas.

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Estudantes astronautas, ciência cidadã e vacinas contra a desinformação

Num dia de calor e recordando o eclipse solar total do passado mês de agosto, dois astrónomos do NUCLIO deixam os curiosos observar o Sol através de um par de telescópios, ambos equipados das devidas proteções para garantir a segurança de quem quer participar. Uns querem apenas ver (e aí somam-se os “uau”), outros querem uma explicação mais detalhada para as diferenças entre os dois equipamentos.

Na banca ocupada por outros membros deste Núcleo Interativo de Astronomia e Inovação em Educação, as crianças pedem para tirar fotografias com o capacete utilizado pelos estudantes que participam em missões espaciais análogas no Alqueva. Rosa Doran, presidente do Conselho Executivo, admite que o objetivo da participação nesta iniciativa é gerar interesse e sensibilizar os mais jovens e os seus professores para a importância do setor espacial. “Não se fala do Espaço nas aulas. Tive uma professora que uma vez disse que lançava foguetes de água, e era só isso sobre o assunto”, partilha. Explica que o seu grande desejo é trazer o máximo número de alunos de secundário de todo o país a participar nestas simulações de missões espaciais em Terra.

Ao longo da tarde, circulava pelo jardim um carro movido pela luz solar que, com o anoitecer, teve de cessar a sua atividade. Até os telescópios do NUCLIO tiveram de ser reposicionados, para apanhar, desta vez, a Lua que se estava a aproximar do campo de visão. Mas os visitantes continuaram a chegar.

  • Susana Ferreira é membro da direção da Ciência Viva
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  • João Crespo é diretor do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier (ITQB)
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Desde que se tornou diretor do Instituto de Tecnologia Química e Biológica António Xavier (ITQB), esta é a terceira Noite Europeia dos Investigadores de João Crespo. O diretor do ITQB elogia o novo espaço no Jardim, mais amplo, que foi “oferecido” pelo município para albergar o número inédito de interessados nas partilhas científicas. E, nesse sentido, destaca a parceria entre a Câmara Municipal de Oeiras e diferentes iniciativas no campo das ciências que se têm vindo a concretizar.

“Vamos ter 16 projetos de ciência cidadã. É algo de que muita gente nunca ouviu falar, mas trata-se de projetos científicos que só são possíveis de realizar com a participação direta dos cidadãos, já temos cerca de 450 munícipes a participar em projetos de ciência cidadã”, descreve João Crespo, sublinhando que “às vezes já nem se distingue bem quem é o investigador e quem é o munícipe”. Oeiras será uma das Capitais Europeias da Ciência em 2027 numa nova iniciativa de divulgação de ciência chamada Science Comes to Town e, segundo o professor de engenharia química e biológica, isto “não acontece por acaso”.

“Em Oeiras há muito esse espírito: por um lado a Câmara investe nas escolas, por outro os professores têm a generosidade de criar estes clubes de ciência, e entidades como o ITQB têm o gosto de apoiar. No final, quando chegamos aqui, o ambiente é de verdadeira festa e não de algo rígido ou chato”, aponta ao Observador. “Tenho ido várias vezes às escolas do município acompanhar cientistas que vão dar conferências e já conheço melhor essas comunidades. Ver professores do ensino secundário com a generosidade de dedicar o seu tempo a entusiasmar os miúdos para desenvolverem projetos de ciência é algo que me toca muito”, confessa também.

João Crespo explica que o “caráter de festa” de Ciência em Oeiras vem também pela diversidade institucional que se faz presente nesta edição da Noite Europeia dos Investigadores. Para além do ITQB, estavam representadas mais de 40 instituições, incluindo sete Clubes de Ciência Viva de diferentes escolas no município. “Nos dias que correm, ter cultura científica é fundamental, sobretudo num período com tanta desinformação. Ouvirmos pessoas a dizerem que as vacinas fazem mal é o exemplo que mais me choca, mas há outros. Uma certa literacia científica é essencial e estas iniciativas servem precisamente para que a comunidade perceba a importância de tomar decisões informadas e de validar a informação através do método científico, em vez de aceitar algo apenas porque aparece numa rede social”, acrescenta.

INÊS LACERDA/OBSERVADOR
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“Uma sociedade informada e com literacia científica capta financiamento mais facilmente, porque as pessoas percebem o valor da ciência”

A primeira Noite Europeia dos Investigadores foi em 2005. Em Portugal, a iniciativa só chegou no ano seguinte, mostrando-se um “desafio”, relata Susana Ferreira que, nessa altura, já era responsável financeira na Ciência Viva. “[Em 2006] Foi preciso ganhar espaço. Era uma iniciativa mais fechada e com um número de locais muito mais reduzido. Atualmente fez-se um grande lastro, há 20 locais de norte a sul do país, incluindo as ilhas, com atividades de portas abertas”, conta ao Observador.

Desde então, notando um “gratificante” e “gradual” crescimento do interesse do público pelo evento a nível nacional, aponta para exemplos de “alunos que participaram e que depois voltam ao Pavilhão do Conhecimento para dar palestras enquanto investigadores”. O importante destas iniciativas, segundo Susana Ferreira, é que “cada jovem consiga encontrar uma área estimulante que queira explorar no futuro”. Por isso, “todas as áreas do conhecimento”, desde as ciências sociais à biologia, estão representadas na Noite Europeia dos Investigadores.

E do lado destes últimos, a divulgação é a prioridade. “Obviamente, uma sociedade informada e com literacia científica capta financiamento mais facilmente, porque as pessoas percebem o valor da ciência. Portanto, mostrar a importância do que fazem e a necessidade de investir na ciência acaba por atrair financiamento, mas isso é uma consequência natural e não a motivação inicial”, explica a diretora.

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As famílias continuaram a entrar nos Jardins do Marquês noite adentro, mesmo quando já se avistavam algumas pessoas embrulhadas em mantas para se proteger do vento e do frio que se instalou. Nisto, aqueles que observaram o Sol com recurso aos telescópios montados pelo NUCLIO agora fazem fila para ver a Lua noutro equipamento. Além do percurso por várias bancas, crianças e adultos juntaram-se numa caça ao tesouro.

Durante as várias conversas que o Observador foi tendo com os investigadores nos pontos de exposição, havia sempre alguém a “invadir” o espaço para aproximar o telefone de um cartaz vermelho com uma saliência no centro. “Treasure Hunt. Turning Events into Adventures” (Caça ao Tesouro. A transformar eventos em aventuras), lê-se. Esta atividade, que colocou pessoas a percorrer o recinto inteiro à procura dos cartazes, era recompensada com produtos exclusivos do NOVA Blockchain Lab.

O ritmo acelerado da corrida para colecionar os diferentes “checkpoints” da caça não era para toda a gente. Na outra ponta do jardim, os avós de Carolina marcam o passo ao som do Grupo das Batucadeiras Voz da Cultura para disfarçar o frio. Vieram ver, pela primeira vez, a neta a apresentar o projeto que criou no último ano no âmbito do Clube de Ciência Viva da Escola Secundária de Miraflores e que a levou ao sul de Itália numa conferência. Joaquim, de 78 anos, também ficou impressionado com o projeto colaborativo entre estudantes do Instituto Superior Técnico e a Escola Náutica. Num lugar bastante destacado do jardim, surge um barco autónomo, plantado num suporte por cima da relva, que o recorda dos seus tempos de engenheiro mecânico.

Como é habitual nas diferentes tendas, as conversas com os jovens que desenvolveram estes engenhos no âmbito das suas teses académicas revelaram uma “paixão, energia e responsabilidade social” que qualificam um bom “investigador”, de acordo com o diretor do ITQB. “Ver aqui tantos miúdos a interagir com os expositores através de desenhos ou da caça ao tesouro demonstra o impacto destas ações”, refere João Crespo. Das 16h às 22h em Oeiras, até às 00h noutros pontos do país, a ciência tornou a sair à rua perante um público crescente, que aguardará pela próxima última sexta-feira de setembro.

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