A história de Fernando Rocha começou como a da maioria das pessoas ligadas ao basquetebol: foi atleta num clube local, ainda com 15 anos. Depois de o clube encerrar portas, aproveitou a oportunidade para fazer um curso de jovens árbitros na Associação de Basquetebol do Porto. Hoje, aos 44 anos, é o primeiro árbitro português a estar presente num Mundial de basquetebol – e pela segunda vez consecutiva, um marco histórico para a modalidade em Portugal.

“É óbvio que é sempre gratificante e honroso ver o nosso trabalho ao longo das épocas ser recompensado com esta nomeação. A felicidade é enorme assim como a responsabilidade é muito grande, pois este é o principal evento no Mundo do Basquetebol”, conta Fernando ao Observador.

O árbitro, natural de Senhora da Hora, Matosinhos, viu a sua carreira ascender de ano para ano: começou a atividade federada aos 17 anos, aos 22 já era árbitro Nacional da 1ª divisão da Associação de Basquetebol do Porto e aos 25 anos estava na Liga Internacional da FIBA, Federação Internacional de Basquetebol, tendo arbitrado o seu primeiro jogo internacional no ano seguinte. Desde 2000 é árbitro da Euroliga e desde então já participou de diversas competições internacionais, como o Final Four da Euroliga, duas finais da Eurocup, a final do Campeonato do Mundo de sub 17, três participações na fase final do Campeonato da Europa e duas participações no Campeonato do Mundo.

O salto de campeonatos europeus para o Mundial aconteceu já em 2010, quando foi nomeado para integrar o grupo dos 38 árbitros que participaram do Mundial da Turquia naquele ano. Essa experiência rendeu o segundo convite para o Mundial de Basquetebol de 2014, que decorre até 14 de setembro em Espanha. Fernando participou da fase de grupos, entre os dias 30 de agosto e 4 de setembro e arbitrou os jogos das seleções da Grécia, Argentina, Porto Rico, Croácia, Filipinas e Senegal.

E qual é o tamanho do desafio de apitar num Mundial? “Tudo o que envolve um Mundial em termos organizativos, desportivos e mediáticos é uma enormidade. Somos seguidos por milhões de pessoas e temos uma visibilidade muito grande. Existe uma grande pressão e temos que estar preparados mentalmente, assim como fisicamente para aguentar as exigências da competição”, comenta.

Os bastidores do Mundial

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Partida entre Croácia e Argentina no Mundial de Basquetebol 2014 arbitrada pelo português Fernando Rocha.

A preparação para o Mundial começou ainda em terras portuguesas, através da Internet. “Temos um website próprio onde foram colocados vários documentos de apoio, situações de vídeo para definição de critério, assim como um plano físico de 20 semanas. Tínhamos de reportar o que íamos efetuando em termos físicos e enviar informação sobre a realização da prova física que tínhamos de realizar todos os meses”, explica. Já em Madrid, dias antes do início da competição, os 38 árbitros escolhidos pela federação internacional reuniram-se para as sessões em sala com análise de vídeos e apresentações técnicas pelos responsáveis da arbitragem da FIBA.

Durante o Mundial, o grupo realiza um treino físico pela manhã e uma sessão técnica de análise dos jogos do dia anterior com o observador dos árbitros. De acordo com Fernando, a convivência com os outros árbitros é tranquila. “A maior parte de nós já se conhece de outras competições, portanto é fácil o relacionamento e nesta fase apenas estamos 10 ou 9 árbitros por grupo. Vamos conversando sobre as diversas competições ao longo da época e ajudando os menos experientes a integrar-se. É uma sã convivência com um bom espírito de grupo”, afirma.

Para Fernando, a capacidade de trabalho, humildade, dedicação e autocrítica são as principais qualidades que um árbitro deve ter, mas reconhece que já enfrentou alguns desafios na sua trajetória. “Ao longo da minha carreira tive muitos jogos com um grau de dificuldade elevado, mas gostaria de destacar o Panatinaykos- Barcelona do play-off de acesso à Final Four onde estavam presentes no pavilhão cerca de 25 mil pessoas com um ambiente muito difícil”, admite. Quanto ao jogo que ficou na sua memória, destaca a meia-final do Final Four da Euroliga, em 2009, em Berlim, entre as equipas gregas Olympiacos e o Panatinaikos, quando a sua arbitragem foi elogiada.

Sobre a situação atual do basquetebol português, Fernando tem uma opinião crítica. “O basquetebol português está numa crise muito grande, com falta de valores e referências. Além disso, as equipas pouco ou nada investem e não se consegue promover as principais competições nacionais junto dos media. Portanto pensar em participar nas grandes competições é utópico porque não temos qualidade suficiente para lá chegar. É um pouco cruel como o digo mas é a pura realidade e só nos resta trabalhar e encontrar soluções todos em conjunto para podermos atingir outros patamares a um médio prazo”, conclui o árbitro.

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