Bisneto, neto, sobrinho, filho, irmão e pai de banqueiros. Morreu, esta quarta-feira, Emílio Botín, aos 79 anos, vítima de um ataque cardíaco. Embora fosse diretor do Banco Santander há 50 anos, onde sucedeu ao pai, entrou para o banco em 1958. Era casado com Paloma O’Shea Artiñano, com quem teve seis filhos.

No comunicado que enviou à Comisión Nacional del Mercado de Valores (CNMV), regulador do mercado de capitais espanhol, o Grupo Santander indicou que ainda nesta quarta-feira vai ser eleito um novo presidente do banco, o que sucederá na reunião da comissão de nomeação e do conselho de administração. Segundo o El Mundo, a expectativa é a de que a comissão escolha a sua filha mais velha, Ana Patricia, que em 2010 sucedeu ao português António Horta Osório na liderança do Santander UK, a filial britânica do grupo.

A propósito da notícia do falecimento do banqueiro espanhol, António Vieira Monteiro, atual presidente executivo do Santander Totta, afirmou lamentar “com muita tristeza” o desaparecimento de Emilio Botín, que considerou ser “um grande amigo de Portugal”. Numa nota enviada aos media, Vieira Monteiro acrescentou que Botín “foi um grande banqueiro, admirado internacionalmente, a quem todos reconhecem que teve uma visão estratégica impar, e uma energia extraordinária e capacidade de realização, cujos resultados são bem evidentes”.

Nuno Amado, que presidiu à comissão executiva do Banco Santander Totta entre 2006 e 2012, afirmou que “a morte de Emilio Botín é uma grande perda para o sistema financeiro espanhol”. O atual líder do Millennium BCP acrescentou, em nota enviada à comunicação social, que “Emilio Botín foi um grande banqueiro, que colocava os interesses do banco no centro da sua vida”.

Amado disse que o banqueiro espanhol “conjugava a visão estratégica com um grande controlo e rigor da gestão, criando um dos maiores bancos do mundo”. Será, afirmou ainda, “durante muito tempo uma referência muito importante no setor, em particular para quem teve, como eu, o privilégio de o conhecer”. Sobre a nomeação de Ana Patricia Botín como sucessora na condução do Grupo Santander, o presidente do BCP disse estar seguro que, “como chairwoman do Santander, haverá uma continuidade dos valores e competências que definem o legado de Emilio Botín”.

Banqueiro dos banqueiros

O Santander tornou-se, nas mãos de Emilio Botín, o primeiro, em Espanha, a ter uma capitalização superior a 90 mil milhões de euros. Era impossível dissociar Botín das fusões e aquisições feitas nos últimos anos pelo banco quer a nível nacional como internacional. Atualmente, o Grupo Santander tem uma capitalização bolsista de 82 mil milhões de euros, o que faz dele a primeira entidade bancária da zona euro e a décima primeira em todo o mundo. O corpo do banqueiro será hoje transportado para a sua cidade natal, Santander.

Emilio Botín-Sanz era conhecido em Espanha como o banqueiro dos banqueiros. Era também detentor de uma das maiores fortunas do país. Cresceu numa família ligada à banca – o pai e o avô também presidiram ao Santander – e estudou Direito e Economia na Universidade de Deusto. Foi aos 24 anos que começou a sua viagem no banco, que acabou esta manhã.

Em 1964 tornou-se diretor geral e, passada uma década, foi eleito vice-presidente do conselho de administração. A ascensão foi rápida e, em 1977, seria promovido a presidente executivo, cargo que ocupou durante nove anos até ser também nomeado presidente. Exerceu esta função sendo, ao mesmo tempo, o maior acionista do banco, algo que sucedeu pela primeira vez na história da instituição.

Trilhou um caminho até à liderança da banca espanhola pautado pela aposta na inserção no mercado internacional e por um contínuo programa de fusões e aquisições. Entre estas contam-se as que realizou com o Royal Bank of Scotland, com os americanos First Union, com o Abbey National Bank e também com bancos da América Latina.

Santander, Champalimaud e o Governo de Guterres

Em Portugal essa política traduziu-se na aquisição do Banco Totta, hoje Santander Totta, no remate de uma longa polémica que envolveu António Champalimaud, a Comissão Europeia e as autoridades de Lisboa. Em junho de 1999, o empresário português fechou um acordo com Emilio Botín em que o Santander compraria o Banco Pinto e Sotto Mayor, o Totta, o Crédito Predial Português e a seguradora Mundial Confiança, que eram controlados por Champalimaud. Este receberia uma participação no capital da instituição financeira espanhola.

O Governo liderado por António Guterres, em que António Sousa Franco ocupava o cargo de ministro das Finanças, colocou um travão no negócio, contrariando a luz verde dada por Bruxelas, sob a alegação de que se trataria de passar para controlo espanhol uma fatia importante do setor financeiro português. O Executivo alegou, também, que a venda da Mundial Confiança, cabeça do grupo financeiro de António Champalimaud, não tinha sido previamente comunicada às autoridades nacionais.

O nó apenas seria desatado pelo ministro das Finanças seguinte, Joaquim Pina Moura, que tomou posse em outubro de 1999. No final das negociações entre as diversas partes envolvidas, em abril de 2000, o Governo permitiu ao Santander absorver o Banco Totta e Açores e o Crédito Predial Português, ao mesmo tempo que entregou o Pinto & Sotto Mayor ao BCP, na altura liderado por Jorge Jardim Gonçalves. A companhia de seguros Mundial Confiança ficou na posse da Caixa Geral de Depósitos.

O Santander iniciou atividades em Portugal em 1988, quando adquiriu uma posição de 10% no Banco de Comércio e Indústria (BCI), banco fundado pelo grupo que lançou o BPI. Aquela posição foi ampliada para perto de 80% na sequência da realização de uma oferta pública de aquisição concretizada em 1993. Neste ano, o banco de Emilio Botín decidiu, também, criar um braço para a banca de investimento, o Banco Santander de Negócios Portugal (BSNP), que foi dirigido por António Horta Osório, atual líder executivo do britânico Lloyds e que, posteriormente, assumiu a condução do grupo Santander Totta no mercado português.

O pioneiro das “super contas”

Emilio Botín foi o primeiro banqueiro a criar contas que ofereciam juros elevados, conhecidas por “super contas”, quebrando um pacto que existia entre os grandes bancos espanhóis, o que se traduziu no aumento da concorrência que alterou os equilíbrios existentes no mercado. Nos anos 90, adquiriu parte do Banco Español de Crédito (Banesto) e fundiu-se com o Banco Central Hispano Americano, sendo este acordo que esteve na base da criação do Santander Central Hispano. Foi assim, nas suas mãos, que se tornou o terceiro banco mais lucrativo do mundo e um dos mais valiosos em termos de capitalização de mercado.

“Banqueiro mais influente da última década”, como a imprensa espanhola o apelidava, foi distinguido com vários prémios, nomeadamente com a medalha de ouro da Universidade de Cantabria. A Forbes referiu-se-lhe, em 2011, como um dos homens mais ricos do mundo e entre os seus passatempos favoritos estavam a caça, a pesca e a prática de golf. Foram vários os processos judiciais em que se viu envolvido por causa da sua gestão no Banco Santander, mas em nenhum foi considerado culpado.

Emilio Botín e a família mantiveram, desde 1937, um ano depois da eclosão da Guerra Civil de Espanha, contas secretas em instituições financeiras suíças, que as autoridades tributárias do país vizinho descobriram em 2010. Foram constituídas por Emilio Botín-Sanz de Sautuola y López, pai de Emilio Botín, que se fixou na Suíça após ter sido destituído dos cargos que ocupava em Espanha no setor financeiro. O banqueiro agora falecido decidiu pagar, voluntariamente, os valores não declarados ao Fisco espanhol num total de 200 milhões de euros. Em contrapartida, a justiça de Espanha decidiu arquivar os processos que tinha desencadeado contra Botín e familiares.

A provável sucessora

Ana Patricia Botín-Sanz de Sautuola O’Shea é a provável sucessora do pai na condução dos destinos do banco. Economista, nasceu a 4 de outubro de 1960 em Santander, licenciou-se no Bryn Mawr College de Filadélfia, nos Estados Unidos, e fez uma pós-graduação em gestão de empresas na Universidade de Harvard.

Apesar de pertencer à dinastia de banqueiros que controla o Santander, Ana Patricia começou a carreira no setor financeiro numa instituição concorrente, o JP Morgan. No banco norte-americano, trabalhou entre 1981 e 1988, antes de se integrar na instituição da família.

Ascendeu a vice-presidente executiva em 1992 e, dez anos mais tarde, subiu à presidência do Banesto, banco que foi controlado por Mário Conde e que, após a intervenção do Banco de Espanha na instituição, em 1994, foi vendido ao Santander. A herdeira de Emilio Botín manteve-se durante oito anos no Banesto e assumiu, depois, as funções de líder do Santander no Reino Unido. É, desde julho de 2013, membro da administração da Coca-Cola Company.

Em 2005, o Financial Times, que elege, anualmente, as 25 melhores gestoras e empresárias, colocou-a no topo da lista. O jornal britânico assinalava, na altura, que Ana Patricia Botín era a pessoa mais bem colocada para suceder ao pai à frente do Santander e que, entre as características que a distinguem, se incluíam o “olhar penetrante” que teria herdado de Emilio Botín, a “imensa capacidade de trabalho” e a “ambição”.